A nobre estirpe dos Andradas, provinha dos antigos Condes de Amado e Marquêses de Montebelo, Senhores de Bobadela, d’Entre-Homem e Cávado, na Provincia do Minho.
Familia patricia, distinguira-se na Colonia não sómente pela fidalguia do seu sangue, como tambem pela ilustração de muitos dos seus membros, alguns dos quais, foram figuras notaveis nas ciencias e nas letras.
O coronel Bonifacio José de Andrada e D. Maria Barbara da Silva, descendentes desta ilustre estirpe, moravam na então vila de Santos, quando a 13 de Junho de 1765, nasceu José Bonifacio.
Batisado a 18 do mesmo mês, com o nome de José Antonio, substituiu mais tarde o cognome para Bonifácio.
Leão Bourroul, Afranio Peixoto, José Veríssimo, Ernesto Sena, Laudelino Freire e outros biografos de José Bonifacio, adotam o ano de 1763 para seu natalício, ao passo que Latino Coelho, Pereira da Silva, Homem de Melo e Silvio Romero, indicam o ano de 1765, que também adotamos.
Fez José Bonifácio os seus primeiros estudos na vila de Santos, sob a direcção de seu pai o coronel Bonifacio José de Andrada, até completar a idade de 14 anos. Passou-se depois para São Paulo, onde foi entregue aos cuidados do bispo D. Frei Manoel da Resurreição, que ali mantinha, á sua custa, aulas de metafísica, logica, ética, retórica e francês. D. Manoel da Resurreição, aparentado com a familia Andrada, recebeu carinhosamente o jovem estudante, encaminhando-lhe os estudos, de maneira que pudesse conquistar para o gremio da Igreja aquele extraordinario talento, cujos rapidos progressos haviam impressionado vivamente o prelado paulista.
Sentindo-se sem vocação para a carreira eclesiastica, não anuiu o jovem Andrada aos anhelos do seu ilustre preceptor, retirando-se em 1783 para a vila de Santos, de onde partiu para Portugal, a fim de completar os seus estudos.
Ali chegado matriculou-se na Universidade de Coimbra, onde cursou as Faculdades de Direito e Filosofia Natural.
Latino Coelho e quasi todos os biografos de José Bonifacio, fixam o ano de 1780 para a sua saída do Brasil; entretanto, no soneto — Adeus, fica-te em paz, Alcino amada — declara o poeta ter sido o mesmo improvisado em sua partida para Portugal, em 1783, quando tinha 18 anos de idade.
Com grande aproveitamento recebeu José Bonifacio a laurea de bacharel em leis e filosofia natural, passando-se então para Lisbôa, onde D. João Carlos de Bragança, Duque de Lafões, aproveitando sua elevada cultura o fez ingressar em 1789, como sacio livre, na Academia Real de Ciencias de Lisbôa.
Por essa época consorcia-se José Bonifacio com D. Narcisa Emilia Oleary, senhora de origem irlandêsa, dotada de grande ilustração.
Procurava o Duque de Lafões reunir em torno da Academia, um grupo de cientistas capazes de emancipar o magisterio português, e aos quais entregou as catedras dos institutos científicos, os museus e os laboratorios do Reino. Para isso aproveitava D. João de Bragança os novos talentos que saíam da Universidade, chamando-os ao seio da novel associação e enviando-os, depois, por conta do Estado, aos países cultos da Europa, onde pudessem aperfeiçoar as suas especialidades.
Assim, em Junho de 1790, partia para a França, José Bonifacio de Andrada, em companhia de Manoel Ferreira da Camara e Joaquim Pedro Fragoso. Deveriam os tres naturalistas aperfeiçoar os seus conhecimentos de química e mineralogia em Paris, onde chegaram recomendados ao embaixador português D. Vicente de Souza Coutinho.
Em 1791 concluía José Bonifacio os cursos de química e mineralogia, professados em Paris, por Chaptal, Fourcroy, Jussieu e o abade de Hauy.
Por essa época é Andrada recebido como membro da Sociedade Filomatica (1791) e da Sociedade de Historia Natural de Paris (1791).
Foram tão notaveis os seus aproveitamentos nos cursos francêses, que o embaixador D. Vicente de Souza Coutinho, em oficio ao Secretario do Reino, Luis Pinto de Souza, datado de 25 de Abril de 1791, solicitava permissão para José Boniíacio, Ferreira da Camara e Joaquim Fragoso proseguirem em seus estudos no estrangeiro, por conta do Estado.
Devidamente autorisados, seguiram os tres sabias para Freyberg, na Alemanha, onde Werner lecionava oritognosia,geognosia e montanistica; Lempe, — matematicas puras e aplicadas; Köhler, — iniciava o direito e legislação das minas; Klotzch e Freisleben, — faziam ensaios de química experimental; e Lampadius — desvendava os processos da metalurgia.
Karl Bruhns, na biografia de Alexandre Humboldt, conta que foram companheiros do grande prussiano nos laboratorios de Freyberg, Leopoldo von Buck, o dinamarquês Esmark, o português Andrada e o espanhol Del Rio.
Concluidos os cursos em Freyberg, começa José Bonifado as suas excursões científicas pelos países da Europa. Percorre a Italia, ouvindo Volta em Pavia; estuda em Turim a formação geologica dos montes Euganeos, refutando em substanciosa memoria as teorias vulcânicas de Ferber e Spallanzoni, ao mesmo tempo que aceitava a concepção neptunistade Werner. Na Austria e na Boemia, visita as minas do Tirol, da Stiria e da Corintia; na Inglaterra frequenta os cursos de Priestley, em Hockney, e os de Nicholson, em Londres; e, finalmente, passando á Escandinavia, aprofunda aí os seus conhecimentos de silvicultura e mineralogia, aproveitando as novas doutrinas que Bergman professava em Upsal, e Abelgaard em Copenhague.
Aperfeiçoando com os grandes mestres escandinavos os seus conhecimentos de oritognosia, descobre José Bonifacio novas especies e variedades minerais, o que lhe consagrou, merecidamente, a reputação de sabio.
Publicou nessa ocasião nos Anais do Museu de Historie Natural de Paris, a sua memoria sobre os diamantes do Brasil, tendo dado a lume em diferentes numeros do Jornal de Física (1797) ,dos Anais da Sociedade de Química e Historia Natural, do Jornal das Minas e dos Anais de Química de Schurer, os resultados de suas mais importantes indagações científicas.
Descobriu e estudou José Bonifácio quatro novas espécies minerais, que denominou Petalite, Spoduméne, Kriolite e Scapolite, e mais oito variedades das especies descobertas e de outras conhecidas.
Da Petalite (silicato de alurnina, soda e titio), extraiu Arfwedson a liltina. A primeira comunicação da descoberta da Petalue, foi feita por Andrada no Jornal de Química de Leipzig, em 1798.
