Archive for setembro, 2011

JOÃO SALOMÉ QUEIROGA (1810 – 1878) – História do Romantismo no Brasil


Nasceu João Salomé Queiroga, na cidade de Diamantina, segundo uns, e na Vila do Príncipe, hoje cidade do Serro, segundo outros. Não ha certeza também sobre a data do seu nas­cimento, que é fixado em 1810 ou 1811. Sabe-se que fez os seus primeiros estudos em sua província natal, tendo seguido depois para Olinda, onde se bacharelou em ciências jurídicas no ano de 1837.

Quando em São Paulo, em 1828, fez parte da Sociedade Filomatica, com seu irmão Antonio Augusto Queiroga, Francis­co Ribeiro, Fernandes Torres, Carneiro de Campos e outros. Exerceu a magistratura em Minas Gerais e Pernambuco, tendo sido nomeado desembargador da Relação desta Provincia, car­go que não chegou a exercer.

Em Minas, já na velhice, dedicou-se á advocacia, tendo si­do juiz de direito em Ouro Preto, onde faleceu repentinamente no dia 2S de Agosto de 1878.

Salomé Queiroga colaborou em diversos jornais do Rio de Janeiro, Minas e Pernambuco, especialmente na  Actualidade, que se publicava no Rio, sob a direcção de Flavio Farnése e Ber­nardo Guimarães, e no Jequitinhonha, de Diamantina.

Publicou dois livros de poesias e um romance. “São publi­cações serôdias e tardias, escreve Silvio Romero, mas têm prestimo; são de 1870 a 73; porém encerravam versos, de 1829″ por estes versos é que o velho mineiro entra neste capitulo, pois foi ele um dos mais interessantes  poetas do periodo de transição romantica, muito embora não houvessem as suas poesias  aparecido em momento oportuno. Silvio Romero acha que o prologo  do Canhenho de poesias brasileiras,  seria o prefacio do Cromwell do nosso romantismo, “se fosse bem escrito e aparecesse oportunamente”.

João Salomé Queiróga, guardou por muitos anos a sua produção, publicando-a quasi “guidamente no Rio de Janeiro, entre os anos de 70 e 73.

São as seguintes as suas obras publicadas:

Canhenho de poesias Brasileiras – Tip. de E. e H. Laemmerk _ Rio _ 1870 – 212 pgs. in 8.°.

Arremedos _ Lendas e Cantigas  populares – Tip. Perseverança _ Rio – 1873 – in 8.°.

Maricota e o padre Chico – Lenda do Rio São Francisco

_ Tip. Perseverança _ Rio – 1871 – 133 pgs. in 8.º.

Salomé Queiroga foi um dos continuadores do lirismo mineiro, placido e singelo, sem grandes arroubos ou vôos altaneiros. A sua poesia é antes simples, algumas vezes  humorística, mas sempre espontânea e pessoal, salvo aquelas em que o poeta foi buscar sua inspiração nas poesias de Victor Hugo. Destas,  Silvio Romero respigou algumas vasadas nas Contemplações.

A poesia popular e lendaria, que predominou na obra poetica de Salomé  Queiroga traz nos versos do velho mineiro a nota caracteristica do romantismo da segunda geração, da qual ele foi um dos mais nítidos preculsores.

O velho Queiroga era um temperamento romantico, nacionalista, e tinha a preocupação do brasileirismo na literatura. Nos Arremêdos, declara explicitamente ter garbo em escrever em linguagem brasileira, condenando alguns escritores brasileiros que ainda se ”aferram á velha estrada portuguesa”. Este seria o pensamento de José de Alencar, alguns anos depois.

” Nossa linguagem – escrevia Salomé Queiroga – que tem sido até pouco tempo só portuguêsa, vai-se refazendo com os novos escritores e para o futuro ela será outra bem diversa. O gosto nacional é o grande acontecimento do fim do século, ele vai-se apoderando de tudo, faz erupção por toda a parte e tudo inunda”.

Estas palavras encerram o programa do nosso romantismo, que, entre nós, foi uma das expressões mais nacionalistas da vi­da brasileira.

A poesia popular e sertaneja, cultivou-a Salomé Queiroga com incontestável superioridade, e neste particular muito se aproxima dos mais notaveis poetas da pleiade nortista da segun­da geração, sendo muitas vezes superior a alguns deles.

Silvio Romero tratando com demasiada severidade o velho Salomé, não trepida em acusá-lo de plagiario, comparando sete peças líricas, respigadas das Contemplações de Victor Hugo, com outras tantas do vate mineiro. Não vemos, examinando cui­dadosamente estes versos, que o autor dos Arremêdos, haja co­piado o poeta das Orientais. Jaboti, Aza de amor, Suplica, Pi­tanga-doce e tantas outras, são antes para frases, onde se nota mais uma forte influência do genio francês, que uma apropria­ção indebita dos versos hugoanos.

Apesar da afirrnativs de Silvio Romero, de que a copia ha­via sido completa, não lcgramos encontra-la. Nos versos dos dois poetas, o francês e o brasileiro, só conseguimos divisar os pon­tos de contacto proprios das parafrases e traduções. Estas, fê­las o velho mineiro, com muito engenho e muito talento.

A olharmos a nossa literatura, e mesmo a exotica, através da lente com que o ilustre critico sergipano examina o poeta mi­neiro, quantos plagiarios andarão pelas letras nossas e estranhas? No Romantismo, a predilecção por determinados autores e á in­fluência de certas correntes foi tão grande, que nos leva a duvi­dar da originalidade de certos escritores, juizo que, depois de acurado exame, somos imparcialmente levados a modificar.

Mais tarde, no Compêndio da História da Literatura Bra­sileira, o proprio Silvio Romero, talvez chamado á razão pelo Sr. João Ribeiro, modificou a sua atitude anterior, julgando que Salomé Queiroga “imita, parafraseia ou traduz, principalmente a Victor Hugo, mas com talento poetico”. (1)

(1) Silvio Romero e J. Ribeiro – Compendio de História da Literatura Brasileira – cít., pg· 196.

Este julgamento é exacto e com ele concordamos inteiramente.

Nas poesias de Salomé Queiroga, aparece de vez em quando a nota satírica, genero que aliás manejava com dificuldade. As suas convicções politicas e “ideais extremados de liberalis­mo, _ escreve Xavier da Veiga, – deram a grande numero de suas composições poeticas a nota satírica não só partidaria mas pessoal: neste ponto, ultrapassando as raias convenientes, ia além do insigne Nicolau Tolentino que só visava dar “golpe nos costumes”. (2)

(2) Xavier da Veiga _ Efemerides Mineiras – cít., III – pg.282.

E’ especialmente na poesia tradicionalista, lendaria e popular que achamos as melhores produções de Salomé Queiroga. O Irmão Lourenço, o Menino Diabo, a Negra, a Mulata, a La­vadeira do Lucas, e quantos outros, são magnificos especimens no genero em que mais tarde brilhariam os poetas nortistas da segunda geração romantica.

O veio explorado por Salomé Queiroga, trinta anos antes de Trajano Galvão, Gentil de Almeida Braga e Juvenal Galena, mostra-nos que o velho mineiro já tinha concretisado em sua alma o espirito nacionalista, que daria ao nosso Romantismo as suas mais belas criações. Nisso está o seu maior merecimento.

 

 

Fonte: PARANHOS, Haroldo. História do romantismo no Brasil. São Paulo: Edições Cultura Brasileira, 1937

ANTONIO AUGUSTO DE QUEIROGA (1812-1855) – História do Romantismo no Brasil


Nasceu Antonio Augusto de Queiroga, na então vila do Principe, hoje cidade do Serro, na provincia de Minas Gerais, em 1812 ou 1813.

Ainda hoje faltam documentos para precisar a data do nascimento do poeta mineiro, bem como outros pontos de sua biografia. Sabe-se que, concluiem os preparatorios em sua provin­cia natal partiu para S. Paulo, onde se matriculou na Academia de Direito, em 1830.

Fez parte de uma turma academica que daria ao Imperio um punhado de homens ilustres: – Francisco Bernardino Ri­beiro, Joaquim lnacio Ramalho (Barão de Ramalho), João Cris­piniano Soares, João Carlos da Silva Teles, Joaquim Octaviano Nebias, José Ildefonso de Souza Ramos (Visconde de Jagua­rí), e Francisco de Paula de Negreiros de Saião Lobato (Visconde de Niteroi).

No seu tempo, foi Queiroga um dos poetas mais interessan­tes da Academia, sendo então celebradas as suas qualidades de satírico e repentista.

Em 1833 escreveu a Vida do Estudante, uma das suas mais afamadas inspirações poéticas, e que até 1860 foi o hino acade­mico dos estudantes de S. Paulo.

Foi Antonio Queiroga, neste mesmo ano de 33, um dos fun­dadores da Sociedade Filomatice, da qual faziam parte, Bernardino Ribeiro, João Salomé Queiroga, Carneiro de Campos e Jus­tiniano José da Rocha. Este gremio publicou uma revista lite­raria – Revista da Sociedade Filomatica, – que se destinava “a coadjuvar a marcha lenta, mas sempre progressiva da civí­lização brasileira, com todos os esforços, ainda que minguados, que se compadeçam com a debilidade de suas forças”, consoante as palavras com que se apresentava o seu primeiro numero. (14 de Junho de 1833).

Tendo recebido o diploma de bacharel em direito em 1834, logo depois retirou-se Queiroga para Minas, indo residir em Diamantina, onde por muitos anos exerceu a advocacia. Ingres­sando mais tarde na magistratura, foi juiz de direito na comar­ca do Serro, tendo falecido em Diamantina no ano de 1855.

Não deixou coligidas as poesias que escreveu, e o pouco que se conhece de sua musa. é o que foi publicado no Parnaso Bra­sileiro (1843) de Pereira da Silva (Tomo II – pgs. 289 a 295), e no Florilegio da Poesia Brasileira de F. A. de Varnhagen (Vol. 3.° – pg. 133).

A Vida do Estudante foi publicada no Almanaque literario de S. Paulo (Tomo IV – pgs. 233-36). Conhece-se ainda de Antonio Queiroga um madrigal inserto nas Obras de Alvares de Azevedo, e uma quadra citada por Sacramento Blake, que o poe­ta mineiro fizera ,gravar num tumulo do cemiterio de Diaman­tina. Nada mais conhecemos do autor da Vida do Estudante, e nem nos consta que haja por aí mais  alguma cousa.

Na fase de transição romantica, Antonio Queiroga aparece como precursor da poesia popular e sertaneja, qualidades, aliás, mais acentuadas em seu irmão João Salomé Queiroga.

A sua poesia lírica já traz bem nítido o sentimento roman­tíco, apesar da forma classica do verso. Tal é a sua Lira ao Sa­biâ, a melhor das suas composições publicadas:

”Tudo é silencio no bosque!

Sabiá cantando amores,

Só povôa a solidão,

Em debil ramo, saudoso

Desoante, geme e suspira…

Ah! junta, cantor plumoso,

Junta aos sons da minha lira

Teu canto melodioso …

 

Tua musica suave

E’ doce como a lembrança

Que em desabrida tormenta

Forma a nota da bonança:

Dize, tu cantas zeloso?

Ou feliz amor te inspira?

Ah! junta, cantor plumoso,

Junta aos sons da minha lira,

Teu canto melodioso …

 

Livrem-te os céos do ciume,

Meu querido passarinho;

E que a tua amante ingrata

Te menospreze o carinho.

Mas tu não cantas queixoso,

Amor teus versos inspira.

Ah! junta, cantor plumoso,

Junta aos sons da minha lira

Teu canto Melodioso … ”

Neste fragmento descobre-se que o autor possuía uma ní­tida intuição do lirismo objectivo, tal como  seria depois cultívado por Gonçalves Dias e Porto-Alegre.

O Carrasco e O Retrato, são respectivamente, uma ode e uma cantata, onde se salientam as mesmas qualidades poéticas de Queiroga.

A Vida do Estudante, que foi a poesia mais conhecida e po­pular de Antonio Queiroga, lida hoje, parece-nos prosaica e sem inspiração. Vejamos alguns fragmentos da velha canção acade­mica que, até á segunda geração romantica, enchia de entusias­mo a alma dos moços estudantes de S. Paulo:

“Triste vida a do estudante

Vida triste e malfadada,

Que com a réles mesada

Passa misérias.

 

Esperando pelas férias

A ver se ganha dinheiro,

Passa o ano inteiro

Vida mofina.

 

Que a fome bem nos ensina

A não ser púlanfrorio;

E’ viver num purgatorio

Não ter comida.

 

Arrenego eu da vida

Que nos faz tanto penar

Sómente para  alcançar

Um pergaminho.

 

Andarmos tanto caminho

Té chegar á Pauliceia,

Ganhamos linda tetéia

- Bola encarnada!

 

Começa nossa massada,

Por aturar veteranos,

Que nos tecem mil enganos

E nos desfrutam.

 

As horas sete se escutam

No triste sin0 tocar,

Que nos fazem levantar

Da quente cama.

 

E vamos ao malfadado

Convento de São Francisco

Ainda correndo o risco

Das caçoadas.

 

Vem a feroz crueldade

Da embirrante Filosofia,

Retórica e Geometria

Com que suamos.

 

Os sustos, que então sofremos,

De algum – R – levar

Não se podem comparar

Com os de morrer”.

 

E nessa toada monotona continúa a poesia, em cuja musica deveria estar a razão da celebridade que desfrutou, pois nos versos nada ha que justífique trinta anos de popularidade, São medíocres e prosaicos. Todavia, a mediocridade ás vezes é uma cousa util e absolutamente necessária, segundo um conceito de Amadeu Amaral, conceito que se enquadra perfeitamente ao papel desempenhado por Antonio Augusto Queiroga, na evolu­ção do romantismo brasileiro.

 

Fonte: PARANHOS, Haroldo. História do romantismo no Brasil. São Paulo: Edições Cultura Brasileira, 1937

JOÃO DE BARROS FALCÃO DE ALBUQUERQlUE MARANHÃO (1807 – 1881) – História do Romantismo no Brasil


Nasceu Barros Falcão em Pernambuco, no ano de 1807, sendo filho do Dr. Antonio Inacio de Barros Falcão de Albuquerque Maranhão, descendente de nobre e velha estirpe pernambucana.

Fez seus estudos de preparatorios em Olinda, em cuja Faculdade de Direito se matriculou, recebendo a laurea de bacharel em ciências jurídicas em 1837.

Segundo Sacramento Blake, foi Barros Falcão membro da Arcadia de Roma, com o criptonimo de Eumenio Eladiense.

Desde muito jovem, influenciado pelos movimentos revolucionários de 1817 e 24,  foi Barros Falcão um republicano de ideias ultraliberais, que ele prêgava sem rebuços, muitas vezes com risco de sua segurança pessoal. Este seu idealismo teve a desvantagem de coloca-lo em luta com o meio, de onde resultou “viver repelido de todas as posições, ludibriado e escarnecido”, consoante o testemunho de Silvio Romero, que o conheceu em plena decadenciamental, quando o desventurado poeta já nas convisinhanças da loucura, passava os dias palmilhando as ruas de Recife.

Ridicularisado por aqueles que o não compreendiam e jul­gavam vã e louca a sua eloquencia impressionante, foi o poeta mais de uma vez vaiado em Recife, onde era conhecido pela al­cunha de Barros Vulcão.

Depois de uma longa vida, que desperdiçou perambulando pelas ruas da capital pernambucana, faleceu Barros Falcão, em completo estado de loucura, na cidade de Recife, aos 20 de Se­tembro de 1881.

Publicou Barros Falcão urn volume de poesias, sob o titulo de Poesias de João de Barros Falcão de Albuquerque Maranhão – Pernambuco – 1850 – in 8.°; uma Ode ao lImo. e Exmo. Sr. Tomaz Antonio Maciel Monteiro, fidalgo da Casa Imperial, comendador da Ordem de Cristo, Barão de Itamaracá _ Per­nambuco – 4 pgs. in 2.°; e o Trena da Saudade que O. C. e D. a IIma. e Exma, Sra. XXX, em sinal da mais alta estima, pro­fundo respeito e eterna adoração. – in – Diario de Pernambu­co, de 30 de Agosto de 1880.

Às melhores produções poéticas de Barros Falcão foram escritas antes de 1831 e já trazem quasi todas a nota de lirismo romantico, que caracterisou a fase de transição. As suas poesias posteriores a 31, já denotavam o desarranjo mental do autor, quer em certos exageros de figuras, quer nos aspectos dispara­tados de suas composições:

”Perdendo a razão o eterno lume,

Vejo sempre Neptuno exasperado

Acoitando as estrelas cintilantes,

Em continua borrasca o mar fervendo,

E de um sorvo engulir milhões de mundos !”

Barros Falcão foi uma das figuras mais nítidas de transi­ção do lirismo clássico para o lirismo pessoal do romantismo. E’ lamentavel que se hajam perdido as suas melhores produções, pois seriam elas magníficos documento, para o estudo do periodo de transformação romantica que se desenvolveu em torno da Academia de Olinda, ao tempo que em São Paulo os Queirogas, Bernardino Ribeiro, Firmino Rodrigues da Silva e outros, ini­ciavam no Convento de São Francisco o movimento preparatorio do romantismo brasileiro.

Vejamos uma das poesias mais celebradas do vate pernambucano, e cujos versos denunciam nitidamente o periodo em que foram escritos:

”Da razão é lei sublime

Que se ame com singeleza

O que manda a natureza

Não se póde chamar crime,

O céu mesmo é quem imprime

Nos peitos esse alma ardor …

Longe o fanático horror

Que a tantos povos ilude!

Não é crime, antes virtude,

O crime que causa amor.

Quem terna paixão reprime

Esse sim, esse é culpado;

Mas amar e ser amado

Não se póde chamar crime.

Quem de perpetrar se exime

Terno crime sedutor?

O animal, a planta, a flor,

Vivem de amorosa lida:

E’ crime que nos dá vida

O crime que causa amor.

 

Sistema que nos oprime

Chama delito a inocencia;

Mas amor, de um Deus essencia,

Não se póde chamar crime.

 

Sigamos a lei sublime

Do supremo criador,

Gosemos o puro ardor

Que a natureza nos deu;

Si é crime, é crime do céu

O crime que causa amor.

 

Na voz da razão se exprime

A luminosa verdade:

Sacra lei da divindade,

Não se pode chamar crime.

“Humanos, eia! – segui-me”

Nos diz celeste mentor:

Crime dos céus é melhor

Do que as virtudes da terra;

E’ crime que gloria encerra

O crime que causa amor”.

Barros Falcão foi um “martir do ridículo”, na expressão de Silvio Romero, e é hoje uma figura quasi esquecida em nossa historia literaria. Dele, disse o insigne crítico sergipano que, “idealista e fantástico, alimentou-se de quiméras durante sessenta anos”.

 

Fonte: PARANHOS, Haroldo. História do romantismo no Brasil. São Paulo: Edições Cultura Brasileira, 1937

FREI FRANCISCO DE SÃO CARLOS (1768 – 1829)


Frei Francisco de São Carlos nasceu no Rio de Janeiro, aos 13 de Agosto de 1768, tendo recebido na pia baptismal o nome de Francisco Carlos. Seus pais, José Carlos da Silva e D. Ana Maria de Jesus, em obediencia aos seus sentimentos religiosos internaram-no aos 13 anos de idade na Ordem Seráfica da Ima­culada Conceição. Foi mais tarde mandado para o convento da Ordem, na extinta vila de Santo Antonio do Macacú, onde professou.

Pereira da Silva, no Plutarco brasileiro, registra a data de 13 de Agosto de 1763 para nascimento de Frei São Carlos; de acôrdo com Silvio Romero, aceitamos o ano de 1768.

Aperfeiçoou-se nos estudos de teologia e filosofia, sendo nomeado professor substituto destas materias.

Em 1790 foi mandado para São Paulo lecionar teologia do­grnática, cargo que exerceu durante cinco anos com largo saber e proficiencia. Regressou em 1796 para o Rio de Janeiro, sendo, então, nomeado comissário dos terceiros da Ordem da Peniten­cia. Neste cargo fez uma visita ás ordens terceiras e confrarias franciscanas na Capitania de Minas Gerais.

Em 1801 foi designado para exercer o lugar de professor de eloquencia sagrada no Seminario de S. José. Exerceu ainda o cargo de guardião dos conventos do Bom Jesus e da Penha, no Espirito Santo.

Em 1809, ao chegar ao Rio de Janeiro a familia real por­tuguêsa, já era Frei São Carlos um emerito prégador e uma no­tavel ilustração. Dotado de grande eloquencia e possuidor de uma voz melodiosa e quente, possuia um sincero entusiasmo re­ligioso que mais realçava a sua figura bela, vistosa e elegante. “Assemelhava-se á de S. Basilio, como no-lo pintam as antigas gravuras, e no-lo descrevem as velhas crónicas: deus olhos gran­des e negros patenteavam o fogo, que dentro n’alma lhe ardia; bôca rasgada e formosa deixava sair um som como que musical, que deslisava perfeito e acabado orgam”.

Foi nessa época que o principe regente D. João, sincera­mente entusiasmado com a prodigiosa eloquencia de Frei S. Carlos, o nomeou prégador da Capela Real e agraciou com o ti­tulo de examinador da Mesa de Consciencia e Ordens.

Sentindo que lhe fraquejavam as forças recolheu-se ao iso­lamento do claustro, onde findou seus dias, aos 6 de Maio de 1829, sendo sepultado da igreja do Convento de Santo Antonio.

Além de orador, foi Frei Francisco de São Carlos um poe­ta eminente. Nesta qualidade, pela obra que nos legou em plena transição romantica, é que o consideramos uma das mais distin­tas figuras de nossa literatura; no principio do seculo XIX.

A sua unica obra publicada foi o poema sacro em oito can­tos, A Assunção da Santissima Virgem. — Tip. Regia — Rio de Janeiro — 1819 — in-8.°. Uma segunda edição foi dada mais tarde pelos livreiros B. L. Garnier — Rio de Janeiro — 1862.

As demais obras poeticas do franciscano fluminense não fo­ram publicadas, e provavelmente extraviaram-se, como aconteceu com tantos outros preciosos documentos de nossa literatura colonial.

O poema de S. Carlos é dividido em oito cantos, em versos decassilabos, de rimas emparelhadas, o que dá grande mo­notonia ao rítmo.

“A ligeira produção que encéto, escreve o poeta no Prologo de sua obra, não é mais do que um brinco da minha fantasia, so­bre a maior solenidade da Santa Virgem, á qual solenidade, des­de os primeiros anos consagro especial afecto. Porém, para mais espaçar, e lisongear melhor a minha devoção, procurei dar-lhe um arremedo ou sombra de poema épico, admitindo invocação, narração e episodios”.

O assunto escolhido por Frei S. Carlos, árido e esgotado, não se prestava a uma epopeia. Além disso faltavam ao poeta qualidades de épico, de forma que o poema, pobre de inventiva, repete em muitos episodios velhos motivos já repisados, por Ben­to Teixeira, Frei Itaparica e Durão.

O primeiro canto começa com uma invocação, á maneira camoneana :

“Oh! tu, grande sinal, raro portento

Dos sec’los, e do etéreo firmamento,

Nova ideia brilhante, a mais perfeita,

Do arquetipo exemplar; e tão aceita,

Que chegaste a ser dele, — ó maravilha!

Bôa mãe, linda esposa e cara filha:

Aspira os votos meus, e que meu canto

Cause á terra prazer, e ao Orca espanto.

Aspira, ó Virgem, porque cante e diga

Quanto a verdade, e a devoção me obriga!”

Descreve, depois, a ascenção da Virgem e a sua chegada ao céu, onde é recebido pelos Apostolos, sendo colocada em um carro triunfal, á maneira das deusas pagãs.

No segundo canto a Virgem é transportada ao Paraiso, enquanto o Demonio, revoltado, é vencido pelo arcanjo S. Mi­guel.

No terceiro, o melhor do poema, esboça o poeta francisca­no o Paraiso, pintando-o com paisagens brasileiras e descreven­do as frutas, plantas e animais do Brasil, que ali se encontravam:

“A doce manga, e em cheiro soberana,

Que imita o coração, e no galho ufana.”

0u adiante:

“Pendendo então dos ramos verdejantes

Os cajús, á saude tão prestantes;

Uns amarelos, e outros encarnados,

Das gostosas castanhas coroados:

Do limão virginal, da aurea laranja,

Pomos d’oiro, talvez, que em vossa granja

Hesperides zelaveis . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . “

No quarto e quinto canto, faz o poeta uma narrativa da pré­gação dos Apostolos e das perseguições sofridas pela Igreja.

No sexto, faz a descrição da cidade do Rio de Janeiro, com­parando a sua natureza ás ruinas do antigo Egipto. Como Alva­renga Peixoto, sonhou com um imperio luso-americano, com sé­de no Rio de Janeiro:

“A cidade, que ali vêdes traçada,

E que a mente, vos traz tão ocupada

Será nobre colonia rica e forte,

Fecunda em genios, que assi o quis a sorte.

.       .       .       .       .       .       .       .       .       .      .      .

Será de um povo excelso, germe airoso,

Lá da Lisia o lugar mais venturoso;

Pois dos Luso-brasileiros um dia

O centro deve ser da monarquia.”

Nos dois ultimos cantos, vencidas as hordas de espíritos infernais, entra a Virgem vitoriosa na Cidade de Deus, entre cânticos e hinos.

Os poemas de Dante, Milton e Klopstock, inspiraram mui­tas vezes o cantor franciscano, e em certos episodios, como na descrição do Cáos, sente-se bem a influencia destes grandes épicos:

“Não é tão feia, não, a noite um brasa,

Que apanha o viajar em mata idosa,

Perdido entre fusís, raios frequentes,

Uivos de tigres, silvos de serpentes,

Como este monstro singular, e incrível,

Quasi sem forma, quasi indefinível.”

Conquanto o poema de Frei São Carlos não seja um “poe­ma eminentemente nacional”, como o qualifica O Conego Fer­nandes Pinheiro, ou que, a sua inspiração rivalise com Mil­ton ou Klopstock, tambem não chega ao extremo oposto, como pretende José Veríssimo, que além de acha-lo de um modo ge­ral, prosaico e sem grandeza, não encontrou em todos os seus cantos, “um episodio ou trecho realmente belo”. Essa má von­tade do eminente crítico paraense para com todas as obras mís­ticas e religiosas, desconta, em parte, a maneira injusta pela qual trata o ilustre franciscano fluminense, em a sua Historia da Literatura Brasileira.

Silvio Romero, reconhece as qualidades e os méritos da obra de Frei São Carlos, especialmente aqueles cantos onde o autor introduz cênas e paisagens brasileiras.

Frei Francisco de São Carlos teve o grande merecimento de não empregar as formulas arcadicas, de isentar-se, por com­pleto, dos vícios da época, legando-nos uma obra, cujo assunto abstracto, cuja inspiração mística e cuja concepção profunda­mente religiosa, traziam todos os caracteres dos poemas roman­ticos, posteriores a 1830.

Da obra oratoria de Frei São Carlos, são mais notaveis a oração fúnebre da rainha D. Maria I, e a oração de graças pelo nascimento da Princêsa da Beira.

No panegírico, salienta-se o que recitou em louvor a San­t’Ana, na capela da fazenda dos Marinhos, na vila do Rio Bonito, em 1788.

Frei São Carlos pertenceu á pleiade de oradores sacros que floresceu no reinado de D. João VI. Foi uma das grandes figu­ras do púlpito brasileiro, no tempo em que se elevavam na Ca­pela Real as vozes de Souza Caldas, Jesus Sampaio e Frei Fran­cisco de Mont’Alverne.

