Archive for outubro, 2011

Terceiro motivo da superioridade do Brasil: a sua riqueza – Porque me ufano do meu país


A riqueza do Brasil é proporcional à sua extensão e à sua beleza: extraordinária.

Que é a riqueza? Houve época em que se aquilatava a riqueza de um país pela quantidade de metais preciosos nele encontrados.

À luz desse critério, torna-se incontestável a precedência de nossa Pátria. Abundam em várias regiões do seu território minas de ouro e jazidas diamantinas.

Uma das suas grandes divisões políticas chama-se significativamente Minas Gerais, e há lugares denominados, com propriedade, Ouro Branco, Ouro Preto, Ouro Fino, Diamantina.

A par do ouro e do diamante, acham-se no Brasil todas as preciosidades minerais.

Dir-se-ia o seu solo um imenso escrínio de gemas. Com materiais exclusivamente brasileiros se construiriam maravilhosos palácios e se fabricariam as mais finas e custosas jóias.

Disse um sábio que Minas Gerais representa um peito de ferro com um coração de ouro. Elevam-se ali montanhas daquele metal.

De Minas Gerais extraiu-se, no correr de mais de um século, enorme quantidade de ouro que encheu o Erário da metrópole, permitindo-lhe ostentoso fausto e a edificação de notáveis monumentos, quais o convento de Mafra e o aqueduto de Lisboa.

Em certos pontos, ainda hoje, até a poeira dos caminhos é aurífera.

Deparam-se ao viajante extensas zonas escavadas à procura do ouro, nos tempos coloniais.

Não estão esgotadas. Por meio de processos primitivos, pouco se alcançou.

Venham os aparelhos modernos, labore-se cientificamente o terreno, e magníficas remunerações se hão de receber, como já vai sucedendo.

O Brasil deve tornar-se o verdadeiro El­dorado que tanto nele buscaram os antigos aventureiros.

É brasileiro um dos maiores diamantes conhecidos, o maior do Novo Mundo, a Estrela do Sul, achado no município da Bagagem, Minas Gerais, pedra que muda de cor, de branca, conforme a sua exibição à luz.

Muito admirada na exposição de Paris, em 1855, pertence hoje a um príncipe indiano, o Rajá de Baroda.

 

 

Fonte: Afonso Celso,Porque Me Ufano do Meu País, Origem 1908, Editores Laemert & C. Livreiros.

Mais belezas do Brasil – Porque me ufano do meu país


Infindos campos, tapizados de macia e fresca relva, suavemente ondulados, constelados de flores selvagens, povoados de codornas e perdizes e aprazíveis em qualquer estação; as pampas do sul, pátria do tufão, no dizer de Alencar, incomensuráveis savanas nuas de face impassível, sem rugas nem sorrisos, atravessadas por armentos de poldros indômitos e pelo gaúcho, de originalidade, bravura e independência legendárias; amplas cavernas cheias de mistério; elevados picos, facilmente acessíveis, donde se descortinam perspectivas soberbas; centenas de angras recortadas com esmero artístico; jardins incomparáveis; flora opulenta; fauna inestimável, sobretudo em matéria de aves, notáveis pela delicadeza das formas, suntuosidade das plumagens, doçura do canto e primor da nidificação, – aves que não emigram de bem que se acham onde nasceram: eis outras belezas do Brasil, digna cada qual de lhe assinalar posto de primazia no mundo.

A beleza é privilégio divino, suprema força. As causas verdadeiramente belas sempre vencem, angariam respeito e estima de todos. Quantas regioes não se salientam apenas pelo seus atrativos de formosura, naturais ou produtos da arte, e deles vivem? A Grécia, a Suíça estão nesse caso: exercem a soberania da beleza; tiram daí preciosas vantagens, a principal razão de ser.

O Brasil reúne em si as belezas esparsas em toda parte. E são belezas que não passam, apreciadas em qualquer época, superiores às dos Panteons e Coliseus; sobranceiras às injurias dos séculos e aos caprichos do gosto, – eternas.

