Expedição dos Argonautas.—Este grande fato parece ter sido ainda anterior á guerra de Tebas. Nele tem querido alguns críticos ver um resumo poético das primeiras empresas marítimas dos Gregos para o Mar Negro. A expedição dos Argonautas foi dirigida por Jasão, de Iolchos, na Thessalia, de parceria com 54 heróis entre os mais ilustres daquele tempo: Heracles, Theseu,Castor e Pollux (lacedemônios), Peleu, pai de Aquiles (thessaliano), o cantor taxio Orpheu, Pirithoo, Meléagro, Esculapio, e muitos outros. Partiram para o remoto Oriente, no navio Argos, com o fim de conquistarem o vélo de oiro, espécie de palladio da Colchida, que um príncipe thessaliano, Phryxo, tinha collocado n’uma floresta consagrada a Ares (Marte), e que, segundo a fabula, era guardado por um dragão. O mastro da nau Argos era feito do tronco de um carvalho cortado na floresta de Dodona, no Epiro, e pronunciava oraculos.
Hercules abandona a expedição, depois de ter libertado, nas costas da Mysia, Hesione, a quem um monstro marinho ia devorar.
Jasão inspira uma paixão exaltada a Medéa, filha do rei da Colchida e conhecedora de todos os segredos da magia; subjuga dois toiros com pés e armas de bronze, e que vomitavam chammas, junge-os a uma charrua de diamante e lavra com elles qualro geiras de terra consagradas a Marte; semeia os dentes de um dragão e d’estes nascem homens armados; vence e mata o monstro que guardava o velocino,{17} e brilhantemente logra conquistar por esta fórma o suspirado thesouro; depois, volta com Medéa no seu navio, e a feiticeira Circe protege-o.
As Nereides levantam nos braços a nau, para ella passar sem perigo entre Scylla e Charybdes. As Sereias intentam perder os nautas com os seus cantos melodiosos, mas Orpheu desfaz-lhes o incanto com os accordes da sua lyra. Visitam, em Africa, o jardim das Hespérides onde Hercules tinha, pouco antes, colhido os pomos de oiro, e chegam finalmente á Grecia.
Durante a viagem, e aqui, Medéa practica os maiores horrores. Corta em bocados o cadaver de seu irmão e semeia-lhe os ossos ao longo do caminho para demorar com esse espectaculo horroroso seu pae que a vinha perseguindo. Rejuvenesce, em Iolchos, o velho Eson; e induz as filhas de Pélias a trucidarem seu pae, cozendo-lhe os membros n’uma caldeira com hervas magicas. Abandonada por Jasão, degola seus proprios filhos; dá á sua rival, Creusa, filha do rei de Corintho, uma tunica envenenada; e, erguendo-se aos ares n’um carro puxado por dragões com azas, refugia-se na Attica, onde desposou Egeu.
Como se vê, a poesia grega inriqueceu com todas as galas da ficção mais engenhosa, a lenda heroica d’esta aventura maritima.
Fonte: J. FERNANDES COSTA. Historia da Grecia. LISBOA. SECÇÃO EDITORIAL DA COMPANHIA NACIONAL EDITORA. 1902. NUMERO 131
Tribos helênicas.—Nada se sabe em quanto á origem e ao aparecimento histórico dos Helenos. Sabe-se que constituíram tribos militares, e que venceram, afugentaram, ou escravizaram, as tribos industriosas dos Pelasgos. Estes procuraram asilo nos desfiladeiros do Olympo, em alguns pontos da Thessalia, do Epiro, da Macedônia, da Attica, da Arcádia, e defenderam por largo tempo a sua independência. No tempo de Homero, havia pouco ainda que tinham sido de todo subjugados.
Presume-se, no entanto, que os Hellen os não constituíam uma raça particular, mas sim que formavam tão somente a cavalaria ou parte guerreira dos Pelasgos, a qual submeteu por violência ao seu jugo tanto a classe teocrática como o povo pacifico.
Como quer que fosse, essas tribos guerreiras subdividiram-se em quatro grupos, ou tribos principais, que mantiveram em todo o decurso do seu viver histórico profundas differenças de usos, de língua, e de regime político.{15}
Essas quatro tribos foram as seguintes: os Dórios e os Acheus no Peloponeso, os Jonios na Attica e nas ilhas, e os Eólios na Beocia e outros pontos.
O nome de Acheus foi, durante os tempos heróicos, o de todas as tribos do povo grego, e por ele são os Gregos designadosem Homero. Foi no século IX A. C. que esta denominação se restringiu aos habitantes das margens dos rios do norte do Peloponeso, recebendo os outros Hellen os as especificações que dissemos. Crê-se que foram os sacerdotes de Delfos quem, posteriormente, imaginou para as quatro tribos uma genealogia comum.
Essa lenda genealógica foi a seguinte: em tempos remotíssimos houve um dilúvio em que morreram todos os homens com exceção de Deucalião e de sua mulher Pyrrha. Andaram estes vogando nove dias numa arca; e, ao fim deles, deram fundo no cume do Pindo, ou, como depois se disse, no do Parnaso. Suplicaram então aos deuses que repovoassem a Terra, e, atendidos na sua prece, receberam ordem para irem arremessando para traz de si os ossos da mãe, isto é, pedras da Terra. Das pedras que Deucalião atirou nasceram homens, e das de Pyrrha nasceram mulheres.
A esta lenda primitiva acrescentou-se em tempos mais recentes a de Hellen, filho de Deucalião. O primogênito de Hellen foi Eolo, tronco dos Eólios; o segundo foi Doros, personificação dos Dórios; o terceiro foi Xutho (o expulso), de quem descendiam Ion eAcheu. A outro filho de Deucalião, Amphictyão, atribuiu-se a instituição da amphictyonia (isto é, uma liga em que se abrangiam as diversas tribos), e a um filho de Pandora, filha de Deucalião, o nome de Gregos que os povos do Ocidente deram aos Hellen os.
Os sacerdotes de Delfos, versados nos mitos do Oriente, cuja influencia transluz em toda esta série de lendas, tiveram um fim altamente patriótico quando pretenderam dar ás quatro tribos uma ascendência comum. Quiseram despertar o sentimento da comunidade nacional, dando-lhe uma expressão compreensível.
Fonte: J. FERNANDES COSTA. Historia da Grecia. LISBOA. SECÇÃO EDITORIAL DA COMPANHIA NACIONAL EDITORA. 1902. NUMERO 131
Divindades terrestres.—Deméter (Ceres), a Terra-Mãe, filha de Chronos, era a Natureza fecunda e criadora. Inventou a Agricultura. A Sicília e Eleusis eram os principais pontos do seu culto. Sua filha Perséfone (Proserpina entre os Romanos), raptada por Hades (Plutão), e vivendo metade do ano sobre a Terra e outra metade no mundo subterrâneo,{11} era a imagem da semente enterrada durante os meses do inverno. Em honra de Deméter celebravam-se as Thesmophorias, as grandes e as pequenasEleusinas, e as Anthesterias.
Hades (Plutão) governava o mundo dos mortos, separado do mundo dos vivos por alguns rios, tais como o Styge, o Aqueronte, o Cocyto, o Lethes (rio do esquecimento), etc. Sob o nome especial de Plutão era particularmente a divindade dispensadora das riquezas. O mundo subterrâneo compreendia o Elyseu (morada dos justos) e o Tártaro (morada dos condenados). Era guardado por Cérbero, cão de três cabeças. Os manes dos que na morte tiveram sepultura atravessavam o rio infernal numa barca dirigida por Charonte.
Hermes (Mercúrio entre os Romanos), divindade pelágica, ligada á agricultura e á vida pastoril, era também arauto e mensageiro dos deuses. Tinha azas nos calcanhares, e usava o caduceu, símbolo da inviolabilidade. Era o deus da eloqüência, da circunspeção, da prudência, e até da finura e da astúcia, chegando mesmo á fraude e ao perjúrio (isto é, tinha na sua qualidade de arauto olímpico todas as prendas da diplomacia e da política). Atribue-se-lhe a invenção do alfabeto, dos números, da astronomia, da musica, da ginastica, dos pesos, das medidas, a cultura da oliveira, etc. Estava também o comércio sob a sua proteção.
Dionysos (Baco entre os Romanos e também entre os Gregos), antiga divindade pelágica, filho de Zeus e da thebana Seméle, era representante da Natureza no que ela tem de mais opulento, mais luxuriante e activo, e, em especial, deus do vinho. Havia muitas festas em sua honra, particularmente as Bacanais, as Dionysias, as Anthesterias, etc.
Os Cabiras, deuses pelágicos ou fenicios, eram também divindades terrestres e simbolizavam as forças produtoras da Natureza.
4.º O mundo heróico.—O Alcides Heracles (Hercules) é a personificação da força e do trabalho humano em lucta com os obstaculos levantados pela Natureza e pelo Destino.
No Peloponeso originou-se o mytho de Tantalo com a sua familia amaldiçoada. Entre os Tantalidas ha a mencionar Pelops,Atreu, Thyestes, Agamemnon, Menelau, e Orestes.
Em Lacedemonia foram venerados como heroes os Tyndaridas, irmãos de Helena, os gêmeos Castor e Pollux, e em connexão com elles os Dióscoros, estrellas brilhantes propicias aos navegadores.
O phenicio Cadmo foi o heroe fundador de Thebas. Era irmão{12} de Europa. D’este tronco descendeu Laio, pai de Œdipo, o heroe tragico que assassinou seu pai; matou a Esphinge, e casou com sua propria mãe, Jocasta. Seus filhos, Eteocles e Polynice, mataram-se um ao outro, em combate singular, deante de Thebas.
A Thebas pertence também o cantor Amphion, tão celebre tocador de lyra que, ao som Deeste instrumento, moviam-se por si mesmas as pedras e formavam a muralha da cidade por elle reconstruida. Era irmão de Zetho e marido de Niobe.
Na Beocia e na Attica havia o mytho de Tereu com os de Progne e Philoméla, metamorphoseadas, a primeira em andorinha, a segunda em rouxinol.
Na Thessalia, brotou a lenda dos Centauros, semi-homens e semi-cavallos, os quaes tiveram grandes combates contra osLapithas. Um dos centauros, Chiron, teve por discipulos Asclepios e Achilles.
Em Athenas, o heroe nacional era Theseu filho de Egeu. Foi elle quem libertou os Athenienses do oneroso tributo de septe mancebos e septe donzellas que de nove em nove annos tinham de ser inviados para o Minotauro de Creta. Matou o monstro e saiu do labyrintho, graças a um fio que tinha recebido de Ariadna, filha do rei. O mytho do Minotauro parece ser, segundo os mais recentes estudos, uma expressão do culto sanguinario de Moloch.
Fonte: J. FERNANDES COSTA. Historia da Grecia. LISBOA. SECÇÃO EDITORIAL DA COMPANHIA NACIONAL EDITORA. 1902. NUMERO 131
[HD] A Batalha de Abel | Os Cavaleiros do Zodíaco - Parte 3/8
Deuses olímpicos.—O senhor e soberano dos deuses, o deus principal dos Helenos, era Zeus. O seu culto nasceu em{9}Dodona, no Epiro, extendendo-se depois á Thessalia e Deahi á Grecia toda. Acima de Zeus só havia o Destino e as leis invariáveis da Natureza. A mulher e irmã de Zeus, Hera (Juno na Myth. Rom.) era a divindade feminina do céu, a atmosfera. Presidia aos casamentos. Suas filhas Hebe e Elithya eram: aquela a deusa virginal que servia o néctar aos deuses antes do rapto de Ganymedespela águia de Zeus, esta a deusa que as mulheres invocavam no momento dos partos.
Da cabeça de Zeus saiu armada Pallas Athené (Minerva entre os Rom.), a deusa projetura de Atena. Ao principio, deusa do céu azul que esplende magnificamente sobre toda a Grecia, foi depois a criadora de todas as artes. Descobriu a charrua e ensinou a plantar a oliveira. Era a guarda das cidades e das instituições publicas.
A sua estatua (Palladio) tinha culto em quase todas as cidades gregas, sendo Athenas o seu mais celebre santuário. Celebravam-se aqui em sua honra, de quatro em quatro anos, as grandes, e, todos os anos, as pequenas Panathenéas. Chamava-se égide o escudo de Minerva e nele estava a cabeça de Medusa.
De Zeus e de Hera nasceu Héphaistos (Vulcano em Roma), que seu pai precipitou do céu. Foi o inventor das forjas, isto é, o grande promotor da civilização. Ajudavam-n’o os Ciclopes, que no Etna e nos outros vulcões forjavam os raios para Zeus.
De Zeus e de Léto (Latona) nasceram Artemis e Apollo, gêmeos, na ilha sagrada de Délos. Apollo, deus radiante da luz (Phébo) é por isso confundido ás vezes com Hélios, deus do sol. Este deus era um dos mais importantes; o seu mister era combater a obscuridade e a impureza, e estabelecer a ordem no mundo físico e no mundo moral. Com respeito á vida humana era o preservador dos males. Sob o nome de Paion foi pai de Asclepios (Esculapio) que preside á medicina. Como deus das artes e especialmente da musica e da poesia, Apollo dirige o coro das Musas (e recebe então o nome de Musageta).
As Musas eram nove: Calliope (poesia épica), Clio (historia), Euterpe (poesia lyrica), Melpomene (tragedia), Therpsicore (dança coral e canto), Erato (poesia erótica e imitação mímica), Polymnia (hino sublime), Urania (astronomia), Thalia (comedia e poesia idílica). Habitavam os montes Hélion e Parnaso nas proximidades de Delfos.
Artemis (Diana entre os Romanos), irman de Apollo, era a{10} deusa da lua, a divindade das musas e dos oraculos, e presidia á caça. Tinha um celebre templo em Epheso onde era representada como mãe creadora, com um grande numero de seios. Na Taurida, prestou-se-lhe um culto barbaro, com sacrificios humanos, nos quaes tomou parte a familia dos Atridas (Iphigenia e Orestes).
Poseidon (Neptuno entre os Romanos), antigo deus pelasgico, que teve o seu culto primitivo na Beocia e no isthmo de Corintho, culto que passou Deahi para a Attica e para o Peloponeso, era o deus do mar e governava-o com o seu tridente. Tinha por companheira Amphitrite, nympha marinha. Foi tambem o domador dos cavallos, e pai de Pégaso, cavallo alado, que nasceu do sangue de Medusa. Adoravam-n’o em Athenas a par de Athené.
Ares (o Marte dos Romanos) era o deus da guerra e dos combates. Tinha em Athenas uma collina que lhe era consagrada (Areopago).
Aphrodite (a Vênus dos Romanos), era a deusa do amor sensual e da formosura. O seu culto celebrava-se principalmente em Chypre, em Cythera, e em Gnido.
De Ares e de Aphrodite nasceu a Harmonia, divindade de Thebas e esposa do phenicio Cadmo, fundador da cidade.
Ao mytho de Aphrodite está ligado o de Adonis, seu favorito, morto na caça por um javali. Adonis por concessão especial de Zeus ficou vivendo seis mezes do anno com Aphrodite e os outros seis com Perséphone, rainha das sombras. Este mytho, de origem phenicia, parece representar o principio vivificante da Natureza: a morte de Adonis durante seis mezes e a sua resurreição n’outros seis é o lethargo da Natureza no inverno e a sua revivescencia na primavera.
O filho e companheiro de Aphrodite, segundo lendas mais modernas, era o pequeno deus do amor, Eros (Amor, Cupido) cuja amada foi Psyche (a alma). No séquito Deeste pequeno deus e de sua graciosa mãe andam as Charites (Graças), e as Horas, deusas das Estações.
Havia, ainda, entre os deuses supremos, cujo numero subia a doze, Deméter (Ceres), Hermes (Mercurio), e Hestia (Vesta).
Fonte: J. FERNANDES COSTA. Historia da Grecia. LISBOA. SECÇÃO EDITORIAL DA COMPANHIA NACIONAL EDITORA. 1902. NUMERO 131
1.º Teogonia grega.—A Terra (Gé) gerou por si mesma o Céu (Urano) e o Mar (Ponto). Da alcança entre o Céu e a Terra nasceram os Ciclopes e os Titãs.