 

FONTE: PARANHOS, Haroldo. História do romantismo no Brasil. São Paulo: Edições Cultura Brasileira, 1937.

ANTONIO PEREIRA DE SOUZA CALDAS (1762 – 1814)


Do grupo de poetas, predecessores imediatos do Romantis­mo, foi o padre Antonio Pereira de Souza Caldas, um dos mais eminentes representantes. Abandonando os modelos da literatu­ra greco-romana e a fraseologia arcádica, iniciou na literatura patria a poesia religiosa, trazendo já uma certa dose de subje­ctivismo, que os emanuelistas da primeira geração romantica de­pois imitariam de Lamartine e Chateaubriand.

Nasceu Antonio Pereira de Souza Caldas no Rio de Janei­ro, aos 24 de Novembro de 1762, segundo Pereira da Silva e o Conego Fernandes Pinheiro. Foram seus pais, Luis Pereira de Souza e D. Ana Maria de Souza, ambos de origem açoriana. Desde a primeira infancia, foi Souza Caldas de fraca constitui­ção física, doentio e debil, o que obrigou seus pais a manda­rem-no para Portugal em busca de melhores climas.

Aos 8 anos de idade partiu Souza Caldas para Lisbôa, en­tregue aos cuidados de um tio prospero e abastado. Aí iniciou 0s seus estudos, com notavel aproveitamento, concluindo os pre­paratorios aos 16 anos de idade. Matriculou-se então na Uni­versidade de Coimbra, onde frequentou a Faculdade de Ciencias Jurídicas.

Quando estudante, abraçou as ideias filosóficas francêsas, escrevendo a Ode ao Homem Selvagem e o canto As Aves, inspirados na leitura de um discurso de J. J. Rousseau, sobre a des­igualdade dos homens.

O estilo e a forma destas duas composições, levaram o estudante brasileiro ao tribunal do Santo Oficio, que, em virtude de sua pouca idade, se limitou a manda-lo para a Congregação dos Padres Catequistas de Rilhafoles, fazer exercicio de penitencia.

Pela maneira piedosa com que se conduziu no Recolhimento, conseguiu Souza Caldas que o tempo de sua reclusão fosse reduzido. Depois de obtida a liberdade, retirou-se para a França, que anhelava conhecer. Passou-se depois á Italia, já portador de seu titulo academico, demorando-se em Roma, onde resolveu abraçar a carreira eclesiastica.

Depois de receber ordens sacras regressou a Lisbôa, e aí, segundo Pereira da Silva, ofereceram-lhe a abadia de Lobrigo e o episcopado do Rio de Janeiro, que recusou.

Em 1801 resolveu Souza Caldas voltar ao Brasil, que dei­xára havia trinta anos. Pouco se demorou no Rio de Janeiro, re­gressando a Portugal em 1805. Ignoram-se os motivos que o le­varam novamente a Lisbôa.

Segundo Pereira da Silva e o Conego Fernandes Pinheiro, foi no seu regresso a Portugal, que começou Souza Caldas a ver­são dos Psalmos de David.

Em 1807, tendo o principe regente D. João embarcado para o Brasil com a côrte portuguêsa, acompanhou-o o padre fluminense.

No Rio de Janeiro desenvolveu suas qualidades de orador sacro, sendo afamados os seus sermões de domingo na matriz de Santa Rita.

Continuou no Rio a sua actividade literaria, tendo iniciado ali uma serie de cartas político-filosóficas, no estilo das Lettres Persanes de Montesquieu, das quais sómente duas chegaram aos nossos dias, publicadas pela Revista do Instituto Historico.

Agravando-se o seu estado de saude, finou-se Souza Caldas no Rio de Janeiro, aos 12 de Março de 1814, com 52 anos de idade.

Sepultou-se no Convento de Santo Antonio, sendo depois seus ossos transladados para uma urna, onde Eloi Ottoni fez gravar estes versos latinos:

“Brasiliae splendor, verbo, sermone tonabat,

Fulmen erat sermon, verboque fulmen erant.”

A obra impressa do padre Souza Caldas é a colecção de poe­sias sacras e profanas, reunidas e publicadas em Paris, pelo seu parente Antonio de Souza Dias, em 1820 e 1821, e anotadas pelo escritor português Francisco de Borja Garção Stockler, sob o titulo de Obras Poeticas do Rev.o Antonio Pereira de Souza Cal­das — Tomo I — Psalmos de David;’ Tomo II — Poesias sacras e profanas — Of. Rougeron — Paris — 1820-1821 — in 8.º gr.

Teve esta obra em cem anos uma unica edição; em 1872 foi publicada no Rio de Janeiro uma edição escolar de suas poe­sias.

A Revista do Instituto Historico publicou no tomo III (pg. 144 e 216), duas cartas politico-filosóficas sobre a atitude da Igreja em face dos escritos contrarios á sua moral e aos seus do­gmas. Nada mais resta do ilustre poeta.

Segundo afirma Pereira da Silva, louvado na tradição, com­paz Souza Caldas algumas tragedias, hinos, cantatas, sermões e obras de critica e filosofia. Estes e outros escritos perderam-se ou foram inutilisados pelo autor, que os lançou “ás chamas de­voradoras do fogo, nos momentos em que seu zelo apostolico, e religioso fervor, lhe incitavam desejos de que nada lhe sobrevi­vesse afóra as suas composições sagradas”.

Apesar dos elogios que lhe teceram os críticos romanticos, no Brasil e em Portugal, é Souza Caldas, como poeta, muito in­ferior ao seus antecessores do grupo mineiro.

Almeida Garrett e Camilo comparam-no a Milton e Klop­stock; o Co nego Januario e Pereira da Silva julgam-no um dos maiores poetas do seu tempo; e Sotero dos Reis chamou-o de “grande poeta e um dos mais genuinos representantes da escola de Camões”.

Modernamente, Carlos de Laet e Laudelino Freire consi­deram-no o maior poeta religioso da literatura brasileira. Acha­mos que, embora na poesia de Souza Caldas haja muita imagi­nação e versos de real beleza, vai muito gongorismo na apre­ciação daqueles ilustres historiógrafos.

Os Psalmos de David, considerada a obra principal de Sou­za Caldas, não tendo sido traduzidos do original hebraico, não nos podem dar uma ideia exacta do espirito e das belezas do poe­ma bíblico.

É, todavia, um modelo de linguagem classica, e versos de forma belíssima apresentam-se no decorrer do poema.

Assim, a exaltação de Deus feita pelo rei de Israel, foi tra­duzida com grande beleza pelo poeta patricio:

“Ó Deus imenso, todo o meu amparo!

Das mãos ferinas que abater-me intentam

E a cada instante de furor redobram, 

Vem libertar-me.

Antes que iradas, qual leão faminto,

Me despedacem; quando já não possa

Piedoso braço, em meu favor erguido

Ser-me propicio!”

Quem ler as traduções do poema atribuido ao rei David, feitas por J. B. Rousseau, Lamartíne e Victor Hugo, e a ver­são italiana de Saverio Mattei, reconhecerá que o nosso patricio se elevou tanto ou mais do que qualquer deles, quer na expres­são grandiosa do verso e na beleza do ritmo, quer no perfeito conhecimento do texto bíblico. Além disso, a linguagem classi­ca e limpidez das expressões vernaculas empregadas pelo poeta brasileiro, colocam-no em posição de superior destaque.

As poesias sacras do padre Souza Caldas têm o mesmo mis­ticismo e filosofismo religioso que, mais tarde, teriam os nossos emanuelistas do Romantismo. Assim, na Imortalidade da Alma, uma das suas mais belas composições, o poeta afirma a sua profunda convicção espiritualista:

“Porque choras Fileno? Enxuga o pranto

Que rega teu semblante, onde a amisade

De seus dedos gravou o terno toque.

Ah! não queiras cortar minha esperança,

E de dôr embeber minha alegria.

Tu cuidas que a mão fria

Da morte, congelando os frouxos membros,

Nos abismos do nada inescrutaveis

Vai de todo afogar minha existencia?

É outro o meu destino, outra a promessa

Do espirito que em mim vive e me anima.

A horrenda sepultura

Conter não pode a luz brilhante e pura,

Que soberana rege o corpo inerte …

Não, descobres em ti um sentimento

Sublime e grandioso, que parece

Tua vida extender além da morte?

Atenta, … escuta bem ; .. Olha …  Examina …

Em ti deve existir, eu não te engano …

Tu me dizes que e’xiste … Ah! meu Fileno

Como é doce a lembrança

Dessa vida imortal em que, banhado

De inefavel prazer, o justo gosa

Dó seu Deus a presença magestosa.”

Das suas poesias profanas destacam-se a cantata Pigma­lião, a Ode ao Homem Selvagem e as Noites Filosoficas. A pri­meira, escrita no estilo que ainda predominava em Portugal, ao declinar do arcadismo, perdeu muito do seu valor nos confron­tos com a Dido de Garção,que lhe é inegavelmente superior.

A Ode ao Homem Selvagem, onde o poeta se mostra um fervoroso adepto das ideias de Rousseau, é mediócre como obra de arte. O seu principal valor está em ser um documento da co­ragem que teve Caldas em lançar no atrazado meio conimbricen­se, as ideias pregadas pelos filosofos francêses, precursores da Revolução. Pagou caro a sua audacia, tendo o Santo Oficio cha­mado a contas, o bardo irreverente.

Na poesia As Aves, das Noites filosoficas, continuou o poe­ta com suas ideias rebeldes, atacando com veemencia, a menta­lidade portuguêsa da época. Referindo-se ao Brasil, aferrolhado pela ignorancia da colonisação lusa, verbéra com energia:

“Ali a terra com perene vida

Do seio liberal desaferrolha

Riquezas mil, que o Lusitano aváro

Ou mal conhece ou mal aproveitando,

Esconde com ciume ao mundo inteiro.

Ali. .. Ó dôr! Ó’ minha patria amada!

A ignorancia firmou seu rude assento,

E com halito inerte tudo dana,

Os erros difundindo, e da verdade

O clarão ofuscando luminoso.

Ali servil temor, e abatimento

Os corações briosos amortece.

E enquanto a natureza desenhava

De outro Eden as compinas deleitosas,

A estúpida ambição com mão mesquinha

Transtorna seu tnagnifico projecto,

E só parece aparelhar abrigo

A’ s aves, que do dia se arreceiam

E procuram da noite a sombra triste.”

Das suas obras em prosa, só nos restam as duas cartas imi­tadas de Montesquieu, pelas quais poderemos ajuizar das suas qualidades de prosador fluente e seguro manejador do lídimo vernáculo.

Como filosofo e orador, nada nos deixou com que pudes­semos aquilatar com segurança os seus méritos. Pela tradição e informes colhidos em seus coévos, teria sido Souza Caldas um grande orador sacro, com palavra eloquente, vibrante e facil, magnifica dicção e imagens brilhantes que emocionavam o audi­torio. Dele disse Eloi Ottoni que, discorrendo e falando, — tro­vejava; e o seu discurso, como o raio, — inflamava.

 

FONTE: PARANHOS, Haroldo. História do romantismo no Brasil. São Paulo: Edições Cultura Brasileira, 1937.

JOSÉ ELOI OTTONI (1764 – 1851)


Nasceu José Eloi Ottoni no dia 1.° de Dezembro de 1764, na vila do Principe, hoje cidade do Serro, na Capitania de Mi­nas Gerais.

Seu pai, Manoel Vieira Ottoni, era neto de Emanuel Otto­ni, cidadão genovês que emigrára para o Brasil em 1727, tor­nando-se o tronco da familia Ottoni que, durante um seculo, dera ao Brasil filhos ilustres e eminentes. Sua mãe, D. Ana Fe­lizarda Pais Leme, descendia de ilustre familia paulista que se prendia ao governador das Esmeraldas.

Muito jovem, foi mandado José Eloi cursar as primeiras aulas no arraial do Tejuco, hoje cidade de Diamantina, onde se salientou especialmente no estudo da lingua latina. Concluidos os seus estudos primarios no Tejuco, foi internado em um cole­gio de Catas Altas, afim de ali fazer o curso de humanidades.

Elevado em pouco tempo a professor de gramática e lín­gua latina, naquele instituto, obteve Eloi Ottoni em troca deste serviço, o ensino gratuito para si, e mais tarde para seus irmãos.

Ainda adolescente foi mandado para a Italia, com o fim de concluir os estudos precisos á carreira eclesiastica, fixando en­tão sua residencia em Roma. Aí começou a traduzir as Georgi­cas de Virgilio, que se perderam, e a escrever as suas primeiras, poesias originais.

Embora muito religioso e de temperamento contemplativo, abandonou Eloi Ottoni a ideia de receber ordens sacras, embar­cando então para Lisbôa, de onde tornou á sua terra natal.

Chegado ao Brasil, conseguiu em 1791 ou 92 o lugar de professor de latim na vila de Bom Sucesso, hoje cidade de Mi­nas Novas, em Minas Gerais; aí se casou com D. Maria Rosa do Nascimento Ottoni, de cujo consorcio houve dois filhos.

Residia o poeta em Minas Novas, quando ali chegaram os ultimes écos da inconfidencia mineira. O terror fazia calar todas as bôcas, e o infortunio dos compatriotas sacrificados á sanha dos esbirros da Rainha, ainda enchia de pavor os pacatos mon­tanhêses da Capitania.

“E numa crise tão nefasta, quando fôra crime ainda carpir os iníortunios da patria, José Eloi Ottoni achou-se naturalmen­te confinado entre as paredes de sua aula de latim, e os cuida­dos do lar domestico”, escrevia Teófilo Ottoni.

Nesta situação, resolveu o poeta deixar a vila montesina, em demanda de um meio mais culto e liberal, onde melhor pudesse aproveitar o seu talento e a sua actividade. Nesta ilusão partiu para Portugal, fixando-se em Lisbôa, onde começou “a sua vida de poeta e pretendente”, na frase pinturesca de Teófilo Ottoni. Ali conviveu com Bocage e Bressani, conquistou a amizade do Conde dos Arcos e de Francisco Vilela Barbosa, tornando-se assiduo frequentador dos saraus da Marquêsa de Alorna, por quem tinha o poeta grande apreço. Deste convivio resultou a feição arcádica de toda a sua obra poetica e a maneira elegante do seu versejar.

Para se manter em Lisbôa, abriu Ottoni um curso de retórica, que foi assiduamente frequentado pelos melhores literatos da época.

Em 1799 escapou de ser apanhado pelo Santo Oficio, com seu primo Joaquim José Vieira Couto e Hipolito da Costa, por ousarem protestar contra os despotismos da Metropole, nas la­vras diamantinas de Serro do Frio.

Mandado depois para Madrid como secretario da embaixa­da portuguêsa, aí se achava quando as tropas do marechal Junot invadiram a peninsula. Destituido do cargo, por não querer acom­panhar as correntes simpaticas aos invasores, voltou o poeta a Lisbôa, onde protestou contra a invasão francêsa, numa glosa á citava de Camões — Deu sinal a trombeta castelhana, —  numa ode oferecida a Lord Strangford, e numa serie de dialo­gos — Os Amigos da Virtude, citados por Teofilo Ottoni.

Regressando novamente ao Brasil, foi o poeta mineiro fria­mente recebido pelo principe D. João, renovando junto á côrte portuguêsa do Rio de Janeiro, a sua tarefa de pretendente, aliás sem nada conseguir, por ter sido “posta em duvida a sua fide­lidade de subdito português”, comenta Teofilo Ottoni. Por essa época, dedicou-se Eloi Ottoni ao estudo da Biblia, na vulgata, traduzindo e parafraseando alguns psalmos, que foram publica­dos na Tribuna, Católica do Rio de Janeiro.

Em 1811 passou-se para a Baía, onde se demorou alguns anos. Aí fez a tradução dos proverbios de Salomão, que publi­cou em 1815 sob o patrocínio do capitão-general D. Manoel de Portugal e Castro, que oficialmente recomendou a obra á ins­trução publica da Capitania de Minas.

Depois da publicação dos Proverbios de Salomão, começou El0i Ottoni a trabalhar activamente na tradução do Livro de Job. Longos anos gastou o poeta em melhorar e rever esses versos, corrigindo sempre as imperfeições que lhe escapavam das revisões anteriores.

Nomeado em 1821 para um cargo publico na Baía, não logrou dele tomar posse, em virtude do governo provisório da­quela província não reconhecer a autoridade do Principe Regente.

Partindo novamente para Portugal, foi logo depois eleito deputado ás Côrtes de Lisbôa, pelo colegio eleitoral de Vila Ri­ca, patrocinado pelo seu irmão Jorge Benedito Ottoni, pai de Teofilo Ottoni. Não conseguiu, entretanto, tomar assento nas Côrtes, por não haver chegado em tempo o seu diploma de deputado.

Demorou-se Eloi Ottoni em Lisbôa até 1825, época em que regressou definitivamente ao Brasil. Chegando ao Rio de Jâ­neiro, encontrou o seu velho amigo Vilela Barbosa, depois Mar­quês de Paranaguá, nas funções de Ministro do Imperio; por seu intermedio, conseguiu Ottoni ser nomeado Oficial da Secretaria de Marinha, vendo enfim satisfeita a sua velha preten­ção de vinte anos. É um raro exemplo de resignação e pacien­cía, que bem define o caracter de Ottoni, essa larga espera de tres lustros, dispendida na esperança de obter um meio de sub­sístencia fixa, que lhe pudesse garantir o futuro e a velhice.

Soube honrar Eloi Ottoní a protecção que lhe dispensou o Marquês de Paranaguá; funcionario zeloso, caracter ilibado e visceralmente honesto, soube conseguir mesmo as bôas graças do primeiro imperador.

Além dos Proverbios de Salomão e do Livro de Job, es­creveu Ottoni grande numero de poesias avulsas, religiosas e profanas. Foi tambem poeta satírico, tendo escrito alguns epigra­mas e sátiras que infelizmente se perderam.

Os ultimas anos de sua vida passaram-se na monotonia do seu modesto emprego da Secretaria de Marinha, até que o des­equilíbrio de suas faculdades mentais o lançou nas convizinhan­ças da loucura. Por essa época queimou grande parte de sua obra amorosa e satírica, no firme proposito de não deixar ou­tras composições que não fossem os seus poemas bíblicos e poe­sias religiosas.

Octogenario e demente, faleceu no Rio de Janeiro, em plen0 Romantismo, no dia 3 de Outubro de 1851.

Na obra poetica de José Eloi Ottoni, toda feita de um lirismo religioso, onde de mistura com o arcadismo de Bocage, encontra-se uma decisiva influencia do misticismo inquieto de Souza Caldas. Profundo conhecedor da língua latina, acompa­nhando ainda o padre fluminense, traduziu, ou melhor, parafra­seou dois poemas biblicos extraídos da Vulgata: — os Prover­bios de Salomão e o Livro de Job.

O primeiro, publicado na Baía, sob o titulo de Proverbios de Salomão traduzidos em verso por José Eloi Ottoni — Baía — 1815, — teve uma segunda edição no Rio de Janeiro, em 1841.

O Livro de Job — traduzido em verso por José Eloi Ottoni — Rio de Janeiro — 1852 — in 8.° gr. — XXXIX — 140 pgs., — ­teve tambem segunda edição sob o titulo de Livro de Job — ­Ottoni (José Eloi — 1764 — 1851) — Editora — Livraria Leite Ribeiro — Rio de Janeiro — 1923 — in 8.° de 141 pgs., com retrato do autor.

O Dicionario Bibliografico de Inocencio Silva, publica uma longa relação das poesias avulsas de Eloi Ottoni, dadas a lume depois de 1801. (Tomo IV — pgs. 309 e segs.).

Como lirista, foi Eloi Ottoni um continuador do grupo mi­neiro, do qual muito se aproxima. Como os principais poetas deste grupo, foi um predecessor do lirismo romantico; escreve Silvio Romero.

Preferimos classifica-lo entre os poetas religiosos d0 grupo fluminense, e achamos que melhor ficará ele ao lado de Souza Caldas e Frei São Carlos, apesar de sua origem mineira e da sua feição arcádica.

Na poesia amorosa mostrou-se Ottoni um delicado lirista, encantador na ternura e meiguice dos versos:

“Eu amo, ó Lilia, e se amor é culpa

De ser culpado não s’exclue quem ama.

Não zombe o sabio de me ouvir, atenda,

Escute o sabio a voz da natureza.

As plantas vivem porque as plantas amam;

Ao tronco unidas, quando os olmos brotam,

Brotam as verdes trepadeiras heras.

Não curva os braços verdejantes, ergue

Soberba o colo, e demandando as nuvens,

A palmeira recebe, acolhe, afoga

Suspiros ternos que a saudade envia

No bafo meigo do amador distante.”

Entretanto, é profundamente lamentavel que perecesse quasí toda a sua lirica amorosa, no fogo que lhe ateou o poeta, ao se manifestar a insânia que lhe devastou a razão.

Obrigado pelas circunstancias de sua vida errática a per­manecer longos anos ausente da patria e da familia, que deixara em Minas Novas, vasava Ottoni a saudade que lhe amargurava 0s dias, em versos sentidos, cheios de sincera ternura, como este soneto de imitação bocageana:

“Sonhei Marília, que contigo estava,

Que o tenro Honorio alegre me dizia:

Meu pai! apenas este nome ouvia,

Suspenso nos meus braços o apertava.

Que a pequena Eduviges reparava

No meu semblante; como que sorria:

Que os braços amorosa me estendia,

E que eu chorando, as faces lhe beijava,

Antes Marília, o sonho eu não tivera!

Nos braços da saudade despertára,

Porém dõr tão pungente não sofrera:

Sonhei Marília, o que antes não sonhára,

Pois passando de um goso ao que não era,

Sem filho, sem Marília não me achára.”

Cultivou tambem Eloi Ottoni, como quasi todos os arcades de seu tempo, a poesia anacreontica, e, em Moreira de Azevedo, encontramos esta delicadissima ode:

“Foi ao prado colher flores

Dorila terna e mimosa,

Tão alegre como é Maio,

Mais do que as graças formosa:

Eis que do prado chorando

Voltou, confusa, e afligida,

Desentrançando o cabelo,

A côr do rosto perdida.

Se lhe perguntam, que tem?

Dorila chora, e se cala;

Se lhe falam, não responde,

Se a acusam mesmo, não fala.

Que tem Dorila? Os sinais

Indicam a pesar seu,

Qu’indo ao prado colher flores,

A flor que tinha, perdeu.”

Entretanto, a sua educação religiosa que o fez um crente sincero e fervoroso, desviou-lhe o estro para as poesias bíblicas, cujos temas ingratos acabaram por lhe prejudicar a inspiração, fazendo em pouco, declinar as suas qualidades apreciaveis de lirista.

Ao iniciar-se na poesia bíblica, declarou Eloi Ottoni “que de todas as acusações que lhe faziam só não desprezava a de im­piedade, porque a essa respondia no presente, a sua vida, e no futuro o fruto que o seu engenho tirasse dos livros sagrados”.

Posto que inferior a Souza Caldas, logrou Eloi Ottoni mais popularidade com as suas traduções, que o autor dos Psalmos de David ; e a prova disso está nas duas edições que lograram ter os seus poemas bíblicos.

Os Proverbios de Salomão, codigo moral de sabedoria, na frase de Eloi Ottoni, foram traduzidos com precisão, pureza e honestidade. Em alguns dos versículos, onde o tradutor foge do original, não o faz senão obrigado pela indole diversa das duas linguas, o que muitas vezes o obrigava a trair a letra em beneficio do espirito do poema. Nisso foi injusto José Verissi­mo, quando tão mal julgou as traduções e a obra poetica de Ot­toni; mais acertado andou entretanto Silvio Romero, que me­lhor compreendeu o velho arcade mineiro.

O Livro de Job; esse breviario de dôr e resignação, foi tra­duzido com talento e emoção, embora se resinta da falta de crí­tica biblica. Segundo Silvio Romero, faltavam a Eloi Ottoni co­nhecimentos de orientalismo que lhe permitisse compreender, co­mo crítico, o poema idumeu. Vem daí a completa ausencia de ano­tações ou juizos que facilitem ao leitor a bôa compreensão do texto.

“Nunca mais belas elegias foram escritas sobre os infor­tunios humanos, escreve Ottoni; porque como o disse S. Grego­rio, quando Job parece não falar sinão do que sofre, exprime nossos males e as nossas dores”.

O poema foi traduzido em 42 capítulos, dispostos em ter­cetos desassilabos. A versificação é cuidadosa, a linguagem cas­tiça, o fraseado elegante, flexível, muito próximo do seu modelo bocageano.

Soube Eloi Ottoni tirar efeito dos melhores episódios do poema bíblico, e é com sentida emoção, que ainda lemos esses cânticos, símbolos de todo o sofrimento humano:

“Job no esterco raspando a imunda praga,

Depois que em podridão maligna escorre,

C’ um pedaço de telha o corpo afaga.

Sua mulher, que o vê, mas não discorre,

— Perseveras, lhe diz, sem que te rales,

Louvando a mão de Deus? Pois louva, e morre.

Diz-lhe Job: — Cumpre, ó louca, que te cales;

Si os bens da mão de Deus tu recebeste,

Porque não deves receber os males?”

Escreveu ainda Eloi Ottoni algumas poesias patrioticas, sen­co fraca esta feição do seu estro. Neste genero, uma das suas mais brilhantes composições é o famoso soneto, lido no Teatro de S. João, na Baía, em presença do rei D. João VI, quando este seguia para Europa:

“Portuçuêses! A nuvem tenebrosa

Qu’ofuscava a razão desaparece,

Desfez-se o cáos que a discordia tece:

Já se encara sem medo a luz formosa.

Dos erros a progenie maculosa

Baqueando em soluços estremece.

A Justiça dos céus ao trôno desce,

Marcando os faustos á nação briosa,

Lisia, berço de herois, oh Lisia, alerta!

Cumpre que os ferros o Brasil arroje.

Sequindo o impulso que a razão desperta.

A expressão de terror desmaia e foge,

Graças á invicta mão que nos liberta;

Escravos hontem, sois Romanos hoje !”

José Eloi Ottoni foi um dos mais delicados poetas do pe­riodo post-mineiro, e apesar do seu arcadismo, possuia tenden­cias líricas que o teriam feito um dos mais eminentes predeces­sores do romantismo, se não fôra a trilha ingrata pelo qual en­veredou.

Deixou-nos, todavia, uma obra digna e apreciavel, muitas vezes mal compreendida por alguns corifeus da nossa historia literaria.

 

FONTE: PARANHOS, Haroldo. História do romantismo no Brasil. São Paulo: Edições Cultura Brasileira, 1937.

JOSÉ BONIFACIO DE ANDRADA E SILVA (1765 -1838)


A nobre estirpe dos Andradas, provinha dos antigos Condes de Amado e Marquêses de Montebelo, Senhores de Bobadela, d’Entre-Homem e Cávado, na Provincia do Minho.

Familia patricia, distinguira-se na Colonia não sómente pela fidalguia do seu sangue, como tambem pela ilustração de mui­tos dos seus membros, alguns dos quais, foram figuras notaveis nas ciencias e nas letras.

O coronel Bonifacio José de Andrada e D. Maria Barbara da Silva, descendentes desta ilustre estirpe, moravam na então vila de Santos, quando a 13 de Junho de 1765, nasceu José Bo­nifacio.

Batisado a 18 do mesmo mês, com o nome de José Anto­nio, substituiu mais tarde o cognome para Bonifácio.