As variedades minerais descobertas e classificadas por José Bonifácio, foram: — a Akantikone, Salite, Cocolite, Ictioftalma, Indiocolite (turmalina azul), Afrisite, Alocroite (granada comum) e Wernerite.
Esta ultima, que Andrada descreveu como especie independente, foi incluida pelos mineralogistas modernos, nas variedades da Scapolite.
Em carta dirigida a Beyer, engenheiro das minas de Schneeberg, na Alemanha, José Bonifacio apresentava a descrição dos caracteres distintivos dessas especies e variedades minerais, e em revistas e jornais científicos, publicados na Italia, na França e na Alemanha, dava conta dos operosos trabalhos que empreendera, honrando e dignificando o nome de sua patria.
Antes de seu regresso a Portugal, em 1800, é recebido como membro da Academia Real de Ciencias de Stockolmo (1797) e da Sociedade dos Amigos das Ciencias Naturais, de Berlim (1797) .
Durára dez anos a peregrinação de José Bonifacio pelos meios científicos da Europa, regressando finalmente a Portugal em Setembro de 1800.
D. Rodrigo de Souza Coutinho, Conde de Linhares, então Ministro do Reino, mandou conferir-lhe graciosamente o titulo de doutor em filosofia natural, pela Carta Regia de 15 de Abril de 1801.
Aos 18 de Maio do mesmo ano foi nomeado intendente geral das minas e metais do Reino, e encarregado de dirigir e administrar as minas e fundições de ferro de Figueiró dos Vinhos, com a inspecção sobre matas e sementeiras florestais. A mesma carta regia nomeava-o desembargador da Relação do Porto, e catedratico de Metalurgia na Universidade de Coimbra.
O decreto de 12 de Novembro de 1801, encarregou-o de prover o curso de docimásia, na Casa da Moeda, onde foi auxiliado por Manoel Jacinto Nogueira da Gama (depois Marquês de Baependi), e João Antonio Monteiro, eminente mineralogista português.
O aviso regio de 7 de Julho de 1807, entregou-lhe a superintendencia das obras publicas de Coimbra e nomeou-o director do encanamento do Mondego.
Assim acumulado de trabalhos, não descansava o grande paulista, continuando sempre as suas valiosas investigações no dominio das ciencias naturais e, ao mesmo tempo, não deixava adormecer a sua actividade literária. No exercicio de seus cargos públicos plantou as sementeiras de Couto dos Lavos e estudou as minas de chumbo e carvão de pedra existentes no Reino, primitivamente exploradas pelos romanos.
Destas minas tratou em notavel memoria, apresentada em 1809 á Academia Real de Ciencias de Lisbôae reproduzida posteriormente no Patriota, do Rio de Janeiro (1813 – n.° 1 a 3) e no Investigador Português de Lisbôa, em 1814.
A nova mina de ouro do Tejo, denominada Príncipe Regente, foi estudada, pelo ilustre sabio paulista, que escreveu ácerca de suas investigações, notavel memoria, lida em sessão de 10 de Maio de 1815, da Academia Real de Ciencias.
Outros trabalhos de silvicultura e mineralogia, ocuparam o seu tempo em Portugal, dos quais trataremos em sua bibliografia.
Pouco antes da invasão francêsa, foi nomeado secretario perpetuo da Academia Real de Ciencias de Lisbôa (1812).
Depois de sua chegada a Portugal, recebeu José Bonifacio o titulo de membro de Academia Real de Ciencias de Copenhague e Turim (1801); da Sociedade Werneriana e Lineana de Londres (1802); da Sociedade de Ciencias Físicas e Naturais de Genova (1802); e da Sociedade de Ciencias Filosóficas de Filadelfia (1802).
Não se tendo Portugal submetido ao bloqueio continental, estabelecido por Napoleão, mandou o imperador avançar suas hostes contra a península rebelde. Transpondo os Pirineus, as tropas francêsas comandadas pelo marechal Junot, invadiram, sem resistencia, o territorio português. Apavorado e acovardado, vendo em toda a parte o espectro de Luis XVI, sem forças para qualquer reacção, foge o rei, entregando Portugal humilhado á dominação estrangeira.
Obsedado pelo medo, no meio dos gritos e delírios da rainha louca, o gordo Principe Regente, obeso e tartamudo, reune ás pressas seus haveres, e, seguido de largo sequito de nobres e cortezãos, abala do Tejo na manhã de 29 de Novembro de 1807. Guardava-o a frota de Sir Sidney Smith, almirante britanico, que o comboiou até o asílo americano.
Acefalo, resolveu o povo português aparelhar-se com seus proprios recursos, para expulsar da patria, o invasor estrangeiro.
Vacante o trôno, não foi, entretanto, ocupado por nenhum dos reis improvisados por Napoleão. Não o conseguiu mesmo seu irmão José, que, pomposamente, se candidatára á corôa portuguêsa.
Uma guerra de exterminio, de emboscadas e escaramuças, começou então por parte dos novos Viriatos. Nesta briosa campanha teve José Bonifacio parte saliente, alistando-se ao lado dos defensores de Portugal, formando batalhões academicos, alinhando soldados, dirigindo batalhas. Perseguiu Andrada as forças de Soult e pelejou contra as hostes napoleonicas até sua expulsão do territorio português.
Cessam as guerrilhas com a assinatura da capitulação de Cintra, que, conservando a independencia de Portugal, manteve no trôno a dinastia dos Braganças, e na cabeça de D. João VI a corôa habilmente escamoteada das mãos de Bonaparte.
Banidos os francêses, ficára o reino desgovernado e entregue ao jacobinismo, sendo preciso refrear com energia as violencias e vindictas que se faziam contra os afrancesados, e conter as manifestações anarquicas que irrompiam em diversos pontos do país. José Bonifacio foi então chamado para normalisar a situação e aquietar os animos, sendo para isso nomeado intendente de policia da cidade do Porto. “A sua atitude desagradou ao governo proconsular, cioso da minima expansão de liberdade”, resultando daí a sua exoneração do cargo e completo afastamento dos negocios de Portugal.
Volta o sabio ás suas investigações científicas, explora algumas minas, e arrendando uma quinta no Almegue, proximo a Coimbra, dedica-se á agricultura. Publica, por essa época, diversas memorias, discursos e monografias, declarando, ao despedirse da Academia Real de Ciencias:
“Si almas degeneradas, procuraram amargurar por vezes a minha cansada existencia, e buscaram, mas em vão, malograr o meu patriotismo e bons desejos, o estudo da natureza e dos livros no seio da amizade, e a voz da consciencia foram sempre o balsamo salutífero que cicatrisou estas feridas do coração. Cumpre, pois, deslembrar-me do passado”.
Em 1819, aos 56 anos de idade, consegue licença para voltar á patria, deixando a Metropole, — a quem dedicara toda a primeira fase de sua existencia, — por não poder continuar a viver numa terra, onde no poder se “acoutava a ignorancia tímida ou desleixada, o obscurantismo de algumas toupeiras, que temem ou não podem suportar a luz”.