Devem ter ufania os filhos de uma terra assim dotada. O belo é a fonte essêncial do amor. Amemos apaixonadamente o Brasil, pelas suas lindezas sem par.

 

Fonte: Afonso Celso,Porque Me Ufano do Meu País, Origem 1908, Editores Laemert & C. Livreiros.

A Baía do Rio de Janeiro – Porque me ufano do meu país


É, ao mesmo tempo, baía, coleção de baías, arquipélago, pequeno mar mediterrâneo. Para firmar-lhe a primazia, bastava a sua afortunada situação geográfica na parte central da América do Sul, a meio caminho entre a Europa, a Índia e a Oceania, – situação tão favorável à navegação e ao comércio que fora mister, diz Robert Southey, todo o mundo civilizado se barbarizasse de novo para o Rio de Janeiro deixar de ser uma das mais importantes posições do globo.

A essa grande vantagem da baía fluminense, acrescem a sua vastidão, segurança, profundidade de ancoradouro, movimento de embarcações, inesgotável abundância de preciosas espécies de peixes, e, principalmente, a diversidade e formosura dos panoramas apresentados por suas ilhas, enseadas, promontórios, montanhas e várzeas marginais, vestidas de riquíssima vegetação.

Há quatro séculos que a visitam constantemente numerosos viajantes, naturalistas, exploradores, negociantes, e, todos, sem uma voz discordante, proclamam-na magnífica, portentosa, motivo de orgulho para o pais que a possui.

Augusto Fausto de Souza, na obra A Baía do Rio de Janeiro, sua história e descrição de suas riquezas, coligiu centenas de excertos das homenagens prestadas por nacionais e estrangeiros a esse “ponto do universo, onde a mão do Criador parece haver-se esmerado em reunir maior número de belezas, acumulando nele tudo quanto possa encantar os olhos e arrebatar o espírito”.

Entre os nomes que ali figuram, notam-se os de celebridades universais: Bougainville, Jacques Arago, Cook, Dumont d’Urville, Garibaldi, Malte­Brun, Ferdinand Denis, o príncipe Maximiliano de Neuwied e Carlos Darwin que habitou Botafogo, em 1832.

Elevam todos entusiásticos hinos à baía do Rio de Janeiro, declarando-a uma das maravilhas da natureza, superior às mais famosas, como o golfo napolitano, o Bósforo, as margens do Reno, os lagos da Suíça e da Escócia, as praias do Mediterrâneo.

Exclamam alguns que viram nela a mais encantadora paisagem da terra, a que mais enche a alma de deliciosas sensações; confessam-se outros impotentes para descrever o que experimentaram ante as tintas deslumbrantes e as feições do espetáculo presenciado; afirmam outros haver concebido, não pasmo perante tamanha magnificência, e sim uma exaltação religiosa, um santo respeito para com a infinita grandeza do Criador, comparada ao nada da criatura humana; testemunham outros que aí se reúnem as formas felizes do universo, as possíveis combinações do pitoresco, tudo quanto a fantasia dos artistas tem sonhado de mágico e sedutor; opinam outros que marca época numa existência a primeira entrada nessa baía, que não pode ser imaginada por quem não a viu, parecendo fabulosa aos meamos que a estão admirando.

É, na realidade, um prodígio de lindeza, quer observada no seu conjunto majestoso, quer em insignificantes particularidades.

Do alto do Corcovado, um dos morros que a  dominam, descortina-se panorama surpreendente, único.

Avistam-se as duas cidades fronteiras edificadas nas margens, – Rio de Janeiro e Niterói. No centro, graciosa multidão de ilhas, ­estas isoladas e desertas, aquelas em grupo e povoadas, meras pedras escalavradas aqui, adiante ressumantes de verdura. Entre as ilhas, centenas de navios; no fundo, em anfiteatro, circundando a enorme bacia, as colinas cobertas de matas; além – as fortalezas, o mar alto, novas ilhas, situadas fora da barra; horizonte infinito, enfim, a confinar no firmamento, que coroa tudo, quase sempre guarnecido de sereno e puríssimo azul.