Leão Bourroul, Afranio Peixoto, José Veríssimo, Ernesto Sena, Laudelino Freire e outros biografos de José Bonifacio, adotam o ano de 1763 para seu natalício, ao passo que Latino Coelho, Pereira da Silva, Homem de Melo e Silvio Romero, in­dicam o ano de 1765, que também adotamos.

Fez José Bonifácio os seus primeiros estudos na vila de Santos, sob a direcção de seu pai o coronel Bonifacio José de Andrada, até completar a idade de 14 anos. Passou-se depois para São Paulo, onde foi entregue aos cuidados do bispo D. Frei Manoel da Resurreição, que ali mantinha, á sua custa, aulas de metafísica, logica, ética, retórica e francês. D. Manoel da Resurreição, aparentado com a familia Andrada, recebeu cari­nhosamente o jovem estudante, encaminhando-lhe os estudos, de maneira que pudesse conquistar para o gremio da Igreja aquele extraordinario talento, cujos rapidos progressos haviam impres­sionado vivamente o prelado paulista.

Sentindo-se sem vocação para a carreira eclesiastica, não anuiu o jovem Andrada aos anhelos do seu ilustre preceptor, re­tirando-se em 1783 para a vila de Santos, de onde partiu para Portugal, a fim de completar os seus estudos.

Ali chegado matriculou-se na Universidade de Coimbra, onde cursou as Faculdades de Direito e Filosofia Natural.

Latino Coelho e quasi todos os biografos de José Bonifacio, fixam o ano de 1780 para a sua saída do Brasil; entretanto, no soneto — Adeus, fica-te em paz, Alcino amada — declara o poe­ta ter sido o mesmo improvisado em sua partida para Portugal, em 1783, quando tinha 18 anos de idade.

Com grande aproveitamento recebeu José Bonifacio a lau­rea de bacharel em leis e filosofia natural, passando-se então para Lisbôa, onde D. João Carlos de Bragança, Duque de La­fões, aproveitando sua elevada cultura o fez ingressar em 1789, como sacio livre, na Academia Real de Ciencias de Lisbôa.

Por essa época consorcia-se José Bonifacio com D. Narcisa Emilia Oleary, senhora de origem irlandêsa, dotada de grande ilustração.

Procurava o Duque de Lafões reunir em torno da Academia, um grupo de cientistas capazes de emancipar o magisterio por­tuguês, e aos quais entregou as catedras dos institutos científi­cos, os museus e os laboratorios do Reino. Para isso aproveitava D. João de Bragança os novos talentos que saíam da Universidade, chamando-os ao seio da novel associação e enviando-os, depois, por conta do Estado, aos países cultos da Europa, onde pudessem aperfeiçoar as suas especialidades.

Assim, em Junho de 1790, partia para a França, José Boni­facio de Andrada, em companhia de Manoel Ferreira da Camara e Joaquim Pedro Fragoso. Deveriam os tres naturalistas aper­feiçoar os seus conhecimentos de química e mineralogia em Pa­ris, onde chegaram recomendados ao embaixador português D. Vicente de Souza Coutinho.

Em 1791 concluía José Bonifacio os cursos de química e mineralogia, professados em Paris, por Chaptal, Fourcroy, Jus­sieu e o abade de Hauy.

Por essa época é Andrada recebido como membro da Socie­dade Filomatica (1791) e da Sociedade de Historia Natural de Paris (1791).

Foram tão notaveis os seus aproveitamentos nos cursos fran­cêses, que o embaixador D. Vicente de Souza Coutinho, em ofi­cio ao Secretario do Reino, Luis Pinto de Souza, datado de 25 de Abril de 1791, solicitava permissão para José Boniíacio, Fer­reira da Camara e Joaquim Fragoso proseguirem em seus estu­dos no estrangeiro, por conta do Estado.

Devidamente autorisados, seguiram os tres sabias para Frey­berg, na Alemanha, onde Werner lecionava oritognosia,geogno­sia e montanistica; Lempe, — matematicas puras e aplicadas; Köhler, — iniciava o direito e legislação das minas; Klotzch e Freisleben, — faziam ensaios de química experimental; e Lampadius — desvendava os processos da metalurgia.

Karl Bruhns, na biografia de Alexandre Humboldt, conta que foram companheiros do grande prussiano nos laboratorios de Freyberg, Leopoldo von Buck, o dinamarquês Esmark, o por­tuguês Andrada e o espanhol Del Rio.

Concluidos os cursos em Freyberg, começa José Bonifado as suas excursões científicas pelos países da Europa. Percorre a Italia, ouvindo Volta em Pavia; estuda em Turim a formação geologica dos montes Euganeos, refutando em substanciosa me­moria as teorias vulcânicas de Ferber e Spallanzoni, ao mesmo tempo que aceitava a concepção neptunistade Werner. Na Aus­tria e na Boemia, visita as minas do Tirol, da Stiria e da Corintia; na Inglaterra frequenta os cursos de Priestley, em Hockney, e os de Nicholson, em Londres; e, finalmente, passando á Escan­dinavia, aprofunda aí os seus conhecimentos de silvicultura e mineralogia, aproveitando as novas doutrinas que Bergman pro­fessava em Upsal, e Abelgaard em Copenhague.

Aperfeiçoando com os grandes mestres escandinavos os seus conhecimentos de oritognosia, descobre José Bonifacio novas es­pecies e variedades minerais, o que lhe consagrou, merecidamen­te, a reputação de sabio.

Publicou nessa ocasião nos Anais do Museu de Historie Natural de Paris, a sua memoria sobre os diamantes do Brasil, tendo dado a lume em diferentes numeros do Jornal de Física (1797) ,dos Anais da Sociedade de Química e Historia Natural, do Jornal das Minas e dos Anais de Química de Schurer, os resultados de suas mais importantes indagações científicas.

Descobriu e estudou José Bonifácio quatro novas espécies minerais, que denominou Petalite, Spoduméne, Kriolite e Sca­polite, e mais oito variedades das especies descobertas e de ou­tras conhecidas.

Da Petalite (silicato de alurnina, soda e titio), extraiu Ar­fwedson a liltina. A primeira comunicação da descoberta da Pe­talue, foi feita por Andrada no Jornal de Química de Leipzig, em 1798.

As variedades minerais descobertas e classificadas por José Bonifácio, foram: — a Akantikone, Salite, Cocolite, Ictioftal­ma, Indiocolite (turmalina azul), Afrisite, Alocroite (granada comum) e Wernerite.

Esta ultima, que Andrada descreveu como especie indepen­dente, foi incluida pelos mineralogistas modernos, nas varieda­des da Scapolite.

Em carta dirigida a Beyer, engenheiro das minas de Schnee­berg, na Alemanha, José Bonifacio apresentava a descrição dos caracteres distintivos dessas especies e variedades minerais, e em revistas e jornais científicos, publicados na Italia, na França e na Alemanha, dava conta dos operosos trabalhos que empreen­dera, honrando e dignificando o nome de sua patria.

Antes de seu regresso a Portugal, em 1800, é recebido como membro da Academia Real de Ciencias de Stockolmo (1797) e da Sociedade dos Amigos das Ciencias Naturais, de Berlim (1797) .

Durára dez anos a peregrinação de José Bonifacio pelos meios científicos da Europa, regressando finalmente a Portugal em Setembro de 1800.

D. Rodrigo de Souza Coutinho, Conde de Linhares, então Ministro do Reino, mandou conferir-lhe graciosamente o titulo de doutor em filosofia natural, pela Carta Regia de 15 de Abril de 1801.

Aos 18 de Maio do mesmo ano foi nomeado intendente geral das minas e metais do Reino, e encarregado de dirigir e ad­ministrar as minas e fundições de ferro de Figueiró dos Vinhos, com a inspecção sobre matas e sementeiras florestais. A mesma carta regia nomeava-o desembargador da Relação do Porto, e catedratico de Metalurgia na Universidade de Coimbra.

O decreto de 12 de Novembro de 1801, encarregou-o de pro­ver o curso de docimásia, na Casa da Moeda, onde foi auxiliado por Manoel Jacinto Nogueira da Gama (depois Marquês de Bae­pendi), e João Antonio Monteiro, eminente mineralogista português.

O aviso regio de 7 de Julho de 1807, entregou-lhe a superintendencia das obras publicas de Coimbra e nomeou-o director do encanamento do Mondego.

Assim acumulado de trabalhos, não descansava o grande paulista, continuando sempre as suas valiosas investigações no dominio das ciencias naturais e, ao mesmo tempo, não deixava adormecer a sua actividade literária. No exercicio de seus cargos públicos plantou as sementeiras de Couto dos Lavos e estudou as minas de chumbo e carvão de pedra existentes no Reino, pri­mitivamente exploradas pelos romanos.

Destas minas tratou em notavel memoria, apresentada em 1809 á Academia Real de Ciencias de Lisbôae reproduzida pos­teriormente no Patriota, do Rio de Janeiro (1813 – n.° 1 a 3) e no Investigador Português de Lisbôa, em 1814.

A nova mina de ouro do Tejo, denominada Príncipe Re­gente, foi estudada, pelo ilustre sabio paulista, que escreveu ácer­ca de suas investigações, notavel memoria, lida em sessão de 10 de Maio de 1815, da Academia Real de Ciencias.

Outros trabalhos de silvicultura e mineralogia, ocuparam o seu tempo em Portugal, dos quais trataremos em sua bibliografia.

Pouco antes da invasão francêsa, foi nomeado secretario perpetuo da Academia Real de Ciencias de Lisbôa (1812).

Depois de sua chegada a Portugal, recebeu José Bonifacio o titulo de membro de Academia Real de Ciencias de Copenha­gue e Turim (1801); da Sociedade Werneriana e Lineana de Londres (1802); da Sociedade de Ciencias Físicas e Naturais de Genova (1802); e da Sociedade de Ciencias Filosóficas de Filadelfia (1802).

Não se tendo Portugal submetido ao bloqueio continental, estabelecido por Napoleão, mandou o imperador avançar suas hostes contra a península rebelde. Transpondo os Pirineus, as tropas francêsas comandadas pelo marechal Junot, invadiram, sem resistencia, o territorio português. Apavorado e acovardado, vendo em toda a parte o espectro de Luis XVI, sem forças para qualquer reacção, foge o rei, entregando Portugal humilhado á dominação estrangeira.

Obsedado pelo medo, no meio dos gritos e delírios da rainha louca, o gordo Principe Regente, obeso e tartamudo, reune ás pressas seus haveres, e, seguido de largo sequito de nobres e cor­tezãos, abala do Tejo na manhã de 29 de Novembro de 1807. Guardava-o a frota de Sir Sidney Smith, almirante britanico, que o comboiou até o asílo americano.

Acefalo, resolveu o povo português aparelhar-se com seus proprios recursos, para expulsar da patria, o invasor estrangeiro.

Vacante o trôno, não foi, entretanto, ocupado por nenhum dos reis improvisados por Napoleão. Não o conseguiu mesmo seu irmão José, que, pomposamente, se candidatára á corôa por­tuguêsa.

Uma guerra de exterminio, de emboscadas e escaramuças, começou então por parte dos novos Viriatos. Nesta briosa cam­panha teve José Bonifacio parte saliente, alistando-se ao lado dos defensores de Portugal, formando batalhões academicos, ali­nhando soldados, dirigindo batalhas. Perseguiu Andrada as forças de Soult e pelejou contra as hostes napoleonicas até sua ex­pulsão do territorio português.

Cessam as guerrilhas com a assinatura da capitulação de Cintra, que, conservando a independencia de Portugal, manteve no trôno a dinastia dos Braganças, e na cabeça de D. João VI a corôa habilmente escamoteada das mãos de Bonaparte.

Banidos os francêses, ficára o reino desgovernado e entre­gue ao jacobinismo, sendo preciso refrear com energia as vio­lencias e vindictas que se faziam contra os afrancesados, e con­ter as manifestações anarquicas que irrompiam em diversos pon­tos do país. José Bonifacio foi então chamado para normalisar a situação e aquietar os animos, sendo para isso nomeado inten­dente de policia da cidade do Porto. “A sua atitude desagradou ao governo proconsular, cioso da minima expansão de liberdade”, resultando daí a sua exoneração do cargo e completo afastamento dos negocios de Portugal.

Volta o sabio ás suas investigações científicas, explora al­gumas minas, e arrendando uma quinta no Almegue, proximo a Coimbra, dedica-se á agricultura. Publica, por essa época, diver­sas memorias, discursos e monografias, declarando, ao despedir­se da Academia Real de Ciencias:

“Si almas degeneradas, procuraram amargurar por vezes a minha cansada existencia, e buscaram, mas em vão, malograr o meu patriotismo e bons desejos, o estudo da natureza e dos li­vros no seio da amizade, e a voz da consciencia foram sempre o balsamo salutífero que cicatrisou estas feridas do coração. Cum­pre, pois, deslembrar-me do passado”.

Em 1819, aos 56 anos de idade, consegue licença para vol­tar á patria, deixando a Metropole, — a quem dedicara toda a primeira fase de sua existencia, — por não poder continuar a viver numa terra, onde no poder se “acoutava a ignorancia tí­mida ou desleixada, o obscurantismo de algumas toupeiras, que temem ou não podem suportar a luz”.

No Brasil, esperava-o a gloria do patriarcado, que o levaria ao panteon dos grandes herois americanos, ao lado de Washin­gton, Bolivar e San Martin.

Em fins de 1819 regressou José Bonifacio ao Brasil, acom­panhado de sua familia, indo residir em seu sitio dos Outeiri­nhos, em Santos, com o firme proposito de ali acabar os dias.

Negou-se a ocupar no Brasil, qualquer cargo publico ou po­litico, recusando o lugar de ajudante do Ministro Vila Nova Por­tugal e o de reitor da Universidade que D. João VI projectava fundar.

Vivia José Bonifacio tranquilamente na vila de Santos, clas­sificando as suas vastas colecções de plantas e minerais, organi­sando e ordenando os seus numerosos manuscritos, quando a re­volução de 1820 em Portugal, veio tira-lo do retiro que volunta­riamente procurára, para pô-lo á frente do movimento da inde­pendencia.

A revolução do Porto, em 24 de Agosto de 1820, estabele­cendo a monarquia constitucional representativa em Portugal, exigia o pronto regresso de D. João VI, que muito a contra gosto, embarcou para Lisbôa a 26 de Abril de 1821, acompanhado de toda a côrte bragantina.

No Brasil, ficava como regente e lugar-tenente do Rei, o principe D. Pedro. Antes da partida de D. João VI, a 13 de Março de 1821, o capitão-general João Carlos Augusto de Oyenhausen Gravemberg, anunciava em São Paulo a adoção do sistema constitucional e propunha a eleição dos representan­tes da provincia junto á Constituinte.

Por indicação de José Bonifacio, foram eleitos deputados: — Antonio Carlos, José Ricardo, Diogo Feijó, Nicolau Vergueio, Fernandes Pinheiro e Paula Souza.

As províncias do Pará, Baía, Maranhão, Pernambuco e Rio de Janeiro, haviam tambem aderido á revolução portuguêsa, ado­tando o sistema constitucional, ao passo que outras relutavam, obrigando medidas energicas e coercitivas, por parte do Principe Regente.

O partido português, receando que D. Pedro adotasse uma politica simpatica á emancipação da colonia, promoveu a insur­reição da Divisão Auxiliadora, em 5 de Junho de 1821, com o proposito de exigir do principe o juramento das bases da Consti­tuição portuguêsa e a demissão do Conde dos Arcos, ministro muito inclinado aos interesses do Brasil. Por prudencia ou medo, cedeu o principe regente ás imposições dos sediciosos. Organisou-se então uma Junta Governativa, responsavel por todos os actos administrativos, junto ás Côrtes de Lisbôa.

Como consequencia deste movimento, instala-se em São Paulo um Governo Provisorio, tendo Oyenhausen como presi­dente e José Bonifacio como vice presidente.

Começa neste momento, a atuação de Andrada na forma­ção da independencia. A vida de José Bonifacio, desta data até 7 de Abril de 1831, é a historia da independencia do Brasil. Neste decenio, a vida do Patriarca acha-se tão intimamente liga­da á histeria da revolução separatista, que se torna impossivel separa-las.

Não obstante o governo liberal do Principe Regente, sur­giam de toda a parte graves empecilhos á sua administração: ­a Baía negava-se a reconhecer a regencia, sob o pretexto de não ter sido o principe nomeado pelas Côrtes; os governos provin­ciais, sujeitos imediatamente ás Côrtes pela lei de 24 de Abril de 1821, negavam-se a obedecer ao governo central; as rendas das provincias, pagas diretamente ao Tesouro português, deixavam sem recursos o governo do Rio de Janeiro; e, assim, antolhada de dificuldades, caminhava trôpega e desconjuntada a adminis­tração do Principe D. Pedro.

Colocado nesta difícil situação, desprestigiado pelas Côrtes, desobedecido pelas provincias, sem recursos financeiros para acudir ao pagamento das despesas de administração, escreveu D. Pedro ao pai a famosa carta de 21 de Setembro de 1821, na qual relatava a grave situação em que o deixaram as Côrtes de Lis­bôa, e pedia a sua pronta retirada da regencia do reino do Brasil.

“Não pense Vossa Magestade, escrevia o principe, que eu me quero subtraír ao serviço da Nação, e de Vossa Magestade; mas sim ás tristes e lamentáveis cênas e circunstancias em que me acho. Peço a Vossa Magestade, por tudo quanto ha de mais sagrado, me queira dispensar deste emprego que seguramente me matará pelos contínuos e horrorosos paineis que tenho, uns já á vista, e outros muitos piores para o futuro, os quais eu te­nho sempre diante dos olhos”.

Novos decretos das Côrtes de Lisbôa procuravam recolo­nisar o Brasil, cassando todas as prerogativas que lhe concedera D. João VI. Finalmente, a violencia culminou com o decreto de 29 de Setembro, que mandava regressar para Portugal o prin­cipe D. Pedro, “devendo previamente viajar incognito pela Inglaterra, França e Espanha, para completar sua educação politica”.

Tendo conhecimento deste decreto, José Bonifacio e Martim Francisco reunem os membros do Governo Provisorio, na noite de 24 de Dezembro, e deliberam enviar uma mensagem ao Principe Regente, declarando-lhe “que a sua partida seria o si­nal de separação ,do Brasil”.

José Bonifacio e o coronel Gama Lobo, encarregados de leva-la a D. Pedro, partiram imediatamente para o Rio de Ja­neiro, acompanhados pelo Marechal Arouche e pelo vigario Go­mes de Azevedo, portadores de uma mensagem da Camara Mu­nicipal e do clero de São Paulo.

Foi no memoravel dia 9 de Janeiro de 1822 que os embaixadores paulistas, reunidos aos do Rio e Minas Gerais, se diri­giram ao principe D. Pedro, entregando-lhe, por intermedio de José Clemente Pereira, as mensagens dos seus concidadãos.

Depois de ouvir atentamente o discurso de José Clemente Pereira, acedeu o principe á vontade do povo.

“Como é para bem de todos e felicidade geral da nação, diga ao povo que fico”, declarou explicitamente o principe.

Esta declaração, que assegurava a vitoria da campanha se­paratista, foi recebida por ambos os partidos, patriotas e realis­tas, com “as demonstrações mais entusiasticas de alegria”.

No dia 16 de Janeiro organisou D. Pedro o seu primeiro ministerio, cabendo a José Bonifacio a pasta do Reino e Negocios Estrangeiros.

Começa, então, o formidavel trabalho de organisação da nacionalidade, empreendido por José Bonifacio: — faz embarcar para Portugal a insubordinada Divisão Auxiliadora de Avilez; restabelece a centralisação das províncias, que as Côrtes de Lis­bôa haviam enfraquecido; cria o Conselho dos Representantes; organisa varios projectos de reforma administrativa, e mantém com energia a unidade nacional, ameaçada pelas dissenções ci­vis em varias provincias. Assim, na Baía e Pernambuco, as tro­pas portuguêsas negavam-se a obedecer ao governo central; em São Paulo, a bernarda de Francisco Inacio convulsionava o interior da provincia; no Pará e Maranhão, o partido português hostilisava francamente a Regencia, e, finalmente, em quasi to­do o territorio, surgiam pequenos conflitos entre portuguêses ,brasileiros.

O governo ditatórial exercido por José Bonifacio, de Janeiro a Setembro de 1822, teve a virtude de manter a integridade politica da America Portuguêsa, evitando que as facções repu­blicanas, transformadas em perigosas demagogias, sacrificassem aquela integridade, com lutas intestinas, que fatalmente desmembrariam as provincias.

A sua ditadura, impondo a monarquia constitucional como forma de governo, evitou, com a hereditariedade do trôno, que o poder caísse nas mãos de caudilhos, que certamente sacrifica­riam ás suas desmedidas ambições, toda a obra consolidada pêlos antepassados. Disso, era vivo exemplo a situação das republicas sul-americanas.

Além do que, afigurava-se ao grande patriota, a incompatibilidade da escravidão com um regimem democratico; e a eman­cipação imediata dos escravos era, no momento, não só uma utopia, como um espantoso atentado á economia nacional.

A politica adotada pela ditadura de José Bonifacio, desde o dia do Fico até o Ipiranga, foi toda reacionaria.

Todas as ordens e decretos que provinham das Côrtes de Lisbôa, eram acintosamente desobedecidos; e a atitude do go­verno brasileiro, era de franca rebeldia aos actos da Metrópole.

A circular do governo português aos seus consules nos por­tos estrangeiros, proibindo a exportação de armamentos e mu­nições para as provincias de ultramar, veio encerrar a penden­cia, provocando na colonia, uma atitude exaltada contra o do­mínio português.

O principe D. Pedro aceita o titulo de Defensor Perpetuo do Brasil, que lhe oferece a Camara Municipal do Rio de Ja­neiro, e convoca, pelo decreto de 3 de Junho de 1822, a primeira constituinte brasileira, assentando os fundamentos do nosso sis­tema representativo.

Na Baía e em Pernambuco continuava a resistencia das tropas portuguêsas, o que provocou o decreto de 15 de Junho, re­ferendado pelo Ministro da Guerra, Joaquim de Oliveira Alves, em virtude do qual eram expulsas do territorio brasileiro as tro­pas portuguêsas, a fim de que pudesse ser restabelecida a paz nas provincias conflagradas. Embora referendado por Oliveira Alves, este decreto foi obra de Andrada, e um dos seus actos mais acertados e de louvavel coragem.

No dia 14 de Agosto partiu o Principe Regente para São Paulo, a fim de harmonisar dissenções surgidas entre a Junta e os irmãos Andradas. Deixára a regencia confiada á Princêsa Real D. Leopoldina, e a administração dos negocios publicos, a cargo do ministerio presidido por José Bonifacio.

Recebendo de Portugal novos decretos das Côrtes, entre os quais o que anulava o acto de D. Pedro convocando a Consti­tuinte, resolveu José Bonifacio reunir o Conselho, sob a presi­dencia da Princêsa Real.

Nesta reunião, propõe o Ministro da Fazenda Marfim Fran­cisco que, “diante da má conduta das Côrtes portuguêsas, se declarasse, sem mais detença, a independencia do Brasil”. De­fendida a proposta por José Bonifacio, é unanimemente aceita pelo Conselho, ficando Martim Francisco encarregado de redi­gir o oficio que deveria ser enviado ao príncipe D. Pedro, dan­do-lhe conta das decisões adotadas.

Na tarde de 7 de Setembro de 1822, viajava D. Pedro e sua comitiva de Santos para São Paulo, quando, proximo á colina do Ipiranga, recebeu das mãos de Paulo Bregano e do Major Antonio Ramos Cordeiro, os oficios enviados por José Bonifado.

Numa tirada épica: ali mesmo, proclamou D. Pedro a inde­pendencia do Brasil. Era a sanção real ao trabalho construtivo de José Bonifacio e mais um passo para a nossa definitiva eman­cipação politica.

Proclamada a independencia, foi lembrado por José Boni­facio que se conferisse ao principe o titulo de imperador, ideia que D. Pedro adotou, com exclusão de qualquer outra, segundo informa Vasconcelos Drumond.

José Bonifado desejando concretisar o grito do Ipiranga, lançou a proclamação de 21 de Setembro, que marcava o dia 12 de Outubro, para aclamação solene de D. Pedro, como Impera­dor Constitucional e Defensor Perpetuo do Brasil. Este mesmo decreto, referendado por José Bonifado, fixava em quatro me­ses o praso, dentro do qual os portuguêses dissidentes deveriam deixar o Brasil ou reconhecerem a sua independencia.

Depois da aclamação do imperador, começou o ministerio Andrada a ser tenazmente hostilisado pelas facções chefiadas por Joaquim Gonçalves Lêdo e José Clemente Pereira, que lhe dispu­tavam o poder.

A politica adotada por José Bonifacio, depois de 7 de Setembro, caracterisou-se pelo aspecto aparente de uma ditadura tirânica.

Inflexível a todas as injunções, refreando por todos os meios as tendencias anarquicas que 0s facciosos pretendiam explorar em beneficio proprio, garantiu com estas medidas a integrida­de e a independencia da patria. Este foi o grande e inestimavel serviço prestado pelo Patriarca.

Alguns actos violentos de José Bonifacio, como a prisão do redactor do Correio do Rio de Janeiro, deram lugar a uma crise ministerial, que terminou com o pedido de demissão dos Andradas, em 28 de Outubro. O povo amotinado pede a reinte­gração do ministerio demitido; acedeu D. Pedro, sendo então, com grande jubilo popular, arrastada a carruagem de José Bo­nifacio pelas ruas da cidade.

Redobram às Andradas a sua politica de inflexivel rigidês. Fundam o Apostolado, contraminam a actividade das lojas ma­çonicas partidarias de Lêdo, que acusam de republicano e dema­gogo. Nesta facção foram incluidos José Clemente, Nóbrega, Conego Januario, Alves Branco e outros vultos eminentes da independencia.

Depois da coroação de D. Pedro, a 1.° de Dezembro, activa José Bonifacio o seu trabalho de consolidação da nacionalidade. Sequestra as propriedades portuguêsas existentes no Brasil; con­trata Lord Cockrane para assumir o comando da Marinha impe­rial e submeter as provincias rebeldes do Pará e Maranhão; au­menta a marinha de Guerra e activa o trabalho nas oficinas do Arsenal de Marinha; cria o corpo diplomatico e providencia a instalação da Constituinte.

Ao reunir-se pela primeira vez a Assembleia Constituinte, no dia 17 de Abril de 1823, ainda eram violentas as dissenções partidarias, e já começavam a tomar vulto os movimentos de oposição á politica violenta e ditatorial dos Andradas.

A 3 de Maio abriu o imperador a sessão da Constituinte, esperando que a assembleia ali reunida votasse uma Constituição “tão sábia e tão justa, quanto apropriada á localidade e civilisa­ção do povo brasileiro”.

Infelizmente, as veleidades de uns, a arrogancia de outros e a mediocridade de muitos, contribuíram para o fracasso da Constituinte, que foi dissolvida pelo golpe de Estado de 16 de Novembro de 1823.

Foram imediatamente presos os deputados José Bonifacio, Martim Francisco, Antonio Carlos, José Joaquim da Rocha, Montezuma e Padre Belchior, acusados de atacarem a pessoa do Imperador e os oficiais da guarnição do Rio de Janeiro, nos seus jornais o Tamoio e a Sentinela.