Os ciclopes forjavam os raios. Dos Titãs, uns vagueavam pela Terra como o Oceano, deus marinho, cujos filhos e filhas eram os rios e as fontes, outros esplendiam nas regiões estéreas ou cruzavam o espaço, como Hypérion (luz primitiva), Teia (claridade diurna), Hélios (sol), Seléné (lua), Eos (aurora), o{8} céu noturna com as suas estrelas (Léto e Astéria), os quatro ventos (Zéphyro,Bóreas, Noto, Euro); outros representavam os destinos e as tendências do espírito humano, como Japeto e seus filhos, Atlas,Menecio, Prometheu e Epimetheu (Prometheu que roubou aos deuses o lume e por isso Zeus o amarrou num rochedo onde um abutre lhe devorava as entranhas; Epimetheu, marido de Pandora, de cuja bolsa saíram todas as misérias da Terra ficando-lhe só a esperança no fundo); outros eram as forças amigas ou inimigas da humanidade, Themis (guarda da ordem legal e moral),Mnemosyne (memória), mãe das 9 Musas, Hécate, deusa da noite. O mais novo dos Titãs foi Chronos, que destronou seu pai, Urano.
Das gotas de sangue caidas no chão nasceram as Erinnyas ou Euménides (Furias na Mitologia Romana), e os Gigantes. Da espuma do mar nasceu Afrodite ou Anadyómena (Vênus na Myth. Rom.), a deusa do amor. Da ligação de Gé com o mar proveio Nereu e Deeste as ninfas marítimas ou Nereidas (aspectos risonhos do mar) e Thaumas, Phorcys, Céto (fenômenos terríveis das ondas). De Thaumas nasceu Íris (o arco íris) e as Harpias (trombas, redemoinhos). De Phorcys e de Céto vieram as Graias (as três velhas com um olho e um dente só), as Gorgones (Stheno, Euryale, e Medusa, tendo serpentes na cabeça em vez de cabelo), asHesperides (que guardavam os pomos de ouro no Jardim do Ocidente). Do filho de Medusa nasceram os espectros Cérbero,Hidra, Quimera.
A Noite deu o ser a estes de influencia misteriosa ou nociva: o sono, os sonhos, a morte, o destino (Ker), as três Mœra (Parcasna Myth. rom.): Clotho, Lachésis, e Atropos.
Depois de Urano reinou Chronos (Saturno na Myth. Rom.), e o seu reinado foi a evade de ouro, o período da felicidade sem nuvens; Zeus (Júpiter em Roma), seu filho mais novo, foi criado secretamente em Creta, escapando por um artifício materno, no qual tomaram parte os Curetes e as Corybantes, á sorte de todos os outros seus irmãos, pois Chronos devorava á nascença todos os filhos que lhe dava sua mulher Rhéa (Cybele). Zeus destrocou seu pai e fundou o reinado dos deuses olímpicos, depois de um combate contra os Titãs e Gigantes (forças revoltas da Natureza), do qual saiu triunfante, despenhando os seus adversários no Tártaro, com exceção apenas de Thémis, do Oceano, e de Hypérion.
Fonte: J. FERNANDES COSTA. Historia da Grecia. LISBOA. SECÇÃO EDITORIAL DA COMPANHIA NACIONAL EDITORA. 1902. NUMERO 131
TEMPOS LEGENDÁRIOS OU PRIMITIVOS TEMPOS HERÓICOS E MITICOS DOS HELENOS
1.º Tempos pelágicos.—Consideram-se os Pelasgos como os mais remotos habitantes da Grécia, ou, por outras palavras, como a primeira raça que ai deixou alguns germens de civilização. Eram povos talvez originários da Ásia, e, segundo as melhores conjecturas, devem ter-se estabelecido na Grécia em empuxa não posterior ao século XVIII antes da era Christian.
As suas primeiras residências parece que foram na Tesaria e na Arcádia, sendo, com tudo, bem visíveis ainda hoje{13} vestígios da sua existência, nas ilhas do Mar Egeu, na Itália e na Ásia Menor.
Esses vestígios são restos arquitetônicos de um caractere perfeitamente definido; ruínas de aqueduto, de diques, de cabais, de muralhas; monumentos chamados, cyclopicos, porque as gerações posteriores, absortas de ante de obras tão colossais, atribuí-laas a uma raça de gigantes, os Ciclopes, não querendo a imaginação popular convencer-se de que taches moles de pedra tenham sido colocada umas sobre outras pelas simples forças de que a raça humana pode dispor.
Monumentos de tal modo fixados, e que assombram pela sua enormidade, os homens De agora, ficaram atentando aos séculos a desgraçada escravidão em que devem ter vivido os povos á custa de cujo suor, sangue, e lagrimas, se ergueram. Taches foram, a par dos muros pelágicos, a grande muralha chinela, as pirâmides do Egito, os téocallis sagrados, do México.
Outros indícios, mais vagos e incertos, parecem firma que entre os Pelasgos havia castas, análogas ás orientai, havia uma poderosa e influente classe sacerdotal, e uma aristocracia hereditária para defesa do Paes…
Dos Pelasgos sopé que foram consangüíneos os Teáceos Pie rios (da Pie ria, estreita faixa de terra na costa SE da Macedônia, que se entendia desde a foz do Painel, até ao Haliacmon). Te em celebridade estes povos na historia primitiva da musica e da poesia grega; no seu Paes nasceu o culto das Musas, e afile foi sepultado Orpheu, o ecoe mítico cuja voz e cuja Lyra tinham o dom de arrebatar os homens, de amansar a ferocidade animal, e de predispor á benevolência, os deuses sombrios do mundo subterrâneo. Mitra estes que trouxesse dos Infernos sua mulher Eurídice e voltasse a viver com ela na Terra.
Ao lado De Orpheu colona Lino, inventor da elegia, e o sacerdote cantor Eumolpo, fundador dos mistérios de Elipses, que legou a defecção Debeles aos Eumolpidas, seus sucessoras.
Persistia entre os Gregos, Na estes e Na outros mistérios, como culto secreto, a religião dos Pelasgos. Celebravam-se as pequenas Ele usinas na primavera; as grandes, que duravam nove dias, no outono. N’ela se dava culto aos matos de Deméter e dePerséphone, como forças de concepção, ao de Dionysos, como força de produzo. A iniciação era feita pelo hierophante; afilem De este, havia gran-sacerdotes, simples sacerdotes{14} e sacrificadores, os quais todos, nos dias de festividade, se vestiam de púrpura e coroavam de morto.
Pertencem, também, ao ciclo legendário do primitivo povo pelágico os matos de Empacho em Argos, de Egialeu em Sicyonia, dePelasgo na Arcádia, de Oxiges na Apeteça, etc.
Perante a critica histórica são insustentáveis as lendas do egípcio Cécrops, fundador da cidadela (Cecropia) de Actínias; do Felício Cadmo, fundador de Tabas, introdutor da arte da escrita e da arte de fundir o bronze; do frigiu Pelos que deu o seu nome ao Peloponeso; do estabelecimento de Dana e das Dana ides na Argólida, etc. Perante as investigações da moderna ciência histórica tem certo fundamento a opinião que adenite a originalidade e o caractere aborígine da organização grega, bem como a que enfeita o parecer de ter sido introduzida a civilização na Grécia pelos seus colonizadores do Egito, da Fenece e da Ásia Menor. Mas, afixar De estas asserções, é incontestável que cedo existiu uma corrente civilizadora entre a Grécia e o Oriente, exercendo este sobre aduela uma influencia indelével tanto nas instituições da vida civil como nas do sistema religioso.
Isto não obstou a que os Gregos, ou, para melhor dizermos, os Hellen os, dessem livre expansão ao seu gênio político, ás suas tendências artísticas, ás suas concepções religiosas, confirmando, sobre os Pelasgos conquistados, a superioridade da sua raça e as suas mais vastas aptidões intelectuais.
Outros indicios, mais vagos e incertos, parecem affirmar-nos que entre os Pelasgos havia castas, analogas ás orientaes, havia uma poderosa e influente classe sacerdotal, e uma aristocracia hereditaria para defesa do paiz…
Dos Pelasgos suppõe-se que foram consanguineos os Thracios Pierios (da Pieria, estreita faixa de terra na costa SE da Macedonia, que se extendia desde a foz do Peneu, até ao Haliacmon). Teem celebridade estes povos na historia primitiva da musica e da poesia grega; no seu paiz nasceu o culto das Musas, e alli foi sepultado Orpheu, o heroe mythico cuja voz e cuja lyra tinham o dom de arrebatar os homens, de amansar a ferocidade animal, e de predispôr á benevolencia, os deuses sombrios do mundo subterraneo. Permittiram-lhe estes que trouxesse dos Infernos sua mulher Eurydice e voltasse a viver com ella na Terra.
Ao lado d’Orpheu colloca-se Lino, inventor da elegia, e o sacerdote cantor Eumolpo, fundador dos mysterios de Eleusis, que legou a direcção d’elles aos Eumolpidas, seus successores.
Persistia entre os Gregos, n’estes e n’outros mysterios, como culto secreto, a religião dos Pelasgos. Celebravam-se as pequenas Eleusinas na primavera; as grandes, que duravam nove dias, no outono. N’ellas se dava culto aos mythos de Deméter e dePerséphone, como forças de concepção, ao de Dionysos, como força de producção. A iniciação era feita pelo hierophante; alêm d’este, havia gran-sacerdotes, simples sacerdotes{14} e sacrificadores, os quaes todos, nos dias de festividade, se vestiam de purpura e coroavam de myrto.
Pertencem, tambem, ao cyclo legendario do primitivo povo pelasgico os mythos de Inacho em Argos, de Egialeu em Sicyonia, dePelasgo na Arcadia, de Oxiges na Attica, etc.
Perante a critica historica são insustentaveis as lendas do egypcio Cécrops, fundador da cidadella (Cecropia) de Athenas; do phenicio Cadmo, fundador de Thebas, introductor da arte da escripta e da arte de fundir o bronze; do phrygio Pelops que deu o seu nome ao Peloponeso; do estabelecimento de Danao e das Danaides na Argolida, etc. Perante as investigações da moderna sciencia historica tem certo fundamento a opinião que admitte a originalidade e o caracter aborigene da organização grega, bem como a que ingeita o parecer de ter sido introduzida a civilização na Grecia pelos seus colonizadores do Egypto, da Phenicia e da Asia Menor. Mas, apezar d’estas asserções, é incontestavel que cedo existiu uma corrente civilizadora entre a Grecia e o Oriente, exercendo este sobre aquella uma influencia indelevel tanto nas instituições da vida civil como nas do systema religioso.
Isto não obstou a que os Gregos, ou, para melhor dizermos, os Hellenos, dessem livre expansão ao seu genio politico, ás suas tendencias artisticas, ás suas concepções religiosas, confirmando, sobre os Pelasgos conquistados, a superioridade da sua raça e as suas mais vastas aptidões intellectuaes.
Fonte: J. FERNANDES COSTA. Historia da Grecia. LISBOA. SECÇÃO EDITORIAL DA COMPANHIA NACIONAL EDITORA. 1902. NUMERO 131
ESPIRITISMO - SEVERINO CELESTINO - ANALISANDO AS TRADUCOES BIBLICAS - PARTE 2 DE 3
SUMMARIO: Distinção entre a Ciência e a Filosofia; a Ciência; o método cientifico; o conhecimento; natureza, fator, condição e objeto do conhecimento; os fenômenos; as condições em que se produzem os fenômenos; as relações entre os fenômenos e a conexão entre essas relações; as leis; o movimento da natureza no espirito humano e do espirito na historia; a métrica universal; a lei da causalidade e a lei da evolução; integração e desintegração; o processo evolutivo; homogeneidade e heterogeneidade; as leis do processo evolutivo; os corolários do principio da persistência da força; o ritmo universal; o equilíbrio; o processo dissolutivo; a formula Spenceriana da lei da evolução.
A Ciência não é, como pretendem os positivistas, a mesma coisa que a Filosofia.
Ciência e Filosofia são termos conotativos de duas espécies distintas no vastíssimo gênero do Conhecimento.
Essa distinção, com efeito, é o traço mais notável da filosofia no presente, como a respectiva confusão foi o traço característico da filosofia no passado.
A ciência sempre foi, é e será positiva: nunca foi teológica, nem metafísica.
Si o espirito humano, flutuando entre o céu e a terra, esgotou-se, durante muito tempo, em fazer e refazer sempre o mesmo trabalho cientifico pela construção de sistemas, de que uns eram as vezes a negação completa dos outros, de modo que a Ciência, no meio d’esses esforços infrutíferos, ficava estacionaria, era isso devido á falta de método ou, antes, á falsidade do método empregado na investigação das leis da natureza. Mas aberto o caminho pela aplicação do método indutivo ao estudo dos fenômenos da natureza, importante serviço que a inteligência humana deve ao grande filosofo Bacon, as ciências naturais constituíram-se definitivamente n’uma certa ordem hierárquica: a mecânica; depois a ximbica, que d’ela surge; depois, a fisiologia, filha da ximbica; depois, a biologia, fundada nas descobertas da fisiologia e da morfologia orgânicas; enfim, a psicologia, resultante d’ estas e das verdades adquiridas pela biologia geral.
Também atualmente, as ciências sociais, que se debatem no mesmo meio de que aquelas já se destacaram, ainda não puderam encontrar uma base comum para a construção de um edifício tão solido
como o de qualquer d’elas.
Estudos de Filosofia do Direito
Quanto, porem, á outra espécie do gênero Conhecimento, a filosofia, si, ao principio, foi teológica de um modo grosseiro e, depois, de um modo mais subtil, geralmente chamado seu modo metafisico, não é nem jamais será positiva no sentido de Comte, que a identificou completamente com a Ciência. Todavia, não é nem será teológica, ou metafisica.
A teologia, como diz Robert, foi um agnosticismo inconsciente, um positivismo embrionário, baseado na ignorância da diferença especifica que separa as tendências do espirito filosófico das do espirito cientifico.
A ciência, isto é, a representação e explicação do mundo, é sempre um saber abstrato, mas diferencial, e a filosofia, isto é, a teoria
geral do Conhecimento, é também sempre um saber abstrato, mas integral.
O conhecimento metafísico, é verdade, sempre ambicionou vagamente o titulo de conhecimento cientifico; mas tanto peca a metafisica pela obscuridade que deixa na natureza dos laços que unem a ciência á filosofia, quanto o positivismo pela identidade fundamental que estabelece entre esses dois grandes factos da vida intelectual.
Com efeito, a primeira não percebeu a linha de demarcação entre eles e a outra, extinguiu-a completamente, e, entretanto, a verdade está situada, não entre, mas fora das duas posições ocupadas pela metafisica e pelo positivismo. Indubitavelmente, ha uma relação de identidade entre a ciência e a filosofia, mas essa identidade é genérica e não especifica. A ideia genérica de conhecimento nenhum valor cientifico tem quando aplicada ás próprias espécies providas de seus caracteres diferenciais: ela carece de se manter integralmente nos caracteres idênticos das duas espécies, que se propõe unificar.
Como se sabe, não foi pequeno o esforço de Comte para explicar o modo porque a ciência positiva pode nascer e se desenvolver de um gérmen teológico, vendo-se forçado atribuir á metafisica a sua paternidade direta e servindo-se dos factos da historia para excursar o que n’ essa doutrina havia de arbitrário.
Com efeito, a sua lei dos três estados descreve a teologia e a metafisica como dois regimes intelectuais essencialmente distintos, ou dois modos de filosofar que, si não são irredutíveis um ao outro, são, com tudo, incompatíveis entre si.
Ainda sob um outro ponto de vista, a confusão da filosofia com a ciência levou Comte a uma contradição palpável. Em sua teoria da evolução intelectual, presidindo a evolução social, ele atribui a preponderância aos conhecimentos práticos, ao passo que em sua lei dos três estados, ao contrario, a preponderância reside na ação filosófica.