Orla as águas mansas fantástica mistura de altos rochedos, florestas, casas, mastros, templos …

A forma total da baía do Rio de Janeiro, ­triângulo de lados irregulares, representa, em menor escala, a configuração geral do Brasil.

Sua disposição, a diafaneidade de sua atmosfera determinam magníficos efeitos de luz, no nascimento e ocaso do sol, imprevistas e esplêndidas gradações de cores, desde o dourado ofuscante até o azul-ferrete, passando por vivíssimo carmim.

A partir da entrada da barra até os cais das duas cidades, há uma sucessão de acidentes naturais, dispostos de jeito a formarem formidável e completo sistema de defesa, organizado pelo Criador.

Resguarda a costa, em considerável extensão, para o norte e sul, compacta cortina ou muralha de serranias, fendida apenas de ligeira abertura, à guisa de um pórtico, em cada lado de cujos umbrais empinam-se elevados montes, de forma singular, o Pico de Santa Cruz e o Pão de Açúcar. Sem os dois colossais atalaias, ou porteiros, não se perceberia o interstício que dá ingresso. Distinguem-se de longe, servindo de guia.

À esquerda da entrada, extraordinária disposição de montanhas apresenta a figura exata de um desmedido vulto humano, suspenso sobre as ondas, deitado de costas. Apelidam-no o Gigante de Pedra ou o Gigante que dorme. Descobrem-lhe traços do perfil burbônico.

Na extrema da baía, alça-se a serra dos Órgãos, assim designada porque os seus picos lembram os tubos desse instrumento. São alguns recortados como rendas, ou esguios como estiletes. Um deles chama-se com justeza – o Garrafão; outro – a Cabeça de Negro. Destaca-se que aponta o céu, à semelhança de um dedo. É Dedo de Deus.

 

Fonte: Afonso Celso,Porque Me Ufano do Meu País, Origem 1908, Editores Laemert & C. Livreiros.

Riquezas naturais do Brasil – Porque me ufano do meu país


Demonstraram os economistas não constituírem os minerais preciosos a única nem a principal fonte da riqueza de um país. Entraram a sustentar que a lavoura e a indústria pastoril valem mais que o ouro e os diamantes, consistindo a verdadeira riqueza na abundância dos produtos indispensáveis à manutenção da vida.

Ainda, sob esse novo aspecto, é imensa a riqueza do Brasil que pode produzir tudo quanto reclamarem as necessidades físicas ao homem.

Inúmeras as suas plantas aproveitáveis na alimentação, na indústria, no comércio, na medicina.

Entre as palmeiras, denominam os índios algumas – árvores de vida, de tão úteis, pois fornecem material para embarcações e vários utensílios, fibras para tecidos , frutos doces e nutritivos, licor refrigerante e agradável, enquanto as largas folhas servem para cobrir, em lugar de telhas, as habitações feitas com pranchas das mesmas árvores. Possuem, de

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mais, uma especie de cera, de que se fabricam velas para a iluminação.

Nas enormes matas brasileiras, quantas resinas e bálsamos de preço, quantas deliciosas árvores frutíferas! As dos seringais, indígenas, e as do café, exóticas, mas perfeitamente aclimadas, são genuínos tesouros vegetais.