Seis dias antes da dissolução da Constituinte, fôra demi­tido o ministerio Andrada e nomeado outro “mais realista e me­nos escrupuloso”, no qual Vilela Barbosa, o maneiroso Marquês ele Paranaguá, ocupava a pasta de Ministro do Imperio.

Finalmente, a 20 de Novembro, partem para a França, na charrua Leuconia, os deportados da Constituinte. O decreto de expulsão fixava em cinco anos o exílio que José Bonifacio pas­sou em Talance, Conderan e nos arredores de Bordeus, dedican­do-se novamente ás suas especulações científicas e ao cultivo da poesia, que procurava como um balsamo para o seu coração, sempre que o afligia a ingratidão dos homens.

Foi em seu exilio, nos arredores de Bordeus, que José Bonifacio activou a sua produção literaria. Ali escreveu grande numero de poesias, cartas politicas e literarias, e fez uma tradu­ção do Livro XXXII da Historia Natural de Plinio,

Em uma das suas cartas a José Joaquim da Rocha e a Vas­concelos Drumond, então em Paris, informava que aproveitan­do a solidão do campo, traduzira uma ecloga de Virgilio e preparava uma outra de Píndaro.

Ao ter conhecimento de sua eleição para senador pela Baia, em 1826, escreve Andrada aos seus amigos, que, embora se achasse muito sensibilisado com a escolha dos baianos, não am­bicionava mais do que descansar em um canto de sua provincia.

Através das Cartas Andradinas, publicadas no Vol. XIV dos Anais da Biblioteca Nacional, vê-se que no exilio f oi grande a preocupação literaria e científica de José Bonifacio, tendo pen­sado mesmo em escrever uma historia da revolução do Brasil.

Foi a 23 de Julho de 1829 que, depois de sete anos de exilio, desembarcou no Rio de Janeiro, velho e alquebrado, o conse­lheiro José Bonifacio.

Na travessia, feita a bordo da galera Fenis, perdera a es­posa, facto que muito o acabrunhára. Recolheu-se a uma cha­cara na ilha de Paquetá, onde anhelava repousar, alheio ás bor­rascas políticas que preparavam o 7 de Abril.

Recebeu-o amistosamente o Imperador, e o Congresso Le­gislativo, reconhecendo os grandes serviços que prestára á pa­tria, concedeu-lhe uma pensão anual de quatro contos de reis. A Imperial Academia de Medicina recebeu-o como socio honora­rio, e em toda parte era o velho Andrada alvo de manifestações de apreço e carinho.

Depois da dissolução da Constituinte, D. Pedro I aprovei­tando as bases organisadas por Antonio Carlos, redigiu e pro­mulgou a Constituição de 25 de Março de 1824. A outorga da Carta Constitucional não evitou que as funções politicas conti­nuassern a entrechocar-se, tirando do caracter impulsivo do imperador, todo o partido para satisfação de suas ambições. As fac­ções republicanas ou monarquicas, os homens de tendencias li­berais ou conservadoras, eram ora guindados, ora descidos do poder, mas sempre extremados em perseguições e vinganças quando exerciam temporariamente o mando.

Com esta politica incerta e desorientada, sempre guiado pe­las paixões que o assaltavam no momento, não fez D. Pedro se­não descontentar a todos os partidos, despopularisando-se c criando um ambiente de desconfiança em torno de sua pessoa e de suas acções.

A situação do imperador agravou-se nos motins de Abril, onde uma demissão de ministros foi o motivo para a sedição que o derrubou.

Resolveu D. Pedro, na noite de 6 de Abril, ao ter de res­ponder a uma consulta que lhe trazia o major Miguel Frias, ab­dicar a corôa do imperio na pessôa de seu filho menor, o princi­pe D. Pedro de Alcantara. Lembra-se, então, neste momento angustioso, do velho José Boni facio que, isolado em seu retiro de Paquetá, evitára qualquer participação nas agitações politicas do Rio de Janeiro.

Pelo decreto de 6 de Abril de 1831, usando de um direito constitucional, nomeia tutor de seus filhos menores o “mui pro­bo, honrado e patriotico cidadão José Bonifacio de Andrada e Silva, meu verdadeiro amigo”.

Amicus certus in ae incerta cernitur, escrevia D. Pedro ao conselheiro Andrada, na hora amarga em que as circunstancias o obrigaram a deixar os filhos pequeninos e o grande imperio que fundára, entregues ás sanhas do povileu amotinado e mal conduzido por patriotas inflamados de ideias revolucionarias.

Depois da assinatura do decreto de 7 de Abril de 1831, en­tregue ao Major Miguel Frias, demitiu D. Pedro o ministerio, conservando apenas o Marquês de Inhambupe.

Tomado de grande emoção, recolhe-se o ex-imperador em companhia de D. Amelia, da Rainha D. Maria da Gloria e dos marquêses de Loulê, a bordo ela fragata Warspite, da marinha britânica, passando-se depois para a fragata Volage, que o conduziu á Europa.

Segundo Vasconcelos, Drumond, a abdicação de D. Pedro, foi um acto preparado pelos expatriados portuguêses em Lon­dres, á frente dos quais se achavam José da Silva Carvalho, Francisco Gomes ela Silva (O Chalaça) e João da Rocha Pinto. Imperio do Brasil. — Rio de Janeiro — Na Imprensa Nacional — 1823 — 12 pgs.

Insinuariam, estes ultimos, a conveniencia que teria o impera­dor em abandona, o Brasil, para fundar na Europa um novo im­perio, reunindo a Espanha e Portugal. D. Pedro teria, talvez, agarrado a oportunidade do 7 de Abril.

Depois da abdicação espalhou-se a anarquia pelo país, e a revolução parecia querer aniquilar a obra tão bem iniciada. A Regencia interina formada por Lima e Silva, Caravelas e Ver­gueiro, não poupava esforços para restabelecer a ordem altera­da na Côrte e em todas as provincias. A Regencia Trina (Lima e Silva, Costa Carvalho e Braulio Moniz), eleita a 17 de Junho, continuou na mesma campanha de restauração da ordem, lan­çando mão de medidas extremas.

Os partidos politicos, Exaltados, Moderados e Restauradores, debatiam-se na ambição do poder, concorrendo com a indis­ciplina das tropas para a subversão da ordem. José Bonifácio, Cairú e Paranaguá, chefiavam o partido Restaurador, chamado Caramurú, sendo por isso fortemente hostilisados pelos rancoro­sos inimigos de D. Pedro, tido então como tirano indesejavel.

Tentou a Regencia destituir José Bonifacio da tutoria dos príncipes, e não o conseguindo, demitiu-se a 30 de Julho de 1832. As Camaras reunidas não aceitam a demissão e suspendem José Bonifacio de tutor, nomeando o Marquês de Itanhaen para subsitui-lo.

A Sociedade Militar e os jornais restauradores são destruidos pelos exaltados e republicanos no dia 2 de Dezembro de 1833, sendo então preso na Quinta da Bôa Vista o conselheiro José Bonifacio, que é conduzido em custo dia para a ilha do Pa­quetá. Coagido e espionado, sofre um processo por crime de conspiração contra o regimen, sendo absolvido pelo júri.

Em 1834, extingue-se o partido Restaurador, com a morte de D. Pedro, em Portugal. Este partido, chefiado pelos irmãos Andrada, chegou a ter, por intermedio de Antonio Carlos, entendimentos com o então Duque de Bragança, para a sua restauração no trôno do Brasil.

Finalmente, esquecido de seus amigos e inimigos, passou José Bonihcio os seus ultimos anos de vida na ilha do Paquetá, vindo a falecer em Niteroi no dia 6 de Abril de 1838.

Morreu pobre, sem titulos honorificos ou condecorações, mas cheio de grandes serviços prestados á patria.

Foi o seu cadaver embalsamado e sepultado na Ordem do Carmo, no Rio de Janeiro, sendo mais tarde transferido para o Convento da mesma Ordem, em Santos. Em 1922, a Camata Municipal ergueu ali um Panteon, para repouso das cinzas do grande patriota e dos seus irmãos e colaboradores na obra da independencia, Antonio Carlos e Martim Francisco.

A obra de erudição politica e literária de José Bonifácio, é grande e variada. Espalhada quasi toda em revistas, anais e me­marias, a maior parte esgotada e desconhecida, mostra-nos, pela variedade dos assuntos abordados, que deveria ser grande e pro­funda a sua ilustração. Sem exagero, foi o brasileiro mais erudito e mais sabio de todos os tempos. A simples leitura de sua biografia confirma a nossa asserção.

Dividiremos, de acordo com as fases da sua vida, a sua obra em três partes: a científica, compreendendo as publicações de 1790 a 1820; a politica, reunindo os seus trabalhos, de 1820 a 1823; e a literaria, de 1825 a 1831.

1.° Periodo — Bibliografia científica — 1790 a 1820.

1) Memoria sobre a Pesca das Baleias, e Extracção do seu Azeite; com algumas reflexões a respeito das nossas Pescarias. — in-Memórias Economicas da Academia Real de Ciencias de Lisbôa — MDCCXC — Tomo II — pg. 388.

2) Sobre o erro em que estavam os europeus a respeito das descobertas do diamante. — in — Annales du Museum de l’Histoire Naturelle de Paris — 1790.

3) Memoria sobre fluido electrico. — in — Annales de Chimique de Fourcroy — Paris — 1791.

4) Caracteres distintivos dos minerais Akantikone, Spodumene Sahlite, Ictioftalma, Cocolite, Afrisite, Alocroite, Indi­colite, Wernerite, Petalite, Kriolite, Scapolite.

In J ournal de Physique — Paris — 1797 — pg. 240.

In Journal des Mines, de França.

In Journal de Chimique de Schurer, na Alemanha.

In Anais de Quimica de Fourcroy.

5) Memorais sobre a pesca da baleia, sobre os melhores processos para preparar azeite e sobre as vantagens que o gover­no tiraria animando e favorecendo as pescarias que se poderiam fazer nas costas do Brasil.

In Memorias da Academia Real de Ciencias — 1799 — Tomo II — pg. 388.

6) Memoria sobre as minas de carvão de pedra em Portugal.

In Memoria da Academia Real de Ciencias de Lisbôa — 1809.

In “O Patriota” — Rio de Janeiro — 1813 — n.° 1 a 3.

In “Investigador Português” — Lisbôa — 1814 — Vols. 10 e 11.

7) Viagem minerografica pela Província de Estremadura até Coimbra em 1800.

In Mem. da Acad. Real de Ciencias de Lisbôa — 1812.
8) Viagem geognostica aos montes euganeos, no territorio de Padua na Italia, — in Mem. da Acad. Real de Ciencias de Lisbôa — 1812.

9) Instruções dadas para servirem de regulamento ás obras futuras e policia do Mondego — Coimbra — 1813.

10) Experiências Quinticas sobre a quina do Rio de Ja­neiro, comparada com outras. — in Mem. da Acad. Real de Cien­das de Lisbôa — 1314 — Tomo III — 2.ª Parte.

11) Memoria sobre a necessidade e utilidades do plantio de novos bosques em Portugal, particularmente de pinhais nos areais de beira mar. — Lisbôa — na Tip. da Acad. Real de Cien­cias – MDCCCXV — in 4.° de VIII — 187 pgs.

12) Memoria mineralogica sobre o distrito metalífero en­tre os rios Ave e Zezere. — in Mem. da Acad. Real de Ciencias de Lisbôa — 1816.

13) Memoria sobre a nova mina de ouro da outra banda do Tejo — in Mem. da Acad. Real de Ciencias de Lisbôa — 1817.

14) Memoria sobre as pesquisas e lavra dos veios de chumbo de Chacim, Souto, etc. — Lisbôa — 1818 — in 4.°.

In Mem. da Acad. Real de Ciencias de Lisbôa — 1818.

15) Excursão montanistica em parte da Provincia de São Paulo para determinar os seus terrenos metalíferos. — in Jour­nal des Mines — 1820.

2.° Periodo — Bibliografia politica — 1820 a 1823.

1) Apontamentos para a civilização dos índios bravos do Imperio do Brasil —  Rio de Janeiro — na Imp. Nacional — 1823 — 12 pags.

2) Estatutos para a sociedade Economica da Provincia de São Paulo — Rio de Janeiro — Na Imp. Nacional — 1821 — 8 pgs.

3) Parecer da Comissão encarregada dos arquivos adicionais da Constituição para o Brasil, lido pelo deputado de São Paulo, o Sr. J. B. A. S. na sessão de 17 de Junho de 1822. — Rio de Janeiro — Na Tip. Nacional — 1822 — 2 pgs.

4) Edital de 12 de Dezembro de 1822 — Rio de Janeiro — Na Imp. Nacional — 1822 — 1 pg.

5) Manifesto de S. A. R. o Príncipe Regente Constitu­cional e Defensor Perpetuo do Brasil. — Rio de Janeiro — Na Imp. Nacional — 1822 — in folio.

6) Representação que, á Augusta presença de S. A. R. o Principe Regente do Brasil, levaram o Governo, Senado da Ca­mara, e o Clero de São Paulo — Rio de Janeiro — Na Imp. Na­cional — 1822 — in folio de 14 pgs.

7) Projecto de Constituição para o Imperio do Brasil — ­Rio de Janeiro — 1823 — in 16.° de 56 pgs.
8) Discursos parlamentares — in Diario do Parlamento Brasileiro — 1823.

9) Representação á Assembleia Geral Constituinte e Le­gislativa do Imperio do Brasil sobre a escravatura. — Paris — ­Na Tip. de Firmin Didot — Rue Jacob n.° 24 – MDCCCXXV — in 4.° de 40 pgs.

Ceará — Tip. Cearense — impresso por Joaquim José de Oliveira — 1831 — in 8.° de 24 pgs.

Rio de Janeiro — reimpresso na Tip. de J. E. S. Cabral — 1840 — in 4.° de 21 pgs.

In-Abolição — Rio de Janeiro — 1884.

10) Refutation des Calomnies Relatioes aux affaires du Brésil inserées par un sieur De Loy dans “l’Independant” de Lyon. — Paris — Imp. A. Beraud 1866. in 8.° de 60 pgs.

3.° Periodo — Bibliografia literaria — 1823 a 1838.

1) Poesias avulsas de Americo Elisio — Bordeus — 1825 in 16.° de 151 pgs.

2) Poesias de Americo Elísio — Contém todas as poesias da edição anterior e mais as odes aos Gregos e aos Baianos. No fim do volume ha um esboço biografico de José Bonifa­cio, por J. Norberto.

3) O Reino da Estupudês — Poema em colaboração com Francisco de Melo Franco — Pará — 1819.

In Parnaso Lusitano — 1826 — Tomo VI.

Paris — 1834 — in 32.°.

Lisbôa — Imp. de João Nunes Esteves.

4) A’ Poesia. A’ Amizade — Odes.

In Parnaso Lusitano — Lisbôa — 1827 — Vol. IV — pg. 149.

5) Odes aos Gregos

In Parnaso Brasileiro — Cad. 4.° — pg. 22.

In Anais da Biblioteca Nacional elo Rio de Janeiro — 1886

— 7. VaI. XIV. pg. 1

6) Protesto á nação brasileira e ao mundo inteiro — Rio de Janeiro — Tip. ele E. Seignot — Plancher — 1831 — in folia de 1 pg.

7) Manifesto do Grande Oriente do Brasil por J. B. de Andrade — G:. M:. — Rio de Janeiro — Tip. dos Irm., R. Ogier – 1831.
8) Manifesto do G.’. O.’. B.’. a todos os GG.’. OO.’. GG . ‘, LL.’. RR.’. MM.’. de todo o mundo — Rio de Janeiro — Tip, Austral — 1837 — in 4.° de 19 pgs.

9) Elogio Academico da Senhora D. Maria I, recitado em Sessão Publica da Academia Real de Ciencias de Lisbõa, aos 20 de Março de 1817. — Rio de Janeiro — Na Tip. ele Francisco de Paula Brito — 1839.

Rio de Janeiro — 1857 — 79 pgs.

Depois da morte de José Bonifacio, forall1 publicadas as seguintes obras:

1) Necessidade de um.a academia agrícola no Brasil — in Revista Popular — 186Z – XVI – n.° 290 e 330.

2) Cartas Andradinas — Correspondencia de José Boni­facio, Antonio Carlos e Martim Francisco, com o conselheiro Drumonel, de 1824 a 1838.

In Anais da Biblioteca Nacional — 1886 – 87 — Val. XIV — pg. 1 a 84.

Rio de Janeiro — Tip. da Biblioteca Nacional – 1890 — in 8.° ele 86 pgs.

3) Ideias sobre a organisação politica do Brasil, quer coma reino unido a Portugal, quer como reino independente. — in Revista do Instituto Historico Brasileil0 — 1888 — Vol. LI — II — pg. 79.

Além das obras publicadas, acima enumeradas, encontram­-se grande numero de manuscritos, autografos e copias de José Bonifacio, na Biblioteca Nacional, no Instituto Historico, e no Arquivo Nacional. Em poder do Dr. Martim Francisco, advo­gado em Santos e falecido ha poucos anos, existiam diversos autografes cle José Bonifacio. Ignoramos que destino tenham tomado estes preciosos documentos, depois da morte daquele pu­blicista.

A obra poetica de José Bonifacio, iniciada em sua mocida­de, sofreu longa interrupção na fase científica e política de sua vida.

Quando estudante em São Paulo e em Coimbra, escreveu algumas poesias de feição classica e arcadica, que só tiveram publicidade, quando os sentimentos recalcados no seu exilio de Bordeus, lhe despertaram o estro. Foi no desterro, já sexage­nario, que José Bonifacio desdobrou sua actividade literaria, revelando-se um poeta pessoal, vigoroso e enérgico.

A sua poesia, imbuída de filintismo, está ainda mal presa aos modelos classicos do arcadismo decadente. Fulgurações ro­manticas aparecem em meio do bucolismo arcadico dos seus ver­sos, dando-lhes um certo feitio pessoal e subjectivo. Esta feição de grande parte de suas poesias, especialmente as patrioticas, co­locam-no, sem favor, entre os predecessores imediatos do nosso Romantismo.

Assim, é com um brando calor de sensualidade, que o poe­ta, descreve a sua Pastora:

“De beleza em beleza divagando

Sôfrega a mente se me vai nos olhos

Depois meiga saudade

Manso e manso do peito se apodera …

Tudo o que vejà então me pinta Eulina!

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Parece que a estou vendo!

Qual zefirinho meigo

Que as espigas açoita levemente;

— Assim lhe ai tremendo o eburneo colo,

Assim os lacteos pomos buliçosos,

Brincas dos cupidinhos

Docemente vacilam

Quando entre as flores nova flor passeia!”

As suas poesias puramente arcadicas, têm belezas que se não encontram em nenhum dos seus contemporaneos patricios e portuguêses.

A ode sáfica A Primavera, é uma composição de grande beleza emotiva:

Moço, bebamos; enche o copo, bebe;

Já novas rosas novo aroma espargem.

Eia ligeiros aos jardins desçamos

De Nise asilo.

Outra vez quero renovar amores,

A Pilomela acompanhando a lira:

Que gema Nise, como aquela geme,

Entre meus braços.

No canto escuso do rosal cheiroso

A Baco brinde, como aqui eu brindo;

Brinde aos amores, que co’as rosas voltam,

E com elas brincam.

A vida acaba; muda-se a Fortuna,

Que bens e males sem juizo espalha:

Os que hoje vivem amanhã morreram

Amemos hoje.

A poesia patriotica no Brasil, teve em José Bonifacio um dos seus mais legitimos representantes. O seu temperamento or­gulhoso, autoritario e violento, ferido pela ingratidão dos seus compatriotas, sofreu uma profunda depressão, toda reflectida em sua obra literaria.

O amor da patria, exacerbado pela distancia e pelas agru­ras do exilio; o despeito e o adio incontido e mal guardado; a revolta do orgulho ferido e da vaidade espesinhada, são os ele­mentos que se caldeiam na composição da obra literaria do velho Andrada. Produto da compressão de sentimentos: superiores, com predominio das qualidades egoísticas, é o que encontramos em quasi todas as poesias e cartas de José Bonifacio.

Conquanto no melhor de sua obra literaria transpareça sem­pre um nobre sentimento de amor á patria, é este algumas vezes­ conturbado, por um amargo resaibo de despeito, adio e orgulho, que o rebaixa e desmerece.

Na Ode aos Baianos que o elegeram duas vezes deputado á Assembleia Legislativa, vaza José Bonifácio todo o seu rancor contra o Brasil de seus adversarios — ”Brasil, onde só vís es­cravos medram”:

“Altiva musa ó tu que nunca incenso

Queimaste em nobre altar ao despotismo:

Nem insanos encomios proferiste

De crueis demagogos;

Ambição de poder, orgulho e fausto

Que os servís amam tanto, nunca, ó Musa,

Ascenderam teu estro — a só virtude

Soube inspirar louvores.

.          .          .          .          .          .          .          .          .          .

Embora nos degraus do excelso trôno

Rasteje a lesma, para ver si abate

A virtude que odeia — a mim me alenta

Do que valho a certeza.

.        .        .         .         .        .         .          .         .        .          .

Duas vezes, Baíanos, me escolhestes

Para a voz levantar a pró da patria

Na assembleia geral, mas duas vezes

Foram baldados votos

.       .       .       .         .           .          .         .         .        .         .         

Morrerei no desterro em terra estranha,

Que no Brasil só vís escravos medram

­Para mim o Brasil não é mais patria,

Pois faltou a justiça.

.           .          .           .          .         .         .         .         .         .  

Oh! país sem igual, pais mimoso!

Si habitasseem em ti sabedoria,

Justiça, altivos brios, que enobrecem

Dos homens a existencia

.        .          .          .         .          .          .          .         .          .      

Que o Brasil inclemente (ingrato ou fraco)

A’s minhas cinzas um buraco nega:

Talvez tempo virá que indo pranteie

Por mim com dôr pungente.

.           .           .           .           .          .          .          .          .

Aquele, que gigante inda no berço

Se mostrava ás nações, no berço mesmo

É já cadaver de cruéis harpias

De malfazejas fúrias.”

No Poeta desterrado é a mesma queixa, o mesmo despeito do vate exilado:

“Ah! não digas, ó Zoilo, mal do vate,

Se aos lares seus não volta; acicalado,

Subito ferro afogaria o grito,

Que pela patria erguesse.

Ali da santa liberdade os filhos,

Esses poucos que restam, foragidos

Vivem inglorios; pois as honras dão-se

A perjuros escravos.

Almas fracas e vís! e vós não vêdes

Que o facho horrivel, que alumia a senda

Das falsas honras, acendeis no fogo

Que abraza o Brasil todo?

Escreveu, ainda, José Bonifácio diversas odes, cantatas, epistolas, sonetos, epigramas, anacreonticas, etc., todas enfeixa­das nas Poesias avulsas de Americo Elisio.

Das suas odes, são mais notaveis a Ode á Natureza, a Ode aos Gregos e as Odes Sáficas.

Compoz uma parafrase ao Cântico dos Cânticos, em estilo demasiado realista para a época:

“Oh! dá-me, ó cara os saborosos beijos

Dessa suave purpurina bôca!

Sim, eu ardo de amor, mas não sou bela.

Contigo só, contigo, caro esposo,

Derreter-se de amor esta alma anseia.

Feliz serei, se o fogo meu te acende;

E serão paga minha os teus deleites.”

Traduziu, ainda, algumas poesias de Virgílio, Pindaro e Hesiodo, alguns poemas de Ossian, e a Primeira Noite de Young.

As Cartas Andradinas, publicadas no Vol. XIV dos Anais da Biblioteca Nacional, foram escritas por José Bonifacio, quan­do exilado em Bordeos, entre os anos de 1824 a 1829, aos seus amigos e companheiros de exilio, Vasconcelos Drumond e José Joaquim da Rocha, que residiam em Paris.

Nestas cartas, tratava Andrada de poesia, artes, negocios intimos e especialmente de política. Nelas fazia acerba crítica aos sucessos e aos homens do Brasil, derramando em todas o fel de um despeito que não dissimulava, perdendo, muitas vezes, a gravidade que se deveria esperar de um espirito ilustrado e ama­durecido pela idade, como o seu.

Muitas das suas cartas estão escritas em estilo grosseiro, onde a pornografia e o realismo crú andam emparelhados. Ho­mens ilustres do primeiro reinado, são ali tratados por apelidos deprimentes. Assim, o Brasil é o Imperio dos Tatambos; D. João VI, é o João Burro, D. Pedro I, é o Imperador de Mata-Porcos (alusão a D. Domitila), é o Pedro Malasartes “o Viscon­de de Pedra Branca, é o Pedra Parda (alusão á sua pele escura), e outros tantos são assim classificados.

Em todas as Cartas Andradinas, mesmo naquelas em que o autor se ocupa de assuntos literarios, aparece sempre um tre­cho onde os seus adversarios politicos são impiedosamente mal­tratados e julgados incapazes de governar o Imperio, que ele su­punha, sem a sua presença, irremissivelmente perdido.

Este sentimento de vaidade chegava muitas vezes a traír o seu patriotismo, desejando males ao Brasil para satisfação do seu incontido despeito.

O estilo das Cartas Andradinas é descurado e muitas vezes descuidado, com abusos de galicismos e termos obsoletos.

As demais obras de José Bonifacio, politicas e científicas, são escritas em estilo fluente e despretencioso, onde se nota an­tes a preocupação do fundo que da forma.

A sua grande obra, ainda espalhada em memorias e revis­tas, quasi toda rarissima, espera que um governo patriotico pague a divida de coligi-la, pondo ao alcance de todos os brasilei­ros esse acervo glorioso que é a obra científica, política e lite­raria do Patriarca da Independencia. Esta obra daria ao Brasil a oportunidade de conhecer a fisionomia do sabia, do estadista e do poeta que, ao transpôr a velhice, teve ainda forças e alento para fundar um imperio.

Integrado nos sucessos da independencia por circunstancias ocasionais, teve José Bonifacio o merito de jamais se desinte­ressar dos destinos da patria em todas as alternativas de sua acidentada vida.

Em plena refrega da Regencia Araujo Lima, quando os Farrapos no Rio Grande, pretendiam amputar impatrioticarnen­te a sua grande obra de integração ela nacionalidade, caía o ve­lho Andrada, combalido pela velhice e pela ingratidão elos ho­mens.

Na grandeza do Brasil, ficou, porém, a sua memoria impe­recivel.

 

FONTE: PARANHOS, Haroldo. História do romantismo no Brasil. São Paulo: Edições Cultura Brasileira, 1937.

PEDRO TAQUES DE ALMEIDA PAIS LEME (1714 – 1777) – História do Romantismo no Brasil


Filho do Capitão Bartolomeu Pais de Abreu e D. Leonor de Siqueira Pais, sobrinho neto do Governador das Esmeraldas descendente de Braz Cubas, nasceu Pedro Taques em São Pau­lo, aos 29 de Junho de 1714.

Oriundo de uma família de “grandes varões”, na sua pro­pria frase, recebeu o nome do seu avô materno, Pedro Taques de Almeida, ao qual juntou o nome ilustre dos Lemes, de quem recebeu o brazão de “cinco melros de prata, postos em aspas, sem pés, nem bicos”. (1)

Seu pai, o grande bandeirante Bartolomeu Pais de Abreu, foi sacio de Bartolomeu Bueno da Silva, o segundo Anhanguéra, e de João Leite da Silva Ortiz, no descobrimento das minas de ouro em Cuiabá.

Vitima das perseguições do famigerado Sebastião Fernan­des do Rego, válido de D. Rodrigo Cesar de Menezes, governa­dor da Capitania de São Paulo, e, mais tarde, de Antonio Cal­deira Pimentel, seu sucessor, viu-se despojado de tudo quanto descobrira, e das mercês que recebera do capitão-general.