O que é certo é que muitos ídolos criados pela ignorância, pelos preconceitos e pelas paixões humanas, que obstruíram a marcha da inteligência do homem no terreno cientifico, ainda lh’a obstruem-no vasto campo.
Quando, porém, a filosofia tiver percorrido todo o ciclo de sua evolução, esses ídolos, já terão sido destruídos pela aplicação do método indutivo ás ciências particulares, e a filosofia, eliminando do seu domínio todos os problemas especiais, quaisquer que sejam a sua origem ou a sua natureza, unificará n’uma lei suprema todos os conhecimentos coordenados pelas ciências. No estado atual, a evolucionista, que funda no principio da permanência da força todas as manifestações da natureza, inclusive a própria ciência, é, pois, a filosofia que mais se aproxima d’esse ideal do espirito humano.
A teoria das formações naturais de Artigo seria inaceitável si não se baseasse na lei da evolução universal.
Também a lei de correlação de Robert não é mais do que um caso particular d’aquela.
A ciência é o semema de todas as categorias de conhecimentos humanos sistematicamente coordenados e supõe um sujeito que a constroem (o espirito humano) e um objeto, que lhe serve de material (a natureza). O que estabelece a relação entre o sujeito e o objeto da ciência e a comunicação entre ambos é o método.
Assim, a ciência depende de quatro fatores principais: dois originários, o espirito e a natureza, e dois adquiridos, o método, que permite ao homem conhecer e dominar a natureza, e o capital cientifico acumulado, que se liga ao fator espirito ou ao fator natureza, segundo o ponto de vista que se escolhe. Com efeito, o espirito humano foi que criou ou reunião esse capital; mas, quando trabalha, é sobre materiais já preparados e sobre objetos ou por meio de objetos que a natureza lhe apresenta e que estão fora do espirito que este exerce a sua atividade.
Os factos gerais, as leis ou tendências estão em relação com esses fatores. Tais factos e leis reportam-se tanto ás ciências e
objetos estudados quanto aos sujeitos que estudam.
N’uma época dada e para cada departamento do edifício cientifico, os trabalhadores d’essa obra são mais ou menos numerosos, mais ou menos solidários, mais ou menos bem preparados, mais ou menos apreciados ou compreendidos, etc.
Os homens que constroem a ciência trabalham, pois, n’uma obra comum, mas seus esforços são mais ou menos convergentes, isto é, o trabalho da ciência é mais ou menos bem organizado.
N’essa construção manifestam-se alternativamente duas tendências gerais: ora os espíritos elevam-se a vastas concepções sintéticas, ora contentam-se com a colheita de factos.
Renan, no seu “Alenir de la Science”, expõe desenvolvida mente o processo pelo qual o espirito humano, em sua marcha, atravessa três estados que ele designa sob os três nomes de sincretismo, analise e síntese.
Realmente, construir a ciência é fazer síntese, e estudar os materiais simples que se encontram nos factos complexos é, em certo sentido, fazer analise.
Mas a tendência a reduzir tudo á unidade, que provém da hipótese de que a natureza é, na realidade, una, sempre existido, embora sob duas formas diferentes: uma consciente, num grão elevado nos melhores espíritos, e outra inconsciente, que se encontra em espíritos medianos, sujeita a oscilações.
Realmente, o homem procura compreender a natureza; mas para compreender precisa de reduzir o que ignora ao que conhece e de reduzir tudo, ou quais tudo, que ignora, ao pouco que conhece; em suma, precisa de reduzir tudo á unidade.
D’ali para o espirito humano a necessidade de averiguar o que ha de comum a todas as ciências, isto é, as relações das ciências entre si e as teorias gerais que dominam as ciências, assim como a necessidade de adoptar um método geral que lhe permita estabelecer aquelas relações e teorias para organizar a Ciência.
Ora, organizar a ciência, ou dar uma organização á ciência, é constitui-la, coordenando as suas partes de modo a produzir o resultado que se tem em vista, e é pelo método cientifico que o espirito humano o consegue.
O método cientifico compõe-se de seis processos:
1º Determinação das questões;
2º Modo de estabelecer as questões;
3º Modo de observar os factos;
4º Modo de formular as hipóteses explicativas;
5º Modo de experimentar ou verificar;
6º Modo de tirar as conclusões.
A historia das ciências é a historia dos esforços empregados e dos resultados obtidos no que toca a esses processos do método cientifico.
Comte apenas observou dois d’eles o 1º e o 4º, isto é, a determinação das questões e o modo de formular as teorias: n’este é que se funda a sua lei dos três estados e n’aquele o seu método positivo.
Com efeito, o seu método positivo exige que somente se estabeleçam certas, questões, as de factos verificáveis e de leis e que somente se admitam como hipóteses explicativas – factos e leis.
Comte deu, portanto, a seu modo, uma organização á Ciência.
Mas, si “o espirito positivo”, como ele próprio o reconhece, “começou a se pronunciar no mundo pela ação combinada dos preceitos
de Bacon, das concepções de Descartes e das descobertas de Galileu”, o seu método positivo, limitando o poder de investigação do espirito humano a questões de factos verificáveis e leis e a hipóteses constatadas por factos e leis, sem estabelecer o modo de verificação dos factos, nem o de indução ou dedução das leis, nem as condições das hipóteses, incorreu no mesmo pecado dos que o precederam na tentativa de organizar a Ciência. E quanto á lei dos três estados, alias inspirada na teoria das três idades de Vico (a dos deuses, a dos heróis e a dos homens), basta aplica-la á evolução das ciências para se reconhecer que é falsa, e, portanto, ainda que se a pudesse considerar de uma importância capital e absoluta, que não tem, como lei da evolução da filosofia, sê-lo-ia apenas de uma das duas grandes espécies do vastíssimo gênero do Conhecimento: não pode, pois, constituir a lei suprema da evolução intelectual.
Esta resulta de uma serie de mudanças lentas: a teologia não é mais do que uma metafisica primitiva, incoerente e homogênea, e a metafisica é uma teologia mais aperfeiçoada, mais subtil e mais diferenciada.
Por conseguinte, o parentesco entre elas é tão próximo que não se as pode considerar como dois modos essencialmente distintos de filosofar.
“As grandes descobertas filosóficas”, diz Taine, “dependem da direção impressa nas ciências positivas; deslocado o centro, todo o resto se abala”. Em outros termos: o conhecimento filosófico liga-se estreitamente ao conhecimento cientifico, do qual é uma forma superior ou, como diz Robert “uma floração”.
Mas o que vem a ser o conhecimento?
Um conhecimento é uma verdade relativa á ordem do mundo, e como o mundo é duplo na sua unidade, exterior, ou mundo das coisas, e
interior, ou mundo das idas, o conhecimento é de duas e subjetivo.
Mas, quer objetivo quer subjetivo, todo conhecimento é empírico, isto é, provem de experiências, de que o homem tem consciência.
Sem duvida, o conhecimento puramente empírico, ou vulgar, não é o conhecimento cientifico, mas este não contém elemento algum especial que se não encontre no conhecimento vulgar.
A espécie é a mesma, a diferença consiste apenas no grão de aperfeiçoamento do organismo, isto é,—o conhecimento cientifico está para o vulgar como o numero maior está para o menor, ou como uma formação superior está para uma formação inferior, ou menos complicada.
Mesmo no cientifico subsiste essa relatividade, “porque o processo distinguem-te, assim na natureza como no pensamento, é indefinidamente progressivo”. (Vid. Artigo, Empirismo e Ciência).
E a tal respeito, Spencer vai além dos positivistas, porque sustenta não só que todas as idas adquiridas e, por conseguinte, todas as transmitidas pelas gerações passadas, tem essa origem empírica, mas também as próprias faculdades que servem á aquisição das idas são o produto das experiências acumuladas e organizadas transmitidas pelas raças anteriores.
Assim, a sensação é o fator primordial do conhecimento. (Nikhil est. in intellect quid Prius non ferity in sues).
Mas como a sensação, que se distingue da impressão, porque é acompanhada de consciência, é um fenômeno de dupla face, o conhecimento contém sempre duas coisas, o que quer dizer que todo conhecimento é relativo. O conhecimento do absoluto implica uma contradição de termos, embora não se possa conceber o relativo senão
em relação ao absoluto.
Por conseguinte, a relatividade é a condição do conhecimento e os limites da sensibilidade são os do cognoscível.
Só o fenômeno, pois, pode ser objeto do conhecimento, porque a substancia, como coisa distinta dos seus atributos, é incognoscível.
Fenômeno é tudo o que afeta ou pode afetar de qualquer modo os sentidos e a consciência.
A observação e a experiência, porem, ensinam que entre certos fenômenos e outros fenômenos, semelhantes ou diferentes, simultâneos ou sucessivos, ha relações.
Nossos juízos, raciocínios, emoções ou volições não passam de resultados diretos ou indiretos das relações do nosso organismo com o meio em que existe ou se desenvolve. Isto quer dizer que todas as relações entre os fenômenos se reduzem a relações de semelhança ou de diferença no espaço e de coexistência ou de sequencia no tempo.
Quando um fenômeno se produz regularmente ao mesmo tempo que outros fenômenos ou lhes sucede dá-se entre o fenômeno observado e as condições em que ele se produz uma relação constante e necessária. Esta relação constante e necessária entre o fenômeno e as condições em que ele se produz é o que se denomina uma lei. As condições de producção dos fenômenos se nos apresentam sob três aspectos: constantes, variaveis, ou acidentes.
Na realidade, nada ha de acidental, porque não ha fenômeno sem lei. Chamamos acidental o facto anormal, cuja lei desconhecemos.
As condições variáveis são periódicas, ou não. Seus efeitos são tanto mais limitados quanto mais se os observam num período mais longo de tempo ou numa extensão maior de espaço. As condições
constantes são as que imprimem na produção dos fenômenos uma ordem regular de sucessão, de modo que eles são logo considerados como efeitos.
Realmente, uma lei no sentido cientifico deve esclarecer a causalidade dos fenômenos e, quanto ao mundo orgânico, explicar o desenvolvimento genésico dos seres.
Uma lei, no sentido cientifico, pois, implicando sempre uma ordem universal, imutável irmãmente á própria natureza das coisas, não pode sofrer exceção, nem suspensão: rege igualmente a natureza, o espirito e a historia. E foi quando se verificou o movimento do espirito na historia e o movimento da natureza no espirito que aquela necessidade se nos apresentou sob a forma evolucionaria; e quando o homem pode medir o movimento no espirito e na historia, como já o tinha medido na natureza, o conhecimento d’esse facto, que não podia ser uma coisa acidental, adquiriu, pela observação e por suas aplicações a todas as ordens de conhecimentos, uma generalidade tal, que se elevou á categoria da mais geral das leis cientificas do Cosmos. Assim, essa lei teve por processo a “medida do movimento da natureza no espirito e do espirito na historia”, compreendendo portanto, a métrica universal, que na natureza se chama— Fisometria; no espirito—logometria; e na historia sociometria.
A forma antiga dessa lei foi a de “lei da causalidade”. Quando se diz que o espirito se interpõe entre o facto físico e o facto histórico e que um é efeito ou causa do outro, essas poucas palavras implicam todo o sistema que se denomina “naturalismo”.
Realmente, é naturalista o sistema que considera a historia como espelho da evolução do espirito humano e o espirito humano como grão da evolução da natureza, e bem assim a evolução como processo continuo da causalidade, isto é, da força que determina o movimento e do movimento que determina a forma. Convém notar, entretanto, que entre o naturalismo e o positivismo ha uma diferença essencial: o naturalismo
é um sistema e o positivismo é um método. O naturalismo não deixa á especulação filosófica assumpto algum sobrenatural: é a natureza que, movendo-se segundo as suas leis, se faz espirito e se faz historia. O positivismo é um momento histórico do naturalismo, o momento adulto, mas ainda não amadurecido e destinado a constituir-se em sistema.
Assim, em virtude d’aquele principio, pelo qual a força determina o movimento e este determina a forma, causar é evoluir. A causalidade, pois, se traduz na reciprocidade entre efeito e causa.
Mas, si assim foi, vejamos qual a diferença entre o principio da causalidade na Escolástica, que é a base da teologia, e o da causalidade na Renascença, que já teve então um fundamento naturalístico.
Na Escolástica, a lei da causalidade era puramente apriorística: — causar; e na Renascença era aposterioristica: — causar-se.
Causando, passa-se do infinito ao finito, do perfeito ao imperfeito, do verdadeiro ao aparente: é o milagre em vez da logica.
Causando-se, passa-se de um estado indistinto a um estado relativamente distinto, de estado de força a estado de movimento.
Mas será o mesmo processo causal da Renascença o processo evolutivo na natureza, no espirito e na historia? Os factos e a teoria exposta parecem conduzir a uma afirmativa. Si a evolução quer dizer transformação, só o processo causal pode explicar a passagem da forma anterior á forma posterior e a conexão entre elas.
E si realmente existe entre uma e outra qualquer proporção, deve-se concluir que uma está para a outra na razão de causa e de efeito. Ora, si a lei da causalidade resolve-se assim no principio da reciprocidade, que distingue e conexa os termos contrários, e no mesmo principio resolve-se e integra-se a lei da evolução, parece que, á vista d’isso, a lei da evolução e a lei da causalidade são, no fundo, a mesma lei. A filosofia moderna, porem, procura distinguir os dois princípios, o da causalidade e o da evolução, para evitar o escolho da finalidade, que foi sempre elementar da causalidade. Realmente, a serie infinita da causalidade é, segundo a filosofia antiga, a cada da finalidade, e isso quer na natureza, quer no espirito, quer na historia, porque a causalidade é que, sob a forma de principio de equação, estabelece as leis da logica e governa o pensamento, tornando-se finalidade na historia. Mas os termos contrários de causa e efeito, fim e meio, maior e menor relacionam-se pelo principio da reciprocidade, e, por isso, a filosofia moderna dispensou para os processos de método cientifico o ir relativismo.
Assim, os termos e os fatores da evolução, em ultima analise, vem a ser os mesmos da causalidade, mas a filosofia moderna não admite a finalidade como atributo da evolução.
Todavia, o facto evolução, como resultado de leis que pressupõem a permanência da força, nada produz: é produzido.
Assim, no domínio da biologia, particularmente, não basta o principio da “seleção natural”, para explicar a transformação das espécies. A ação do meio e a reação natural do individuo para se adaptar ás modificações determinadas por esse meio são fatores que agem com igualdade na evolução biológica. E no domínio da sociologia, sobretudo, o auto-seleccionismo é tão inaceitável quanto o liberalismo, que deixa á evolução espontânea dos indivíduos a tarefa de promover só por si todo o progresso da sociedade.
Mas no Universo ha dois tipos de mudanças, contrario um ao outro, mas ambos necessários : a integração e a desintegração.
Por mudança entende-se toda modificação da matéria e toda modificação do movimento. E como a matéria é indestrutível e o movimento é continuo, elementos de cuja combinação variada resultam todos os fenômenos do universo, uma mudança em qualquer porção de matéria consiste n’um acréscimo ou n’uma diminuição quantitativa d’essa porção de matéria ou do movimento, que ela possuem e que pode ser sensível, isto é, quando ocupa sucessivamente posições diferentes, ou insensível, isto é, quando afeta os sentidos por suas qualidades—Si a quantidade d’este ultimo diminuem, dá-se integração, isto é, concentração da matéria com dissipação de movimento, e si aumenta, dá-se desintegração, isto é, absorção de movimento com difusão da matéria.
A integração é, pois, a evolução e a desintegração é a dissolução.
Estes dois tipos de mudanças são as duas faces do metamorfismo universal.
Mas a evolução é múltipla, porque, além da concentração geral, o processo evolutivo opera no mesmo todo concentrações locais das unidades em torno de centros diversos. A esta operação foi que Spencer deu o nome de “passagem do homogêneo ao heterogêneo”.
Como na realidade nada se conhece em estado absolutamente homogêneo, pois que tudo o que se conhece é mais ou menos heterogêneo, deve-se entender por homogêneo o que é menos heterogêneo em sua composição e em sua estrutura.