No Brasil, esperava-o a gloria do patriarcado, que o levaria ao panteon dos grandes herois americanos, ao lado de Washington, Bolivar e San Martin.
Em fins de 1819 regressou José Bonifacio ao Brasil, acompanhado de sua familia, indo residir em seu sitio dos Outeirinhos, em Santos, com o firme proposito de ali acabar os dias.
Negou-se a ocupar no Brasil, qualquer cargo publico ou politico, recusando o lugar de ajudante do Ministro Vila Nova Portugal e o de reitor da Universidade que D. João VI projectava fundar.
Vivia José Bonifacio tranquilamente na vila de Santos, classificando as suas vastas colecções de plantas e minerais, organisando e ordenando os seus numerosos manuscritos, quando a revolução de 1820 em Portugal, veio tira-lo do retiro que voluntariamente procurára, para pô-lo á frente do movimento da independencia.
A revolução do Porto, em 24 de Agosto de 1820, estabelecendo a monarquia constitucional representativa em Portugal, exigia o pronto regresso de D. João VI, que muito a contra gosto, embarcou para Lisbôa a 26 de Abril de 1821, acompanhado de toda a côrte bragantina.
No Brasil, ficava como regente e lugar-tenente do Rei, o principe D. Pedro. Antes da partida de D. João VI, a 13 de Março de 1821, o capitão-general João Carlos Augusto de Oyenhausen Gravemberg, anunciava em São Paulo a adoção do sistema constitucional e propunha a eleição dos representantes da provincia junto á Constituinte.
Por indicação de José Bonifacio, foram eleitos deputados: — Antonio Carlos, José Ricardo, Diogo Feijó, Nicolau Vergueio, Fernandes Pinheiro e Paula Souza.
As províncias do Pará, Baía, Maranhão, Pernambuco e Rio de Janeiro, haviam tambem aderido á revolução portuguêsa, adotando o sistema constitucional, ao passo que outras relutavam, obrigando medidas energicas e coercitivas, por parte do Principe Regente.
O partido português, receando que D. Pedro adotasse uma politica simpatica á emancipação da colonia, promoveu a insurreição da Divisão Auxiliadora, em 5 de Junho de 1821, com o proposito de exigir do principe o juramento das bases da Constituição portuguêsa e a demissão do Conde dos Arcos, ministro muito inclinado aos interesses do Brasil. Por prudencia ou medo, cedeu o principe regente ás imposições dos sediciosos. Organisou-se então uma Junta Governativa, responsavel por todos os actos administrativos, junto ás Côrtes de Lisbôa.
Como consequencia deste movimento, instala-se em São Paulo um Governo Provisorio, tendo Oyenhausen como presidente e José Bonifacio como vice presidente.
Começa neste momento, a atuação de Andrada na formação da independencia. A vida de José Bonifacio, desta data até 7 de Abril de 1831, é a historia da independencia do Brasil. Neste decenio, a vida do Patriarca acha-se tão intimamente ligada á histeria da revolução separatista, que se torna impossivel separa-las.
Não obstante o governo liberal do Principe Regente, surgiam de toda a parte graves empecilhos á sua administração: a Baía negava-se a reconhecer a regencia, sob o pretexto de não ter sido o principe nomeado pelas Côrtes; os governos provinciais, sujeitos imediatamente ás Côrtes pela lei de 24 de Abril de 1821, negavam-se a obedecer ao governo central; as rendas das provincias, pagas diretamente ao Tesouro português, deixavam sem recursos o governo do Rio de Janeiro; e, assim, antolhada de dificuldades, caminhava trôpega e desconjuntada a administração do Principe D. Pedro.
Colocado nesta difícil situação, desprestigiado pelas Côrtes, desobedecido pelas provincias, sem recursos financeiros para acudir ao pagamento das despesas de administração, escreveu D. Pedro ao pai a famosa carta de 21 de Setembro de 1821, na qual relatava a grave situação em que o deixaram as Côrtes de Lisbôa, e pedia a sua pronta retirada da regencia do reino do Brasil.
“Não pense Vossa Magestade, escrevia o principe, que eu me quero subtraír ao serviço da Nação, e de Vossa Magestade; mas sim ás tristes e lamentáveis cênas e circunstancias em que me acho. Peço a Vossa Magestade, por tudo quanto ha de mais sagrado, me queira dispensar deste emprego que seguramente me matará pelos contínuos e horrorosos paineis que tenho, uns já á vista, e outros muitos piores para o futuro, os quais eu tenho sempre diante dos olhos”.
Novos decretos das Côrtes de Lisbôa procuravam recolonisar o Brasil, cassando todas as prerogativas que lhe concedera D. João VI. Finalmente, a violencia culminou com o decreto de 29 de Setembro, que mandava regressar para Portugal o principe D. Pedro, “devendo previamente viajar incognito pela Inglaterra, França e Espanha, para completar sua educação politica”.
Tendo conhecimento deste decreto, José Bonifacio e Martim Francisco reunem os membros do Governo Provisorio, na noite de 24 de Dezembro, e deliberam enviar uma mensagem ao Principe Regente, declarando-lhe “que a sua partida seria o sinal de separação ,do Brasil”.
José Bonifacio e o coronel Gama Lobo, encarregados de leva-la a D. Pedro, partiram imediatamente para o Rio de Janeiro, acompanhados pelo Marechal Arouche e pelo vigario Gomes de Azevedo, portadores de uma mensagem da Camara Municipal e do clero de São Paulo.
Foi no memoravel dia 9 de Janeiro de 1822 que os embaixadores paulistas, reunidos aos do Rio e Minas Gerais, se dirigiram ao principe D. Pedro, entregando-lhe, por intermedio de José Clemente Pereira, as mensagens dos seus concidadãos.
Depois de ouvir atentamente o discurso de José Clemente Pereira, acedeu o principe á vontade do povo.
“Como é para bem de todos e felicidade geral da nação, diga ao povo que fico”, declarou explicitamente o principe.
Esta declaração, que assegurava a vitoria da campanha separatista, foi recebida por ambos os partidos, patriotas e realistas, com “as demonstrações mais entusiasticas de alegria”.
No dia 16 de Janeiro organisou D. Pedro o seu primeiro ministerio, cabendo a José Bonifacio a pasta do Reino e Negocios Estrangeiros.