(1) Afonso Taunay – Conferencia no centenarío de Pedro Taques.

Acompanhou Pedro Taques o curso de artes no colegio dos jesuitas em São Paulo, onde frequentou as aulas de gramática, retórica, logica, latim, algarismos e geometria. Estudou filoso­fia com o padre Estanislau de Campos, e teve ainda como pro­fessores, o seu padrinho Frei Luis dos Anjos, Luis Ribeiro de Alvarenga e o jesuíta José de Mascarenhas, os dois últimos gran­des linhagistas que, provavelmente, tiveram notável influencia, no pendor que já tinha o historiador paulista por esses estu­dos. (1)

(1) Afonso Taunay – Op. cit.

Quando morreu seu pai, já era Pedro Taques, sargento­mór do regimento da nobreza de São Paulo. Recebeu os encar­gos da familia e dos complicados negocios paternos, enquanto seu irmão mais velho, Bento Pais, procurava em Portugal, reivindicar os direitos que tinham sobre as minas de Cuiabá e o pedagio nos rios de Goiáz. Vitimado por um desastre, pereceu Bento Pais afogado no Tejo, ficando Pedro Taques com a ad­ministração da herança paterna.

Começou em 1742, a pedido do Conego Vilela Bueno, os seus trabalhos historico-genealogicos, escrevendo o titulo dos Buenos.

Achava-se em 1750 na Vila Bôa de Guaiazes, tentando for­tuna na mineração, quando o Conde dos Arcos o nomeou escrivão da Intendencia omissaria e Guarda-Mória do distrito da Pilar, com jurisdição sobre os arraiais de Crixás e Guarinos. Este emprego deveria proporcionar-lhe bons proveitos, facili­tando-Ihe os meios de adquirir fortuna. Transportou-se, então, com sua família para o irraial de Pilar, numa jornada de mais de quarenta leguas, através de invio sertão, infestado de féras e selvagens.

Ali permaneceu cerca de quatro anos, tendo desempenhado tambem os cargos de tabelião e provedor de defuntos e ausentes; sua administração foi honesta e proveitosa para os interesses da Fazenda Real.

Mais tarde, tomou para si uma lavra, que explorou com proveito. Cansado, afinal, da vida cheia de horrores e corrupção do arraial goiano, resolveu o historiador regressar a São Paulo, na intenção de se passar depois ao Reino, afim de tentar, ainda, uma vez, a reivindicação de seus direitos sobre as minas e pedagios de Goiáz. .

Assim o fez, embarcando para Portugal em 1755, tendo aportado em Lisbôa, em Setembro deste ano. Aí chegando, instalou-se no Bairro Alto, proximo á igreja de Nossa Senhora dos Mártires e do cemiterio de São Francisco. Sobrevindo o terre­moto de 1º de Novembro de 1755, perdeu Pedro Taques na vo­ragem dos incendios, tudo o que possuia, acolhendo-o nesta pe­nosa situação, D. Izabel Pires Monteiro, casada em segundas núpcias com o sargento-mór  João Fernandes de Oliveira, pri­meiro contratado  de diamantes no Tejuco.

Com o auxilio deste poderoso protector, amigo e válido do Marquês de Pombal, conseguiu o escritor paulista a sua nomea­ção para o lugar de tesoureiro-mór da Bula da Cruzada nas ca­pitanias de São Paulo, Goiáz e Mato Grosso. A 12 de Março de 1757, regressava Pedro Taques para o Rio de Janeiro, afim de tomar posse do cargo para o qual fôra nomeado, deixando João Fernandes de Oliveira como seu fiador em Portugal.

Novos desgostos aguardavam-no em sua patria, pois mal chegado á São Paulo, recebia a noticia do falecimento de sua mulher.

Casou-se segunda vez em 1761, com D. Ana Felizarda Xa­vier da Silva, tendo novamente enviuvado em 1762. Neste ínterim, perdera dois filhos, e internára o seu primogenito na ordem dos carmelitas, destinando-o ao claustro.

Data dessa época o grande impulso dado por Pedro Taques a  sua obra principal;  investigou documentos, copiou manuscritos, revolveu cartórios e arquivos, distribuindo agentes de pes­quizas em todos os lugares que julgou necessário.

Seu primo e amigo, Frei Gaspar da Madre de Deus, afirma que, durante cinquenta anos, levou Pedro Taques a examinar os cartorios de todas as vilas das capitanias de São Paulo e São Vi­cente, assim seculares como eclesiásticos. Com essas trabalhosas pesquizas, acumulou o formidavel acervo para formação de sua grande obra histórica, a maior que no Brasil se escreveu no se­culo XVIII.

Em Junho de 1763, foi investido no cargo de guarda-mór das minas de São Paulo, mantendo as mais cordiais relações de amizade com o capitão general D. Luis Antonio de Souza Bo­telho e Mourão, Morgado de Mateus.

“Nestes anos imenso trabalhou, escreve o Sr. Afonso Tau­nay. O enorme edificio da Nobiliarquia, lenta e firmemente cresceu, alicerçado na consciencia e na verdade, o que não impediu que o escritor paralelamente cuidasse das obras, infelizmente perdidas, de que por vezes nos faz menção; entre outras a His­tória de São Paulo, o Discurso cronológico dos descobrimentos do Brasil, os Elementos da História de Piratininga, etc.”. (1)

(1) Afonso Taunay – Op, cit.

Em 1769, já quasi sexagenario, contrái Pedro Taques novas nupcias com D. Inacia Maria de Assunção e Silva, jovem de vinte anos de idade.

Pouco depois do seu terceiro consorcio, era Pedro Taques suspenso das funções ele tesoureiro-mó r, pelo ouvidor geral, Dr, Salvador Pereira da Silva, por se achar alcançado com a Fazen­da Real, em vultuosa quantia. (1)

(1) Segundo o Sr. A. Taunay, este alcance era de Rs.: …• 13; 42 6$866 ou cerca de quinhentos contos de reis, actualmente.

Para cobertura do desfalque, foram sequestrados e vendi­dos todos os seus bens; ao produto desta venda, juntou o linhagista uma remessa feita pelo seu procurador em Goiáz, ficando com isso, reduzido a um terço o alcance, cujo remanescente foi coberto pelos seus fiadores. Ficou assim o infeliz linhagista em completa miséria.

Cometêra Pedro Taques a leviandade de emprestar os di­nheiros sob sua guarda, confiante nos que abusavam de sua bôa fé e fraqueza. Segundo o Sr. Afonso Taunay, em seu magnifico estudo sobre Pedro Taques, emprestou o historiador avultadas quantias ao seu segundo sogro e a D. Maria Angela Eufrasia da Silva, viuva do opulento capitalista André Alves de Castro, pro­diga senhora, cujos filhos promoveram e obtiveram sua inter­dição e, talvez, provocaram a campanha contra a honorabilida­de do autor da Nobíliarquia.

Em 1789, doze anos após a morte de Pedro Taques, pro­moveu sua filha mais velha, um processo reabilitador de sua memoria, enxovalhada por irredutíveis inimigos. “A porfia, es­creve o Sr. Taunay, vieram então declarar as pessôas mais ilus­tres de São Paulo, as mais altamente colocadas e as mais presti­giosas, que o tinham como inocente vítima da mais clamorosa in­justiça, da mais cruel perseguição, movida pelo seu figadal e invejoso inimigo o Dr. José Correia da Silva, que abusara da fraqueza e credulidade do Arcediago”. (2)

(2) Afonso Taunay – Op. cít.

Em 1770 agravára-se a molestia que ha tempos vinha pro­gredindo, a paralisia geral, a ponto de não poder mais coordenar os movimentos da escrita.

Com o benemérito fim de auxilia-lo em sua miseria, o capi­tão general D. Luis Antonio de Botelho e Mourão, incumbiu-o de escrever as Informações sobre as minas de São Paulo e a In­formação sobre o estado das aldeias de indios da capitania de São Paulo, serviços estes, que foram generosamente retribuídos.

O Conde Vimieiro, seu grande amigo, pedira-lhe de Portu­gal, provas de seus direitos sobre a Capitania de São Paulo, enviando-lhe o historiador a sua Historia da Capitania de São Vi­cente.

Nessa embaraçosa situação, manteve-se por muito tempo, tendo sido obrigado, por diversas vezes, a recorrer á generosidade do seu amigo, o guarda-mór Agostinho Delgado de Arouche.

Como ultimo recurso á sua vida de privações, pensou Pedro Taques em seguir novamente para o Reino, afim de obter uma indenisação pelos prejuizos sofridos por seu pai, nas minas de Cuiabá e Goiáz. Alquebrado e quasi invalido, tentou ainda o infeliz historiador levar a cabo esta pretenção. Partiu para Por­tugal, e com o auxilio de velhos amigos e dos poderosos Azere­dos Coutinho, senhores de Itaúna e Guaxindiba, morgados de Marapicú e validos do Marquês de Pombal, obteve, depois de lon­ga espera, que seu pedido fosse deferido, em Agosto de 1776.

Regressando ao Brasil neste mesmo mês, chegou a Santos tão doente, que foi transportado numa rêde, para São Paulo. Em principios de 1777, agravaram-se ainda mais os seus padecimen­tos, vindo a falecer em 3 de Março deste ano, no mais completo estado de miseria orgânica.

A indenisação que alcançára, foi cancelada com a queda do ministro de D. José, poucos dias depois de sua morte.

Assim, extinguira-se a tormentosa vida do mais ilustre his­toriador do seculo XVIII no Brasil. Foi ele o historiador das bandeiras, o narrador honesto e integro da expansão geografica, do recúo do meridiano de Tordesi1has para o poente, da epopeia homerica da conquista do Brasil pelos brasileiros.

A ele, historiador até pouco tempo esquecido, quasi desco­nhecido, como o fôra tambem esse formidavel Antonio Raposo Tavares; sómente a ele, devemos a narrativa dos factos glorio­sos, das acções incomparaveis de arrojo, de constancia, de auda­da, dessa “raça de gigantes”, como a qualificou Saint Hilaire, pasmado ante a grandeza de seus feitos e o denôdo de seus heróis.

Infelizmente se dispersou grande parte da obra de Pedro Taques. Da Nobiliarquia salvou-se apenas um terço do que estava escrito, com as copias que existiam em Portugal, em poder de João Pereira Ramos de Azeredo Coutinho, do. conselheiro Diogo de Toledo Lara e Ordonhes, e, finalmente, do Visconde São Leopoldo, que as legou ao seu filho José Feliciano Fernan­des Pinheiro, o qual, por sua vez, as entregou ao Instituto His­tórico. (1)

(1) Afonso Tauuay – Op. cit.

Das obras que escreveu Pedro Taques, chegaram até nós:

A Nobiliarquia Paulistana, historica e genealogica, publi­cada na Revista do Instituto Historico, tomos 32.°, 33.0 e 34.°. Em tomo especial, o Instituto Historico publicou em 1926, uma segunda edição, em dois volumes, com prefacio do Sr. Afonso E. Taunay e um estudo comparativo com a Genealogia Paulis­ta de Silva Leme, pelo Dr. Augusto de Siqueira Cardoso. (Só saiu o 1.0 volume).

Constam nestas publicações 24 titulas genealogicos, tendo sido extraviados 73 titulas de que faz menção o historiador.

Historia da Capitania de São Vicente, desde a sua funda­ção em 1531. Publicada no tomo 9.° da Revista do Instituto Historico, com 108 pgs in-8.º. Esta obra foi escrita para com­provar os direitos que tinha o Conde de Vimieiro sobre a Capi­tania de São Paulo, contestados pelo Conde de Luminares. Este trabalho escrito em 1772, foi encontrado pelo Visconde de Uru­guai, nos arquivos do Ministerio dos Estrangeiros, e por ele ofe­recido ao Instituto Historico. Consoante a opinião do Sr. Afon­so Taunay, o plagiaria Manoel Cardoso de Abreu, deveria ter­se utilisado de uma outra copia, com a qual escreveu a sua His­teria da Capitania de São Paulo.

Sacramento Blake afirma que o manuscrito foi achado por Manoel de Araujo Porto-Alegre, em estado de quasi completa ruina.

Urna 2º edição desta obra, foi preparada pelo Sr. Afonso Taunay e publicada em 1929, pela Companhia Melhoramentos  de São Paulo.

Informação sobre as minas de São Paulo e dos sertões de Capitania desde o ano de 1587 até o presente de 1772, Publicada no tomo 64.’ da Revista do Instituto Hi:storico, com 84 pgs. in-8.’

E um vasto repositorio de informações acerca dos desco­brimentos das minas, suas explorações, e relação das expedições que saíram de São Paulo, em busca de ouro e esmeraldas, até os fins do seculo XVIII.

Ha dois manuscritos desta obra, sendo o original, perten­cente ao Instituto Historico, e uma copia, pertencente a Biblioteca Nacional. Segundo a carta dirigida por Jansen do Paço ao Barão Homem de Melo, o manuscrito do Instituto Historico é o original autografo, e o existente na Biblioteca Nacional., é um original não autografo, isto é, uma copia do primeiro. Este ulti­mo exemplar pertencente ao Morgado de Mateus, e depois ao seu filho, Dr. José Maria de Souza.

Segundo Sacramento Blake, este manuscrito figurou na ex­posição da historia patria de 1880, e pertenceu á colecção João Antonio Alves de Carvalho, de quem foi adquirido pela Biblio­teca Nacional, em 1887.

A Companhia Melhoramentos de São Paulo, publicou uma 2º edição desta obra, em 1929.

Noticia historica da expulsão dos jesuitas do Colegio de São Paulo em 1640. Publicado no tomo 12º da Revista do Instituto Historico, com 40 pgs. In-8.º.

O original existia no convento de São Francisco, no Rio de Janeiro, do qual foi extraída uma copia em 1848, por Manoel de Araujo Porto-Alegre, que a ofereceu ao Instituto Historico. Ha uma 2ª edição de 1929.

Reputam-se perdidas as seguintes, das quais o autor faz menção, e que até o presente não foram encontradas: Historio de São Paulo, Memorias de Jundiaí, Elementos de Historia de Piratininga, Apontamentos, Discursos cronologicos dos descobrimentos do Brasil, Informações sobre o estado das aldeias de indios da Capitania de São Paulo, Vida de Martim Afonso de Souza, Historia do levantamento das Minas Gerais, Demons­tração veridica e cronologica e Historia da conquista a que fo­ram á Baia os paulistas.

Que monumental acervo sobre a historia dos factos relati­vos á expansão territorial e á conquista, não representava este grande trabalho perdido, quiçá aproveitado pelos plagiarios, co­mo aquele Manoel Cardoso de Abreu, de que nos fala o Sr. Afonso Taunay.

A Nobiliarquia Paulistana, obra principal de Pedro Ta­ques, constava de 97 titules genealogicos, dos quais foram encontrados impressos vinte e quatro.

Como vimos, esta obra foi iniciada em 1742, com o titulo dos Buenos, e sempre continuada pelo autor, mesmo nos momentos de sua maior adversidade.

Em sua segunda viagem ao Reino, em 1774, Pedro Taques levou-a, entregando os manuscritos ao desembargador João Pe­reira Ramos de Azeredo Coutinho, a quem devemos a sua sal­vação.

Em cada um dos titulos da Nobiliarquia, o historiador pau­lista passa em resenha todos os factos que se prendem ao personagem que estuda, sendo assim sua obra, um riquissimo repo­sitorio de factos e documentos referentes á “historia da conquis­ta do Brasil pelas bandeiras paulistas e das primeiras eras de São Paulo”.

“Nessa obra colossal, nunca assás admirada, escreve Diogo de Vasconcelos, se recolhem os materiais de toda historia do Brasil meridional”.

Basilio de Magalhães, Calogeras e Capistrano de Abreu, referem-se em termos semelhantes ao grande linhagista.

“Antes de Pedro Taques, que era a historia nacional? Per­gunta Silvio Romero. A enumeração dos reis da Metrópole e dos governadores da colonia, a biografia dos missionarios, a cronica das ordens monásticas. Era uma historia exterior, decora­tiva e insignificante na sua pretenciosidade espectaculosa. Pas­sava-se na rua, ao ar livre, é certo; porém metida num palanque ou num corêto; não era no chão das praças no meio da onda po­pular. Taques tirou-a do palanque, arrancou-lhe as capas, jo­gou-a na rua com a introducção de um novo elemento – o povo. Não era ainda o povo brasileiro em sua totalidade, era ele esco­lhido, representado, nobiliarquisado em suas principais familias, mas era ele. O alcance é imenso. Era a historia indigena, a his­teria com os elementos de cá, arquitectada com os nossos feitos e pela mão de nossos homens. Não era mais urna histeria da America Portuguêsa, boquiaberta diante dos governadores e vi­ce-reis e recheiada de elogios aos monarcas da mãe patria; era antes a descrição de um troço de bandeirantes a internarem-se pelos sertões de Goiáz”. (1)

E’ admirável na obra de Taques, a precisão de ‘suas indica­ções, a exactidão de seus informes, qualidades que o colocam em lugar de destaque entre os historiadores do Brasil, nos seculos XVII e XVIII.

Silva Leme encontrou alguns erros, lacunas e enganos, na cuidadosa revisão que fez na Nobiliarquia, mas, é preciso notar, as dificuldades que teve o historiador em conseguir informações, muitas das quais colhidas em lugares distantes, por pessôas que não teriam o cuidado ou o escrupulo de obte-las com a devida exactidão. Pondera judiciosamente o Sr. Afonso Taunay, que o proprio Silva Leme, dispondo de outros recursos e em outra época, recaiu nas mesmas faltas e cometeu os mesmos erros que apontava no autor da Nobiliarquia.

Silvio Romero comenta que Pedro Taques “tinha em alta escala o sentimento provinciano; antes de tudo era paulista”. E’ justa a observação do crítico sergipano, e mais justo e admirável o sentimento de regionalismo do historiador. “Filho e neto de grandes sertanistas, explica o Sr. Taunay, conhecedor eme­rito do muito que os seus haviam sofrido da faltá de conscien­cia e prepotencia dos governantes portuguêses, frequentemente expoliadores dos trabalhos dos brasileiros, nascido e criado no meio dos resentimentos, ainda vividos na memoria popular e pro­vocados pelo choque entre vicentinos e reinóis, no territorio mi­neiro, seria absolutamente inexplicavel que Pedro Taques não reflectisse esses sentimentos magoados dos seus para com os in­solentes dominadores de além-mar, arrogantes por natureza e opostos por inclinação aos filhos do Brasil”. (1)

Estas judiciosas ponderações do Sr. Afonso Taunay, expli­cam e justificam o veso tão criticado de Pedro Taques atribuir aos paulistas todos os grandes feitos da historia do Brasil. To­davia, das palavras do ilustre Sr. Taunay, não se deve julgar que o linhagista paulistano fôsse um historiador parcial, acometido de mesquinhos sentimentos regionalistas.

Ao revez, em todos os titulos da Nobiliarquia, Pedro Ta­ques mostra-se comedido e justo, quando trata de seus adversarios, como parco de elogios e louvores, em se tratando de seus amigos e parentes.

E isso mesmo, ele o declarou explicitamente, ao tratar de uma sua prima, irmã de Frei Gaspar da Madre de Deus: “As linhas do sangue nos embaraçam os periodos, por não ficarem sujeitos á emulação dos que nos quizeram constituir afastados da pureza, e singeleza, com que escrevemos a nossa Historia Genealogica” .

Concluiremos, notando que a Nobiliarquia Paulistana, é uma obra de documentação valiosissima, onde vemos movimentarem­-se as gerações passadas, em demanda dos sertões longinquos, embrenhando-se no recesso das matas tenebrosas, para a conquista do Brasil que, desconhecido, estendia-se além da linha de Tor­desilhas, aguardando a chegada dos filhos de Piratininga para lhes entregar as riquezas que cioso sempre negára aos conquis­tadores d’além-mar.

 

Fonte: PARANHOS, Haroldo. História do romantismo no Brasil. São Paulo: Edições Cultura Brasileira, 1937

INACIO JOSÉ DE ALVARENGA PEIXOTO (1744 – 1793)


Pereira da Silva no Plutarco brasileiro, indicou o fim do ano de 1748 para natalício de Alvarenga. Mais tarde, ao publi­car os Varões ilustres do Brasil, recuou a data para 1743. Nada, entretanto, comprova a exatidão desta data.

Norberto e Silvio Romero, aceitam o ano de 1744, funda­mentados na declaração feita pelo poeta no seu primeiro inter­rogatorio de 11 de Novembro de 1789, onde declarou chamar-se Inacio José de Alvarenga, ser natural da cidade do Rio de J a­neiro e ter 45 anos de idade. Neste interrogatório, o poeta não se refere ao sobrenome de “Peixoto”, com que mais tarde foi desi­gnado. Em todo o processo da Conjuração, inclusive na senten­ça final, é sempre chamado Inacio José de Alvarenga.

Joaquim Norberto admite que os posteros passaram a cha­ma-lo Alvarenga Peixoto — para diferença-lo de Silva Alva­renga (Manoel Inacio)e Alvarenga ( Lucas José de).

Xavier da Veiga contesta as asserções de Joaquim Norber­to, afirmando que Alvarenga usava algumas vezes o sobrenome de “Peixoto”, assinando assim todos os documentos relativos á Inconfidencia.

Lucio J. dos Santos cita um que possue, de 1788, onde o poeta assina simplesmente, lnacio José de Alvarenga.

Diante desta duplicidade de nomes, cujo motivo é ainda ignorado, poderemos aquilatar do caracter do poeta e da versa­tilidade do seu temperamento.

Segundo declarou em seu primeiro interrogatorio, era fi­lho de Simão de Alvarenga Braga e D. Angela Micaela da Cunha, cuja nacionalidade ainda hoje é desconhecida.

Fez seus primeiros estudos no Colegio dos Jesuitas, no Rio de Janeiro, seguindo em 1760 para Portugal, onde se matriculou na Universidade de Coimbra. Em 1769 recebeu o titulo de dou­ter em leis, sendo despachado Juiz de Fóra em Cintra. Luis Francisco da Veiga e Pereira da Silva, afirmam ter-se Alvaren­ga formado em canones, quando pesquizas posteriores feitas em Coimbra, o dão como formado em leis.

Decorrido o trienio legal deixou Alvarenga o magisterio em Cintra, regressando a Lisbôa, onde se encontrou com alguns compatriotas, em companhia dos quais, poetou em 1775, ao ser inaugurada a estatua equestre de D. José I.

Em 1776, por influencia do Marquês de Pombal, conseguiu ser despachado ouvidor da Comarca do Rio das Mortes, com séde em S. José del Rei, na Capitania de Minas. Embarcou no mesmo ano para o Brasil, tendo chegado ao Rio de Janeiro du­rante o governo do Marquês de Lavradio, de quem se fez grande amigo.

Consoante afirmam Pereira da Silva, Cunha Barbosa e Nor­berto, ao chegar ao Rio, traduziu Alvarenga a tragedia Merope de Scipião Maffei, que dedicou ao Marquês de Lavradio, e com­poz um drama em verso, Enéias no Lacio, totalmente perdido.

Em 1778, casou-se em S. João del Rei, com D. Barbara Heliodora Guilhermina da Silveira, senhora descendente de ilustre familia paulista e dotada de grande talento e formosura. Deste consorcio, houve Alvarenga quatro filhos — Maria Efigenia, José Eleuterio, João Damasceno e Tristão. Dedicavam-se am­bos em dar esmerada educação aos filhos, quando o genio arre­batado e versatil de Alvarenga, o atirou nas malhas da Conju­ração Mineira.

Após seu casamento, dedicou-se o poeta com grande activi­dade á lavoura, explorando as suas fazendas de Pinheiros, na Freguezia de Santo Antonio do Vale da Piedade da Campanha do Rio Verde, termo da vila de S. João del Rei, e do Engenho de Paraúpeba, em Vila Rica. Trabalhavam em suas terras cerca de duzentos escravos, afirma o Sr. Lucia dos Santos. Tinha uma residencia em S. João del Rei e outra em S. Gonçalo do Sapucai, onde possuia lavras auriferas.

Era Alvarenga um espirito empreendedor, audacioso, arre­batado e ardente, e este seu temperamento fe-lo um dos conju­rados mais entusiastas.

D. Luis da Cunha Menezes, governador da Capitania de Minas, fizera-o coronel de Milicia da Campanha do Rio Verde, em Agosto de 1785. Alvarenga sempre preferia este, ao seu ti­tulo academico. Joaquim Norberto diz ter sido esta patente con­cedida a Alvarenga por D. Rodrigo José de Menezes, Conde de Cavaleira. Ha evidente engano elo ilustre historiografo, pois em 1785 já era governador da Capitania de Minas D. Luis da Cunha Menezes.

Espirito altamente culto, muitas vezes se afastava Alva­renga de suas preocupações materiais, para procurar em Vila Rica o convivio intimo da pleiade brilhante de poetas e intele­ctuais ali residentes. Hospedava-se em casa de seu amigo e pa­rente, o desembargador Tomaz Antonio Gonzaga, e, com Claudio Manoel, Diogo de Vasconcelos, Conego Luis Vieira e outros, dispendia o tempo na leitura e na crítica de seus versos. Em uma dessas reuniões em casa de Gonzaga ou Claudio, discutia-se a bandeira que deveria servir á nova republica, quando Claudio Manoel lembrou a inscrição Aut libertas aut nihil. Alvarenga achando-a pobre, propoz a adoção do versiculo de Virgilio — Libertas quae sera tamen, que foi imediatamente aceito.

Forneceria ainda, o poeta, os seus escravos do Rio Verde,  e auxiliaria o movimento, com tropas que aliciaria em Campa­nha, onde tinha notavel influencia.

Em Março de 1789, viajando de sua fazenda de Paraúpeba para Cachoeira, onde pretendia visitar o Visconde de Barbacena, encontrou-se Alvarenga com o Alferes Silva Xavier, que viaja­va para o Rio de Janeiro, desanimado da frieza dos seus com­patriotas. Em seu interrogatório de 14 de Janeiro de 1790, jurou o poeta ter aconselhado Tiradentes a não proseguir em tais cau­sas, e que desistisse de ir ao Rio de Janeiro tratar de semelhante assunto, “porque não era um sertão como Minas, e que qualquer palavra que désse, logo havia de chegar aos ouvidos do Ilmo. e Exmo. Vice Rei, que não era para graças”.

Chegando a Vila Rica, onde assistiu ás exequias celebradas em honra do principe D. José, nas quais pregara o Conego Luis Vieira, reuniu-se com os principais conjurados em casa de Clau­dio Manoel, onde jantaram.

De regresso a S. joão deI Rei, passou Alvarenga pela Ca­choeira, no proposito de cumprimentar o Visconde de Barbace­na, que então já se achava inteirado dos acontecimentos, pelas primeiras delações de Joaquim Silverio e Basilio de Brito.

Saíndo de Cachoeira, onde havia sido friamente recebido pelo visconde-general, passou Alvarenga pela fazenda dos Cal­deirões, onde o Tenente-Coronel Francisco de Paula Freire de Andrade, “lhe certificára que o visconde-general já estava cien­te de tudo pela imprudencia de muitos conjurados, e mormente do vigario de S. José, Carlos Correia de Toledo, que havia levan­tado grande celeuma e que até lhe escrevera dando parte que já tinha cento e cincoenta cavalos prontos para o seu regimen­to”.