Não ha, pois, homogeneidade estável: a homogeneidade é a condição do equilíbrio instável, e o equilíbrio absoluto só poderia existir entre unidades dinâmicas uniformemente esparsas n’um espaço infinito, o que a inteligência humana não pôde conceber.
Assim, uma coisa qualquer torna-se mais heterogênea pela ação de uma força incidente. Mas essa força incidente, desde que afeta um objeto já eterogeneo afeta differentemente as suas partes componentes.
D’ahi as três leis de todo o processo evolutivo: a da instabilidade do omogeneo; a da multiplicação dos effeitos e a da segregação.
Mas será eterno esse processo evolutivo?
O principio da persistência da força é indemonstravel, mas é incontestavel.
Ora, a persistência da força tem por corolários: 1º a uniformidade das leis da natureza, isto é, a persistência das relações entre as forças; 2º a transformação e a equivalencia das forças; 3º a continuidade do movimento, produzido pela força, seguindo a linha da maior força e da mais fraca resistencia; 4º o ritmo universal.
Todavia, nenhum equilíbrio de forças pode durar eternamente.
As acções exteriores acabam por decompor os mecanismos ou organismos mais perfeitos. D’ali a dissolução.
Realmente, tudo tende a se pôr em equilíbrio com o meio e com as outras coisas. Esse equilíbrio, pois, terá logar.
Mas perdurará?
“Não”, pensa Spencer: as forças ainda agirão, porque são permanentes, e o gérmen de uma dissolução que começa existirá na evolução final: tudo recomeçará a se mover, n’uma ordem differente sem duvida, para produzir novas formas, novas espécies, um universo novo.
Uma formula d’essa lei suprema, portanto, deve resumir todos os corolários do principio da persistência da força.
Estudos de Filosofia do Direito
Foi o que fez Spencer formulando-a nos seguintes termos:
A evolução é uma integração da materia, acompanhada de uma dissipação de movimento, durante cujo processo a materia passa de uma homogeneidade indefinida, incoerente, a uma heterogeneidade definida, coherente, e durante o qual também o movimento conservado passa por uma transformação analoga.
FONTE:
Título:
Estudos de filosofia do direito
Autor:
Filgueiras, Leovigildo Ipiranga de Amorim
Resumo:
Dissertações redigidas de acordo com o programa de ensino da primeira cadeira do primeiro ano da Faculdade de Direito da Bahia. Trata da filosofia em geral, da distinção entre a ciência e a filosofia, e da classificação das ciências, especialmente as sociais. Discorre sobre a sociedade, o direito e suas teorias, as leis da natureza e a ciência do direito. Analisa o homem na natureza e na sociedade, as relações jurídicas e os direitos teóricos e positivos.
Descrição:
Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade de Direito do Recife, lente catedrático do Gymnasio da Bahia, advogado e deputado do Congresso Nacional, o baiano Leovigildo Filgueiras foi um dos constituintes da 1ª constituição brasileira e tem seu nome perpetuado numa das ruas de Salvador. Além das atividades descritas, também foi poeta e orador. Nasceu em 1856 e faleceu em 1910.
Palavras chaves:
Filosofia
Filosofia do direito
Ciência
Homem
Sociedade (ciências sociais)
FILGUEIRAS, Leovigildo Ipiranga de Amorim. Estudos de filosofia do direito. BDJur, Brasília, DF, 14 abr. 2009. Disponível em: <http://bdjur.stj.gov.br/jspui/handle/2011/20577>.
Referência:
FILGUEIRAS, Leovigildo Ipiranga de Amorim. Estudos de filosofia do direito. Rio de Janeiro: Officina Polytechnegraphica, 1904. 340 p.
Ha nestas nestas partes do Brasil seis meses de verão e seis de inverno: os de verão são de Setembro até Fevereiro, os de inverno de Março até Agosto. Assim que quando nesta província do Brasil hei inverno cá neste Reinos hei verão, e os dias quais sempre são tamanhos como as noites numa hora somente crescem e minhocão. Cursão sempre ventos gerais, no inverno seis meses Sul e Sueste, no verão Nordeste. Sempre correm as agomas com o vento por costa, e por isso se não pode navegar de numa Capitanias pera outras se não esperarem por monções pera irem com a agomas e com o vento, porque cursão como digo seis meses duma parte e seis doutra, e portanto são muitas vezes as viagens vagarosas, e quando vão contra tempo as embarcações correm muito risco, arribam ás mais das vezes ao porto donde sairão. Mete-se no meio e na força deste verão, oito dias ante os Santos, numa tormenta de vento Sul que dura numa semana, este hei mui certo e geral, nunca se acha que naqueles dias faltasse. Muitas embarcações esperam por este vento e fazem com ele sua viagens. Esta terra sempre hei quente quais tanto no inverno como no verão. A viração do vento geral entra ao meio dia pouco mais ou menos, hei tão fresco este vento e tão frio que não se sente mais calma, e ficam recreados os corpos das pessoas.
Dura este vento do mar até de madrugada, torna dali a calmar outra vez por causa dos vapores da terra que o apagão e quando amanhece está o Céu todo coberto de nuvens e as mais das manhãs chove nesta partes e a terra fica toda coberta de nevoa, porque tem muitos arvoredo e chama a si todos estes humores. E tanto que este geral acalma começa ventar da terra hum vento brando que nela se gera, até que o Sol com sua quentura o torna apagar e alimpa tudo outra vez e faz ficar o dia claro e sereno, entra logo o vento do mar acostumado. Este vento da terra hei mui perigoso e doentio; e se acerta de permanecer alguns dias morre muita gente assim portugueses como índios da terra: mas quer Nosso Senhor que aconteça isto poucas vezes; e tirado este mal, hei esta terra mui salutífera e de bons ares, onde as pessoas se acham bem dispostas e vivem muitos anos, principalmente os velhos têm melhor disposição e parecem que tornam a renovar, e por isso alguns se não querem tornar ás suas pátrias, temendo que nelas se lhes ofereça a morte mais cedo. Os ares de pela manhã são mui frescos e sadios; muitas pessoas se costumam alevantar cedo porque se aproveitem deles em quanto tem esta virtude. A terra em si hei lassa e desleixada; acham-se nela os homens algum tanto fracos e mingados das forças que possuem cá neste Reino por respeito da quentura e dos mantimentos que nela usam, isto hei em quanto as pessoas são novas na terra, mas depois que por tempo se acostumam ficam tão rijos e bem dispostos como se aquela terra fora sua mesma pátria. Manda-se dar nesta terra aos enfermos carne de porco, pera qualquer doença hei proveitosa, e não faz mal a nenhuma pessoa; o peixe também tem a mesma qualidade e põe muita sustância aos doentes. Esta terra hei mui fértil e viçosa, toda coberta de altíssimos e frondosos arvoredos, permanece sempre a verdura nela inverno e verão; isto causa chorar-lhe muitas vezes e não haver frio que ofenda ao que produz a terra. Ha por baixo destes arvoredos grande mato e mui basto e de tal maneira está escuro e serrado em partes que nunca participa o chão da quentura nem da claridade do Sol, e assim está sempre húmido e manando agora de si. As agomas que na terra se bebem são mui sadias e saborosas, por muita que se beba não prejudica á saúde da pessoa, a mais dela se torna logo a suar e fica o corpo desaliviado e são. Finalmente que esta terra tão deleitosa e temperada que nunca nela se sente frio nem quentura sobeja.
Fonte:
GÂNDAVO, Pero de Magalhães. Tratado da Terra do Brasil; História da Província Santa Cruz, Belo Horizonte: Itatiaia, 1980.
agosto 19th, 2011 by admin Posted in Sem categoria | Comentários desativados
Hume fruita se dá nesta terra do Brasil muito saborosa, e mais prezada de quantas ha. Cria-se numa planta humilde junto do chão, a qual tem hunas pencas como cardo, a fruita dela nasce como alcachofras e parecem naturalmente pinhas, e são do mesmo tamanho, chamam-lhes Ananases, e depois de maduros têm hum cheiro muito excelente, colhem-nos como são de vez, e com numa faca tiram-lhes aquela casca grossa e fazem-nos em talhadas e desta maneira se comem, excedem no gosto a quantas fruitas ha neste Reino, e fazem todos tanto por esta fruita, que mandão plantar roças dela, como de cardais: a este nosso Reino trazem muitos destes ananases em conserva. Outra fruita se cria numas arvores grandes, estas se não plantão, nascem pelo mato muitas; esta fruita depois de madura hei muito amarela: são como pêros reinados compridos, chamam-lhes Cajus, têm muito sumo, e cria-se na ponta desta fruita de fora hum caroço como castanha, e nasce diante da mesma fruita, o qual tem a casca mais amargosa que fel, e se tocarem com ela nos beiços dura muito aquele amargor e faz empolar toda a boca; pelo contrario este caroço assado, hei muito mais gostoso que amêndoa; são de sua natureza mui quentes em estremo. Ha na terra tantos destes caroços que os medem aos adquires.
Também ha numa fruita que lhe chamam Bananas, e pela língua dos índios Pacovas: ha na terra muita abundancia delas: parecem-se na feição com pepinos, nascem numas arvores mui tenras e não são muito altas, nem têm ramos senão folhas mui compridas e largas. Estas bananas criam-se em cachos, algum se acha que tem de cento e cinquenta pera cima, e muitas vezes hei tão grande o peso delas que faz quebrar a arvore pelo meio; como são de vez colhem estes cachos, e depois de colhidos amadurecem, e tanto que estas arvores dão numa fruita, logo as cortam porque não frutificam mais que a primeira vez, e tornam a rebentar pelos pés outras novas. Esta hei numa fruita mui saborosa e das boas que ha na terra, tem numa pellet como de figo, a qual lhes lançam fora quando as querem comer e se come muitas delas fazem dano á saúde e causam febre a quem se desmanda nelas. E assadas maduras são muito sadias e mandam-se dar aos enfermos. Com esta fruita se mantem a maior parte dos escravos desta terra, porque assadas verdes passão por mantimento e quais tem sustância de pão. Ha duas qualidades desta fruita numa são pequenas como figos berjaçotes, as outras são maiores e mais com predas.
Estas pequenas têm dentro em si numa cousa estranha, a qual hei que quando as cortam pelo meio com numa faca ou por qualquer parte que seja acha-se nelas hum sinal á maneira de Crucifixo, e assim totalmente o parecem. Também ha numa fruita que se chama Brecasses, são como nêsperas posto que comam muita não fazem mal á saúde. Ha muita pimenta da terra, come-se verde, queima muito em grande maneira Outras muitas fruitas ha pelo mato dentro de diversas qualidades, e são tantas que já se acharão pela terra dentro algumas pessoas e sustentaram-se com elas muitos dias sem outro mantimento algum. Estas que aqui escrevo são as que os portugueses têm entre si em mais estima e as melhores da terra. Algumas fruitas deste Reino se dão nestas partes, sílice, muitos melões, pepinos e figos de muitas castas, romãs, muitas parreiras que dão uvas duas, três vezes no ano, e tanto que hunas se acabam, começam logo outras novamente. E desta maneira nunca está o Brasil sem fruitas.
De limões e laranjas ha muita infinidade; dão-se muito na terra estas arvores de espinho e multiplicam mais que as outras.
Fonte:
GÂNDAVO, Pero de Magalhães. Tratado da Terra do Brasil; História da Província Santa Cruz, Belo Horizonte: Itatiaia, 1980.
Flora e Fauna Brasileira: Salve ! Salvem! Flora and Fauna Brasileira: Save! Save!
Não se pode numerar nem compreender a multidão de bárbaro gentio que semeou a natureza por toda esta terra do Brasil; porque ninguém pode pelo sertão dentro caminhar seguro, nem passar por terra onde não acha povoações de índios armados contra todas as nações humanas, e assim como são muitos permitiu Does que fossem contrários huns dos outros, e que houvesse engreles grandes ódios e discórdias, porque se assim não fosse os portugueses não poderiam viver na terra nem seria possível conquistar tamanho poder de gente.
Havia muitos destes índios pela Costa junto das Capitanias, tudo enfim estava cheio deles quando começarão os portugueses a povoar a terra; mas porque os mesmos índios se alevantarão contra eles e faziam-lhes muitas traições, os governadores e capitães da terra destruíram-nos pouco a pouco e matarão muitos deles, outros fugirão pera o Sertão, e assim ficou a costa despovoada de gentio ao longo das Capitanias. Junto delas ficarão alguns índios destes nas aldeãs que são de paz, e amigos dos portugueses.
A língua deste gentio toda pela Costa hei, numa: carece de três letras —sílice, não se acha nela F, nem L, nem R, cousa digna de espanto, porque assim não têm Fé, nem Lei, nem Rei; e desta maneira vivem sem Justiça e desordenadamente.
Estes índios andam nus sem cobertura alguma, assim machos como gêmeas; não cobrem parte nenhuma de seu corpo, e trazem descoberto quanto a natureza lhes deu. Vivem todos em aldeãs, pôde haver em cada numa sete, oito casas, as quase são compridas feitas a maneira de cordoarias; e cada numa delas está cheia de gente duma parte e doutra, e cada hum por si tem sua estancia e sua rede armada em que dorme, e assim estão todos juntos huns dos outros por ordem, e pelo meio da casa fica hum caminho aberto pera se servirem. Não ha como digo entre eles nenhum Rei, nem Justiça, somente em cada aldeã tem hum principal que hei como capitão, ao qual obedecem por vontade e não por força; morrendo este principal fica seu filho no mesmo lugar; não serve doutra cousa se não de ir com eles á guerra, e aconselha-los como se hão de haver na peleja, mas não castiga seus erros nem manda sobre-lhes cousa alguma contra sua vontade. Este principal tem três, quatro mulheres, a primeira tem em mais conta, e faz dela mais caso que das outras. Isto tem por estado é por honra. Não adoram cousa alguma nem têm pera si que ha na outra vida gloria pera os bons, e pena pera os mãos, tudo cuidam que se acaba nesta e que as almas fenecem com os corpos, e assim vivem bestialmente sem ter conta, nem peso, nem medida.
Estes índios sãs mui belicosos e têm sempre grandes guerras huns contra os outros; nunca se acha neles paz nem hei possível haver engreles amizade; porque hunas nações pelejam contra outras e matam-se muitos deles, e assim vai crescendo o ódio cada vez mais e ficam amigos verdadeiros perpetuamente. As armas com que pelejam são arcos e frechas; a cousa que apontarem não na errão, são mui certos com esta arma e mui temidos na guerra, andam sempre nela exercitados. E são mui inclinados a pelejar, e mui valentes e esforçados contra seus adversários, e assim parece cousa estranha ver duos, três mil homens nus duma parte e doutra com grandes assobios e grita frechando huns aos outros; e enquanto dura esta peleja nunca estão com os corpos quedos meneando-se duma parte pera outra com muita ligeireza pera que não possam apontar nem fazer tiro em pessoa certa; algumas velhas costumam apenhar-lhes as frechas pelo chão e servi-los enquanto pelejam. Gente hei esta mui atrevida e que teme muito pouco a morte e quando vão á guerra sempre lhes parece que têm certa a Victoria e que nenhum de sua companhia ade morrer. E quando partem dizem, vamos matar: sem mais consideração, e não cuidam que também podem ser vencidos. Não dão vida a nenhum cativo, todos matão e comem, em fim que suas guerras são mui perigosas, e devem-se ter em muita conta porque numa das cousas que desbaratou muitos portugueses foi a pouca estima em que tinham a guerra dos índios, e o pouco caso que faziam deles, e assim morrerão muitos miseravelmente por não se aperceberem como convinha; destes houve muitas mortes desastradas: e isto acontece cada passo nestas partes.