Começa, então, o formidavel trabalho de organisação da nacionalidade, empreendido por José Bonifacio: — faz embarcar para Portugal a insubordinada Divisão Auxiliadora de Avilez; restabelece a centralisação das províncias, que as Côrtes de Lisbôa haviam enfraquecido; cria o Conselho dos Representantes; organisa varios projectos de reforma administrativa, e mantém com energia a unidade nacional, ameaçada pelas dissenções civis em varias provincias. Assim, na Baía e Pernambuco, as tropas portuguêsas negavam-se a obedecer ao governo central; em São Paulo, a bernarda de Francisco Inacio convulsionava o interior da provincia; no Pará e Maranhão, o partido português hostilisava francamente a Regencia, e, finalmente, em quasi todo o territorio, surgiam pequenos conflitos entre portuguêses ,brasileiros.
O governo ditatórial exercido por José Bonifacio, de Janeiro a Setembro de 1822, teve a virtude de manter a integridade politica da America Portuguêsa, evitando que as facções republicanas, transformadas em perigosas demagogias, sacrificassem aquela integridade, com lutas intestinas, que fatalmente desmembrariam as provincias.
A sua ditadura, impondo a monarquia constitucional como forma de governo, evitou, com a hereditariedade do trôno, que o poder caísse nas mãos de caudilhos, que certamente sacrificariam ás suas desmedidas ambições, toda a obra consolidada pêlos antepassados. Disso, era vivo exemplo a situação das republicas sul-americanas.
Além do que, afigurava-se ao grande patriota, a incompatibilidade da escravidão com um regimem democratico; e a emancipação imediata dos escravos era, no momento, não só uma utopia, como um espantoso atentado á economia nacional.
A politica adotada pela ditadura de José Bonifacio, desde o dia do Fico até o Ipiranga, foi toda reacionaria.
Todas as ordens e decretos que provinham das Côrtes de Lisbôa, eram acintosamente desobedecidos; e a atitude do governo brasileiro, era de franca rebeldia aos actos da Metrópole.
A circular do governo português aos seus consules nos portos estrangeiros, proibindo a exportação de armamentos e munições para as provincias de ultramar, veio encerrar a pendencia, provocando na colonia, uma atitude exaltada contra o domínio português.
O principe D. Pedro aceita o titulo de Defensor Perpetuo do Brasil, que lhe oferece a Camara Municipal do Rio de Janeiro, e convoca, pelo decreto de 3 de Junho de 1822, a primeira constituinte brasileira, assentando os fundamentos do nosso sistema representativo.
Na Baía e em Pernambuco continuava a resistencia das tropas portuguêsas, o que provocou o decreto de 15 de Junho, referendado pelo Ministro da Guerra, Joaquim de Oliveira Alves, em virtude do qual eram expulsas do territorio brasileiro as tropas portuguêsas, a fim de que pudesse ser restabelecida a paz nas provincias conflagradas. Embora referendado por Oliveira Alves, este decreto foi obra de Andrada, e um dos seus actos mais acertados e de louvavel coragem.
No dia 14 de Agosto partiu o Principe Regente para São Paulo, a fim de harmonisar dissenções surgidas entre a Junta e os irmãos Andradas. Deixára a regencia confiada á Princêsa Real D. Leopoldina, e a administração dos negocios publicos, a cargo do ministerio presidido por José Bonifacio.
Recebendo de Portugal novos decretos das Côrtes, entre os quais o que anulava o acto de D. Pedro convocando a Constituinte, resolveu José Bonifacio reunir o Conselho, sob a presidencia da Princêsa Real.
Nesta reunião, propõe o Ministro da Fazenda Marfim Francisco que, “diante da má conduta das Côrtes portuguêsas, se declarasse, sem mais detença, a independencia do Brasil”. Defendida a proposta por José Bonifacio, é unanimemente aceita pelo Conselho, ficando Martim Francisco encarregado de redigir o oficio que deveria ser enviado ao príncipe D. Pedro, dando-lhe conta das decisões adotadas.
Na tarde de 7 de Setembro de 1822, viajava D. Pedro e sua comitiva de Santos para São Paulo, quando, proximo á colina do Ipiranga, recebeu das mãos de Paulo Bregano e do Major Antonio Ramos Cordeiro, os oficios enviados por José Bonifado.
Numa tirada épica: ali mesmo, proclamou D. Pedro a independencia do Brasil. Era a sanção real ao trabalho construtivo de José Bonifacio e mais um passo para a nossa definitiva emancipação politica.
Proclamada a independencia, foi lembrado por José Bonifacio que se conferisse ao principe o titulo de imperador, ideia que D. Pedro adotou, com exclusão de qualquer outra, segundo informa Vasconcelos Drumond.
José Bonifado desejando concretisar o grito do Ipiranga, lançou a proclamação de 21 de Setembro, que marcava o dia 12 de Outubro, para aclamação solene de D. Pedro, como Imperador Constitucional e Defensor Perpetuo do Brasil. Este mesmo decreto, referendado por José Bonifado, fixava em quatro meses o praso, dentro do qual os portuguêses dissidentes deveriam deixar o Brasil ou reconhecerem a sua independencia.
Depois da aclamação do imperador, começou o ministerio Andrada a ser tenazmente hostilisado pelas facções chefiadas por Joaquim Gonçalves Lêdo e José Clemente Pereira, que lhe disputavam o poder.
A politica adotada por José Bonifacio, depois de 7 de Setembro, caracterisou-se pelo aspecto aparente de uma ditadura tirânica.
Inflexível a todas as injunções, refreando por todos os meios as tendencias anarquicas que 0s facciosos pretendiam explorar em beneficio proprio, garantiu com estas medidas a integridade e a independencia da patria. Este foi o grande e inestimavel serviço prestado pelo Patriarca.
Alguns actos violentos de José Bonifacio, como a prisão do redactor do Correio do Rio de Janeiro, deram lugar a uma crise ministerial, que terminou com o pedido de demissão dos Andradas, em 28 de Outubro. O povo amotinado pede a reintegração do ministerio demitido; acedeu D. Pedro, sendo então, com grande jubilo popular, arrastada a carruagem de José Bonifacio pelas ruas da cidade.
Redobram às Andradas a sua politica de inflexivel rigidês. Fundam o Apostolado, contraminam a actividade das lojas maçonicas partidarias de Lêdo, que acusam de republicano e demagogo. Nesta facção foram incluidos José Clemente, Nóbrega, Conego Januario, Alves Branco e outros vultos eminentes da independencia.
Depois da coroação de D. Pedro, a 1.° de Dezembro, activa José Bonifacio o seu trabalho de consolidação da nacionalidade. Sequestra as propriedades portuguêsas existentes no Brasil; contrata Lord Cockrane para assumir o comando da Marinha imperial e submeter as provincias rebeldes do Pará e Maranhão; aumenta a marinha de Guerra e activa o trabalho nas oficinas do Arsenal de Marinha; cria o corpo diplomatico e providencia a instalação da Constituinte.
Ao reunir-se pela primeira vez a Assembleia Constituinte, no dia 17 de Abril de 1823, ainda eram violentas as dissenções partidarias, e já começavam a tomar vulto os movimentos de oposição á politica violenta e ditatorial dos Andradas.