Há a árvore do pão, a árvore do papel, a árvore da seda, a árvore do leite, cujos frutos, folhas, fibras ou sucos, oferecem as propriedades e as aplicações das espécies de que lhes proveio o nome.

o milho e a mandioca já eram cultivados pelos índios. O arroz é silvestre em várias regiões. Prestam-se a qualquer cultura as terras do Brasil, de fertilidade proverbial. Verdadeira maravilha a uberdade da terra roxa que o calor e a umidade bastam a fecundar. As laranjeiras produzem, sem trato. Nalguns pés, em Mato Grosso, as laranjas, já muito doces, que murcham no galho, reamadurecem dulcíssimas, – verdadeira resurreição. O solo compensa larga e generosamente, – agradece, na frase popular o mais leve cuidado que se lhe consagre. As sementes plantadas adquirem maior força produtiva que alhures. Ao lavrador é fácil tirar das suas terras tudo quanto precise, exceto sal, de que, aliás se encontram no Brasil grandes

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jazidas. Quase todas as culturas dão duas colheitas anuais.

Um país assim está em condições de se tornar o celeiro do mundo.

Há nele, em climas diversos, vastas pastagens, fartamente regadas, às quais se adaptam todas as raças de animais úteis. Já importante, a indústria pastoril destina-se a abastecer a Europa, pois é susceptível de desenvolvimento extraordinário.

Tribos selvagens vivem exclusivamente da caça e da pesca, tão profusas que permitiram outrora as longínquas expedições dos bandeirantes, desprovidos de tudo.

Confia-se à natureza a criação do gado, de que milhões de cabeças povoam os campos. Consiste o só trabalho do proprietário em reunir, uma ou outra vez, no lugar adequado, os rebanhos para marcar as crias e apartar as reses vendidas.

E as abelhas que compõem delicioso mel? E as tartarugas de carne saborosa, cujos ovos fornecem manteiga, e cuja casca serve para o fabrico de objetos de arte, utilização também peculiar a muitos insetos brasileiros?!

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Encontra-se no Brasil matéria prima para quaisquer manufaturas. Durante a guerra do Paraguai, com elementos exclusivamente nossos, construímos em poucos meses, nos arsenais do Rio, excelentes vasos de guerra. Os gigantes das nossas florestas servem, como nenhuns outros, para a construção de navios, casas e móveis de luxo. Conquistam as suas madeiras o primeiro lugar nos concursos internacionais, subindo a milhares as espécies classificadas, famosas pela beleza e resistência. Encheria volumes a sua simples enumeração, de que só ministraria idéia um tratado de botânica.

Em suma, subsolo, solo, ares, selvas, águas, está tudo no Brasil cheio de vida, e vida é riqueza. Não depende ele do resto do globo. Poderia, se quisesse, erguer, sem prejuízo material, em torno das suas fronteiras, a muralha da China.

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Fonte: Afonso Celso,Porque Me Ufano do Meu País, Origem 1908, Editores Laemert & C. Livreiros.

CHEGOU A NOSSA VEZ! – TRABALHADORES DO BRASIL


Há três dias, do grande pórtico do Palácio do Trabalho, onde convoquei os funcionários do Ministério, tive mais uma oportunidade para declarar que, reconhecendo a situação de beligerância entre o Brasil e as nações agressoras, esse guia incomparável da nacionalidade que Getúlio Vargas, proclamou, com a energia; a clarividência e o patriotismo que lhe estruturam a fibra inamolgável, o pensamento, o anseio, a vontade da nação inteira, em nome da honra do nosso pavilhão, das nossas tradições e do patrimônio moral que nos legaram os antepassados. Contra a guerra ofensiva, proclamamos a guerra defensiva, que é a guerra no sentido mais nobre, mais legítimo, mais legal que esta palavra sinistra pode conter, porque é a guerra em nome da paz, do direito, do respeito e da liberdade dos povos.
Mostrei, depois, que um dos elementos fundamentais da vitória está na necessidade de forjarmos uma mentalidade de guerra defensiva total. A mentalidade de guerra é uma mentalidade de trabalho percuciente e constante, de reflexão e serenidade, de argúcia e direção, de olhos e de ouvidos atentos. O espírito há de permanecer convencido da utilidade nacional de todos, os pensamentos, palavras e obras. O nome do Brasil há de ser como uma hóstia na comunhão de todos os instantes. É necessário desenvolver a capacidade compreensiva, para perceber, no ar, o favorável e o desfavorável. Adquirir o espírito de conjunto sem perder a lucidez, individual. Abandonar pequenos hábitos inúteis. Transformar a simples atenção em concentração mental. Fazer das horas de repouso um constante anseio para recomeçar o trabalho. Buscar no fundo de nós mesmos aquela força de vontade que é fonte de energia, capaz de fazer heróis, sábios e santos.