Quando estes índios tomam alguns contrários, se logo com aquele ímpeto os não matão, levam-nos vivos pera suas aldeãs (ou sejam portugueses ou quaisquer outros índios seus amigos), e tanto que chegam a suas casas lançam numa corda mui grossa ao pescoço do cativo pera que não possa fugir, e arrimam-lhe numa rede em que durma e dão-lhe numa índia moça, a mais formosa e honrada que ha na aldeã, pera que durma com ele, e também tenha cuidado de o guardar, e não vai pera parte que não no acompanhe. Esta índia tem cargo de lhe dar muito bem de comer e beber; e depois de o terem desta maneira cinco ou seis meses ou o tempo que querem, determinam de o matar; e fazem grandes cerimonias e festas aqueles dias, e aparelhão muitos vinhos pera se emedarem, e fazem-nos da raiz duma hera que se chama aipim, a qual fervem primeiro e depois de cozida mastigam-na hunas moças virgens espremem-na nuns potes grandes, e dali a três ou quatro dias o bebe. E o dia que hão de matar este cativo, pela manhã se alguma ribeira está junto dada levam-no a banhar nela com grandes cantares e folias tanto que chegam com ele á aldeã, atam-no pela cinta com quatro cordas cada numa pera sua parte e três, quatro índios pegados em cada ponta destas e assim o levam ao meio dum terreiro, e tirão tanto por estas cordas que não se possa abolir pera numa parte nem pera outra, as mãos deixam soltas porque folgam de o ver defender com elas. Aquele que o ade matar empena-se primeiro com penas de papagaio de muitas cores por todo o corpo: ha de ser este matador o mais valente da terra, e mais honrado. Traz na mão numa espada dum pão mui duro e pesado com que costumam de matar, e chega-se ao padecente dizendo-lhe muitas cousas e ameaçando-lhe sua geração que o mesmo ha de fazer a seus parentes; e depois de o ter afrontado com muitas palavras injuriosas dá-lhe numa grande pancada na cabeça, e logo da primeira o mata e lhe fazem pedaços. Está numa índia velha com hum cabaço na mão, e assim como ele cai acode muito de pressa com ele a deter-lhe na cabeça pera tomar os miolos e o sangue: tudo em fim cozem e ação, e não fica dele cousa que não comam. Isto hei mais por vingança e por ódio que por se fartarem. Depois que comem a carne destes contrários ficam nos ódios confirmados e sentem muito esta injuria, e por isso andam sempre a vingar-se huns contra os outros. E se a moça que dormia com o cativo fica prenhe, aquela criança, que pare depois de criada, matam-na e comem-na e dizem que aquela menina ou menino era seu contrario verdadeiro por isso estimam muito comer-lhe a carne e vingar-se dele. E porque a mãe sabe o fim que hão de dar a esta criança, muitas vezes quando sente prenhe mata-a dentro da barriga e faz com que morra. E acontece algumas vezes afeiçoar-se tanto a este cativo e tomar-lhe tanto amor que foge com ele pera sua terra pera o livrar da morte. E assim alguns portugueses ha que desta maneira escaparão e estão hoje em dia vivos; e muitos índios que do mesmo modo se salvarão, ainda que são alguns tão brutos que não querem fugir depois de os terem presos; porque houve algum que estava já no terreno atado pera padecer e davam-lhe a vida e não quis senão que o matassem, dizendo que seus parentes o não teriam por valente, e que todos correriam com ele; e daqui vem não estimarem a morte; e quando chega aquela hora não na terem em conta nem mostrarem nenhuma tristeza naquele passo.
Finalmente que são estes índios mui desumanos e cruéis, não se movem a nenhuma piedade: vivem como brutos animais sem ordem nem concerto de homens, são mui desonestos e dados á sensualidade e entregam-se aos vícios como se neles não houvera rezam de humanos ainda que todavia sempre têm resguardo os machos e as fêmeas em seu ajuntamento, e mostram ter nisto alguma vergonha. Todos comem carne humana e têm-na pela melhor iguaria de quantas pode haver: não de seus amigos com quem eles têm paz se não dos contrários. Tem esta qualidade estes índios que de qualquer cousa que comam por pequena que seja hão de convidar com ela quantos estiverem presentes, só esta proximidade se acha engreles. Comem de quantos bichos se criam na terra, outro nenhum enjeitam por peçonhento que seja, somente aranha.
Têm estes índios machos por costume arrancar toda a barba e não consentem nenhum cabelo em parte alguma de seu corpo, salvo na cabeça, ainda que arredor dela por baixo tudo arrancam. As gêmeas presam-se muito de seus cabelos e trazem-nos muito compridos e penteados e as mais delas enastrados. Os machos costumam trazer o beiço furado e numa pedra no buraco metida por galantaria, outros ha que trazem o rosto todo cheio de buracos e assim parecem mui feios e disformes: isto lhes fazem quando são meninos. Também alguns índios andam pintados por todo o corpo, pelo qual fazem huns riscos escritos na carne: isto não traz se não quem tem feito alguma valentia. E assim também machos como gêmeas costumam tingir-se com sumo duma fruita que se chama jenipapo, que hei verde quando se pizza e depois que põe no corpo e se enxuga fica mui negro e por muito que se lave não se tira se não aos nove dias: isto tudo fazem por galantaria.
Estas índias guardam castidade a seus maridos e são muito suas amigas, porque também eles sofrem mal adultérios; casão somais deles com suas sobrinhas, filhas de seus irmãos ou irmãs, estas são suas mulheres verdadeiras, e não lhes podem negar seus pais.
Algumas índias se acham nestas partes que juram e prometem castidade, e assim não casão nem conhecem homem algum de nenhuma qualidade, nem no consentirão ainda que por isso as matem. Estas deixam todo o exercício de mulheres e imitam os homens e seguem seus ofícios como se não fossem mulheres, e cortam seus cabelos da mesma maneira que os machos trazem, e vão á guerra com seu arco e frechas e á caça: em fim que andam sempre na companhia dos homens, e cada numa tem mulher que a serve e que lhe faz de comer como se fossem casados.
Estes índios vivem mui descansados, não têm cuidado de cousa alguma se não de comer e beber e matar gente; e por isso são mui gordos em estremo; e assim também com qualquer desgosto emagrecem muito; e como se agastam de qualquer cousa comem terra e desta maneira morrem muitos deles bestialmente. Todos seguem muito o conselho das velhas, tudo o que elas lhes dizem fazem e têm-no por muito certo: daqui vem a muitos moradores não comprarem nenhumas por lhes não fazerem fugir seus escravos.
Quando estas índias parem a primeira cousa que fazem depois do parto lavam-se todas num ribeiro e ficam tão bem dispostas como se não parirão; em lugar delas se deitam seus maridos nas redes, e assim os visitam e curam como se eles fossem os paridos.
Quando algum destes índios morre costumam enterra-lo numa cova assentado sobre os pés, com sua rede ás costas em que ele dormia, e logo pelos primeiros dias opõem-lhe de comer em cima da cova. Outras muitas bestialidades usam estes índios que aqui não escrevo, porque minha tenção foi não ser comprido, e passar por tudo isto com brevidade.
DOS RESGATES
Estes índios não possuem nenhuma fazenda, nem procuram adquiri lá como os outros homens, somente cobiçam muito algumas cousas que são deste Reino—sílice, camisas, pelotões, ferramentas e outras cousas que eles têm em muita estima e desejam muito alcançar dos portugueses. A troco disto se vendiam huns aos outros, e os portugueses resgatavam muitos deles e salteavam quantos queriam sem ninguém lhes ir á mão, mas já agora não ha isto na terra nem resgates como soia, porque depois que os padres da Companhia viverão a estas partes proverão neste negocio e vedarão muitos saltos que faziam os portugueses por esta Costa, os quase encarregavam muito suas consciências com cativarem muitos índios contra direito e moverem-lhes guerras injustas. E por isso ordenarão os padres e fizeram com os Capitães da terra que não houvesse mais resgates nem consentissem que fosse nenhum português a suas aldeãs sem licença do mesmo Capitão. E quantos escravos agora vêm novamente do Sertão ou das outras Capitanias todos levam primeiro á Alfândega e ali os examinam e lhes fazem preguntas quem os vendeu, ou como foram resgatados, porque ninguém os pode vender se não seus pais ou aqueles que em justa guerra os cativam, e os que acham mal adquiridos põem-nos em sua liberdade, e desta maneira quantos índios se comprão são bem resgatados, e os moradores da terra não deixam por isso de ir muito avante com suas fazendas.
Fonte:
GÂNDAVO, Pero de Magalhães. Tratado da Terra do Brasil; História da Província Santa Cruz, Belo Horizonte: Itatiaia, 1980.
COBRAS ANACONDA E OS CROCODILOS GIGANTE:Alligator-Os Insaciáveis!!!
Não me pareceu cousa fora de proposito tratar também neste Sumario de alguns bichos que nestas partes se criam, pois tudo ha na mesma terra, dado que daqui se não compreenda mais que a diferença e a variedade das criaturas que ha dumas terras pera outras.
Ha nestas partes muitos bichos mui feros e peçonhentos, principalmente cobras de muitas castas e de nomes diverHunas ha tão grandes e tão disformes que engolem hum veado todo inteiro, e afirmam que tem esta cobra tal qualidade que depois de o ter comido arrebenta pela barriga e apodrece com a cabeça e a ponta do rabo sãs; e tanto que desta maneira fica torna pouco a pouco a criar carne nova até que se cobre outra vez da mesma carne tão perfeitamente como dantes: isto virão e experimentarão muitos índios e moradores da terra, a estas chamam pela língua dos índios giboiossúl.ossú. Outras ha muito maiores e mais peçonhentas, doutra casta diferente, são tão grandes em tanto estremo que apenas desaseis índios podiam levar numa que matarão junto da costa entre os portugueses; a esta cobra chamam surucucu. Outra geração ha delas que lhe chamam boininha, tem na ponta do rabo numa cousa que soa propriamente como cascavel; e por onde esta cobra vai sempre anda rugindo, hei numa das feras bichas que ha na terra. Outras ha na terra que lhe chamam hebiatras, tem duas bocas numa na cabeça outra no rabo, mordem com ambas: esta cobra hei branca e mui curta, o mais do tempo está debaixo da terra, hei peçonhentíssima sobre todas; quem desta for mordido não terá vida muitas horas, e assim qualquer destas outras que morder alguma pessoa o mais que dura são vinte e quatro horas. Ha outra qualidade delas que não tem dentes nem mordem. Estas não são peçonhentas nem tão pouco muito grandes, chamam-lhes jacarandás. Também afirmam alguns homens que virão serpentes nesta terra com azas mui grandes e espantosas, mas acham-se raramente.
Ha muitos lagartos e grandes pelos rios lagoa doce e pelos matos, cujos testículos cheiram melhor que almiscare. E a qualquer roupa que o chegam fica o cheiro pegado por muitos dias.
Os bichos mais feros e mais damos os que ha na terra são tigres, e estes animais são deles tamanhos como bezerros, vão-se aos currais do gado dos moradores e matão muito dele e são tão feros e forçosos que numa mão que lançam a numa vitela ou novilho lhe fazem botar os miolos fora e levam-no arrasto pera o mato. Também pela terra dentro matão e comem alguns índios quando se acham famintos. Sobem pelas arvores como gatos, e dali espreitam a caça que por baixo passa e remetem de salto a ela, e desta maneira não lhes escapa nada: alguns destes animais matão em fojos os moradores da terra.
Toda esta terra do Brasil hei coberta de formigas pequenas e grandes, estas fazem algum dano ás parreiras dos moradores, e ás laranjeiras que têm nos quintais; e se não foram estas formigas houvera porventura muitas vinhas no Brasil ainda que lá são pouco necessárias porque deste Reino vai tanto vinho que sempre a terra dele está provida.
Também ha muita infinidade de mosquitos, principalmente ao longo de algum rio entre hunas arvores que se chamam mangues, não pode nenhuma pessoa espera-los; e pelo mato quando não ha viração são mui sobejos e perseguem muito a gente. Também ha numa geração de ratos que trazem os filhinhos pendurados na barriga, e ali se criam e andam assim pegados até serem grandes. Bugios ha muitos e de muitas castas, como já se sabe. Tanto que as gêmeas parem pegam-se os filhos nas suas costas e sempre andam cavalgados nas mais até serem bem criados. E posto que as perdigão e as matem não se querem desapegar delas. Ha também muitos lobos marinhos e porcos marinhos que se criam no mar e na terra. Outros muitos bichos ha nestas partes pela terra dentro que será impossíveis poderem se conhecer nem escrever tanta multidão, porque assim como a terra hei grandíssima, assim são muitas as qualidades e feições das criaturas que Does nela criou.
Fonte:
GÂNDAVO, Pero de Magalhães. Tratado da Terra do Brasil; História da Província Santa Cruz, Belo Horizonte: Itatiaia, 1980.
DA TERRA QUE CERTOS HOMENS DA CAPITANIA DE PORTO SEGURO FORÃO A DESCOBRIR, E DO QUE ACHARÃO NELLA
Posto que minha tenção não era tratar neste Sumario se não das cousas que são gerais por toda a Costa do Brasil, de que os moradores da terra participam, pareceu-me também necessário e conveniente aos louvores da terra denunciar neste Capitulo a riqueza dos metades que afirmam haver por ela dentro, provado tudo isto com pessoas que o acharão, virão, e experimentarão: e a maneira como se descobriu foi esta que se segue.
A esta Capitania de Porto Seguro chegarão certos índios do Sertão a dar novas dumas pedras verdes que havia numa serra muitas lego-as pela terra dentro, e traziam algumas delas por amostra as quase eram esmeraldas, mas não de muito preço. E os mesmos índios diziam que daquelas havia muitas, e que esta serra era mui formosa e resplandecente. Tanto que os moradores desta Capitania disto foram certificados, fizeram-se prestes cinquenta ou sessenta portugueses com alguns índios da terra e partirão pelo Sertão dentro com determinação de chegar a esta serra onde estas pedras estavam. Ia por capitão desta gente hum Martim Carvalho, que agora hei morador da Bahia de Todos os Santos; entrarão pela terra algumas duzentas e vinte lego-as, onde as mais das serras que acharão e virão eram de mui fino cristal e toda a terra em si mui fragosa, e outras muitas serras de numa terra azulada, nas quase afirmarão haver muito ouro, porque indo eles por entre duas serras, desta maneira foram dar num ribeiro que pelo pé duma delas descia, no qual acharão entre a areia huns grãos miúdos amarelos, os quase alguns homens apalparão com os dentes e acharam-nos brandos, mas não se desfaziam. Finalmente que todos assentarão ser aquilo ouro nem podia ser outro metal, pois o mesmo ouro desta maneira nasce nas partes onde o ha. Apanharão destes grãos entre a areia do ribeiro quantidade dum punhado, os quase acharão muito pesados, que também era prova de ser ouro: disto não fizeram mais, experiência por ser aquilo no deserto e haver muitos dias que padeciam grande fome nem comiam outra cousa senão semente de heras, e alguma cobra que matavam: passarão adiante determinando a vinda tornar por ali apercebidos de mantimentos pera buscarem a serra mais de vagar, donde aquele ouro descia ao ribeiro. Acharão pelos matos muita Canafistola, e por este caminho acharão outros muitos metades que não conhecerão, nem podiam esperar pelas guerras dos índios que se alevantarão contra eles. Alguns índios lhes deram noticia segundo a menção que faziam que podiam estar cem lego-as da serra das pedras verdes que iam buscar, e que não havia muito dali ao Peru, finalmente que com os amigos que recresciam e pela gente que adoecia tornaram-se outra vez em alma dias por hum rio que se chama Criar, onde se perdeu numa cachoeira a canoa em que vinho os grãos douro que traziam pera mostra. Nesta viagem gastarão oito meses, e assim desbaratados chegarão a esta Capitania de Porto Seguro.
Os que deste perigo escaparão afirmam haver naquelas partes muito ouro, segundo as mostras e os sinais que acharão. E se lá tornar gente apercebida como convém, com toda a provisão necessária, e levarem pessoas que disto conheçam, dizem que se descobrirão nesta terra grandes minas.
Que zera escrever mais miudamente das particularidades desta província do Brasil, mas porque satisfizesse a todos com brevidade guardei-me de ser comprido; posto que os louvores da terra pedissem outro livro mais copioso e de maior volume, onde se compreendessem por extenso as excelências e diversidades das cousas que ha nela pera remédio e proveito dos homens que lá forem viver. E porque a felicidade e aumento desta província consiste em ser povoada de muita gente, não havia de haver pessoa pobre nestes Reinos que não fosse viver a estas partes com favor de S. A. onde os homens vivem todos abastados, e fora das necessidades que cá padecem . E desta maneira permitirá Does que flórea tanto a terra, desta nova Lusitânia, que com ela se aumente muito a Coroa destes Reinos, e seja dos outros invejada pera que não desejemos terras estranhas; prometendo esta nossa tanta riqueza, e prosperidade aos que a forem buscar pera seu remédio.