A 3 de Maio abriu o imperador a sessão da Constituinte, esperando que a assembleia ali reunida votasse uma Constituição “tão sábia e tão justa, quanto apropriada á localidade e civilisação do povo brasileiro”.
Infelizmente, as veleidades de uns, a arrogancia de outros e a mediocridade de muitos, contribuíram para o fracasso da Constituinte, que foi dissolvida pelo golpe de Estado de 16 de Novembro de 1823.
Foram imediatamente presos os deputados José Bonifacio, Martim Francisco, Antonio Carlos, José Joaquim da Rocha, Montezuma e Padre Belchior, acusados de atacarem a pessoa do Imperador e os oficiais da guarnição do Rio de Janeiro, nos seus jornais o Tamoio e a Sentinela.
Seis dias antes da dissolução da Constituinte, fôra demitido o ministerio Andrada e nomeado outro “mais realista e menos escrupuloso”, no qual Vilela Barbosa, o maneiroso Marquês ele Paranaguá, ocupava a pasta de Ministro do Imperio.
Finalmente, a 20 de Novembro, partem para a França, na charrua Leuconia, os deportados da Constituinte. O decreto de expulsão fixava em cinco anos o exílio que José Bonifacio passou em Talance, Conderan e nos arredores de Bordeus, dedicando-se novamente ás suas especulações científicas e ao cultivo da poesia, que procurava como um balsamo para o seu coração, sempre que o afligia a ingratidão dos homens.
Foi em seu exilio, nos arredores de Bordeus, que José Bonifacio activou a sua produção literaria. Ali escreveu grande numero de poesias, cartas politicas e literarias, e fez uma tradução do Livro XXXII da Historia Natural de Plinio,
Em uma das suas cartas a José Joaquim da Rocha e a Vasconcelos Drumond, então em Paris, informava que aproveitando a solidão do campo, traduzira uma ecloga de Virgilio e preparava uma outra de Píndaro.
Ao ter conhecimento de sua eleição para senador pela Baia, em 1826, escreve Andrada aos seus amigos, que, embora se achasse muito sensibilisado com a escolha dos baianos, não ambicionava mais do que descansar em um canto de sua provincia.
Através das Cartas Andradinas, publicadas no Vol. XIV dos Anais da Biblioteca Nacional, vê-se que no exilio f oi grande a preocupação literaria e científica de José Bonifacio, tendo pensado mesmo em escrever uma historia da revolução do Brasil.
Foi a 23 de Julho de 1829 que, depois de sete anos de exilio, desembarcou no Rio de Janeiro, velho e alquebrado, o conselheiro José Bonifacio.
Na travessia, feita a bordo da galera Fenis, perdera a esposa, facto que muito o acabrunhára. Recolheu-se a uma chacara na ilha de Paquetá, onde anhelava repousar, alheio ás borrascas políticas que preparavam o 7 de Abril.
Recebeu-o amistosamente o Imperador, e o Congresso Legislativo, reconhecendo os grandes serviços que prestára á patria, concedeu-lhe uma pensão anual de quatro contos de reis. A Imperial Academia de Medicina recebeu-o como socio honorario, e em toda parte era o velho Andrada alvo de manifestações de apreço e carinho.
Depois da dissolução da Constituinte, D. Pedro I aproveitando as bases organisadas por Antonio Carlos, redigiu e promulgou a Constituição de 25 de Março de 1824. A outorga da Carta Constitucional não evitou que as funções politicas continuassern a entrechocar-se, tirando do caracter impulsivo do imperador, todo o partido para satisfação de suas ambições. As facções republicanas ou monarquicas, os homens de tendencias liberais ou conservadoras, eram ora guindados, ora descidos do poder, mas sempre extremados em perseguições e vinganças quando exerciam temporariamente o mando.
Com esta politica incerta e desorientada, sempre guiado pelas paixões que o assaltavam no momento, não fez D. Pedro senão descontentar a todos os partidos, despopularisando-se c criando um ambiente de desconfiança em torno de sua pessoa e de suas acções.
A situação do imperador agravou-se nos motins de Abril, onde uma demissão de ministros foi o motivo para a sedição que o derrubou.
Resolveu D. Pedro, na noite de 6 de Abril, ao ter de responder a uma consulta que lhe trazia o major Miguel Frias, abdicar a corôa do imperio na pessôa de seu filho menor, o principe D. Pedro de Alcantara. Lembra-se, então, neste momento angustioso, do velho José Boni facio que, isolado em seu retiro de Paquetá, evitára qualquer participação nas agitações politicas do Rio de Janeiro.
Pelo decreto de 6 de Abril de 1831, usando de um direito constitucional, nomeia tutor de seus filhos menores o “mui probo, honrado e patriotico cidadão José Bonifacio de Andrada e Silva, meu verdadeiro amigo”.
Amicus certus in ae incerta cernitur, escrevia D. Pedro ao conselheiro Andrada, na hora amarga em que as circunstancias o obrigaram a deixar os filhos pequeninos e o grande imperio que fundára, entregues ás sanhas do povileu amotinado e mal conduzido por patriotas inflamados de ideias revolucionarias.
Depois da assinatura do decreto de 7 de Abril de 1831, entregue ao Major Miguel Frias, demitiu D. Pedro o ministerio, conservando apenas o Marquês de Inhambupe.
Tomado de grande emoção, recolhe-se o ex-imperador em companhia de D. Amelia, da Rainha D. Maria da Gloria e dos marquêses de Loulê, a bordo ela fragata Warspite, da marinha britânica, passando-se depois para a fragata Volage, que o conduziu á Europa.
Segundo Vasconcelos, Drumond, a abdicação de D. Pedro, foi um acto preparado pelos expatriados portuguêses em Londres, á frente dos quais se achavam José da Silva Carvalho, Francisco Gomes ela Silva (O Chalaça) e João da Rocha Pinto. Imperio do Brasil. — Rio de Janeiro — Na Imprensa Nacional — 1823 — 12 pgs.
Insinuariam, estes ultimos, a conveniencia que teria o imperador em abandona, o Brasil, para fundar na Europa um novo imperio, reunindo a Espanha e Portugal. D. Pedro teria, talvez, agarrado a oportunidade do 7 de Abril.
Depois da abdicação espalhou-se a anarquia pelo país, e a revolução parecia querer aniquilar a obra tão bem iniciada. A Regencia interina formada por Lima e Silva, Caravelas e Vergueiro, não poupava esforços para restabelecer a ordem alterada na Côrte e em todas as provincias. A Regencia Trina (Lima e Silva, Costa Carvalho e Braulio Moniz), eleita a 17 de Junho, continuou na mesma campanha de restauração da ordem, lançando mão de medidas extremas.