E quando assim discorria perante os meus companheiros de labor quotidiano, não olvidei os que se achavam ausentes. Não me esqueci dos Sindicatos, que constituem uma das grandes forças da vitória final. O meu pensamento, eu declarava, não permanece apenas entre os que aqui se encontram. O meu pensamento se estende a todos os que, direta ou indiretamente, pertencem à jurisdição do Ministério e estão servindo devotadamente o Brasil, nos rincões mais longínquos do território.

Gostaria de levar-vos pessoalmente, trabalhadores do Brasil, a palavra de confiança do Governo em vosso esforço, na hora suprema que a nacionalidade está vivendo. Realizaria meu ardente desejo se pudesse, também, convocar todos os Sindicatos, para enriquecer-me, de perto, com o calor da solidariedade, do apoio e das declarações de devotamento que eles têm enviado ao Sr. Presidente da República e ao Ministério, através de milhares de telegramas de vibrante patriotismo, que a cada instante nos chegam.

Ainda ressoam, entretanto, em meus ouvidos, as palavras memoráveis do Chefe insigne, no discurso de Primeiro de Maio: “Nesta emergência deve cada homem conservar o seu posto, sem pensar em si próprio, sem pensar na família, sem pensar nos bens. Neste momento supremo os riscos não contam, porque é preferível perder a vida a perder as razões de viver”.

A profunda convicção da responsabilidade de todos e de cada qual, ao mesmo tempo, em virtude da ordem irrevogável que de tais palavras emana, constitui o melhor fundamento e estabelece diretrizes seguras para a formação da mentalidade de guerra a que há pouco me referia, mostrando que cada atividade individual é uma força de atenção. Conversemos, pois, de longe.

A vida sindical passa a ter o mesmo objetivo que eu traçava, há três dias, para a vida funcional: rendimento, eficiência, perfeição, no posto e nos serviços que nos incumbem. Se a colaboração entre o capital e o trabalho já era grande deve tornar-se intensa. Se o espírito combativo era uma intenção, precisa transformar-se em hábito. Carece que as entidades sindicais de empregadores e empregados mantenham correspondência recíproca e articulação constante no sentido de imprimirem solução de harmonia a todos os dissídios decorrentes de contratos de trabalho entre elementos integrantes das categorias representadas. Já afirmei aqui mesmo, certa ocasião, que todo pensamento dedicado à discórdia é um pensamento roubado à Nação. Hoje mais do que nunca, convenço-me da verdade dessa assertiva quando sinto que o interesse do inimigo exatamente está em diminuir o rendimento, a eficiência e a perfeição do trabalho, e a cooperação das forças produtoras.

Para impedir esses riscos, para evitar a brecha por onde se infiltra a ação dissolvente dos maus desígnios, os sindicatos desenvolverão todas as diligências tendentes a manter, no espírito de seus associados, uma mentalidade de devotamento ao Brasil, pela consideração de que todos os esforços consagrados ao trabalho assíduo resultarão na maior e melhor defesa da nacionalidade.

Dias mais ásperos, dias mais difíceis, horas mais amargas poderão chegar, mas, a mentalidade de guerra defensiva total nos recordará, instante por instante, que todos os sacrifícios são nada quando se trata de sofrer e lutar pela honra do pavilhão nacional.