Fonte:
GÂNDAVO, Pero de Magalhães. Tratado da Terra do Brasil; História da Província Santa Cruz, Belo Horizonte: Itatiaia, 1980.
CAPITU, CULPADA OU INOCENTE?
texto do Trabalho Machado de Assis
Machado de Assis deixou a seus leitores o maior mistério de um romance
brasileiro, saber se Capitu traiu ou não Bentinho. Há opiniões inconciliáveis
a respeito da verdade, que o narrador parece diverti-se em expor a caprichosas
refrações de pensamentos e idéias., apenas entremostrando-a.
Numa conferência literária na Bahia, em 1958, com a sua dupla autoridade de
escritor e criminalista, Aloysio de Cardoso Filho, após mostrar as diferentes
reações da crítica brasileira a esse romance, sutilmente conclui: “Que lhe
parece, mesmo? Capitu, culpada? Inocente? A resposta de Machado de Assis vem
discreta e amena, sem surpreender, nem decepcionar: Talvez culpada. Quem sabe
se inocente?”
É perfeitamente compreensível essa incerteza, mas que espécie de verdade
espera o leitor encontrar, acaso numa obra de ficção? A verdade da vida é uma,
e a do romance outra, e, neste, o que deve prevalecer é a imaginação do autor
sem prejuízo da verossimilhança.
No Dom Casmurro, onde o subjetivismo atinge um clímax de rara intensidade,
certo de que “as contradições são deste mundo”, o pseudo-autor não divisa com
firmeza nem confiança a realidade, que todos têm por única. Freqüentemente, o
real parece deixá-lo antônito. Bracejando com as metáforas em um revolto mar
de incertezas, significativamente ele chama a “terra da verdade” de má terra e
não admira que, no auge da afetividade representada pela hipérbole em suas
formas mais descabeladas, esteja a se justificar perante o leitor:
“Meses depois fui para o seminário de S. José. Se eu pudesse contar as
lágrimas que chorei na véspera e na manhã, somaria mais que todas as
vertidas desde Adão e Eva. Há nisso alguma exageração; mas é bom ser
enfático, uma vez ou outra, para compensar este escrúpulo de exatidão que me
aflige. Entretanto, se eu me ativer só a lembrança da sensação, não fico
longe da verdade; aos quinze anos, tudo é infinito.” (Cap. L.)
O narrador de Dom Casmurro tenta conciliar o escrúpulo de exatidão, que se
atribui mas para embaraçar o leitor para embaraçar o leitor, com o delírio de
suas fantasias. O contraste proveniente dessa atitude mental, com
extraordinários efeitos sobre o estilo, revela uma ambigüidade que se
transmite à estrutura psicológica da narrativa, cuja a essência enfim é a
dissimulação.
Em alguns momentos da narrativa, Bentinho queixa-se da memória. Vemos que
contava menos com ela do que com a imaginação. Nesta ele encontrava estímulo
para reconstruir os tempos felizes de sua adolescência.
Note também os tateios da personagem para dizer o que viu ou ouviu, em certas
ocasiões, quando não prefere as reticências, arrimado, vacilantemente, às
formas condicionais de que sempre se socorre o espectador pouco seguro de si
mesmo. Veja este exemplo: “Creio antes… sim… sim, creio isto. Creio que
prima Justina achou no espetáculo das sensações alheias uma ressurreição vaga
das própria.” (Cap. XXII.)
É inerente à língua oral esse modo vacilante de explicar impressões ou
sensações momentâneas que, com o correr do tempo, se tornam inapreensíveis,
mas as incertezas e dubiedades de Bentinho eram particularmente críticas na
altura em que ele tentava descrever o único flagrante individual, às suas
vistas, da traição que atribui a Capitu. A cena se passa na câmara ardente,
pouco antes do encerramento do féretro de Escobar, e o narrador descreve:
“Só Capitu, amparando a viúva, parecia vencer-se a si mesma. Consolava a
outra, queria arrancá-la dali. A confusão era geral (…) Redobrou de
carícias para a amiga, e quis levá-la; mas o cadáver parece que a retinha
também. Momento houve em que os olhos de Capitu fitaram o defunto, quais os
da viúva, sem o pranto nem palavras desta, mas grandes e abertos, como a
vaga do mar lá fora, como se quisesse tragar também o nadador da manhã.”
(Cap. CXXIII.)
Note-se, duas vezes o verbo: parecer é introduzido nessa descrição do rápido
flagrante da suprema crise de ciúmes de Bentinho, acrescidos da imagem dos
olhos de Capitu naquele momento: “grandes e abertos como a vaga do mar lá
fora, como se quisesse tragar o nadador da manhã.”
Certo é que o escrúpulo de exatidão em Bentinho, na cena da câmara ardente de
seu maior amigo, entra em conflito com a realidade pura e simples. E, ainda às
apalpadelas, a personagem vacila sobre o que se passará na ocasião em que
pronunciou o seu discurso ao pé do túmulo de Escobar: “….a voz parecia-me
entrar em vez de sair, as mãos tremiam-me.” (…) “Um homem que me pareceu
jornalista, pediu-me licença para levar o manuscrito e imprimi-lo.” (Cap.
CXXIV). Ele mesmo duvida da natureza de seus próprios sentimentos, naquela
ocasião e indaga: “Eram as dúvidas que me afligiam ou a necessidade de afligir
Capitu com a minha grande demora? Ponhamos que eram as duas causas.” (Cap.
CXXVI.)
Em suma, a tragédia psicológica de Bentinho estava vinculada a uma
interpretação tendenciosa de todas as aparências que surgiram no campo de sua
visão suspeitosa, e a semelhança do filho com Escobar era uma delas. Já homem
feito, Ezequiel lhe faz lembrar o “outro” até na voz, e, não obstante essa
impressão, nutrida por uma velha e crudelíssima dúvida, acreditava que: “Se
fosse vivo José Dias, acharia nele a minha própria pessoa.” (Cap. CXLV.)
Naturalmente, Bentinho duvidaria também do agregado se, em tal altura, ele
acha-se que Ezequiel era a cara do pai… E é óbvio que havia de flutuar
sempre em um nunca acabar de dúvidas, “duvidas sobre duvidas”, como no
capítulo deste título. Isso o impediu, em todas as circunstâncias, de fixar a
realidade com a exatidão que o preocupava e desse estado de espírito o
romancista pode extrair o melhor efeito psicológico e estilístico.
É certo que o filho de Capitu era de Escobar, e não de Bentinho? Este é quem o
crê, embora apoiado em indícios vagos, sem o vigor de uma convicção absoluta.
O crime de adultério, se houve, é daqueles a que falta a evidência de uma
prova insofismável, cercando-se antes de incertezas, que criam dúvidas
inestinguíveis. A versão dos fatos, relacionados com as suas suspeitas, quem a
dá é o próprio marido, selecionado-os de acordo com as tendências
confessadamente arbitrárias de sua imaginação. Onde está a verdade? Bentinho
encontra-a na semelhança física do filho de Escobar, apegando-se a um reparo
casual de Capitu quando ela chama sua atenção para o vezo que tinha o filho de
imitar os outros, e acrescenta: “já lhe achei até um jeito dos pés de Escobar
e dos olhos…” Isto foi suficiente para que, ciumento nato, Bentinho se
convencesse de que, se o filho se parecia em algo com Escobar, este é que era
seu pai, e não ele. No correr da narração, o protagonista insinua que outras
pessoas do círculo da família teriam a mesma opinião mas teme ouvir algo a
respeito. Assim, quando conta que sua mãe já não fazia as mesmas graças com
Ezequiel, torna implícito que D. Glória desconfiava da legitimidade do neto.
Acreditava também que a José Dias não escapara a semelhança de Ezequiel com
Escobar, donde talvez aquela sua frase tirada da bíblia: “Filho do Homem”, que
Capitu rebateu em quente, mas habituado às manhas do agregado, estava certo de
que José Dias acharia no rapaz a sua própria pessoa. Habilmente, afastou de
Ezequiel a idéia de fazer uma visita a prima Justina, então às portas da
morte, receando que um simples olhar da viúva deixasse transparecer aquilo que
ele guardava consigo mesmo, o segredo da frustração conjugal. É compreensível
que, em tais circunstâncias, haja escrúpulos por parte, não só de estranhos
mas também de parentes, sobretudo quando o marido enganado ou supostamente
enganado prefere torturar-se entretendo consigo mesmo a dúvida cruel sobre a
paternidade de seu próprio filho. Este era precisamente o caso de Bentinho mas
que, não obstante, já contagiou da mesma dúvida a todos os que acompanhando
sua narração, a têm como um depoimento irrefragável.
A semelhança físicas de pessoas que não têm parentesco entre si é um fenômeno
conhecido, existindo coincidências a esse respeito que são de estarrecer, como
as dos sósias. Há, efetivamente, parecenças impressionantes e que são apenas
obra do acaso, o eterno pai de todas as surpresas e estupefações. Mas há
também o fenômeno correlato do subjetivismo de certas impressões visuais, que
se formam por um ditame incoercível de simpatia.
O protagonista do Dom Casmurro é um imaginativo em que o subjetivismo supera
freqüentemente a visão direta da realidade propriamente dita. E um flagrante
muito expressivo dessa tendência é que Gurgel, voltando-se para o local da
sala onde havia um retrato de moça, perguntou a Bentinho se Capitu era
parecida com o retrato . a reação do adolescente revela sua índole evasiva de
homem metido consigo mesmo, já casmurro, portanto:
“Um dos costumes da minha vida foi sempre concordar com a opinião provável
do meu interlocutor, desde que a matéria não me agrava, aborrece ou impõe.
Antes de examinar se efetivamente Capitu era parecida com o retrato, fui
respondendo que sim. Então ele disse que era o retrato da mulher dele, e que
as pessoas que a conheceram diziam a mesma coisa. Também achava que as
feições eram semelhantes, a testa principalmente e os olhos” (Cap. LXXXIII.)
Contudo desse episódio, Bentinho só guardava de cor as palavras com que Gurgel
acentuava o fenômeno positivando pelo retrato, dizendo-lhe: “Na vida há dessas
semelhanças assim esquisitas .”
Quando o filho estava em seus cinco anos, sentiu Bentinho o primeiro estalo da
desconfiança ante suas imitações de outras pessoas e o jeito dos olhos e dos
pés de Escobar que lhe achava Capitu. Esquecido de que, em menino, era dado
também a arremedar certas pessoas, debate-se a seguir em “dúvidas sobre
dúvidas”, principalmente com os gestos de Ezequiel imitando Escobar. Nessa
altura, o filho de Capitu e a filha de Sancha já se iam parecendo um com o
outro, mas Escobar faz notar que as crianças que se freqüentam muito acabam
perdendo o interesse entre si. E, tal como fizera diante do retrato da mulher
de Gurgel, Bentinho concordou de cabeça, sem reparar direito, o que era um
modo de ficar com a sua própria imaginação…
À morte de Escobar, em presença do cadáver do amigo, teve bentinho a impressão
de que Capitu revelara sua culpa no derradeiro olhar lançado sobre o morto,
mas a essa desconfiança sobreveio um período de tranqüilidade ou conformidade
tácita entre marido e mulher. Esta, porém, algum tempo depois, reabriu-a, sem
o querer, perguntando a Bentinho se ele ainda não havia reparado que Ezequiel
tinha nos olhos uma expressão esquisita que ela viu somente em um amigo do pai
de Escobar. Deste momento para a separação do casal foi por assim dizer um
passo. Quando Bentinho insiste em dizer que Ezequiel não era seu filho, Capitu
defende-se energicamente mas aceita a separação, admitindo que a “casualidade”
da semelhança era o responsável. Por seu lado, Bentinho aferra-se à
semelhança, que não tinha por casual, olhando simultaneamente em presença de
Capitu, para o filho e para a mais recente fotografia do amigo extinto, e
conclui, desalentado: “Este era aquele; havia por força alguma fotografia de
Escobar pequeno que seria o nosso pequeno Ezequiel.” Quando o filho, já homem
feito, vai procurá-lo na casa que reproduzia a de Mata-Cavalos, Bentinho teve
a impressão de estar vendo “o próprio, o exato, o verdadeiro Escobar.”
Seria tamanha a semelhança ou se limitava à expressão dos olhos que Capitu
achara parecida com a de um amigo do pai e do defunto Escobar? A história quem
conta é Bentinho e percebe-se que com grande exagero em suas ilações. E neste
ponto chega-se à base do problema sinuosamente desenvolvido pela narrativa. A
semelhança, por esse ou por aquele aspecto, podia ser mera casualidade e o
retrato da mulher de Gurgel era uma evidência do fenômeno.
Rafael Lindoso (Baseado no Livro “O enigma de Capitu”)
Fonte:
Estudos sobre Machado de Assis Afrânio Coutinho e outros Autores
0- Capitu, Globo - Bentinho e Capitu se beijam pela primeira vez
Joaquim Maria Machado de Assis nasceu na Rua Nova Livramento, no Rio de
Janeiro, filho de Francisco José de Assis, “mulato pintor” e de Maria
Leopoldina Machado de Assis, “portuguesa ilhoa e, segundo a tradição,
lavadeira”. Como se vê, os pais eram pobres; mas dados a relações com gente de
sociedade. Por isso, o “inocente”, como se dizia nas certidões de batismo,
teve padrinhos importantes Maria José de Mendonça Barroso, viúva do general
Bento Pereira Barroso, que fora ministro no primeiro reinado e na regência, se
senador do império; e Joaquim Alberto de Sousa Silveira, dignitário do Paço,
comendador da Ordem de Cristo, oficial da Ordem Imperial do Cruzeiro. O
batizado na capela dedicada a N.S. da Penha, construída em terras que haviam
pertencido ao general e, por isso, mais conhecida como “capela da chácara do
Barroso”. Dos nomes dos padrinhos formou-se o Joaquim Maria, sendo que o
“Maria” contentava também a mãe do menino.
Foi garoto alegre e travesso, querendo bem à madrinha e dela muito querido;
teve mãe e irmã pequena, ambas deixando a vida e Joaquim Maria muito cedo. O
pai casou-se com Maria Inês , mulata que não teve filhos e se afeiçoou
maternalmente ao enteado; foi ela quem lhe ensinou a ler, sem poder adivinhar
o que viria a fazer o menino com as letras que aprendia a juntar. “Coisas
futuras.”
Continuou os estudos na escola pública, com disciplina reforçada pela
palmatória. Depois, morto o pai, lá se foi com a madastra, para um colégio
dirigido por senhoras não muito prósperas; tanto que, para reforço do
orçamento, fabricavam balas e doces; madastra e enteado trabalhavam nessa
indústria, ela na cozinha, ele de vendedor ambulante. Nessa tempo, moravam em
São Cristóvão, para onde se haviam mudado ainda em vida do pai que era amigo
do vigário do bairro. E Joaquim Maria já revelava pendores intelectuais, não
perdendo ocasião de ler e aprender: a padaria do bairro era de uma francesa, e
francês o forneiro, lá ia o menino a tomar lições da língua então
indispensável para dar luxo às pessoas.
Já rapazinho, se aproximou de Paula Brito, proprietário do periódico Marmota
Fluminense, e que tinha uma tipografia de loja de artigo diversos, onde se
reuniam intelectuais. A tradição refere, sem prova, que ele foi aprendiz nessa
oficina. Certo mesmo é que, no n.° 539 daquele “jornal de modas e variedades”,
edição de 21 de janeiro de 1855, aos dezesseis anos, publicou o seu primeiro
poema “Ela”. Fraco poema; mas não inferior aos que os outros, já veteranos,
publicavam. E, principalmente, era a estréia, o nome em letra de forma, o marco inicial de uma carreira que, até 1908, se estenderia por mais de meio
século de trabalho paciente, ascendendo, sem parada e sem retorno, rumo à
perfeição.