Os partidos politicos, Exaltados, Moderados e Restauradores, debatiam-se na ambição do poder, concorrendo com a indisciplina das tropas para a subversão da ordem. José Bonifácio, Cairú e Paranaguá, chefiavam o partido Restaurador, chamado Caramurú, sendo por isso fortemente hostilisados pelos rancorosos inimigos de D. Pedro, tido então como tirano indesejavel.
Tentou a Regencia destituir José Bonifacio da tutoria dos príncipes, e não o conseguindo, demitiu-se a 30 de Julho de 1832. As Camaras reunidas não aceitam a demissão e suspendem José Bonifacio de tutor, nomeando o Marquês de Itanhaen para subsitui-lo.
A Sociedade Militar e os jornais restauradores são destruidos pelos exaltados e republicanos no dia 2 de Dezembro de 1833, sendo então preso na Quinta da Bôa Vista o conselheiro José Bonifacio, que é conduzido em custo dia para a ilha do Paquetá. Coagido e espionado, sofre um processo por crime de conspiração contra o regimen, sendo absolvido pelo júri.
Em 1834, extingue-se o partido Restaurador, com a morte de D. Pedro, em Portugal. Este partido, chefiado pelos irmãos Andrada, chegou a ter, por intermedio de Antonio Carlos, entendimentos com o então Duque de Bragança, para a sua restauração no trôno do Brasil.
Finalmente, esquecido de seus amigos e inimigos, passou José Bonihcio os seus ultimos anos de vida na ilha do Paquetá, vindo a falecer em Niteroi no dia 6 de Abril de 1838.
Morreu pobre, sem titulos honorificos ou condecorações, mas cheio de grandes serviços prestados á patria.
Foi o seu cadaver embalsamado e sepultado na Ordem do Carmo, no Rio de Janeiro, sendo mais tarde transferido para o Convento da mesma Ordem, em Santos. Em 1922, a Camata Municipal ergueu ali um Panteon, para repouso das cinzas do grande patriota e dos seus irmãos e colaboradores na obra da independencia, Antonio Carlos e Martim Francisco.
A obra de erudição politica e literária de José Bonifácio, é grande e variada. Espalhada quasi toda em revistas, anais e memarias, a maior parte esgotada e desconhecida, mostra-nos, pela variedade dos assuntos abordados, que deveria ser grande e profunda a sua ilustração. Sem exagero, foi o brasileiro mais erudito e mais sabio de todos os tempos. A simples leitura de sua biografia confirma a nossa asserção.
Dividiremos, de acordo com as fases da sua vida, a sua obra em três partes: a científica, compreendendo as publicações de 1790 a 1820; a politica, reunindo os seus trabalhos, de 1820 a 1823; e a literaria, de 1825 a 1831.
1.° Periodo — Bibliografia científica — 1790 a 1820.
1) Memoria sobre a Pesca das Baleias, e Extracção do seu Azeite; com algumas reflexões a respeito das nossas Pescarias. — in-Memórias Economicas da Academia Real de Ciencias de Lisbôa — MDCCXC — Tomo II — pg. 388.
2) Sobre o erro em que estavam os europeus a respeito das descobertas do diamante. — in — Annales du Museum de l’Histoire Naturelle de Paris — 1790.
3) Memoria sobre fluido electrico. — in — Annales de Chimique de Fourcroy — Paris — 1791.
4) Caracteres distintivos dos minerais Akantikone, Spodumene Sahlite, Ictioftalma, Cocolite, Afrisite, Alocroite, Indicolite, Wernerite, Petalite, Kriolite, Scapolite.
In J ournal de Physique — Paris — 1797 — pg. 240.
In Journal des Mines, de França.
In Journal de Chimique de Schurer, na Alemanha.
In Anais de Quimica de Fourcroy.
5) Memorais sobre a pesca da baleia, sobre os melhores processos para preparar azeite e sobre as vantagens que o governo tiraria animando e favorecendo as pescarias que se poderiam fazer nas costas do Brasil.
In Memorias da Academia Real de Ciencias — 1799 — Tomo II — pg. 388.
6) Memoria sobre as minas de carvão de pedra em Portugal.
In Memoria da Academia Real de Ciencias de Lisbôa — 1809.
In “O Patriota” — Rio de Janeiro — 1813 — n.° 1 a 3.
In “Investigador Português” — Lisbôa — 1814 — Vols. 10 e 11.
7) Viagem minerografica pela Província de Estremadura até Coimbra em 1800.
In Mem. da Acad. Real de Ciencias de Lisbôa — 1812.
Viagem geognostica aos montes euganeos, no territorio de Padua na Italia, — in Mem. da Acad. Real de Ciencias de Lisbôa — 1812.
9) Instruções dadas para servirem de regulamento ás obras futuras e policia do Mondego — Coimbra — 1813.
10) Experiências Quinticas sobre a quina do Rio de Janeiro, comparada com outras. — in Mem. da Acad. Real de Ciendas de Lisbôa — 1314 — Tomo III — 2.ª Parte.
11) Memoria sobre a necessidade e utilidades do plantio de novos bosques em Portugal, particularmente de pinhais nos areais de beira mar. — Lisbôa — na Tip. da Acad. Real de Ciencias – MDCCCXV — in 4.° de VIII — 187 pgs.
12) Memoria mineralogica sobre o distrito metalífero entre os rios Ave e Zezere. — in Mem. da Acad. Real de Ciencias de Lisbôa — 1816.
13) Memoria sobre a nova mina de ouro da outra banda do Tejo — in Mem. da Acad. Real de Ciencias de Lisbôa — 1817.
14) Memoria sobre as pesquisas e lavra dos veios de chumbo de Chacim, Souto, etc. — Lisbôa — 1818 — in 4.°.
In Mem. da Acad. Real de Ciencias de Lisbôa — 1818.
15) Excursão montanistica em parte da Provincia de São Paulo para determinar os seus terrenos metalíferos. — in Journal des Mines — 1820.
2.° Periodo — Bibliografia politica — 1820 a 1823.
1) Apontamentos para a civilização dos índios bravos do Imperio do Brasil — Rio de Janeiro — na Imp. Nacional — 1823 — 12 pags.
2) Estatutos para a sociedade Economica da Provincia de São Paulo — Rio de Janeiro — Na Imp. Nacional — 1821 — 8 pgs.
3) Parecer da Comissão encarregada dos arquivos adicionais da Constituição para o Brasil, lido pelo deputado de São Paulo, o Sr. J. B. A. S. na sessão de 17 de Junho de 1822. — Rio de Janeiro — Na Tip. Nacional — 1822 — 2 pgs.
4) Edital de 12 de Dezembro de 1822 — Rio de Janeiro — Na Imp. Nacional — 1822 — 1 pg.
5) Manifesto de S. A. R. o Príncipe Regente Constitucional e Defensor Perpetuo do Brasil. — Rio de Janeiro — Na Imp. Nacional — 1822 — in folio.