Continuando a viagem, chegou Alvarenga a S. João del Rei, no domingo de Ramos, com o espirito aterrorisado ante a pers­pectiva de novas denuncias. Mais tarde, em Abril, ao saber pelo Padre Carlos Correia e pelo Coronel Francisco Antonio de Oli­veira Lopes, que Joaquim Silverio os havia denunciado ao Vis­conde de Barbacena, sentiu, com pavor, o abismo que se abria a seus pés.

“Seria dificil descrever a tempestade que desabou no animo do inconfidente. Pareceu-lhe que a tamanha desgraça só havia ainda um remedio, e este era ir ele sem mais detença, denunciar tudo ao Visconde de Barbacena, indicando-lhe todos os planos da conjuração e os nomes dos que nela estavam comprometidos”. Salvou-o desta ignominia D. Barbara Heliodora. To­davia, não pôde a ilustre mineira livrar seu esposo das miserias a que desceu nos interrogatorios, acusando os seus amigos e com­panheiros de ontem, tratando com ironia os projectos da conju­ração, da qual fôra um dos mais exaltados membros, descendo, ainda mais, a bajulações torpes, enfeitadas de textos latinos, di­rigidas ao Vice-Rei, como aconteceu no seu interrogatorio de 14 de Janeiro de 1790.

No dia 20 de Maio de 1789, achava-se o Coronel Inacio José de Alvarenga na vila de S. José del Rei, quando ali chegou uma escolta comandada pelo Tenente Antonio José Dias Coelho que, a mandado do Visconde de Barbacena, vinha prende-lo. Depois de entregar os seus papeis ao Tenente Coelho, despediu-se da fa­milia, que jamais tornaria a ver, seguindo escoltado para o Rio, onde foi encerrado nos segredos da fortaleza da ilha das Cobras. “Durante os primeiros dias de viagem, — escreve o Sr. Lucia dos Santos, — não abriu a boca, para algo dizer, tão acabrunhado e abatido estava. E quando se resolveu a falar, o fez com a sua habitual leviandade”.

Alvarenga foi interrogado duas vezes — a 11 de Novembro de 1789 e a 14 de Janeiro de 1790.

No primeiro interrogatorio, embora negasse a sua copar­ticipação no movimento, manteve-se, entretanto, dentro de certa compostura moral.

No segundo, a que foi submetido em 14 de Janeiro de 1790, diz ter faltado á verdade no primeiro, comprometendo-se a recti­ficar as declarações anteriores e a prestar novos esclarecimentos.

Derrama então Alvarenga sobre os seus amigos e companhei­ros de infortunio uma tremenda acusação, procurando sempre isolar-se, distribuindo e agravando as responsabilidades dos ou­tros conjurados.

Declara ter visto em casa de Freire de Andrade diversas pessoas, entre outras Claudio, Gonzaga, Co nego Luis Vieira e Padre Carlos Correia de Toledo, pessoas estas que considerava como tendo ascendente sobre o espírito dos povos. Referindo-se a Tiradentes, chama-o de “louco, cara espantada e tapado”. Ma­ciel, o Padre Rolim e Domingos de Abreu, ficaram terrivelmen­te comprometidos no depoimento de Alvarenga. Não poupou, sequer, ao inocente Gonzaga, seu parente e amigo. Delatou-o e envolveu-o maldosamente na conspiração.

No seu segundo interrogatorio, deveria estar Alvarenga com as suas faculdades psiquicas seriamente comprometidas. Espi­rito versátil, impulsivo, brusco e arrebatado, acabrunhou-se ao pêso dos desgostos profundos que o assoberbaram, procuran­do salvar-se por todos os meios ao seu alcance.

Promessas, esperanças longamente alimentadas por seus al­gozes, desenganos e desilusões, — talvez fossem a origem da sensivel depressão de seu caracter, — pela qual foi levado a pro­duzir uma denuncia tão grave e comprometedora, como as que entregaram ao Visconde-general, Joaquim Silverio, Basilio de Brito e o Mestre de Campo.

Para maior abjecção, conclui Alvarenga o seu depoimento com uma larga estirada laudatoria ao ignobil visconde, implo­rando humildemente o perdão á Rainha, cujo poder pretendera pouco antes derrubar . . .

Alvarenga sacrificou ao seu egoísmo todas as suas qualida­des morais; e é lamentavel ver-se em seus depoimentos, o abas­tardamento de seu espirito brilhante, esmagado pelas manobras diabolicas dos inquisidores da Rainha louca.

“Tão satisfeitos se mostraram os magistrados incumbidos da devassa, ,que nunca mais o importunaram senão para uma ou outra acareação. Deixaram-o ai esquecido, entre as húmidas e es­curas paredes da masmorra, vendo as semanas sucedendo-se aos dias, os meses ás semanas e os anos aos meses, ralado por sau­dades, e acabrunhado por toda a sorte de desgostos”.

No dia 18 de Abril de 1792, ouviu Alvarenga, na Sala do Oratório da Cadeia do Rio de Janeiro, juntamente com os outros conjurados, a sentença da Alçada que o condenava á forca, de­clarava infâmes seus filhos e netos, e sequestrava seus bens para a Fazenda Real.

Esta sentença foi modificada pela Carta Regia de 15 de Outubro de 1790, na qual a rainha comutára a pena de morte em degredo para um presidia africano. Designaram-lhe os jui­zes o presidia de Dande, depois substituído pelo de Ambaca.

No dia 5 de Maio de 1792, dois anos depois de sua prisão, a bordo da náu Nossa Senhora de Guadalupe, seguia Alvarenga para o exilio.

Com a saude abalada, o moral abatido, profundamente de­primido, não teve forças para resistir á inclemencia da terra afri­cana, sucumbindo a 1.° de Janeiro de 1793, poucos meses depois de sua chegada.

Grande amoroso da família, por amor de quem tudo sacri­ficou na hora extrema, Alvarenga ao ouvir a leitura de sua sen­tença de morte, crimina, entretanto, a esposa, por “lhe ter im­pedido os primeiros vôos de fidelidade”, e fazendo pouco apreço da vida, “lamentava a orfandade de uma filha, cuja pintura fa­zia mais delicada do que quantas ele fizera descrevendo a sua Venus … ”

Nestes sentidos versos vasou  o poeta naquele tragico mo­mento, toda a sua grande dôr :

“Não me aflige do potro a viva quina;

Da ferrea maça o golpe não me ofende;

Sobre as chamas a mão se não estende;

Não sofro da agulheta a ponta fina.

Grilhão pesado os passos não domina;

Cruel arroxo a testa me não fende;

A’ força a perna ou braço se não rende;

Longa cadeia o colo não me inclina.

Agua e pomo faminto não procuro;

Grossa pedra não cansa a humanidade;

O passaro voraz eu não aturo.

Estes males não sinto, é bem verdade;

Porém sinto outro mal inda mais duro:

— Sinto da esposa e dos filhos a saudade!” 

Pereira da Silva nos Varões ilustres do Brasil, confirman­do uma suposição de Varnhagen, afirmou que Inacio José de Al­varenga merecera a honra de ser admitido na Arcadia, com o criptonimo de Eureste Fenicio, antes de partir para o Brasil. Teófilo Braga, ampliando a ficção de Pereira da Silva, chega a citar o comparecimento de Alvarenga á ultima sessão de 1774, onde defendeu Quita das sátiras do Dr. João Zuniga.

Afirma, ainda, o notavel poligrafo português, ter sido Al­varenga admitido na Arcadia de Lísbôa graças ao patrocinio do padre Manoel de Macedo, sacio da Arcadia e prégador favore­cido pelo Marquês de Pombal.

Joaquim Norberto na Adoertencia das Obras Poeticas de Inacio José de Alvarenga Peixoto, diz não ter encontrado nas pesquizas que realizou nada que comprovasse haver Alvarenga usado o nome pastoril de Eureste Fenicio, ou que fosse o autor das poesias anacreonticas que figuram na colecção de Claudio Manoel da Costa.

Estudos posteriores feitos por Alberto Faria encerraram a questão, demonstrando que na época em que foram escritas as cançonetas de Nize a Fileno (1753-1754) contava Alvarenga apenas 10 anos de idade, portanto uma criança, que não poderia escrever versos que rivalizam com Metastasio. Além disso, con­clui o ilustre crítico, está provado que a primeira poesia publi­cada por Alvarenga data de 1769, isto é, um ano depois da pu­blicação das Obras de Claudio Manoel da Costa.

Assim, o nome arcádico de Euresie Fenício, atribuido a Al­varenga, não foi mais do que a repetição de um erro de Pereira da Silva, glosado depois por açodados defensores da Arcadia brasileira, de existencia puramente virtual.

A obra poetica de Inacio José de Alvarenga foi enfeixada em um pequeno volume por Joaquim Norberto, sob o titulo de Obras Poeticas de Inacio José de Alvarenga Peixoto — coligi­das e anotadas com documentos historicos por J. Norberto de Souza e Silva. — Rio de Janeiro — Livraria B. L. Garnier — 1865 — in-16.° de 270 pgs.

É a unica edição da obra do malogrado inconfidente até hoje publicada, e nela estão reunidos vinte sonetos, duas liras, tres odes, uma cantata, um canto em oitava rima e umas sexti­lhas atribuidas a D. Barbara Heliodora.

Alvarenga era um poeta aulico, cultivador da poesia do elo­gio e da lisonja aos grandes e poderosos. Poeta cortezão, sacri­ficou todo o seu estro em escrever versos laudatorios aos magna­tas da Metropole.

Os seus sonetos, algo afectados, são quasi todos (doze) di­rigidos a reis, rainhas, marquêses e vice-reis. Os sonetos A las­tima, A Saudade, (feito depois de sua sentença de morte), e o dedicado a sua filha Maria Efigenia, são os melhores da peque­na colectânea, especialmente o ultimo, onde o poeta nos dá uma viva impressão de seu caracter afectuoso, religioso e crente:

“Amada filha é já chegado o dia,

Em que a luz da razão, qual tocha acêsa,

Vem conduzir a simples natureza,

É hoje que o teu mundo principia.

A mão, que te gerou, teus passos guia,

Despreza ofertas de uma vã beleza,

E sacrifica as honras e a riqueza

A’s santas leis do filho de Maria.

Estampa na tu’ alma a caridade,

Que amor a Deus, amor a semelhantes,

São eternos preceitos da verdade;

Tudo o mais são ideias delirantes;

Procura ser feliz na eternidade,

Que o mundo são brevissimos instantes.”

As suas liras são, a nosso ver,o melhor de sua produção poetica. Nelas mostra-se Alvarenga delicado manejador do ver­so anacreontico. O retrato de Anarda, é finamente colorido, le­vemente sensual, embora algo artificioso:

“A minha Anarda

Vou retratar,

Si tanto a arte

Puder chegar,

Trazei-me amores,

Quanto vos peço,

Tudo careço

Para pintar.

Nos longos fios

Dos seus cabelos,

Ternos desvelos

Vão se enredar.

Trazei-me, amores,

Das minas d,’ ouro

Rico tesouro

Para os pintar.

Vagos desejos

Da boca as brazas

As frageis azas

Deixam queimar.

Trazei-me, amores,

Corais subidos,

Rubins polidos,

Para a pintar.

Do peito as ondas

São tempestades,

Onde as vontades

Vão naufragar.

Trazei-me, amores,

Globos gelados,

Limões nevados;

Para os pintar.

Porte de deusa

Spirito nobre,

E o mais, qu’ encobre

Fino avental.

Só, vós, amores,

Que as graças núas

Vêdes, as suas

Podeis pintar.”

A outra lira dirigida a sua esposa, é um plangente canto de saudade, inspirado num sincero sofrimento;

“Barbara bela,

Do norte a estrela,

Que o meu destino

Sabes guiar.

De ti ausente

Triste sômente

As horas passo

A suspirar.

Por entre as penhas

De incultas brenhas

Cansa-me a vista

De te buscar;

Porém não vejo

Mais que o desejo,

Sem esperança

De te encontrar.

Eu bem queria

A noite e o dia

Sempre contigo

Poder passar;

Mas orgulhosa

Sorte invejosa,

D’ esta fortuna

Me quer privar.

Tu, entre os braços

Ternos abraços

Da filha amada

Pódes gosar ;

Priva-me a estrela

De ti e dela

Busca dous modos

De me matar!”

As odes dirigidas ao Marquês de Pombal e á rainha D. Ma­ria I, são duas produções pobres de imaginação, mas ricas de qualificativos pomposos e lisongeiros.

Referindo-se ao torvo ministro de D. José I, escreve o poeta:

“Unicamente á sombra de Carvalho

Descansam hoje as quinas portuguêsas.”

ou adiante:

“Vale mais do que um reino um tal vassalo,

Graças ao grande rei que soube acha-lo.”

Da rainha que o condenou, escreveu Alvarenga:

Vinde real senhora

Honrar os vossos mares por dois meses,

Vinde ver o Brasil que vos adora.”

ou mais adiante:

“Por seus filhos vos chama

Vem pôr termo á nossa desventura

E os seus favores sobre nós derrama.”

Pretende Norberto que Alvarenga nesta ode houvesse pro­fetisado a vinda da família real e a fundação do Imperio do Ocidente, sonhado por Aranda. Entretanto, não vemos nela mais do que uma das costumeiras formas que usava o poeta para se derramar de elogios e lisonjas aos magnatas opressores de sua patria, contra os quais éle proprio tentára revoltar-se.

A sua poesia O Sonho, é escrita em máus versos, e, termi­na com uma cantata indigna de ser firmada por um homem que, mais tarde, deveria ser condenado por crime de inconfidencia.

Estes versos deveriam ser uma grande atenuante ao crime de Alvarenga.

Canta o Pindaro americano, “valeroso indio activo e forte”:

“Sou vassalo e sou leal

Como tal

Fiél constante

Sirvo á gloria da imperante,

Sirvo á grandeza real.

Aos Elisios descerei

Fiel sempre a Portugal,

Ao famoso vice-rei,

Ao ilustre general.

A’ s bandeiras que jurei.

Insultando o fado e a sorte,

E a fortuna desigual

A quem morrer sabe, a morte 

Nem é morte, nem é mal.”

Custa crêr que o autor de tais versos houvesse jamais to­mado parte numa conspiração contra os opressores portuguêses, ou que fosse parte saliente de uma conjuração que sonhara com a liberdade da patria!

Na duplicidade do caracter de Alvarenga, ora vassalo fiel e leal, ora conjurado entusiasta, arrebatado e turbulento, depois prisioneiro humilde e acovardado, achamos explicação para a sua  musa palaciana, para o seu ardoroso entusiasmo pela causa da conjuração, e, finalmente, para as suas vergonhosas delações, constantes do depoimento de 14 de Janeiro de 1790, na devassa do Rio de Janeiro.

Em uma das suas melhores poesias, o Canto genetlíaco, de­dicada ao capitão-general D. Rodrigo José de Menezes, tão mal compreendida por Silvio Romero, ha um aparente sentimento de nativismo, logo abafado pela sua constante preocupação de lisonjear e bajular:

“A c’ rôa d’ ouro, que na testa brilha,

E o cêtro, que empunha na mão justa

Do augusto José a heroica filha,

Nossa rainha soberana augusta,

E Lisbõa da Europa maravilha,

Cuja riqueza a todo o mundo assusta,

Estas terras a fazem respeitada,

Barbara terra, mas abençoada.”

Esquecia o poeta que a riqueza de Lisbôa, “que a todo o mundo assustava”, era arrancada da Colonia, das lavras auri­feras e diamantinas da sua terra, por processos de extorsão vio­lenta, origem dos movimentos de revolta que mataram Felipe dos Santos e, depois, haveriam de leva-lo aos desertos africanos.

O Coronel Inacio José de Alvarenga é um dos mais apa­gados poetas do grupo mineiro e um dos inconfidentes que me­nos dignamente entrou na Historia. É o que dizem os seus po­bres versos e os seus tristes depoimentos.

Os juizes da Alçada e, mais tarde, os nossos historiadores romanticos, fizeram da figura mediocre do cantor da Anarda; um grande herói e um grande poeta. Fizeram dele o nosso An­dré Chenier, — e assim passou á Posteridade.

 

FONTE: PARANHOS, Haroldo. História do romantismo no Brasil. São Paulo: Edições Cultura Brasileira, 1937.

FREI GASPAR DA MADRE DE DEUS (1715 -1800) – História do Romantismo no Brasil


Nasceu Gaspar Teixeira de Azevedo, depois Frei Gaspar da Madre de Deus, na fazenda de Sant’Ana, na Capitania de São Vicente, aos 9 de Fevereiro de 1715.

Era filho do Coronel Domingos Teixeira de Azevedo e D. Ana Siqueira de Mendonça, agricultores de cana de assucar e arroz, naquela parte do litoral paulista.

Iniciou Frei Gaspar os seus primeiros estudos na fazenda paterna, passando depois para a vila de Santos, onde permaneceu até 1731.

Como sempre acontecia no seculo XVIII, a sua lucida inte­ligencia foi logo aproveitada para a carreira eclesiastica, tendo ingressado na ordem beneditina na cidade da Baia, levado pelo abade provincial do Brasil, Frei Antonio da Trindade.

A 15 de Agosto de 1732, segundo Pedro Taques, fazia Frei Gaspar a sua profissão de fé, na Abadia de São Bento, na Baía. Alguns anos depois passou-se para o convento do Rio de Janeiro, onde em 1740, se habilitou para o exercício do magistério’.

Afonso Taunay refere-se a uma viagem feita por Frei Gaspar á Europa, depois dessa época, louvado numa informação encontrada no prefacio do seu Curso de Filosofia, cujos manus­critos foram encontrados em 1919, na Abadia de São Paulo. Regressando de Portugal, “fez tão grandes progressos nos estudos de Filosofia e Teologia, escreve Pedro Taques, que se constituiu digno para lhe darem a cadeira de mestre no mosteiro da cidade do Rio de Janeiro”.

Em Dezembro de 1752, é Frei Gaspar eleito pelo capitulo geral da Ordem, no mosteiro primaz de Tibães, abade de São Paulo; recusa porém receber a alta dignidade, sob pretexto de não desejar interromper os seus cursos de filosofia e teologia, aos quais se dedicara com tão amoroso cuidado.

Por esse tempo, começou os seus estudos históricos, agu­çado por pesquizas que empreendera em Santos, a mandado do provincial da Ordem.

Em 1762, tendo sido eleito Frei Antonio de São Bernardo para o lugar de abade do Rio de Janeiro, declinou da honra, em favor de Frei Gaspar da Madre de Deus, que então aceitou o encargo.

Já eram notaveis, nesse tempo, as suas qualidades de orador sacro, pois são citados, os sermões que prégou por ocasião do casamento de D. Maria I e do nascimento do principe da Beira.

No cargo de abade no Rio de Janeiro, entre os anos de 1763 a 1766, prestou Frei Gaspar relevantes serviços á ordem bene­ditina, tendo conseguido á custa de penosos trabalhos, salvar o riquissimo patrimonio que se achava envolvido em complicadas demandas. Fez, ainda, grandes melhoramentos materiais no edí­ficio do Mosteiro, introduziu uteis modificações no ritual, reor­ganisou a biblioteca e o arquivo do convento, enriquecendo-os com a magnifica livraria do abade Pena e com preciosos codi­ces e manuscritos. Para tudo tinha Frei Gaspar tempo, carinho e dedicação, acentuando-se, todavia, os seus maiores cuidados com tudo aquilo que  se prendia ao Passado.

Em 1765, o Capitulo Geral em Tibães, reconhecendo os ser­viços prestados a Ordem pelo beneditino paulista, eleva-o á dignidade de Provincial no Brasil, cargo de que tomou posse em 1766 e exerceu até 1769 .

Tendo sido reeleito para o trienio de 1769 a 72, recusou Frei Gaspar o encargo, preferindo retirar-se para o convento de Santos, encerrando, assim, a sua carreira de administração mo­nastica, para se dedicar com tranquilidade, aos estudos de sua predilecção.

Durante a sua permanencia no mosteiro de Santos, entre­gou-se Frei Gaspar inteiramente ás investigações historicas, gastando o dia “em visitar os arquivos, a coordenar a enorme mésse de documentos trazidos do Rio de Janeiro e da Baía, a traduzi­los e comenta-los”, escreve o Sr. Afonso de Taunay. (1)

(1) A Taunay – Memorias para Historia da Capitania de São Vícente – 3º edíção – São Paulo – 1920 – pg. 52.

Por esse tempo, pesquizou os arquivos e cartorios de São Sebastião, ltanhaen, Iguape, Cananeia e São Paulo, na incansavel colheita de achêgas para as suas obras historicas.

Conta Taunay que data dessas viagens a São Paulo, a inti­ma amizade que ligou Frei Gaspar ao seu primo Pedro Taques: Foi durante o infortunio do grande linhagista a sua consolação diaria e o incentivo para a continuação da sua obra grandiosa.

Depois da morte do genealogista em 1777, procurou sem­pre Frei Gaspar, pôr em destaque os conhecimentos e a probidade do autor da Nobiliarquia.

” E a este culto á memoria de Pedro Taques, escreve o Sr. Afonso de Taunay, se deve em grande parte, certamente, a conservação do que resta da Nobiliarquia Paulistana e das demais obras do cronista das bandeiras”.

De 1780 a 1795, trabalhou Frei Gaspar activamente na composição de sua obra historica. Assim, em Julho de 1784 concluía a sua Noticia dos anos em que se descobriu o Brasil, cuja referencia ao testamento de João Ramalho, provocou a irritante campanha aberta pelo pretencioso Candido Mendes; em 1793  já tinha concluido os tres livros das Memorias para a Historia da Capitania de São Vicente e os seus escritos sobre as minas de São Paulo e a expulsão dos jesuitas do colegio de Piratininga.

Nada, entretanto, havia publicado o frade paulista e já ti­nha completado oitenta anos. Posto lhe não faltassem recursos pecuniarios para a impressão de toda a sua obra, não resolvia Frei Gaspar da-la á publicidade. Foi quando Diogo de Toledo Lara e Ordonhes, ouvidor em Cuiabá, tomou a iniciativa de fa­zer imprimir as obras do monge beneditino. Com dificuldade conseguiu Diogo Ordonhes os dois primeiros livros das Memo­rias, que deveriam ser publicados com o titulo de Fundação da Capitania de São Vicente e acções de Martim Afonso de Souza.

Em sessão de 5 de Abril de 1797, a Academia Real de Lis­bôa, resolvia que “as Memorias para a Historio da Capitania de São Vicente, que lhe foram oferecidos por seu autor Fr. Gas­par da Madre de Deus, e foram julgadas dignas de se publicar, sejam impressas á custa da Academia, e debaixo do seu privile­gio”. (1)

(1) Frei Gaspar da Madre de Deus – Memorias para a Hís­toría da Canitanilt de São Vicente – Lísbõa – 1797,

Em 1798 chegaram ao mosteiro de Santos os primeiros vo­lumes das Memorias cuja terceira parte se perdeu ou teria sido aproveitada, por quem dela, indebitamente se apropriou.

Ocupou ainda Frei Gaspar o cargo de cronista-mór da Ordem, no periodo de 1774 a 1800, lugar que só deixou nos ultimos dias de sua vida, quando a velhice já o tornava incapaz de trabalho proveitoso.

Contava 85 anos de idade, incompletos, o ilustre historiador vicentino, quando aos 28 de Janeiro de 1800, o ceifou a Morte, em sua modesta cela do Mosteiro de São Bento, em Santos, senex et plenus dierum; consoante a frase biblica, com tanta pro­priedade empregada por Afonso Taunay, na magistral biogra­fia de Frei Gaspar, com que precede a 3ª edição das Memorias Historicas da Capitania de São Vicente.

Com excepção das Memorias, todas as demais obras de Frei Gaspar, foram publicadas na Revista Primensal do Instituto Historico Brasileiro e na Revista do Instituto Historico de São Paulo. E’ a seguinte a relação das obras do ilustre monge vicentino:

Memorias para a Historia da Capitania de São Vicente, ho­je chamada de São Paulo, do Estado do Brasil, publicadas por ordem da Academia Real de Ciencias – Lisbôa – 1797 – Na tipo da Academia – in – 4.° de 242 pgs.

Ha uma edição de 1839, publicada por F. A. Varnhagen, em Lisbôa, e uma 3ª edição de 1920, publicada por A. E. Taunay.

Noticia dos anos em que se descobriu o Brasil – Na Re­vista Trimensal do Instituto Historico – Tomo II – pgs. 427 a 446. Acha-se também incluida na 3ª edição das Memorias.

Relação dos capitães locotenenies da Capitania de São Vi­cente – in – Revista do Instituto Histórico de São Paulo ­Tomo V in 8° de 17 pgs.

Notas avulsas sobre a Historia de São Paulo – in – Re­vista do Instituto Historico de São Paulo – Tomo V – in 8.° de 16 pgs.

Dissertação e explicação sobre terras de contendas entre o  Mosteiro de São Paulo e o Convento do Carmo em Santos – in Revista do Instituto Histórico de São Paulo – Tomo XVI in-8ª de 29 pgs.

Oração Fúnebre nas exequias que, pelo Sereníssimo Sr. D. José Primeiro, Rey Fidelissimo de Portugal, mandou celebrar a Camara da Vila do Porto de Santos aos 14 de Julho de 1777 – ­in – Revista do Instituto Histórico de São Paulo – Tomo XX – in-8ª de 15 pgs.

Catalogo dos Capitães-móres, Generais e Vice-Reis que go­vernaram a Capitania do Rio de Janeiro – in – Documentos Interessantes para a História e Costumes de São Paulo – To­mo XLIV.

O Sr. Afonso Taunay refere-se á existencia de dois volu­mes manuscritos, encontrados no arquivo do Mosteiro de São Bento em São Paulo, onde estão reunidas as Lições de Filosofia, professadas por Frei Gaspar no Rio de Janeiro, em 1748. Esta obra é inedita.

As Memorias para a Historia da Capitania de São Vicente, unico livro publicado por Frei Gaspar, é a sua obra capital. A primeira edição de 1797, contém dois livros:  Fundação da Capitania de São Vicente e Fundação da Capitania de Santo Amaro. A publicação feita pelo brigadeiro Rafael Tobias de Barros Aguiar, na Revista Trimensal do Instituto Historico (Tomo XXIV – 1861), como sendo a continuação da obra de  Frei Gaspar, não era mais que uma adulteração da Historia da Capitania de São Vicente, de Pedro Taques.

Nunca mais foi encontrada a terceira parte das Memorias, e, Silvio Romero enganou-se, quando louvado no Catalogo da Exposição de Historia do Brasil, afirmou a existencia de um manuscrito na Biblioteca Nacional, que “é a genuina continuação das Memorias”, segundo as suas proprias expressões. (1)

(1) Silvio Romero – Op. cit. – T. I – pg. 383.

O Sr. Afonso Taunay provou exuberantemente estarem per­didos o terceiro livro das Memorias, o Extracto Genealogico e numerosos sermões de Frei Gaspar. A autoridade do ilustre monge como historiador é indiscutível e a sua probidade, inata­cavel. Saint Hilaire, Varnhagen, Silvio Romero, Taunay e quan­tos outros, reconhecem-no como um dos mais honestos historia­dores brasileiros, e bem alto louvam os trabalhos do escritor vicentino.

Entretanto, tempos houve, em que um iconoclasta ilustre, po­rém pretencioso e desabrido, entendeu fazer deduções de factos historicos, utilizando-se de dois meios, ambos desleais e pouco dignos:  o prestigio de seu nome e o abuso de suas faculdades dialecticas.