Sobretudo a nós outros trabalhadores do Brasil, o dever de cumprir integralmente o que nos determina o sr. Getúlio Vargas, de obedecer a todos os seus apelos, de seguir, custe o que custar, o roteiro que nos imponha, está na lógica, na própria essência do sentimento de gratidão que tantas! tantas vezes lhe temos sinceramente assegurado.

Durante 12 anos, cumprindo, dia por dia, promessas que havia feito, o Sr. Getúlio Vargas vem concedendo aos trabalhadores direitos e benefícios. As leis de proteção ao trabalho e de previdência social, que constituem um monumento da civilização mesma que agora nos cabe defender, representam o pensamento constante do insigne estadista nos interesses do proletariado nacional.

Tudo ele nos deu, pela força de sua vontade, pela persistência de seus desígnios, pela grande estima e confiança que consagra às virtudes dos que engrandecem a Nação pelo trabalho anônimo que rega o solo com o suor de cada dia.

Chegou a nossa vez, agora. Chegou o instante que ansiosos aguardávamos para provar ao amigo, ao guia, ao chefe que os trabalhadores do Brasil sabendo retribuir o bem que lhes foi outorgado, cumprirão a palavra empenhada, obedecendo ao que ele determine, arrostando os sacrifícios de que o Brasil necessite, a fim de transformar em fatos em realidade o que era apenas promessa, e mostrar que, no cumprimento dos deveres que ora nos competem, estaremos à altura dos benefícios que dantes nos conferiu.

Fonte: Alexandre Marcondes Filho, Trabalhadores do Brasil, Origem 1947-2002, Edição Ridendo Castigat Mores.

SOLDADOS SOMOS TODOS! – TRABALHADORES DO BRASIL


“Soldados, afinal, somos todos, a serviço do Brasil, e é nosso dever enfrentar a gravidade da hora presente para merecermos que as gerações vindouras se lembrem de nós com orgulho, porque trabalhamos cheios de fé, sem duvidar um só momento do destino imortal da Pátria Brasileira. ”

Pouco mais de três meses são passados do dia em que o nosso Presidente, com a clarividência que sempre demonstrou acerca dos destinos do Brasil, vos mandava dizer estas palavras nobres e profundas, no estádio do Vasco da Gama.
Pouco mais de três meses são passados e, na vibração dos protestos que de todo o Brasil, como um clamor, se levantaram contra o inominável e covarde ataque aos nossos navios, dentro do mar territorial; na vibração, com que o país inteiro, em torno do Presidente Vargas, se dispõe a todos os sacrifícios para defesa da honra e da soberania da Nação – bem sentimos a intensidade daquela fé que herdamos dos ancestrais e nos fará dignos das gerações vindouras.
Uma grande verdade fulgurava, portanto, no conceito presidencial, e se soldados somos todos, cada qual no seu setor, dando cada um à Pátria, nestes momentos difíceis, uma dupla colaboração:  como soldados do trabalho, como soldados de um ideal.

Sempre vos tenho falado, trabalhadores do Brasil, sobre essas leis que são vosso patrimônio, sobre essas leis de proteção ao trabalho e de previdência social.
Hoje vos falarei sobre o vosso, sobre o nosso maior patrimônio – o Brasil.

O interesse do Brasil, da sua defesa, da sua força, do seu destino, aparece em cada plano de atividade com o simbolismo de uma eucaristia, porque o interesse do Brasil está tão íntegro em cada instante e em cada atividade, como íntegro permanece na plenitude do tempo e no panorama do conjunto. É sempre o mesmo Brasil. É tão excelso na paz como na guerra, no trabalho dos operários como no pensamento dos sábios, na vibração de patriotismo como na vida construtiva, na coletividade inteira como em cada indivíduo, porque em cada qual desses atos a vida do Brasil necessita de intenso esforço humano para cobrir-se de vitórias. Por isso mesmo, ao lado da justa indignação que nos agita e do inabalável propósito de combater à custa da própria vida os que feriram a bandeira do Brasil, cabe-nos, nesta hora suprema, novos e tão nobres desígnios, outras imensas responsabilidades, porque somos, ao mesmo tempo, soldados do ideal e do trabalho.