6) Representação que, á Augusta presença de S. A. R. o Principe Regente do Brasil, levaram o Governo, Senado da Camara, e o Clero de São Paulo — Rio de Janeiro — Na Imp. Nacional — 1822 — in folio de 14 pgs.
7) Projecto de Constituição para o Imperio do Brasil — Rio de Janeiro — 1823 — in 16.° de 56 pgs.
Discursos parlamentares — in Diario do Parlamento Brasileiro — 1823.
9) Representação á Assembleia Geral Constituinte e Legislativa do Imperio do Brasil sobre a escravatura. — Paris — Na Tip. de Firmin Didot — Rue Jacob n.° 24 – MDCCCXXV — in 4.° de 40 pgs.
Ceará — Tip. Cearense — impresso por Joaquim José de Oliveira — 1831 — in 8.° de 24 pgs.
Rio de Janeiro — reimpresso na Tip. de J. E. S. Cabral — 1840 — in 4.° de 21 pgs.
In-Abolição — Rio de Janeiro — 1884.
10) Refutation des Calomnies Relatioes aux affaires du Brésil inserées par un sieur De Loy dans “l’Independant” de Lyon. — Paris — Imp. A. Beraud 1866. in 8.° de 60 pgs.
3.° Periodo — Bibliografia literaria — 1823 a 1838.
1) Poesias avulsas de Americo Elisio — Bordeus — 1825 in 16.° de 151 pgs.
2) Poesias de Americo Elísio — Contém todas as poesias da edição anterior e mais as odes aos Gregos e aos Baianos. No fim do volume ha um esboço biografico de José Bonifacio, por J. Norberto.
3) O Reino da Estupudês — Poema em colaboração com Francisco de Melo Franco — Pará — 1819.
In Parnaso Lusitano — 1826 — Tomo VI.
Paris — 1834 — in 32.°.
Lisbôa — Imp. de João Nunes Esteves.
4) A’ Poesia. A’ Amizade — Odes.
In Parnaso Lusitano — Lisbôa — 1827 — Vol. IV — pg. 149.
5) Odes aos Gregos
In Parnaso Brasileiro — Cad. 4.° — pg. 22.
In Anais da Biblioteca Nacional elo Rio de Janeiro — 1886
— 7. VaI. XIV. pg. 1
6) Protesto á nação brasileira e ao mundo inteiro — Rio de Janeiro — Tip. ele E. Seignot — Plancher — 1831 — in folia de 1 pg.
7) Manifesto do Grande Oriente do Brasil por J. B. de Andrade — G:. M:. — Rio de Janeiro — Tip. dos Irm., R. Ogier – 1831.
Manifesto do G.’. O.’. B.’. a todos os GG.’. OO.’. GG . ‘, LL.’. RR.’. MM.’. de todo o mundo — Rio de Janeiro — Tip, Austral — 1837 — in 4.° de 19 pgs.
9) Elogio Academico da Senhora D. Maria I, recitado em Sessão Publica da Academia Real de Ciencias de Lisbõa, aos 20 de Março de 1817. — Rio de Janeiro — Na Tip. ele Francisco de Paula Brito — 1839.
Rio de Janeiro — 1857 — 79 pgs.
Depois da morte de José Bonifacio, forall1 publicadas as seguintes obras:
1) Necessidade de um.a academia agrícola no Brasil — in Revista Popular — 186Z – XVI – n.° 290 e 330.
2) Cartas Andradinas — Correspondencia de José Bonifacio, Antonio Carlos e Martim Francisco, com o conselheiro Drumonel, de 1824 a 1838.
In Anais da Biblioteca Nacional — 1886 – 87 — Val. XIV — pg. 1 a 84.
Rio de Janeiro — Tip. da Biblioteca Nacional – 1890 — in 8.° ele 86 pgs.
3) Ideias sobre a organisação politica do Brasil, quer coma reino unido a Portugal, quer como reino independente. — in Revista do Instituto Historico Brasileil0 — 1888 — Vol. LI — II — pg. 79.
Além das obras publicadas, acima enumeradas, encontram-se grande numero de manuscritos, autografos e copias de José Bonifacio, na Biblioteca Nacional, no Instituto Historico, e no Arquivo Nacional. Em poder do Dr. Martim Francisco, advogado em Santos e falecido ha poucos anos, existiam diversos autografes cle José Bonifacio. Ignoramos que destino tenham tomado estes preciosos documentos, depois da morte daquele publicista.
A obra poetica de José Bonifacio, iniciada em sua mocidade, sofreu longa interrupção na fase científica e política de sua vida.
Quando estudante em São Paulo e em Coimbra, escreveu algumas poesias de feição classica e arcadica, que só tiveram publicidade, quando os sentimentos recalcados no seu exilio de Bordeus, lhe despertaram o estro. Foi no desterro, já sexagenario, que José Bonifacio desdobrou sua actividade literaria, revelando-se um poeta pessoal, vigoroso e enérgico.
A sua poesia, imbuída de filintismo, está ainda mal presa aos modelos classicos do arcadismo decadente. Fulgurações romanticas aparecem em meio do bucolismo arcadico dos seus versos, dando-lhes um certo feitio pessoal e subjectivo. Esta feição de grande parte de suas poesias, especialmente as patrioticas, colocam-no, sem favor, entre os predecessores imediatos do nosso Romantismo.
Assim, é com um brando calor de sensualidade, que o poeta, descreve a sua Pastora:
“De beleza em beleza divagando
Sôfrega a mente se me vai nos olhos
Depois meiga saudade
Manso e manso do peito se apodera …
Tudo o que vejà então me pinta Eulina!
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Parece que a estou vendo!
Qual zefirinho meigo
Que as espigas açoita levemente;
— Assim lhe ai tremendo o eburneo colo,
Assim os lacteos pomos buliçosos,
Brincas dos cupidinhos
Docemente vacilam
Quando entre as flores nova flor passeia!”
As suas poesias puramente arcadicas, têm belezas que se não encontram em nenhum dos seus contemporaneos patricios e portuguêses.
A ode sáfica A Primavera, é uma composição de grande beleza emotiva:
Moço, bebamos; enche o copo, bebe;
Já novas rosas novo aroma espargem.
Eia ligeiros aos jardins desçamos
De Nise asilo.
Outra vez quero renovar amores,
A Pilomela acompanhando a lira:
Que gema Nise, como aquela geme,
Entre meus braços.
No canto escuso do rosal cheiroso
A Baco brinde, como aqui eu brindo;
Brinde aos amores, que co’as rosas voltam,
E com elas brincam.
A vida acaba; muda-se a Fortuna,
Que bens e males sem juizo espalha:
Os que hoje vivem amanhã morreram
Amemos hoje.
A poesia patriotica no Brasil, teve em José Bonifacio um dos seus mais legitimos representantes. O seu temperamento orgulhoso, autoritario e violento, ferido pela ingratidão dos seus compatriotas, sofreu uma profunda depressão, toda reflectida em sua obra literaria.