Este homem, impado de orgulho e desmedida pretensão de saber, atirou-se de alfange em punho, num furôr iconoclasta, contra o modesto monge, acusando-o injustamente de haver falsificado documentos, e sobretudo, aqueles que se referiam ao testamento de João Ramalho, passado em São Paulo, em 1580.

O senador Candido Mendes, homem de profundo saber e vasta cultura, foi o autor desta insolita campanha.

“Acumulando as deduções habilmente encadeadas, escreve o Sr. Afonso de Taunay, demonstrou o senador maranhense que Ramalho “uma e unica pessoa com o bacharel de Cananéa” não podia ter vivido além de 1 560″. Entretanto, documentos publi­cados posteriormente por Azevedo Marques e Washington Luis, vieram dar razão ao monge beneditino e deitar por terra a obra insidiosa de Candido Mendes.

Não satisfeito com a primeira investida, volta o sôfrego se­nador, a qualificar de invencionices, os estudos de Frei Gaspar ácerca de Amador Bueno. Acompanhou-o, desta vez, o impaga­vel Dr. Moreira de Azevedo, que na Revista Trimensal (Tomo L – 1887), atacou não sómente as investigações de Frei Gas­par, como generalisou as suas deduções até Pedro Taques, pre­tendendo ser o demolidor da “lenda” de Amador Bueno.

O Sr. Afonso Taunay nas Notas á Biografia do Autor, na 3ª edição das Memorias, liquida definitivamente esta questão, demonstrando á vista de documentos, o erro ou má fé dos acusa­dores de Frei Gaspar, que, propositadamente ou não, tornaram-­se réus do crime que imputavam ao preclaro historiador vicentino.

As falsas acusações de Candido Mendes e Moreira de Azevedo, serviram para que se evidenciasse quão grande foi o respeito pelo cronista consagrado á exatidão dos documentos trans­critos para o alicerçamento das suas afirmações leais, escreve o Sr. Taunay”. (1)

(1) A. Taunay – Memorias para a Historia da Capitania de São Vicente – 3ª edição – São Paulo – 1920 – pg. 82.

Varnhagen, em 1840, enaltecia a exatidão das investigações de Frei Gaspar e as Memorias são tão ricas em citações de fon­tes, que, facil se torna, o confronto dos documentos, das cita­ções, e das transcrições feitas pelo historiador beneditino.

As Memorias, escritas em estilo setecentista, não têm eleva­ções de forma, nem coloridos vivos de linguagem. Guarda sem­pre o estilo narrativo e singelo das crônicas monasticas, sem os amaneirados e as pompas gongóricas de Rocha Pita, ou a elo­cução um tanto desataviada, mas natural, de Pedro Taques. E’ um livro sereno, ponderado, e, raras vezes, como nos episodios de Charlevoix e Rui de Moschera, ou na enumeração dos erros de Rocha Pita, o autor perde a calma habitual, para se elevar com mais veemencia e severidade.

Como seu primo Pedro Taques, tinha Frei Gaspar a preo­cupação das linhagens complicadas, e sempre que se apresenta ocasião, extende-se em considerações ácerca desta ou daquela família vicentina ou piratiningana. Lisonjeava-se de sua ascen­dencia, onde se cruzavam os Buenos, os Taques e os Azeredo Coutinho.

Possuia tambem Frei Gaspar uma certa dóse desse nativis­mo, que, se denunciava, nessa geração de historiadores, pela pre­ocupação que tinham todos, em exaltar as grandezas dos feitos e o heroismo dos filhos do Brasil. Neste particular, segue, com mais serenidade, o caminho já trilhado por Jaboatão, Rocha Pi­ta e Pedro Taques.

A Noticia dos anos em que se descobriu o Brasil, é a sua segunda obra em importancia, e foi ela, o alvo principal dos ataques que sofreu Frei Gaspar. A reprodução da Revista Trimen­sal, foi copiada de um manuscrito existente no arquivo do Mosteiro de São Bento, em São Paulo, e oferecido ao Instituto Bis­torico, pelo Dr. Manoel Joaquim do Amaral Gurgel.

A sua parte mais interessante, e que veio projectar certa luz sobre factos até então obscuros da nossa historia pátria, é a que se refere ao testamento de João Ramalho, lavrado em São Paulo, pelo tabelião Lourenço Vaz, em 3 de Maio de 1580. Se­gundo este documento, já tinha João Ramalho, em 1580, noven­ta anos de moradia no Brasil, de onde se deduz que aqui deveria ter aportado em 1490, isto é, dois anos antes da chegada de Co­lombo ás Antilhas, cabendo-lhe, portanto, a prioridade no des­cobrimento da America. Foi “esta consequencia, tirada do testa­mento pelo historiador vicentino, que aguçou os dentes á crítica de Candido Mendes e Moreira de Azevedo.

Nas demais obras historicas de Frei “Gaspar, publicadas pela Revista do Instituto Historico de São Paulo, sobresáem sempre as suas qualidades de historiador ponderado, sereno e verdadei­ro, sem jamais se deixar arrastar pelas paixões, que prejudicam a imparcialidade dos julgamentos e amesquinham os juizos da Historia.

 

Fonte: PARANHOS, Haroldo. História do romantismo no Brasil. São Paulo: Edições Cultura Brasileira, 1937

FREI ANTONIO DE SANTA MARIA JABOATÃO (1695 – 1764) – História do Romantismo no Brasil


Nasceu em Santo Amaro de Jaboatão, termo da cidade de Recife, em Pernambuco, 110 ano de 1695.

Foi religioso franciscano, tendo professado em 1717 no con­vento de Paraguassú, na Baia, e recebido ordens sacras em Per­nambuco, sua terra natal. Em sua Ordem, exerceu varias car­gos, tendo sido mestre de noviços, guardião na Paraíba, prelado local no convento de Santo Antonio, de Recife, cronista mór da Ordem, secretario no capitulo do provincial Frei Manoel de Jesus Maria, e definidor n0 capitulo reunido em 1755. Presume­se que faleceu em 1764.

A obra mais importante que nos legou foi o Orbe Serafico, brasilico, descoberto, estabelecido e cultivado a influxos da nova luz da Italia, estrela brilhante da Espanha, luzido sól de Pa­dua, astro maior do Céu de Francisco, o taumaturgo português Santo Antonio, a quem vai consagrada como teatro glorioso, a parte primeira da cronica dos frades menores da mais estreita e regular observancia da provincia do Brasil. – Lisbôa – 1761.

A 2º Parte desta obra, só foi publicada em 1858 pelo Ins­tituto Historico e Geográfico Brasileiro, de acordo com os manuscritos que possuía, examinados e ordenados pelo Conselheiro Díogo Soares da. Silva Bivar.

 

Na ocasião da impressão da 2º Parte do Novo Orbe Sera­fico, foi reimpressa a primeira, tambem pelo Instituto. (1858- 1862).

O proprio autor declara na Primeira Parte de sua obra, que na primeira idade teve “genio e agudeza para a poesia”, tendo apresentado algumas obras á Academia dos Esquecidos, na Baía; mais tarde, os estudos sagrados e as predicas, divorciaram-no das musas. Dedicou-se tambem ao linhagismo e aos estudos de moral, tendo sido membro efectivo da Academia Brasílica dos Renascidos, em 1759.

A obra principal do historiador -pernambucano é uma cró­nica dos frades menores da provincia eclesiástica do Brasil, na qual trata da fundação de alguns conventos, conta e descreve os estudos feitos pelos frades franciscanos, dando uma noção exa­cta do desenvolvimento e da cultura das ordens religiosas do Brasil, naquela época. Algumas lendas e tradições populares, de envolto com alguns episodios notaveis de nossa historia civil, são contados singelamente pelo cronista pernambucano, em lin­guagem simples, elegante e correcta.

Pereira da Silva, referindo-se a jaboatão, julga-o com as palavras do parecer do conselheiro Diogo de Bivar, dado ao Instituto Historico, em 1840, quando examinou e estudou os ma­nuscritos do cronista franciscano: “O estilo do autor, escrevia o conselheiro Bivar, peca algum tanto no mau gosto dos seiscen­tistas ; e si bem que a sua dicção seja portuguêsa, no que guar­dava escrupulosa castidade, de força é confessar que de tal arte a trava ele com periodos extensissimos e frases mal cadentes, que na leitura cança e descompassa … ”

Não é esta, entretanto, a impressão que temos da maior parte de sua obra. Achamo-la, antes, desataviada, simples, e muitas vezes cheia de encantadora ingenuidade.

Silvio Romero julga-o sem pretensões, sem charlatanerias, e sem atitudes retoricas. Sua leitura é insipida, algumas vezes, pela insígnificancia do assunto; mas em geral, é fácil e atraente.

Onde vamos encontra-lo gongórico, imaginoso, afectado, é nos seus Sermões, especialmente no que prégou na Sé de Olinda em 1731, celebrando a restauração de Pernambuco do domínio holandês. Mas a oratoria da época era gongórica e afectada, e ninguem o foi mais do que o grande Antonio Vieira.

No Antiloquio do Novo Orbe Serafico, explica jaboatão, quanto era avesso á linguagem rebuscada nas narrativas historicas, e declara que, escrevendo historia e não panegírico, fugia sempre “das palavras esquisitas, termos peregrinos, e orações fraseadas, buscando as mais proprias, e naturais vozes, e com que melhor se explique, e entenda uma Historia, que ha de ser­vir para todos; porque assim, nem os menos sabios a deixam de perceber por muito elevada, e culta, e nem os mais entendidos a desgostam por muito humilde e rasteira”. (1)

(1) Frei Santa Maria Jaboatão – Novo Orbe Seráfico ­Rio – 1858.

Publicou Jaboatão além do Novo Orbe Seráfico, algumas obras místicas e sermões avulsos, e mais o Jaboatão mistico em correntes sacras dividido – Lisbôa – 1758, contendo dez ser­mões formando a corrente 1ª _: panegírica e moral. As demais correntes ficaram ineditas. O seu Catalogo genealogico das principais famílias que procedem de Albuquerque e Cavalcanti em Pernambuco, e Caramurús na Baía, foi publicado pela Revista Trimensal do Instituto Historico. (Tomo LII – 1889 – Primeira Parte).

Segundo afirma Sacramento Blake, Jaboatão escreveu al­gumas poesias, que destruiu antes de morrer. Alberto Lamego no seu livro A Academia Brasileira dos Renascidos) publicou umas Decimas, escritas pelo frade pernambucano; estas poesias, ao que parece, foram as unicas que se salvaram da destruição.

Frei Santa Maria Jaboatão foi também um emerito préga­dor, embóra na eloquencia fosse demasiado gongórico, talvez por influencia de Vieira ou para atender o gosto seiscentista. O estilo enfático, imaginoso e vibrante de sua obra oratoria, faz um vivo contraste com a simplicidade e a singeleza de sua prosa. O frade Irancisco quasi como excepção no seu tempo, “soube ajustar o estilo ao assunto, e consoante o aforismo classico jamais no que escreveu deixou de mostrar-se senhor dos segre­dos e dificuldades da lingua”, segundo conclui o Sr. Laudelino Freire.

 

Fonte: PARANHOS, Haroldo. História do romantismo no Brasil. São Paulo: Edições Cultura Brasileira, 1937

SEBASTIÃO DA ROCHA PITA (1660 – 1738) – História do Romantismo no Brasil


Nasceu Sebastião da Rocha Pita na cidade da Baía, á 3 de Maio de 1660, sendo seus pais João Velho Gondim e D. Brites da Rocha Pita.

Fez os seus primeiros estudos no Colegio dos Jesuitas na Baía, onde se graduou em artes, bacharelando-se depois em canones, na Universidade de Coimbra. Regressando ao Brasil, fi­xou-se em seu engenho á margem do Paraguassú, proximo á vila de Cacheira, onde se dedicou ao cultivo da cana de assucar.

Foi coronel do regimento de ordenanças, fidalgo da Casa Real, cavaleiro de Cristo, membro da Academia Real da Historia Portuguêsa eda Academia dos Esquecidos. Cultivou a poesia ao gosto da época, segundo se depreende de algumas, coligidas por Varnhagen e Melo Morais Filho. Tambem escreveu um romance em língua castelhana, á maneira do Palmeirim de Inglaterra de Francisco de Morais, consoante informa Ed. Perié. (1)

(1) Ed. Perié – Literatura brasileira – Buenos Aíres – 1885 – pg. 388.

J á avançado na vida, resolveu escrever a sua historia do Brasil, entregando-se, para isso, a um arduo trabalho de pesquiza nos arquivos, livrarias dos conventos e cartorios da Baía, São Vicente, Rio de Janeiro e Lisbôa, e ao estudo de preciosos documentos ineditos, guardados na Torre do Tombo; informa Joa­quim Manoel de Macedo, que para melhor estudar estes documentos, aprofundou Rocha Pita os seus conhecimentos das lín­guas francêsa, italiana, holandêsa, castelhana e latina, além da própria, que manejava com facilidade e segurança.

Cabe a Rocha Pita a primazia na publicação de uma histo­ria do Brasil, mais ou menos sistematica, pois, a que escrevera Frei Vicente do Salvador, só seria conhecida em 1889. O traba­lho do escritor baíano é de grande merito literario e marca a transição da poesia para a prosa, nesta fase da literatura co­lonial.

Em 1730 publicou  Rocha Pita, em Lisbôa a sua Historia da America Portuguêsa, desde o ano de 1500 de seu descobrimento até o de 1724 – Lisbôa – Of. de J oseph Antonio da Sylva – 1730 – in – folia de 746 pgs.

Desta obra ha uma segunda edição de 1878, impressa na Baía e publicada pelo Barão Homem de Melo ; uma 3ª de 1880, revista e anotada por J. C. Góis, impressa em Lisbôa, Com de­signação de 2ª edição; e , finalmente, a 4ª de 1910, publicada no Rio ele Janeiro, pela livraria H. Garnier.

O livro de Rocha Pita, calcado nos moldes dos historiado­res gregos e romanos, e feito segundo os preceitos dos cronistas portuguêses do seculo XVII, não tem merecimento algum como fonte de informação historica. A obra é falha, confusa, não ana­lisa; não critica, e muitas vezes falseia e exagera a verdade. Frei Gaspar declara “que se não fiem no autor da Americe Portu­quêsa, o qual muitas vezes claudica, em saindo fóra de sua pa­tria”; e é com profunda indignação, que Pedro Taques se re­fere ás inverdades historicas de Rocha Pita: – “este autor tem tantas faltas no corpo de sua história, que passam a ser erros indesculpaveis ; porque as materias de que trata, constando a verdade delas e a sua época e a cronologia dos documentos que existem nos registros dos livros da secretaria do governo geral, provedoria mór e camara da Baía, não devia escrever os sucessos pertencentes á mesma historia sem a lição destes cartorios; e por esta falta escreveu mais por vaidade que por zelo; e em muitas materias só o fez por informação dos apaixonados; e por isso caíu em faltas que temos mostrado em alguns titulas genea­logicos que temos escrito”. (1)

(1) Pedro Taques - Nobiliarquia Paulistana – Titulo “Prados” – parag. 3.°.

Muita razão tinha o autor da Nobiliarquia Paulistana, em afirmar que o historiador baiano, escrevia “mais por vaidade que por zelo”. A leitura de sua obra dá-nos justa impressão desta afirmativa.

As longas divagações que faz o autor da América Portu­guêsa para tratar de insignificantes episodios historicos, citan­do, de passagem, nomes de deuses pagãos, heróis da antiguidade, santos do cristianismo, apostolos, bispos, arcebispos, vice-reis e capitães-generais, tudo isso acompanhado de longas disserta­ções e comparações, elogios descabidos, e panegíricos bombas­ticos, mostra-nos que Rocha Pita procurava sempre mostrar seus conhecimentos fóra do assunto que tratava.

Capistrano de Abreu condenando este sestro do velho fa­zendeiro de Paraguassú, confirmou o juizo de Pedro Taques. As palavras do autor da Nobiliarquia e o juizo de Frei Gaspar da Madre de Deus, patenteiam-nos que o historiador da America Portuquêsa, não era tido em bôa conta pelos seus contemporâneos.

A preocupação em produzir efeito, que transparece de to­das as paginas da Americo Poriuquêsa, ostentava-se em Rocha Pita, ao lado de uma outra, não menos ingenua : – a sua bôa fé em aceitar milagres e factos sobrenaturais como explicação de certas lendas indígenas e tradições populares. Muitas vezes os arroubos de linguagem gongorica, levaram-no a falsear a verdade, e então, arrastado pela pompa de um estilo empolado, en­trava, sem o presentir, pelo dominio da fantasia.

Não obstante todos estes defeitos, a obra de Rocha Pita é cheia de sincero entusiasmo pelas causas de sua terra, para cujas belezas só tem palavras de louvor e cantos de exaltada admi­ração. Estes hinos de amor patriotico, salvaram-lhe o livro; a poso teridade consagrou-o antes pelo exagero das descrições, que pela verdade da narrativa historica. Por isso, o seu livro foi a fonte de inspiração de muitos dos nossos romanticos, e Santa Rita Durão vasou O seu Coramur, nas paginas da História da America Portuguêsa.

“Em falta do espirito crítico, que em comum com os seus contemporâneos, Pita não possuia, – escreve Capistrano de Abreu, – ele trouxe para sua história as inspirações de um forte patriotismo”. Ao influxo deste sentimento, cedera o historiador baiano, com o mesmo ingenuo entusiasmo, que antes possuira a Bento Teixeira Pinto, a Botelho de Oliveira, “‘a Frei Itaparica e, sobretudo, ao autor dos Dialagas das grandezas da Brasil.

Todavia, esse amor patriotico de Rocha Pita, amor que lhe inspiraria as mais belas paginas da Historia da Americe Partuguêsa não nos revela qualquer sintoma separatista. Não se en­quadra no espirito de lusismo que predominou na colonia até os meiados do seculo XVIII, qualquer sentimento de independeu­cia politica ou literaria. O nativismo, manifestado pelos nossos primeiros poetas e prosadores, era todo exterior. Não possuía- mos ainda heróis e tradições que justificassem um amor menos objectívo á patria.

O Brasil começava a saír da barbaria ; a epopeia das ban­deiras era um facto da vespera, e, a luta com os holandêses em Pernambuco e Baía, as expulsões dos francêses e espanhóis no sul, e a guerra dos Palmares, eram sucessos ainda recentes. A todos estes grandes acontecimentos de nossa histeria, faltava um factor primordial, que permitisse julga-los imparcialmente: – a distancia no tempo e no espaço.

Rocha Pita, escrevendo a sua historia antes de 1724, Iôra contemporâneo dos maiores sucessos que descreve, e por isso, 50 tem palavras de louvor para os que neles tomaram parte, e que o fizeram, antes de tudo, levados pela sua fé catolica e pelo seu amor ao Rei de Portugal.

Não condenemos, assim, a obra do velho fazendeiro de Pa­raguassú: devemo-la antes admirar pela forma que enaltece a patria e lhe canta as grandezas e a opulencia maravilhosa. Me­lhor não o fariam, muito depois, os arcades mineiros.

Após a publicação da Historia da America Portuquêsa, re­cebida em Portugal com os mais encomiásticos elogios regressou Rocha Pita para a Baía. Trazia com a comenda da ordem de Cristo, o seu diploma de membro supra-numerario da Academia Real da Historia Portuguêsa.

Recolhendo-se novamente ao seu engenho de Paraguassú, ali faleceu o historiador baiano, á 2 de Novembro ele 1738.

Publicou ainda Rocha Pita: – Breve compêndio e narra­ção do fúnebre espectaculo que na insigne cidade da Baía, cabe­ça da América Portuguêsa se viu na morte del-rei D. Pedro II – Lisbôa – 1709 – in 4.°.

Sumario da vida e morte da Exa. Sra. D. Leonor Josefa de Vilhena – e das exequias que se celebraram em sua memoria na cidade da Baía – Lisbôa, 1721. Oliveira Lima (Aspectos da Lit. colonial do Brasil – pg. 134), refere-se a um inedito de Ro­cha Pita, intitulado Tratado politico, manuscrito in – 8.° de 53 pgs., dividido em tres discursos. A obra é oferecida a D. Pe­dro de Noronha, Conde de Vila Verde, e o prefacio, assinado pelo autor, traz a data de 7 de Setembro de 1715. Pertencia á biblioteca de Salvador de Mendonça, e ignoramos o paradeiro que teve, depois de sua morte.

Rocha Pita foi tambem membro da Academia Brasileira dos Esquecidos, para a qual escreveu uma Oração, que pronunciou na sessão de 7 de Maio de 1724.

O autor da Historia da Americo Portuguêsa foi um pre­cursor dos nossos romanticos, que não fizeram mais do que glosar as suas descrições, conclúi Silvio Romero.

 

 

Fonte: PARANHOS, Haroldo. História do romantismo no Brasil. São Paulo: Edições Cultura Brasileira, 1937

AS ACADEMIAS LITERÁRIAS – História do Romantismo no Brasil


Vinha do seculo XVII, a paixão pelas academias fia Euro­pa. Na Alemanha, na Italia e na França, floresciam centenas de associações literarias, que se formavam, quasi sempre, com pro­positos de reformar a lingua e a literatura. Em Portugal, tam­bem remonta á fase seiscentista, o aparecimento das primeiras tertulias, que, na maior parte, arrastaram uma existencia infe­cunda, entre o olhar agudo e perscrutador dos jesuítas, e, o pa­vor dos autos de fé e das fogueiras da Inquisição. Cedo se dis­solveram tais associações que, apesar de seus programas de in­dagações científicas e pedagogicas, nunca saíram do terreno das discussões estereis e extravagantes.

Dentre as mais notaveis desse tempo, merecem referencia a Academia dos Anonimos ou dos Ocultos, a Academia Instantânea (1664), a dos Singulares (1663), e a Academia das Con­ferencias discretas e eruditas, fundada em 1696, pelo 4.° Conde de Ericeira, D. Francisco Xavier de Menezes.

A Academia dos Generosos, que aparece restaurada no se­culo XVIII, fôra fundada em 1626 por D. Antonio Alvares da Cunha, depois trinchante-mór do rei D. João IV, e era destina­da a interpretar os autores classicos, e reformar a eloquencia e a poesia.

Depois de uma vida acidentada de quasi cem anos, esta aca­demia, a mais celebrada das que houve em Portugal, reaparece em 1717, sob os auspícios do Conde de Ericeira, com a nova denominação de Academia Portuguêsa.

Dela saíram os membros mais ilustres da Academia Real da Historio Portuçuêsa, criada pelo decreto real de 8 de Dezembro de 1720, e da qual foi sacio, o nosso Rocha Pita.

Era inevitavel que a mania da Metropole se transplantasse ao Brasil. Aqui, o movimento academico foi quasi todo de inspiração oficial, e as tertulias que se fundaram na Bahia e no Rio de Janeiro, tiveram todas, duração efêmera e quasi impro­dutiva. Seus socios nada mais fizeram do que imitar as socie­dades congêneres fundadas em Portugal, sem saber, entretanto, tirar delas proveito util. Limitaram-se a fazer panegíricos de seus poderosos protectores, a cantar-lhes os feitos e acções he­roicas, com exageros gongóricos de estilo e de linguagem.

As poucas tentativas que em algumas delas se fizeram para estudar o país, já mostram que seus filhos por ele se interessavam, e o facto de todas trazerem o qualificativo de brasilicas, nota José Verissimo, ” já revela um sentimento de separação, do qual não tinham quiçá esses academicos consciencia, mas que o despeito ou motivos menos egoísticos, como a ufania de sua terra, creára”. (1)

O movimento academico da primeira metade do seculo XVIII, teve a vantagem de preparar a nossa emancipação literaria, desenvolver o gosto pelas cousas da terra, e afastar dos moldes portuguêses as composições de seus membros, cujo es­tilo, já se mostrava mais livre das influencias da Metropole.

Como produtos dessas associações literarias, como primei­ro sintoma de amor pela nossa terra e pelas nossas cousas, resta-nos a Historio da Amerlca Portuguêsa de Rocha Pita, o Novo

(1) J. Veríssimo – op. cit – pg. 110.

Orbe  Serafico de Jaboatão, a Historia Militar do Brasil de Jo­sé Mirales, e um grande numero de poesias sobre assuntos na­cionais.

Em 1724, na Baía, Rocha Pita e mais seis companheiros, congregam-se e fundam a Academia Brasileira dos Esquecidos, á semelhança da Academia dos Singulares de Lisbôa, sob a pro­tecção real e o patrocinio do vice-rei do Brasil, Vasco Fernan­eles Cesar de Menezes, depois conde de Sabugosa. Varnhagen atribui a sua fundação a um protesto dos seus membros, por não haverem sido incluidos na Academia Real da Historia Por­tuguêsa.

Da Academia dos Esquecidos, fizeram parte Rocha Pita, Gonçalo Soares da Franca, lnacio Barbosa Machado, João de Brito Lima e outros.

Rocha Pita assim descreve a fundação desta academia, cuja primeira sessão se realisou á 7 de Março de 1724:

“Ergueu (o vice-rei) doutissima academia, que se fez em palacio, na sua presença. Deram-lhe forma as pessoas de maior graduação e entendimento que se acham na Baía, tomando-o por seu protector. Têm presidido, nela eruditissimos sujeitos. Houve varias e discretos assuntos, aos quais se fizeram elegantes e agu­díssimos versos; e vae continuando nos seus progressos, espe­rando que em tão grande protecção se dêem ao prelo os seus es­critos, em premio de suas fadigas”.(1)

(1) Sebastião da Rocha Pita – Historia da America Por­tuguêsa – 2.” edição – 1880 _ pg. 329.

Varnhagen, Barbosa Machado e lnocencio Silva, citam a existencia dos poemas Cesarêa, da autoria de Brito Lima, onde se descreve a genealogia e os feitos do Conde de Sabugosa, e Brasília, de Soares de Franca, tendo por assunto o descobrimen­to do Brasil.

 

No dia 4 de Fevereiro de 1725, realisou a Academia a sua ­ultima sessão, não executando, nem em parte, o vasto programa que constava em seus estatutos.

Em 1736, no Rio de Janeiro, Matias Saraiva funda a Aca­demia dos Felizes, composta de trinta membros, que se dedicavam ao estudo das ciencias naturais. Esta academia funcionava no palacio do governador, o brigadeiro José da Silva Pais, subs­tituto de Gomes Freire de Andrade. Fizeram parte desta socie­dade, além do dr. Mateus Saraiva, o bacharel ‘Simão Pereira de Sá e o dr. lnacio José da Mota. Sua duração foi efêmera e nada de aproveitavel produziu.

A Academia dos Selectos, fundada tambem no Rio, em 1752, por um grupo de homens notaveis, teve por protector Gomes Freire de Andrade, Conde de Bobadela. Durante a sua cur­ta existencia, esta sociedade, que era composta de quarenta mem­bros, não fez sinão exaltar as virtudes e elogiar as acções e fei­tos do seu ilustre protector. Manoel Tavares de Siqueira e Sá, ouvidor de Paranaguá e Secretario da Academia, publicou sob o titulo de Jubilas da America etc. (Lisbôa – 1754), a colecção desses elogios. E uma poliantéa de bajulação, onde estão reuni­das grande numero de poesias, em português, castelhano e latim;

Na Baía, de onde já se havia deslocado o movimento inte­lectual brasileiro, um grupo de eruditos, do qual faziam parte o. padre Antonio de Oliveira, antigo academico dos Esquecidos, o sargento-mór Antonio Gomes Ferrão, homem de elevada cul­tura, dr. José de Mirales, dr. lnacio Barbosa Machado e alguns outros, funda a Sociedade Brasilica dos Academicos Renascidos.