Toda a máquina produtora do país, que já vinha acelerando na ampliação da nossa riqueza, precisa coordenar-se e fortalecer-se nesta emergência, para que seus resultados ultrapassem as previsões. Tais resultados só serão atingidos se cada trabalhador estiver atento aos seus misteres, para produzir muito, produzir cada vez mais e produzir bem tudo aquilo de que a nação carece para a sua defesa, a sua força e o seu excelso destino.

Os inimigos internos procurarão perturbar a orquestração do trabalho e o ritmo ascensional da nossa produção, porque a fortaleza deles depende da nossa fraqueza. E, para conseguir esse objetivo, tentarão perturbar o regime de ordem e de obediência que constitui a própria atmosfera do trabalho nacional. A ordem deve ser assegurada, portanto, pelos meios preventivos de vigilância, porque, se for alterada, é o interesse do Brasil que se mutila.

Como parcela do Estado, como guardas desse patrimônio inestimável, devemos estar atentos para que esses que covardemente agridem nossa Pátria, metralham nossos soldados e nossos irmãos trabalhadores do mar, ou aqueles que ajudaram os inimigos nessa triste faina de atacar navios indefesos, não se aproveitem do momento para realizar atividades subterrâneas no sentido de surpreender homens de boa fé, criando fenômenos internos que, como sabemos, foram armas terríveis contra outros povos desprevenidos.

Mantende-vos vigilantes, trabalhadores do Brasil. Colaborai com o Estado, como autoridades que sois, porque todos nós somos autoridades quando se trata de defender o Brasil, colaborai com o Estado, fiscalizando em torno de vós para que não medre a intriga, não seja possível a sabotagem, não se propague a infâmia de uma mentira ardilosamente lançada.

Mantende-vos vigilantes em torno de tudo o que ocorre no pequeno espaço que vos circunda, e o Brasil terá, dessa maneira, uma rede de tão perfeita vigilância interna que o inimigo, qualquer que seja ele, por mais rápidos que sejam seus movimentos e por mais disfarçado que se apresente, poderá ser colhido e, principalmente, tolhido em suas atividades.

Cumprindo esse sagrado dever estareis exercendo vossa parte no governo da Nação, que personifica a soma das colaborações individuais visando o bem estar e a segurança coletivos.

As autoridades públicas estão atentas e aparelhadas para examinar com serenidade e com energia todos os informes úteis que o dever de vigilância recomende.

Lembrai-vos também de que, graças às medidas em tempo tomadas pelo insigne estadista que dirige os destinos do Brasil, os bens que pertencem aos súditos das nações que nos agridem, responderão até o último real pelos prejuízos materiais causados à nossa economia. A destruição de tais bens, para que não caiam nas mãos dos adversários, é sistema que tem sido usado nesta guerra e que já foi usado por esses inimigos de nossa Pátria, quando depredaram máquinas de vapores, para que não pudessem ser aproveitados a serviço da economia nacional. Mantende-vos na vigilância, trabalhadores do Brasil.

Não me dirijo apenas aos que mourejam nas fábricas dentro das cidades, aos que trabalham nos campos, nos pontos mais distantes de nosso solo. Dirijo-me, também, aos pescadores, que num pequenino barco ou, então, na fragilidade de uma jangada, formam em toda a nossa imensa costa, essa rica e valorosa moldura humana do Brasil.

A eles lembro que não deverão olhar somente o fundo das águas onde lançam suas redes. Olhai, também, pescadores do Brasil, para a fímbria do horizonte, para a planície das águas, porque vossos olhos atentos e perscrutadores serão úteis à defesa do País e à defesa da vida de nossos patrícios

Que o nosso lema seja este: “trabalho e vigilância”, para que o Sr. Presidente da República; circundado pela Nação inteira, como uma força única e inabalável, na salvaguarda do nosso patrimônio e das tradições de nossa História, na realização da vida continental, possa cumprir a estupenda missão de assegurar, para todo o sempre, o destino imortal da Pátria Brasileira.