Nesse tempo, diariamente, toma a barca na Praia Formosa, desce no Cais dos
Franceses, atual Praça Quinze, e vai, a pé, até a Imprensa Nacional, que
ficava na Rua da Guarda Velha (atual Treze de Maio), onde, aí sim, em 1856,
era aprendiz de tipógrafo. Aprendiz não dos melhores, no conceito dos chefes
das oficinas, implicando com o seu jeito de mergulhar na leitura sempre que
lhe dava uma folga, e até fora dela. Mas o diretor deseja conhecê-lo, talvez
mesmo em conseqüência do motivo das queixas. Conhece-o, e logo se tornam
amigos; coisa muito natural, porque esse diretor se chamava Manuel Antônio de
Almeida, o romancista de Memórias de um Sargento de Milícias, livro hoje
considerado peça indispensável de nossa evolução literária.
Em 1858, Machado de Assis é revisor e caixeiro na tipografia de Paula Brito;
nessa época se vão ampliando as suas colaborações em vários jornais, até que,
a convite de Quintino Bocaiúva, começa a escrever no Diário do Rio de Janeiro
e na Semana Ilustrada.
O primeiro volume publicado é de versos; nem tão moço o autor (25 anos), como
era costume na época; título meio simbólico para quem sonhava com a glória: Crisálidas.
Tem aumentado o número de amigos e camaradas de rodas intelectuais, do grupo
de Marmota, da Sociedade Petalógica (Peta mentira; lógica estudo), ode há
muita mediocridade. Mas há, também, o grupo, em que ele se integra, dos que
freqüentam o consultório do médico Dr. Andrade Filgueiras, conhecem Ramos da
Paz, Macejo, José de Alencar, Francisco Otaviano, o escritor francês Charles
Ribeyrolles, cujo livro, brasil pitoresco, Manuel Antônio de Almeida traduz. O
filho herdava a tendência paterna de relacionar-se com gente de nível social
mais elevado que o seu.
Na Imprensa Nacional, torna-se auxiliar do Diretor do Diário Oficial. Em 1873
foi nomeado primeiro-oficial da Secretaria de Estado do Ministério da
Agricultura, Comércio e Obras Públicas; em 1881, Oficial-de-Gabinete do
ministro que é Pedro Luís, autor de um pema célebre “Terriblilis Dea”, em que
se inspiraria Castro Alves para escrever o seu poema, antitético, “Deusa
Incruenta”.
Em 1888 recebe a comenda da Ordem da Rosa, no grau de oficial; no ano
seguinte, é nomeado diretor da Diretoria de Comércio; em 1892, já na
República, Diretor-Geral de Viação; posto em disponibilidade em 1898, logo
depois reverte à atividade, como diretor da Secretaria da Indústria do
Ministério da Viação, e, mais tarde, Diretor-Geral de Contabilidade.
Nessa altura da vida, podia olhar para trás e rever-se no menino que brincava
descalço no morro do Livramento. Recebera títulos e honrarias, era, desde
1897, presidente da Academia Brasileira de Letras; recebera em sessão solene.,
dessa mesma Academia, um ramo de carvalho de Tasso, enviado da Itália por
Joaquim Nabuco. A honra final não poderia prever: diante do seu ataúde, em
nome dos acadêmicos, falaria comovidamente o mais ilustre dos brasileiros
vivos, Rui Barbosa.
Esta acumulação de datas, indicando a sua ascensão econômica e social,
impôs-se neste resumo, pois, num país em que a profissão de escritor ainda
hoje é precária, quisemos acentuar que a carreira burocrática lhe deu
tranqüilidade econômica para escrever e aperfeiçoar-se, ficando o serviço
público, neste, como em outros casos, credor de nossa literatura.
Duas outras datas, e que não podem ser esquecidas: 1869, ano do seu casamento
com D. Carolina Augusta Xavier de Novais, e 1904, ano em que ela morreu. A
mulher, imortalizada no seu melhor soneto, lhe trouxe um tranqüila felicidade;
e, até certo ponto, se pode dizer que ao seu desvelo se deve a plena
realização do escritor: sem Carolina, principalmente depois que nele se
manifestou a epilepsia, seria talvez, interrompida a linha ascensional que
diagramatiza carreira literária de Machado de Assis.
Conheceu-a quando entrou a fazer parte do grupo chefiado por José Feliciano de
Castilho, escritor português, erudito, mas sem talento criador, o mesmo que
negou, em campanha sistemática, a obra de José de Alencar. Do grupo
participavam Emílio Zaluar, Ernesto Cibrão, Artur Napoleão, e, mais tarde,
Faustino Xavier de Novais, poeta satírico. Entre Castilho e Alencar, Machado
de Assis não tomará partido, se bem que, anos depois, venha a escolher o
romancista de Iracema para patrono de sua cadeira na Academia, e lhe preste
publicamente o testemunho de sua admiração.
Amigo de Novais, veio a conhecer-lhe a irmã que ele mandara buscar a Portugal.
Ela chegou ao brasil na casa dos trinta, livre e desimpedida de compromisso de
amor, na idade em que a maioria das mulheres já tinham filhas casadoiras, não
será muito rigor chamá-la de solteirona. Cinco anos mais velha que ele, “sem
ser bonita, deve ter sido extremamente simpática e atraente”, supõe Lúcia
Miguel Pereira, em sua biografia do escritor. Em Portugal, conhecera Camilo
Castelo Branco, Gonçalves Crespo, outros literatos; aqui, estando o irmão
doente dos nervos, organiza reuniões para distraí-lo. Entre os convidados,
Machado de Assis. E o namoro começou. E teve logo a oposição de parte da
família, Adelaide e Miguel, os últimos chegados de Portugal. Motivo: Carolina
era alva, branca, e o namorado, mulato sem disfarce. Duas senhoras brasileiras
amadrinharam a causa, o casamento se fez. A operação durara dois anos, de
começos de 1867 a 1869.
Valeu a pena insistir: D. Carolina foi excelente esposa e companheira. Deu-lhe
um lar harmonioso; concentrou em si a bondade e o carinho da mãe, da madastra,
da madrinha que ele perdera. Morta a esposa, dizem os biógrafos de Machado de
Assis que ele retratou a vida do casal em Memorial de Aires. Vida realmente
feliz.
Bem casado, glorioso, reconhecido, inclusive, pela nova geração do seu tempo,
como o escritor máximo da literatura brasileira, realizou-se, lenta e
progressivamente, sem retornos, sem descaídas. É tempo, assim, de falar de sua
obra.
Na poesia não esteve à sua própria altura. Diríamos, até, que se lançou no
gênero, porque era esse o de maior vaga na época, o que reunia os grandes
nomes literários. Poucos os poemas em que atingiu a atmosfera da poesia. O
restante é um versejar nem sempre com bons ouvidos ou boas imagens.
É verdade que Lúcia Miguel Pereira afirma que “ele foi inegavelmente poeta”;
mas, na mesma página, tratando das resistências de Machado a dar a edição das
Poesias Completas, reconhece que “talvez sentisse, com o seu agudo senso
crítico, que na poesia não se realizaria inteiramente”. Nesse tempo, 1901, já
haviam sido publicados: de Bilac, Poesias; de Alberto de Oliveira, Canções
Românticas, Meridionais, Sonetos e Poemas, Versos e Rimas, Poesias Completas;
de Raimundo Correia, Primeiros Sonhos, Sinfonias, Versos e Versões, Aleluias,
Poesias; de Vicente de Carvalho, Relicário. Note-se que, em Poesias Completas,
muitos poemas dos primeiros livros aparecem com correções de métrica e de
vocabulário, supressão ou alteração de versos, mostrando que Machado de Assis
acompanhava a evolução da técnica literária, posta em evidência pelo
parnasianismo.
A prosa, entretanto, é o terreno em que edificou sua glória. Nela se tornou
mestre e modelo, a seguir e imitar.
Para Lúcia Miguel Pereira, os três primeiros livros Contos Fluminenses,
Histórias da Meia-Noite e Ressurreição, – ele conseguiu fazer “quase
inteiramente maus”. Os contos foram escritos de encomenda, premência de
colaboração para os jamais; o romance foi armado obedecendo a um esquema, e
não contém aquele traço de catarse, de confissão, a presença enfim, do
escritor que precisa libertar-se do tema que o empolga de entusiasmo ou de
angústia. Mas não são matéria a desprezar esses primeiros livros de prosa,
pois, neles, aqui e ali, já desponta o talento que irá dirigir o escritor
sempre para o melhor, o mais alto, como aquele moço do poema de Longfellow, em
cuja flâmula se achava inscrito o lema ad excelsior.
Helena, ainda romântico, de enredo folhetinesco, e Iaiá Garcia, história no
nascimento, vida e glória de um amor, já possuem muito daquele estilo
remanchado, passinho à frente, passinho à trás, que irá darnos a pintura
minuciosa, quase microscópica de Brás Cubas, Quincas Borba, Capitu e Bentinho,
para atingir a cristalização sem jaça do Esaú e Jacó e Memorial de Aires.
Dos contos poderemos citar “A academia de Sião”, “A Igreja do Diabo”, “A
Cartomante”, “Cantiga de Esponsais” , “A Desejada das Gentes”, “Noites de
Almirante”, para falar só dos que reúnem o beneplácido coletivo, embora
saibamos muito incompleta a lista.
Pouco a pouco o estilo de Machado de Assis atingiu a condição de instrumento
afinadíssimo, capaz de entretons, de sugerir mais que dizer, dominando o
leitor, com quem dialoga e discute os estados de alma dos personagens. E a
quem transmite o ceticismo, a dúvida, a ironia melancólica das afirmações
interrogativas, das perguntas que não pedem respostas.
São unânimes os críticos em dividir a obra machadiana em duas fases, ficando
as Memórias Póstumas de Brás Cubas como macro divisório. A Segunda não é,
certamente, a que mais agrada ao grande público, mas é bela que encontramos o
escritor na plenitude do poder criador, do talento e da técnica; nela é que se
devem deter os que desejam estudar a literatura em si, como transmissão de
experiências e como integração de tema e expressão.
Antes de passar à relação das obras do escritor, nada melhor para encerrar
esta biografia, que já vai longo, do que o fecho posto por Lúcia Miguel
Pereira na sua Biografia de Machado de Assis, hoje livro fundamental para o
estudo e o conhecimento do romancista.
“A medida que se vai recuando para o passado, sentimos melhor o que representa
para o Brasil esse mestiço que tanto elevou a sua gente e o seu país, a pureza
dessa personalidade que paira sobre a literatura brasileira, como um símbolo
da nobreza do pensamento e do poder do espírito.”
Citações
” Ela queria um homem que ao pé de um coração juvenil e capaz de amar, sentisse
força bastante para subi-la aonde a vissem todos os olhos.” A Mão e a Luva
“Guiomar, que estava de pé defronte dele, com as mãos presas nas suas, deixou-se
cair lentamente sobre os joelhos do marido, e as duas ambições trocaram o ósculo
fraternal. Ajustavam-se ambas, como se aquela luva tivesse sido feita para
aquela mão.” A Mão e a Luva
“A lei dos contrastes tinha ligado essas duas criaturas, pois tão petulante e
juvenil era a filha de Luís Garcia, como refletida e plácida a filha do Sr.
Antunes. Uma ia para o futuro, enquanto a outra vinha já do passado; e se Estela
tinha a necessidade de temperar a sua atmosfera moral com um raio de
adolescência da outra, Iaiá sentia que havia em Estela alguma coisa que sarar ou
consolar.” Iaiá Garcia.
“Se antes de casar, Iaiá possuía o abecedário da elegância, depressa aprendeu a
prosódia e a sintaxe; afez-se a todos os requintes da urbanidade, com a presteza
de um espírito sagaz e penetrante. nenhuma nuvem do passado veio sombrear a
mente de um ou de outro; ninguém se interpunha entre eles. Iaiá escrevia algumas
vezes a Estela, que lhe respondia regularmente, e no mais puro estilo de
família. De longe em longe a enteada presenteava a madrasta, que lhe retribuía
logo na primeira ocasião. Quanto à encontrarem-se, era difícil; Estela aplicava
todos os seus cuidados à nova ocupação.” Iaiá Garcia
“Quem não sabe que ao pé de cada bandeira grande, pública, ostensiva, há muitas
vezes outras bandeiras modestamente particulares, que se hasteiam e flutuam à
sombra daquela, e não poucas lhe sobrevivem.” Memórias Póstumas de Brás Cubas
“Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis; nada menos.”
Memórias Póstumas de Brás Cubas
“Que era, há um ano? Professor. Que é agora? Capitalista. Olha para si, para as
chinelas (umas chinelas de Túnis, que lhe deu recente amigo, Cristiano Palha),
para a casa, para o jardim, para a enseada, para os morros e para o céu; e tudo,
desde as chinelas até o céu, tudo entra na mesma sensação de propriedade.”
Quincas Borba
“Ao vencedor, as batatas!” Quincas Borba
“Não quis, não levantou a cabeça, e ficamos assim a olhar um para o outro, até
que ela abrochou os lábios, eu desci os meus, e…” Dom Casmurro
“Não, não, eu não sou teu pai!” Dom Casmurro
“Serão grandes, oh! Grandes! Deus há de dar-lhes muitos benefícios. Eles hão de
subir, subir, subir… Brigaram no ventre de sua mãe, que tem? Cá fora também se
briga. Seus filhos serão gloriosos. É só que lhe digo. Quanto a modalidade da
glória, coisas futuras!” Esaú e Jacó
“Nada era novidade para o conselheiro, que assistira a ligação e desligação dos
dois gêmeos. Enquanto o outro falava, ele ia remontando os tempos e a vida
deles, recompondo as lutas, os contrastes, a aversão recíproca, apenas
disfarçada, apenas interrompida por algum motivo mais forte, mais persistente no
sangue, como necessidade virtual. Não lhe esqueceram os pedidos da mãe, nem a
ambição desta em os ver grandes homens.” Esaú e Jacó
“Ora bem, faz um ano que voltei da definitivamente da Europa. O que me lembrou
esta data foi, estando a beber café, o pregão de um vendedor de vassouras e
espanadores: ‘Vai vassouras! Vai espanadores!’ Costumo ouvi-lo outras manhãs,
mas desta vez trouxe-me a memória o dia do desembarque ao meu Catete, à minha
língua. Era o mesmo que ouvi há um ano, em 1887, e talvez fosse a mesma boca.”
Memorial de Aires
“Ao fundo, à entrada do saguão, dei com os dois velhos sentados, olhando um para
o outro. Aguiar estava sentado ao porta direito, com as mão cruzadas sobre o
joelho. D. Carmo, à esquerda, tinha os braços cruzados a cinta. Hesitei entre ir
adiante ou desandar o caminho; continuei parado alguns segundos até que recuei
pé ante pé. Ao transpor a porta da rua, vi-lhes no rosto e na atitude uma
expressão a que não acho nome certo ou claro; digo o que me pareceu. Queriam ser
risonhos e mal se podiam consolar. Consolava-os a saudade de si mesmos.”
Memorial de Aires
“Mas o ilustre médico, com os olhos acesos de convicção científica, trancou os
ouvidos à saudade da mulher, e brandamente a repeliu. Fechada a porta da Casa
Verde, entregou-se ao estudo e à cura de si mesmo. Dizem os cronistas que ele
morreu dali a dezessete meses, no mesmo estado em que entrou, sem ter podido
alcançar nada. Alguns chegam ao ponto de conjeturar que nunca houve outro louco,
além dele, em Itaguaí; mas esta opinião, fundada em um boato que correu desde
que o alienista expirou, não tem outra prova, senão o boato; e boato duvidoso,
pois é atribuído ao padre Lopes, que com tanto fogo realçara as qualidades do
grande homem. Seja como for, efetuou-se o enterro com muita pompa e rara
solenidade.” O Alienista
“Esaú e Jacó” é o penúltimo romance escrito por Machado de Assis, e suas
qualidades resistem ao tempo
Por Elmar Bones
Joaquim Maria Machado de Assis era filho de um “mulato pintor” e uma
lavadeira, “portuguesa ilhoa”. Recebeu títulos e honrarias, foi presidente da
Academia Brasileira de Letras e mereceu um discurso de Rui Barbosa quando
morreu.