Em Maio de 1759, tem lugar a sua primeira sessão, em ca­sa do conselheiro José Mascarenhas Pacheco- Pereira Coelho de Melo, que se encontrava na Baía, encarregado pelo governo da Metropole de ali instalar dois tribunais.

A academia continuou depois a funcionar no convento do Carmo, tendo por padroeira a Virgem da Conceição, e por protector, o rei D. José I. Dentre os seus membros mais notáveis,  destacaremos os nomes de João Borges de Barros, Frei Antonio de Santa Maria Jaboatão, José Pires de Carvalho e Albuquer­que, João Francisco de Bittencourt e Sá, José de Mirales e Clau­dio Manoel da Costa.

José de Mirales escreveu a Historio Militar do  Brasil de 1549 a 1762, José Pires de Carvalho compoz o Culto metrico, poema dedicado á Virgem, Frei Jaboatão concluiu a 1ª Parte do Novo Orbe Serafico, e Claudio Manoel, deixou as obras de que trataremos em outro lugar:

Esta academia pretendeu escrever uma historia do Brasil, tendo chegado a distribuir entre os seus membros, a parte do trabalho que caberia a cada um. Conta o Barão de Sudart, que parte do encargo coube a Vitorino Borges da Fonseca, autor da Nobiliarquia Pernambucana, que muito adeantadas levou as suas investigações. Fracassou, ao que parece, tão grande cometimento.

Em 1760 dissolveu-se a academia com a prisão de José Mascarenhas de Melo, que, por ordem do Marquês de Pombal, esteve encerrado durante dezesete anos na fortaleza de Santa Cruz, em Santa Catarina, e depois nas masmorras da ilha das Cobras, no Rio de Janeiro. Alberto Lamego pensa que esta pri­são do antigo protector dos Renascidos, se relaciona com a ex­pulsão dos jesuítas, e a sua consequente perseguição.

As academias literarias no Brasil, floresceram e frutifica­ram todas nos reinados de D. João V e D. José I. As riquezas acumuladas com a exploração das minas, e as sábias medidas administrativas do Marquês de Pombal, concorreram simultâ­ncamente para um rapido movimento ascencional da colonia. Ao lado dos progressos materiais, a literatura brasileira tomava uma feição mais nativista, e já com certos laivos de independencia. As academias do Rio de Janeiro e da Baía, vieram auxiliar este movimento, congregando inteligencias dispersas, impulsionando vocacôes despertando a actividade literaria e fazendo frutificar o espírito de associação, que até o principio do seculo XVIII, era inteiramente desconhecido no Brasil.

Separando o que havia de servil nessas tertulias literarias, é incontestavel que elas prestaram á nossa literatura serviços re­levantes, e deles, o maior, foi sem duvida, o impulso que deram á nossa literatura historica, onde brilharam os nossos melhores prosadores setecentistas – Jaboatão, Rocha Pita, Pedro Taques, Frei Gaspar e Borges da Fonseca.

 

Fonte: PARANHOS, Haroldo. História do romantismo no Brasil. São Paulo: Edições Cultura Brasileira, 1937

FUNDAMENTOS GERAIS DO ABOLICIONISMO


FUNDAMENTOS GERAIS DO ABOLICIONISMO

 

“Pouco tempo falta para que a humanidade inteira estabeleça, proteja e garanta por meio do direito internacional o princípio seguinte: Não há propriedade do homem sobre o homem. A escravidão está em contradição com os direitos que confere a natureza humana, e com os princípios reconhecidos por toda a humanidade”.

Bluntschli

 

   Não me era necessário provar a ilegalidade de um regime que é contrário aos princípios fundamentais do direito moderno e que viola a noção mesma do que é o homem perante a lei internacional. Nenhum Estado deve ter a liberdade de pôr-se assim fora da comunhão civilizada do mundo, e não tarda, com efeito, o dia em que a escravidão seja considerada legalmente como já o é moralmente, um atentado contra a humanidade toda. As leis de cada país são remissivas a certos princípios fundamentais, base das sociedades civilizadas, e cuja violação em uma importa uma ofensa a todas as outras. Esses princípios formam uma espécie de direito natural, resultado das conquistas do homem na sua longa evolução; eles são a soma dos direitos com que nasce em cada comunhão o indivíduo por mais humilde que seja. O direito de viver, por exemplo, é protegido por todos os códigos, ainda mesmo antes do nascimento. Na distância que separa o mundo moderno do antigo, seria tão fácil na Inglaterra, ou na França, legalizar-se o infanticídio como reviver a escravidão. De fato, a escravidão pertence ao número das instituições fósseis, e só existe em nosso período social numa porção retardatária do globo, que escapa por infelicidade à sua coesão geral. Como a antropofagia, o cativeiro da mulher, a autoridade irresponsável do pai, a pirataria, as perseguições religiosas, as proscrições políticas, a mutilação dos prisioneiros, a poligamia e tantas outras instituições ou costumes, a escravidão é um fato que não pertence naturalmente ao estádio a que já chegou o homem.

A teoria da liberdade pessoal, aceita por todas as nações é a que Bluntschli, o eminente publicista suíço, discípulo de Sauvigny, define nestes quatro parágrafos do seu Direito internacional codificado: 1. “Não há propriedade do homem sobre o homem. Todo homem é uma pessoa, isto é, um ente capaz de adquirir e possuir direitos” (1) — 2. “O direito internacional não reconhece a nenhum Estado e a nenhum particular o direito de ter escravos.” — 3. “Os escravos estrangeiros tornam-se livres de pleno direito desde que pisam o solo de um Estado livre, e o Estado que os recebe é obrigado a respeitar-lhes a liberdade.” — 4. “O comércio de escravos e os mercados de escravos não são tolerados em parte alguma. Os Estados civilizados têm o direito e o dever de apressar a destruição desses abusos onde quer que se encontrem.” (2)

Esses princípios cardeais da civilização moderna reduzem a escravidão a um fato brutal que não pode socorrer-se à lei particular do Estado, porque a lei não tem autoridade alguma para sancioná-la. A lei de um país só poderia, em tese, sancionar a escravidão dos seus nacionais, não a de estrangeiros. A lei brasileira não tem moralmente poder para autorizar a escravidão de africanos, que não são súditos do Império. Se o pode fazer com africanos, pode fazê-lo com ingleses, franceses, alemães. Se não o faz com estes, mas somente com aqueles, é porque eles não gozam de proteção de nenhum Estado. Mas, quanto à competência que tem o Brasil para suprimir a liberdade pessoal de pessoas existentes dentro do seu território, essa nunca poderia ir além dos seus próprios nacionais.

Se os escravos fossem cidadãos brasileiros, a lei particular do Brasil poderia talvez, e em tese, aplicar-se a eles; de fato não poderia, porque, pela Constituição, os cidadãos brasileiros não podem ser reduzidos à condição de escravos. Mas os escravos não são cidadãos brasileiros, desde que a Constituição só proclama tais os ingênuos e os libertos. Não sendo cidadãos brasileiros eles ou são estrangeiros ou não têm pátria, e a lei do Brasil não pode autorizar a escravidão de uns nem de outros, que não estão sujeitos a ela pelo direito internacional no que respeita à liberdade pessoal. A ilegalidade da escravidão é assim insanável, quer se a considere no texto e nas disposições da lei, quer nas forças e na competência da mesma lei.

Mas os fundamentos do abolicionismo não se reduzem às promessas falsificadas na execução, aos compromissos nacionais repudiados, nem ao sentimento de honra do país compreendida como a necessidade moral de cumprir os seus tratados e as suas leis com relação à liberdade e de conformar-se com a civilização no que ela tem de mais absoluto. Além de tudo isso, e da ilegalidade insanável da escravidão perante o direito social moderno e a lei positiva brasileira, o abolicionismo funda-se nume série de motivos políticos, econômicos, sociais e nacionais, da mais vasta esfera e do maior alcance. Nós não queremos acabar com a escravidão somente porque ela é ilegítima em face do progresso das idéias morais de cooperação e solidariedade; porque é ilegal em face da nossa legislação do período do tráfico; porque é uma violação da fé pública, expressa em tratados como a convenção de 1826, em leis como a de 7 de novembro, em empenhos solenes como a carta de Martim Francisco, a iniciativa do conde d’Eu no Paraguai, e as promessas dos estadistas responsáveis pela marcha dos negócios públicos.

Queremos acabar com a escravidão por esses motivos seguramente, e mais pelos seguintes:

 

1. Porque a escravidão arruina economicamente o país, impossibilita o seu progresso material, corrompe-lhe o caráter, desmoraliza-lhe os elementos constitutivos, tira-lhe a energia e a resolução, rebaixa a política; habitua-o ao servilismo, impede a imigração, desonra o trabalho manual, retarda a aparição das indústrias, promove a bancarrota, desvia os capitães do seu curso natural, afasta as máquinas, excita o ódio entre classes, produz uma aparência ilusória de ordem, bem estar e riqueza, a qual encobre os abismos de anarquia moral, de miséria e destituição, que do Norte ao Sul margeiam todo o nosso futuro.

2. Porque a escravidão é um peso enorme que atrasa o Brasil no seu crescimento em comparação com os outros Estados sul-americanos que a não conhecem; porque, a continuar, esse regime há de forçosamente dar em resultado o desmembramento e a ruína do país; porque a conta dos seus prejuízos e lucros cessantes reduz a nada o seu apregoado ativo, e importa em uma perda nacional enorme e contínua; porque, somente quando a escravidão houver sido de todo abolida, começará a vida normal do povo, existirá mercado para o trabalho, os indivíduos tomarão o seu verdadeiro nível, as riquezas se tornarão legítimas, a honradez cessará de ser convencional, os elementos de ordem se fundarão sobre a liberdade, e a liberdade deixará de ser privilégio de classe.

3. Porque só com a emancipação total podem concorrer para a grande obra de uma pátria comum, forte e respeitada, os membros todos da comunhão que atualmente se acham em conflito com os outros, ou consigo mesmo: os escravos os quais estão fora do grêmio social; os senhores, os quais se vêem atacados como representantes de um regime condenado; os inimigos da escravidão, pela sua incompatibilidade com esta; a massa, inativa, da população, a qual é vítima desse monopólio da terra e dessa maldição do trabalho; os brasileiros em geral que ela condena a formarem, como forma, uma nação de proletários.

Cada um desses motivos, urgentes por si só, bastaria par fazer refletir sobre a conveniência de suprimir, depois de tanto tempo, um sistema social tão contrário aos interesses de toda a ordem de um povo moderno, como é a escravidão. Convergentes, porém, e entrelaçados, eles impõem tal supressão como uma reforma vital que não pode ser adiada sem perigo. Antes de estudar-lhe as influências fatais exercidas sobre cada uma das partes do organismo, vejamos o que é ainda hoje, no momento em que escrevo, sem perspectiva de melhora imediata, a escravidão no Brasil.

 

Notas

1. § 360. Esta é a nota que acompanha o parágrafo: “Este princípio, indicado pela natureza e conhecido dos jurisconsultos romanos, foi todavia desprezado durante séculos pelos povos, com grande prejuízo próprio. Sendo a escravidão contra a natureza, procurava-se na antigüidade justificá-la, fundando-a no uso admitido por todas as nações. A civilização européia atenuou esse abuso vergonhoso de poder, que se decorava com o nome de propriedade e se assimilava à propriedade sobre animais domésticos; a escravidão foi abolida, e o direito natural do homem acabou por triunfar. A servidão foi abolida na Itália, na Inglaterra, na França, mais tarde na Alemanha e em nossos dias na Rússia. Formou-se assim pouco a pouco um Direito Europeu proibindo a escravidão na Europa, e  elevando a liberdade pessoal à classe do direito natural do homem. Os Estados Unidos da América do Norte tendo-se pronunciado igualmente contra a escravidão dos negros, e havendo constrangido os Estados recalcitrantes a conceder a liberdade individual e os direitos políticos aos homens de cor, e tendo o Brasil, em 1871, assentado as bases legais da libertação dos escravos, esse direito humanitário penetrou na América e é hoje reconhecido por todo o mundo cristão. A civilização chinesa havia proclamado desde há muito esse princípio na Ásia Oriental. Não se deverá mais no futuro deixar os Estados, sob o pretexto de que são soberanos, introduzir ou conservar a escravidão no seu território; dever-se-á entretanto respeitar as medidas transitórias tomadas por um Estado para fazer os escravos chegarem gradualmente à liberdade. A soberania dos Estados não se pode exercer de modo a anular o direito mais elevado, e mais geral da humanidade, porque os Estados são um organismo humano e devem respeitar os direitos em toda a parte reconhecidos aos homens. Le Droit international codifié., tradução de M. C. Lardy, 2ª  ed. Nesta nota se diz com razão que o mundo civilizado não deve empregar a sua força coletiva contra um país, como o Brasil, que já tomou medidas transitórias e em princípio condenou a escravidão; mas, enquanto esta durar, está claro que continuaremos a exercer a nossa soberania para anular o direito mais elevado e mais geral da humanidade: a liberdade pessoal.

 

2. Infelizmente, seja dito de passagem, o comércio e os mercados de escravos existem ainda (1883) em nossas capitais, sob as vistas dos estrangeiros, sem limitação nem regulamento algum de moralidade, tão livres e  bárbaros como nos viveiros da África Central que alimentam os haréns do Oriente.

 

Fonte: NABUCOJoaquim. O Abolicionismo.

DA ILEGALIDADE DA ESCRAVIDÃO


ILEGALIDADE DA ESCRAVIDÃO

 

“As nações como os homens devem muito prezar a sua reputação”

Eusébio de Queiroz

 

Vimos o que foi o tráfico. Pois bem, essa trilogia infernal, cuja primeira cena era a África, a segunda o mar, a terceira o Brasil, é toda a nossa escravidão. Que semelhante base é perante a moral monstruosa; que a nossa lei não podia reduzir africanos, isto é, estrangeiros, a escravos; que os filhos desses africanos continuam a sofrer a mesma violência que seus pais, e por isso o título porque são possuídos, o fato do nascimento, não vale mais perante qualquer direito, que não seja a legalização brutal da pirataria, do que o título de propriedade sobre aqueles: são princípios que estão para a consciência humana fora de questão. Mas, mesmo perante a legalidade estrita, ou perante a legalidade abstraindo da competência e da moralidade da lei, a maior parte dos escravos entre nós são homens livres criminosamente escravizados.

Com efeito, a grande maioria desses homens, sobretudo no Sul, ou são africanos, importados depois de 1831, ou descendentes destes. Ora, em 1831 a lei de 7 de novembro declarou no seu artigo 1º: “Todos os escravos que entrarem no território ou portos do Brasil vindos de fora ficam livres.” Como se sabe, essa lei nunca foi posta em execução, porque o governo brasileiro não podia lutar contra os traficantes; mas nem por isso deixa ela de ser a carta de liberdade de todos os importados depois da sua data.

Que antes de 1831, pela facilidade de aquisição de africanos, a mortalidade dos nossos escravos, ou da Costa ou  crioulos, era enorme, é um fato notório.

É sabido – dizia Eusébio de Queiroz em 1852 na Câmara dos Deputados – que a maior parte desses infelizes (os escravos importados) são ceifados logo nos primeiros anos, pelo estado desgraçado a que os reduzem os maus tratos da viagem, pela mudança de clima, de alimentos e todos os hábitos que constituem a vida.(1)

 

Desses africanos, porém – quase todos eram capturados na mocidade -, introduzidos antes de 1831, bem poucos restarão hoje, isto é, depois de cinqüenta anos de escravidão na América a juntar aos anos com que vieram da África; e, mesmo sem a terrível mortalidade, de que deu testemunho Eusébio, entre os recém-chegados, pode-se afirmar que quase todos os africanos vivos foram introduzidos criminosamente no país.

Vejamos, porém, um depoimento altamente insuspeito relativamente à mortalidade das “crias” até à época mais ou menos em que o tráfico transatlântico foi efetivamente suprimido.

É fato incontestável (depõe o sr. Cristiano Ottoni) que, enquanto era baixo o preço dos escravos, raras crias vingavam nas fazendas. Viajava-se pelos municípios de Piraí, Vassouras, Valença. Paraíba do Sul, observando os eitos do serviço… quase tudo africanos. Notava-se uma exceção, e não havia muitas outras, de uma grande fazenda cujo proprietário órfão se educava em um país estrangeiro: esta povoava-se notavelmente de crioulos: por quê? Por contrato uma parte dos que vingavam pertenciam ao administrador: sempre o interesse. Em todas as palestras entre os fazendeiros se ouvia este cálculo: “Compra-se um negro por 300$000: colhe no ano 100 arrobas de café que produzem líquido pelo menos o seu custo; daí em diante tudo é lucro. Não vale a pena aturar as crias que só depois de dezesseis anos darão igual serviço. E em conseqüência as negras pejadas e as que amamentavam não eram dispensadas da enxada: duras fadigas impediram em umas o regular desenvolvimento do feto, em quase todas geravam o desmazelo pelo tratamento dos filhos e daí as doenças e morte às pobres crianças. Quantos cresciam? Não há estatísticas que o digam, mas, se dos expostos da Corte só vingavam 9 a 10%, como então provou no Senado o visconde de Abaeté, dos nascidos na escravidão não escapavam certamente mais de 5%. (2)

Devemos falar com a maior franqueza – disse na Câmara um deputado, ex-ministro de Estrangeiros, insuspeito à lavoura – porque a questão é grave. Cumpre que se diga: a maior parte dos proprietários, no interesse de evitar dúvidas  que de futuro se pudessem dar a respeito, trataram de dar os escravos à matrícula como tendo sido importado antes de 1831.

 

Esse mesmo orador encarregou-se de demonstrar em seguida a ilegalidade da escravidão:

Demais a proceder a opinião dos nobres deputados, pois que o feto, segundo o direito romano transplantado para o nosso, segue a condição do ventre, serão livres não só os escravos importados depois daquela data, como toda a sua descendência. Coloquemos a questão no seu verdadeiro terreno. Se, como demonstrei, somente no período de dez anos, de 1842 a 1852, como consta dos documentos oficiais, foram importados 326.317 africanos, e não sabendo nós quantos teriam sido importados no período anterior de 11 anos depois da lei de 1831, pergunto: quantos dos atuais escravos poderiam rigorosamente ser considerados como tais, a prevalecer a opinião que combato? (3)

 

Menos da metade, seguramente, a prevalecer a lei de 7 de novembro. Mas a história dessa lei é uma página triste do nosso passado e do nosso presente. Os africanos, que o pirata negreiro, navegando sob a bandeira brasileira – a maior parte dos traficantes e os mais célebres dentre eles, os que têm a seu crédito nos livros azuis ingleses maior número de vítimas, eram estrangeiros e, para vergonha de Portugal e nossa também, portugueses – ia buscar aos depósitos da África e desembarcava nos da costa do Brasil, não acharam quem os pusesse em liberdade, como a lei o exigia. As únicas reclamações a favor deles eram feitas pelos ministros ingleses, e ouvidas no Parlamento da Inglaterra. Leia-se o seguinte trecho de um discurso de lorde Brougham em 1842: não seria mais honroso para nós se, em vez de ser proferido na Câmara dos Lordes da Inglaterra pelo grande orador – lorde Brougham pediu mais tarde a revogação do chamado bill Aberdeen, ou Brazilian Act – aquele discurso houvesse ecoado em nossas Câmaras?

Em primeiro lugar, disse ele, temos a declaração expressa de um homem de bem no Senado do Brasil, de que a lei que aboliu o tráfico é notoriamente letra morta, tendo caído em desuso. Em segundo lugar temos uma petição ou memorial da Assembléia Provincial da Bahia ao Senado urgindo pela revogação da lei; não que ela os incomode muito, mas porque a cláusula que os escravos importados depois de 1831 são livres embaraça a transação da venda e torna inconveniente possuir negros há pouco introduzidos no país. Eu encontro outra Assembléia Provincial, a de Minas Gerais, pedindo a mesma coisa com iguais fundamentos. Depois de insistir nos perigos para o país da falta de negros, o memorial acrescenta: “Acima de tudo, o pior de todos esses males, é a imoralidade que resulta de habituarem-se os nossos cidadãos a violar as leis debaixo das vistas das próprias autoridades!” Eu realmente acredito que a história toda de desfaçatez humana não apresente uma passagem que possa rivalizar com essa – nenhum outro exemplo de ousadia igual. Temos nesse caso uma legislatura provincial que se apresenta por parte dos piratas e dos seus cúmplices, os agricultores, que aproveitam com a pirataria comprando-lhe os frutos, e em nome desses grandes criminosos insta pela revogação da lei que o povo confessa estar violando todos os dias, e da qual eles declaram que não hão de fazer caso enquanto continuar sem ser revogada; pedindo a revogação dessa lei com o fundamento de que, enquanto ela existir, resolvidos como estão a violá-la, eles se vêem na dura necessidade de cometer essa imoralidade adicional debaixo das vistas dos juízes que prestaram o juramento de executar as leis. (1842)

 

Fato curioso, a lei de 7 de novembro de 1831 que não pôde ser executada, senão muito excepcionalmente, não pôde também ser abolida.

No nosso direito não se revogam cartas de liberdade, e qualquer governo, que ousasse propor às Câmaras a legalização do cativeiro dos africanos importados depois de 1831, teria a prova de que a nação não está inclinada a fazer o que não consente que outros façam. O escândalo continua, mas pela indiferença dos poderes públicos e impotência da magistratura, composta também, em parte de proprietários de africanos; e não porque se pretendia seriamente que a lei de 1831 fosse jamais revogada.

Grande número dos nossos homens públicos, compreendendo que essa era a chaga maior da nossa escravidão, pretenderam validar de alguma forma a posse de africanos ilegalmente escravizados, receando a bancarrota a lavoura pela verificação dos seus títulos de propriedade legítima. Não devemos condenar os nossos estadistas pelas opiniões que emitiram em relação à escravidão, quando os vemos dominados pelo receio de uma catástrofe social; mas nós, hoje, sabemos que tais receios não têm mais razão de ser, e que a moralização do país só pode dar em resultado o seu desenvolvimento progressivo e o seu maior bem estar.

Até ontem, por outro lado, temia-se que a execução pela magistratura da lei de 7 de novembro desse lugar a ações intentadas por africanos importados antes de 1831, pretendendo havê-lo sido depois; mas neste momento os africanos legalmente importados tem todos cinqüenta e dois anos no mínimo, e salvo uma exceção, havendo sido importados com mais de quinze anos, são quase septuagenários. Se algum desses infelizes, enganado a justiça, conseguisse servir-se da lei de 7 de novembro para sair de um cativeiro que se estendeu além da média da vida humana, a sociedade brasileira não teria muito que lamentar nesse abuso isolado e quase impossível, de uma lei um milhão de vezes violada.

Não há dúvida que a geração de 1850 entendia como o disse  Eusébio, que “deixar subsistir essa legislação (a lei de 7 de novembro) para o passado, era anistiá-lo”, e que “os escravos depois de internados e confundidos com os outros” não poderiam mais apelar para os benefícios que ela concedia; não há dúvida, também, que esse pensamento político predominante em 1850, de legitimar a propriedade sobre os africanos introduzidos depois de 1831, aquela geração não teve a coragem de exará-lo na lei, e confiou-o inteiramente à passividade cúmplice da magistratura, e ao consenso do país. Aconteceu assim o que era natural. À geração educada na tolerância do tráfico sucedeu outra que o considera o maior de todos os crimes, e que, se não desenterra o livro negro da Secretaria da Justiça os nomes e os atos dos traficantes, para não causar pena desnecessária a pessoas que anda têm com isso, não julga menos dignos da maior de todas as censuras da consciência humana os atos pelos quais, por dinheiro, e só por dinheiro, bandidos do comércio ensoparam durante meio século as mãos no sangue de milhões de desgraçados que nenhum mal lhes haviam feito. Por sua vez, a atual geração, desejosa de romper definitivamente a estreita solidariedade que ainda existe entre o país e o tráfico de africanos, pede hoje a execução de uma lei que não podia ser revogada, e não foi, e que todos os africanos ainda em cativeiro sendo bona piratarum, têm direito de considerar como a sua carta de liberdade rubricada pela Regência em nome do imperador.

Admitindo-se a mortalidade em larga escala dos escravos, não há só probabilidade, há certeza, de que as atuais gerações são, na sua grande maioria constituídas por africanos do último período, quando acabou legalmente o tráfico e os braços adquiriram maior valor, e por descendentes desses. Por isso Sales Torres-Homem disse no Senado aos que sustentavam a legalidade da propriedade escrava, num trecho de elevada eloqüência:

Ao ouvir-se os peticionários falarem tão alto em direito de propriedade, fica-se surpreendido de que se olvidassem tão depressa de que a máxima parte  dos escravos que lavram suas terras são os descendentes desses que um tráfico desumano introduziu criminosamente neste país com afronta das leis e dos tratados! Esqueçam-se de que no período de 1830 a 1850 mais de um milhão de africanos foram assim entregues à lavoura, e que para obter essa quantidade de gado humano era necessário duplicar e triplicar o número de vítimas, alastrando-se de seu sangue e de seus cadáveres a superfície dos mares que nos separam da terra do seu nascimento.

 

Identificada assim a escravidão, como sendo na sua máxima parte a continuação do tráfico ilegal que de 1831 a 1852 introduziu no Brasil, aproximadamente, um milhão de africanos; provada a sua ilegalidade manifesta em escala tão grande que “a simples revisão dos títulos da propriedade escrava bastaria para extingui-la” (4) (isto é, reduzindo o número dos escravos a proporções que os recursos do Estado poderiam liquidar), é nossa vez de perguntar se não chegou ainda o momento de livrar as vítimas do tráfico, do cativeiro em que vivem até hoje. Pensem os brasileiros que esses africanos estão há cinqüenta anos trabalhando sem salário, em virtude do ato de venda efetuado na África por menos de noventa mil réis. Pensem eles que até hoje esses infelizes estão esperando do arrependimento honesto do Brasil a reparação pelo crime praticado contra eles, sucessivamente pelos apresadores de escravos nos seus países, pelo exportador da costa, pelos piratas do Atlântico, pelos importadores e armadores, na maior parte estrangeiros, do Rio de Janeiro e da Bahia, pelos traficantes do nosso litoral a soldo daqueles, pelos comissários  de escravos, e por fim pelos compradores, cujo dinheiro alimentava e enriquecia aquelas classes todas.

“As nações como os homens devem prezar a sua reputação”; mas, a respeito do tráfico, a verdade é que não salvamos um fio sequer da nossa. O crime nacional não podia ter sido mais escandaloso, e a reparação não começou ainda. No processo do Brasil um milhão de testemunhas hão de levantar-se contra nós, dos sertões da África, do fundo do oceano, dos barracões da praia, dos cemitérios das fazendas, e esse depoimento mudo há de ser mil vezes mais valioso para a história do que todos os nossos protestos de generosidade e nobreza dalma da nação inteira.

 

Notas

1. Discurso de 16 de julho. A essas causas deve-se acrescentar a nostalgia, segundo os depoimentos oficiais.

 

2. A Emancipação dos Escravos. Parecer de C. B. Ottoni, 1871, p. 66-68

 

3. Sessão de 22 de novembro de 1880, discurso do sr. Moreira Barros. – Jornal do Commércio de 23 de novembro

 

4. Manifesto da Sociedade Brasileira contra a escravidão.

 

 

Fonte: NABUCOJoaquim. O Abolicionismo.

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