O amor da patria, exacerbado pela distancia e pelas agruras do exilio; o despeito e o adio incontido e mal guardado; a revolta do orgulho ferido e da vaidade espesinhada, são os elementos que se caldeiam na composição da obra literaria do velho Andrada. Produto da compressão de sentimentos: superiores, com predominio das qualidades egoísticas, é o que encontramos em quasi todas as poesias e cartas de José Bonifacio.
Conquanto no melhor de sua obra literaria transpareça sempre um nobre sentimento de amor á patria, é este algumas vezes conturbado, por um amargo resaibo de despeito, adio e orgulho, que o rebaixa e desmerece.
Na Ode aos Baianos que o elegeram duas vezes deputado á Assembleia Legislativa, vaza José Bonifácio todo o seu rancor contra o Brasil de seus adversarios — ”Brasil, onde só vís escravos medram”:
“Altiva musa ó tu que nunca incenso
Queimaste em nobre altar ao despotismo:
Nem insanos encomios proferiste
De crueis demagogos;
Ambição de poder, orgulho e fausto
Que os servís amam tanto, nunca, ó Musa,
Ascenderam teu estro — a só virtude
Soube inspirar louvores.
. . . . . . . . . .
Embora nos degraus do excelso trôno
Rasteje a lesma, para ver si abate
A virtude que odeia — a mim me alenta
Do que valho a certeza.
. . . . . . . . . . .
Duas vezes, Baíanos, me escolhestes
Para a voz levantar a pró da patria
Na assembleia geral, mas duas vezes
Foram baldados votos
. . . . . . . . . . .
Morrerei no desterro em terra estranha,
Que no Brasil só vís escravos medram
Para mim o Brasil não é mais patria,
Pois faltou a justiça.
. . . . . . . . . .
Oh! país sem igual, pais mimoso!
Si habitasseem em ti sabedoria,
Justiça, altivos brios, que enobrecem
Dos homens a existencia
. . . . . . . . . .
Que o Brasil inclemente (ingrato ou fraco)
A’s minhas cinzas um buraco nega:
Talvez tempo virá que indo pranteie
Por mim com dôr pungente.
. . . . . . . . .
Aquele, que gigante inda no berço
Se mostrava ás nações, no berço mesmo
É já cadaver de cruéis harpias
De malfazejas fúrias.”
No Poeta desterrado é a mesma queixa, o mesmo despeito do vate exilado:
“Ah! não digas, ó Zoilo, mal do vate,
Se aos lares seus não volta; acicalado,
Subito ferro afogaria o grito,
Que pela patria erguesse.
Ali da santa liberdade os filhos,
Esses poucos que restam, foragidos
Vivem inglorios; pois as honras dão-se
A perjuros escravos.
Almas fracas e vís! e vós não vêdes
Que o facho horrivel, que alumia a senda
Das falsas honras, acendeis no fogo
Que abraza o Brasil todo?
Escreveu, ainda, José Bonifácio diversas odes, cantatas, epistolas, sonetos, epigramas, anacreonticas, etc., todas enfeixadas nas Poesias avulsas de Americo Elisio.
Das suas odes, são mais notaveis a Ode á Natureza, a Ode aos Gregos e as Odes Sáficas.
Compoz uma parafrase ao Cântico dos Cânticos, em estilo demasiado realista para a época:
“Oh! dá-me, ó cara os saborosos beijos
Dessa suave purpurina bôca!
Sim, eu ardo de amor, mas não sou bela.
Contigo só, contigo, caro esposo,
Derreter-se de amor esta alma anseia.
Feliz serei, se o fogo meu te acende;
E serão paga minha os teus deleites.”
Traduziu, ainda, algumas poesias de Virgílio, Pindaro e Hesiodo, alguns poemas de Ossian, e a Primeira Noite de Young.
As Cartas Andradinas, publicadas no Vol. XIV dos Anais da Biblioteca Nacional, foram escritas por José Bonifacio, quando exilado em Bordeos, entre os anos de 1824 a 1829, aos seus amigos e companheiros de exilio, Vasconcelos Drumond e José Joaquim da Rocha, que residiam em Paris.
Nestas cartas, tratava Andrada de poesia, artes, negocios intimos e especialmente de política. Nelas fazia acerba crítica aos sucessos e aos homens do Brasil, derramando em todas o fel de um despeito que não dissimulava, perdendo, muitas vezes, a gravidade que se deveria esperar de um espirito ilustrado e amadurecido pela idade, como o seu.
Muitas das suas cartas estão escritas em estilo grosseiro, onde a pornografia e o realismo crú andam emparelhados. Homens ilustres do primeiro reinado, são ali tratados por apelidos deprimentes. Assim, o Brasil é o Imperio dos Tatambos; D. João VI, é o João Burro, D. Pedro I, é o Imperador de Mata-Porcos (alusão a D. Domitila), é o Pedro Malasartes “o Visconde de Pedra Branca, é o Pedra Parda (alusão á sua pele escura), e outros tantos são assim classificados.
Em todas as Cartas Andradinas, mesmo naquelas em que o autor se ocupa de assuntos literarios, aparece sempre um trecho onde os seus adversarios politicos são impiedosamente maltratados e julgados incapazes de governar o Imperio, que ele supunha, sem a sua presença, irremissivelmente perdido.
Este sentimento de vaidade chegava muitas vezes a traír o seu patriotismo, desejando males ao Brasil para satisfação do seu incontido despeito.
O estilo das Cartas Andradinas é descurado e muitas vezes descuidado, com abusos de galicismos e termos obsoletos.
As demais obras de José Bonifacio, politicas e científicas, são escritas em estilo fluente e despretencioso, onde se nota antes a preocupação do fundo que da forma.
A sua grande obra, ainda espalhada em memorias e revistas, quasi toda rarissima, espera que um governo patriotico pague a divida de coligi-la, pondo ao alcance de todos os brasileiros esse acervo glorioso que é a obra científica, política e literaria do Patriarca da Independencia. Esta obra daria ao Brasil a oportunidade de conhecer a fisionomia do sabia, do estadista e do poeta que, ao transpôr a velhice, teve ainda forças e alento para fundar um imperio.
Integrado nos sucessos da independencia por circunstancias ocasionais, teve José Bonifacio o merito de jamais se desinteressar dos destinos da patria em todas as alternativas de sua acidentada vida.
Em plena refrega da Regencia Araujo Lima, quando os Farrapos no Rio Grande, pretendiam amputar impatrioticarnente a sua grande obra de integração ela nacionalidade, caía o velho Andrada, combalido pela velhice e pela ingratidão elos homens.
Na grandeza do Brasil, ficou, porém, a sua memoria imperecivel.
FONTE: PARANHOS, Haroldo. História do romantismo no Brasil. São Paulo: Edições Cultura Brasileira, 1937.