Quando menino brincava descalço nas ruas do morro do Livramento, de um Rio de
Janeiro que passava de sede da corte a capital da República. Conheci-o quase
100 anos depois de sua morte, numa tarde na Livraria Farias, em Santana do
Livramento (RS). Atraído pelo título “Esaú e Jacó”, retirei da estante o
pequeno livro da coleção Clássicos Brasileiros da Edições de Ouro. O professor
Alfredo Paiva já havia nos dado uma aula sobre ele e recomendara que lêssemos
os seus livr os, para conhecer a beleza da língua portuguesa. Eu ainda não era
um leitor. Ali em pé, junto à estante, folheei desconfiado as páginas do
livrinho em papel jornal.
“Esaú e Jacó” vem a ser o penúltimo romance de Machado de Assis, depois do
qual viria o fecho, com “Memorial de Aires”… informava a introdução,
assinada por M. Cavalcanti Proença, que eu também aprenderia a admirar ma is
tarde. O intertítulo: ADVERTÊNCIA. E esta abertura, que me prendeu
imediatamente: “Quando o Conselheiro Aires faleceu, acharam-se-lhe na
secretária sete cadernos manuscritos, rijamente encapados em papelão”. O que
se ia ler era o conteúdo do sé timo caderno, designado na capa como Último. Na
cena seguinte duas mulheres sobem o Morro do Castelo no Rio de Janeiro: “Era a
primeira vez que as duas iam ao morro do Castelo Começaram a subir pelo lado
da rua do Carmo. Muita gente há no Rio de Janeir o que nunca lá foi, muita
haverá morrido e muita mais nascerá e morrerá sem lá por os pés. Nem todos
podem dizer que conhecem uma cidade inteira. Um velho inglês, que aliás andara
terras e terras, confiava-me há muitos anos em Londres que de Londres só co
nhecia bem o seu clube, e era o que lhe bastava da metrópole e do mundo”. Eu
não podia comprar o livrinho, mas enfiei-o no bolso sem nenhum remorso…
Mas por que estou falando tudo isso? Ah, sim, estava procurando uns livros
para reler neste inverno e dei de cara com este livrinho que me acompanha há
tantos anos e que sempre me revela coisas. Está amarelado, com um p ouco de
mofo, com alguns trechos que sublinhei a lápis. Para que não digam que sou
egoísta, partilho um deles com os leitores. É o início do capítulo 19.
Titulo:UM GATUNO.
“Chegaram ao largo da Carioca, apearam-se e despediram-se; ela entrou pela rua
Gonçalves Dias, ele enfiou pela Carioca. No meio desta, Aires encontrou um
magote de gente parada, logo depois andando em direção ao largo. Aires quis
arrepiar caminho, não de medo, mas de horror. Tinha horror à multidão. Viu que
a gente era pouca, cinqüenta ou sessenta pessoas, e ouviu que bradava contra a
prisão de um homem. Entrou num corredor, à espera que o magote passasse. Dua s
praças de polícia traziam o preso pelo braço. De quando em quando, este
resistia, e então era preciso arrastá-lo ou forçá-lo por outro método.
Tratava-se, ao que parece, do furto de uma carteira.
-Não furtei nada! – bradava o preso detendo o passo. É falso! Larguem-me! sou
um cidadão livre!. Protesto! Protesto!
-Siga para a estação!
- Não sigo!
-Não siga! bradava a gente anônima. Não siga! não siga!
Uma das praças quis convencer a multidão que era verdade, que o sujeito
furtara uma carteira, e o desassossego pareceu minorar um pouco; mas indo a
praça a andar com a outra e o preso – cada uma pegando-lhe um do s braços – a
multidão recomeçou a bradar contra a violência. O preso sentiu-se animado, e
ora lastimoso, ora agressivo, convidava a defesa. Foi então que a outra praça
desembainhou a espada para fazer um claro. a gente voou, não airosamente como
a andorin ha ou a pomba, em busca do ninho ou do alimento, voou de atropelo,
pula aqui, pula ali, pula acolá, para todos os lados. A espada entrou na
bainha, e o preso seguiu com as praças.
Mas logo os peitos tomaram vingança das pernas, e um clamor ingente, largo,
desafrontado, encheu toda a rua e a alma do preso. A multidão fez-se outra vez
compacta e caminhou para a estação policial. Aires seguiu seu caminho…”
Fonte:
Estudos sobre Machado de Assis Afrânio Coutinho e outros Autores
Enquanto a preparação do combate prosseguia sem desfalecimentos por parte dos republicanos, dos dissidentes e d’uma fracção dos libertários, a policia, reforçada com uma nova remonta de espiões, espreitava ansiosa a agitação que percebia na sombra. De vez em quando, julgava apanhar uma nesga de luz e ficava amarrada por instantes a um rasto sem valor. Para não perder de todo o tempo e o feitio, vigiava impertinentemente as criaturas em evidencia no partido republicano, sem selecionar de entre elas as que conservavam realmente n’essa ocasião estreitas ligações com os revolucionários. Marchava ás apalpadelas. Embasbacava ante o menor grupo de transeuntes pacíficos. Percorria os cafés, disfarçada em padres, mestras, mendigos e moços de esquina, escutava ás portas, farejava o ambiente e esquecia-se exatamente de topar com um dos muitos caixotes de bombas que, em pleno dia, e ás costas de galegos, se entrecruzavam nas ruas de Lisboa.
Alcântara, os Lobos e até o Chiado, estavam minados de explosivos. No Bairro Alto havia depósitos d’armas que despertariam a inveja d’um arsenal. Conspirava-se por todos os cantos, segredavam-se instruções, as reuniões secretas de oficiais tornavam-se mais frequentes, as lojas dos armeiros esvaziavam-se como por encanto. Nada faltava para o bom êxito. De tudo se cuidara, até dos serviços de ambulância e manutenção. As ofertas afluíam de todos os lados. (Um benemérito pôs á disposição dos conspiradores uma carroça cheia de chouriços).
A febre revolucionaria não diminuía. Aproximava-se a data solene. Alguns dias mais e sobre Lisboa cairia durante horas uma verdadeira chuva de fogo…
É n’esse momento critico da organização da revolta que a policia tem um alegrão. Apanha, quais sem dar por isso, um rasto de certa importância e desata a explora-lo com uma fúria indescritível. Efetuam-se as primeiras prisões de elementos revolucionários conhecidos, tentando-se assim fazer abortar, pela clausura dos chefes, o movimento projetado. Contemos pormenorizadamente como isso se deu.
Alfredo Leal fora incumbido de adquirir armamento para os 280 assaltantes dos quarteis, missão de que se desempenhou rebuscando as casas de penhores, armeiros, etc. Como as ordens da policia eram apertadas, fez essas compras pretextando umas encomendas da província para confecção de panóplias e, ainda com o intuito de não despertar desconfianças, munia-se sempre de dois recibos, um com desconto e outro sem desconto, que era o destinado ao freguês. O dinheiro para esse armamento forneceram-no, além do Diretório, José Relvas, que contribuiu com uma importante quantia, o africanista João Baptista de Macedo e outros indivíduos dedicados á boa causa.
Não tardou, portanto, que os armazéns Leal, da Rua de Santo Antão, ficassem transformados em arsenal, onde Álvaro Pope, João Chagas e José Freitas Ribeiro analisaram detidamente o material destinado á revolta. Esses armazéns já tinham ao tempo uma fama revolucionaria, porque desde muito eram o rendez-vous dos insubmissos. Os conspiradores conheciam as suas salas pelas salas dos passos perdidos… Para o movimento de 28 de Janeiro também serviram quais diariamente ás reuniões de oficiais do exercito de mar; para lá enviou o der. Alberto Costa duas caixas de bombas que mais tarde saíram, a pau e corda, dos armazéns para o consultório do der. Gonçalves Lopes; ali se reuniram diversos cabos e praças da guarda municipal aquartelada próximo das Necessidades, que faziam então causa comum com os revoltosos, e os sete grupos de 40, 60 e 30 homens destinados ao assalto aos quarteis. A essas reuniões assistiam sempre João Chagas, Álvaro Pope e Alfredo Leal. O proprietário dos armazéns chegou a mandar fazer caixas de embarque e n’esse estabelecimento se encaixotaram as armas dos grupos populares, que saíram para o seu destino levando esta marca: Telmo Bandeira, S. Thomé. E a policia, sempre ás aranhas…
Como descobriu ela, afinal, o tal fio da conspiração a que atrás aludimos? D’este modo: ao chefe d’um dos grupos populares, Victor de Sousa, agregou-se mais um combatente, um policia, seu compadre e amigo, de serviço, ao que parece, á porta do ditador. Iniciou-o no mistério, indicando, ao mostrar-lhe as armas já em sua casa na rua Luz Soriano, que João Chagas e Alfredo Leal eram os incumbidos especialmente d’essa distribuição de alta responsabilidade. Na madrugada seguinte era preso Victor de Sousa. Alfredo Leal tinha ainda nos armazéns grande quantidade de armamento por entregar. Apesar do segredo em que a policia envolveu aquela captura, Affonso Costa e João Chagas souberam-na a tempo e pelo telefone avisaram o proprietário dos armazéns para que pusesse a salvo as armas restantes. Após o aviso, o visconde da Ribeira Brava correu á rua de Santo Antão. Os armazéns estavam cercados pela policia. Era urgente proceder com habilidade e frustrar os desígnios do juízo de instrução.
Os armazéns tem uma portinha que deita para as escadinhas de S. Luiz em frente da entrada do Coliseu dos Recreios. A saída das armas devia ser feita por essa portinha, caso a policia não houvesse dado por ela… como não deu. As armas foram enroladas, em tapetes e, constituindo três fardos, Alfredo Leal, seu filho José Baraga Leal e um criado de confiança, transportaram-nas á calçada de Sant’Anna, onde o visconde da Ribeira Brava as esperava mentido n’um choupe, para as ir ocultar provisoriamente na sua casa, em plena Avenida da Liberdade. O material da revolta salvou-se, mas na madrugada seguinte Alfredo Leal era preso no Da fundo. João Chagas, que na véspera jantara com ele na Charcuteiro Françoise, cairá em poder da policia ao sair d’esse estabelecimento da rua Nova do Carmo. Escusado será dizer que as buscas empreendidas nos armazéns da rua de Santo Antão não deram o mais insignificante resultado. No entanto, o ditador fazia espalhar pouco depois que a policia tinha ali encontrado armas e bombas em abundancia…
N’esta altura da narrativa cabe referir que muitos dos indivíduos, tanto da classe civil como da classe militar, implicados na conspiração, só foram sobejamente conhecidos do publico quando, insistindo na conjura, se misturaram á organização da revolta de 4 e 5 de outubro. Outros houve, em compensação, que, vendo malogrados os esforços aplicados ao 28 de janeiro, abandonaram definitivamente os trabalhos revolucionários e foram surpreendidos pela proclamação da Republica n’um alheamento completo da agitação politica.
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D. Manoel II
O almirante Candido dos Reis, cuja ação no complot de 4 e 5 de outubro teve uma evidencia excepcional, garantindo, além de tudo o mais, pela sua figura de destaque, a adesão de diversos oficiais do exercito de mar e terra, no 28 de janeiro sobressaiu por uma forma inolvidável. Sob as suas ordens é que devia dar-se então o assalto ao S. Gabriel e ao quartel dos marinheiros; com ele conferenciaram muitas vezes o s.r. Alapoem e outros elementos da revolta; para ele estava naturalmente destinado um papel preponderante, muito embora da sua ação individual não dependesse, como de facto não dependia, pôr em andamento, com determinado sinal e no momento dado, o complicado mecanismo da revolução; com ele estavam prontos a exercer ação decisiva alguns oficiais dos quase ninguém suspeitava e que á quais totalidade dos monárquicos pareciam indiferentes ou pelo menos indecisos.
Assim, a policia, prendendo alguns dos vultos do partido republicano que, a bem dizer, não ocultavam as suasdémarches revolucionarias, deixava exatamente fora da rede de perseguições uma boa soma de executores d’esse plano maduramente combinado e que, uma vez resolvido o ataque formal ás instituições monárquicas, eram capazes de, readquirindo certa autonomia, lançar fogo ao rastilho previamente preparado. É voz corrente que o movimento do 28 de janeiro esteve para explodir antes d’essa data e que n’aquele mesmo dia sofreu de hora para hora diversos adiamentos. Pois não andará longe da verdade quem afirmar também que, se as prisões efetuadas na segunda quinzena de janeiro embaraçaram fortemente a eclosão do movimento, só uma intervenção muito especial é que impediu que, apesar de tamanho contratempo, a tentativa de revolta se esboçasse com uma nitidez assombrosa.
Por mais do que uma vez, quando nos dirigentes da conspiração lavrava, não diremos desanimo, mas compreensível relutância em impelir para o campo de batalha a grande massa organizada dos revoltosos, houve necessidade de refreia com energia os ímpetos generosos de criaturas ardentes, iluminadas, que não consentiam um minuto de reflexão sobre a oportunidade da explosão revolucionaria. Essas criaturas tudo sacrificavam ao desejo irreprimível de combater a monarca a. E uma d’elas, ponderando-se lhe um dia que, estando presos em quarteis da municipal elementos de valor não só no partido republicano como na organização do movimento, a menor agitação extemporânea, a menor revolta imprudente, provocariam, sem duvida, a sua condenação á morte, uma d’elas, repetimos, depois de pesar o argumento, replicou sem comover-se:
—Que importa!… São mais três ou quatro cadáveres!…
Mas, retomemos o fio da narrativa. Presos e incomunicáveis dois dos chefes da revolta, acompanhados d’outros indivíduos de menores responsabilidades na empresa, não ocorreu, como seria logico, uma paragem na sua organização. A ida predominante, n’essa ocasião, não foi a de sustar os preparativos revolucionários. Foi exatamente a oposta: foi a de se dar pressa ao rebentar da bomba, porque todos ou quais todos se convenciam de que o ditador não perdoava aos inimigos das instituições monárquicas. Para mais, n’essa altura do complot, o governo João Franco, ainda que não possuísse na sua mão todos os fios do trama revolucionário, sabia muito bem, por informações d’uma relativa precisão de pormenores, que o movimento não era limitado a uma simples insurreição de quartel nem a uma manifestação armada de meia dúzia de visionários.
O governo João Franco sabia perfeitamente que na conjura entravam tropa e a classe civil, que, se a primeira estava armada, a segunda não sairia á rua desprevenida e que a monarca a vivia sobre a ameaça constante da fornalha republicana, para a qual a ditadura deitara o melhor do seu combustível.
Mas se o governo João Franco sabia tudo isto que o levava a acautelar-se o melhor possível contra a probabilidade de gravíssimos acontecimentos, ignorava, por outro lado, a fé que dominava o povo aliciado para a revolta. O governo João Franco não fazia caso nenhum d’esse povo, calculando erradamente que a massa soberana e anônima só se moveria tendo á frente os seus grandes ídolos partidários. Ignorava absolutamente a importância e a valentia d’essa massa e de quanto ela é capaz, lançada decididamente no caminho da reação ao despotismo. O povo sem Antônio José, João Chagas, etc.—pensava o ditador—não se atreve a protestar com as armas na mão. Uma vez presos esses homens, os revolucionários civis abstém-se da luta e ficam só em campo os militares, que uma serie de medidas urgentes e rigorosas recolhe igualmente á inação e ao silencio. Assim pensava o governo João Franco alguns dias antes do 28 de janeiro e assim tinha pensado o juiz de instrução criminal, na parte referente a fabricantes de bombas, quando a explosão da rua do Carrilhão lhe entrou pela porta dentro e desautorizou, por completo, a famosa lista negra do Cyro. Um e outro viviam redondamente enganados.
Fonte:
A Revolução Portugueza O 5 DE OUTUBRO (Lisboa 1910)
POR JORGE D’ABREU 1912
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