Fonte: Alexandre Marcondes Filho, Trabalhadores do Brasil, Origem 1947-2002, Edição Ridendo Castigat Mores.

O TRABALHO DAS CRIANÇAS – TRABALHADORES DO BRASIL


Nestas minhas palestras semanais com os trabalhadores do Brasil já tive ocasião de me dirigir aos homens maduros, transmitindo-lhes uma mensagem de fé e de esperança, concretizada, logo após, por uma medida legal de proteção ao seu trabalho.

Já me dirigi, também, à mulher operaria, à devotada companheira do trabalhador, à senhora do lar proletário. E lembrei, então, que o termo “proletário” – cuja etimologia vem de prole e significa “classe que tem muitos filhos” – o termo proletário constitui uma consagração à esposa, assinala a glória da maternidade, evoca a música dos berços; e, povoando de imagens de crianças o nosso pensamento, logo o remete às gerações porvindouras, aos problemas do futuro, à continuidade da vida nacional.

Hoje falarei sobre essas crianças, sobretudo dessas crianças que, desde pouca idade, quando o espírito ainda não está amadurecido, quando o corpo apenas começa a firmar sua estruturação, já colaboram para a grandeza do Brasil, a dignificação do trabalho, o auxílio a seus país, num edificante exemplo de solidariedade na luta pelo ganha-pão diário.

Falarei dessas crianças que o presidente Getúlio Vargas, em comovido improviso pronunciado em São Paulo, tão bem definiu como “sementeira sagrada, cujas almas cândidas guardam o mais puro amor da Pátria e são esperanças do regime novo”.

Chegam, às vezes, ao Ministério do Trabalho solicitações para que se permita o trabalho de menores de 14 anos, para que se admita, aos maiores de 14 um horário de trabalho mais prolongado do que aquele fixado pela lei.

Diante desses pedidos quero lembrar que vem de longe a tradição brasileira de amparo à infância trabalhadora. Em 1902 Lopes Trovão pedia, no Congresso, que se protegesse a criança contra sua admissão precoce no trabalho; em 1906 era a voz de Alcindo Guanabara que se levantava no mesmo sentido; em 1919 novamente debatia-se o assunto.

Mas, se a tradição brasileira propugnava pela proteção ao menor trabalhador, foi somente em 1932 que, graças ao grande amigo das crianças brasileiras – o Sr. Getúlio Vargas – tivemos uma lei cuidando real e especialmente do amparo aos pequenos operários.

O decreto sobre menores, de 1932, obedeceu às grandes linhas traçadas por mestres eminentes e já aprovadas em congressos internacionais. Cogitou de restringir a duração do trabalho, interditar o trabalho nas indústrias perigosas e fixar um limite para a duração dos serviços.

Lei ditada pela inteligência, pela clarividência do futuro da Pátria, ela foi, sobretudo, uma lei Getúlio Vargas, uma lei de coração.

Cuidando da criança, o Sr. Getúlio Vargas demonstrava, mais uma vez, seu largo descortínio político, sua visão de um Brasil futuro, imenso e forte, e protegia, desde os primeiros anos, na criança que trabalhava, o trabalhador maduro que nascia. Cinco anos depois, em 1937, dando ao País sua nova Constituição, o eminente estadista mostrava, ainda e de novo, seu amor à criança, dedicando-lhe dois capítulos quase inteiros da carta constitucional. E primores de legislação aí ficaram instituídos:
“A infância e a juventude devem ser objeto de cuidados e garantias especiais por parte do Estado”. “A educação integral da prole é o primeiro dever e o direito natural dos país e o Estado não deverá ser estranho a esse dever”. “O ensino prevocacional e profissional destinado às classes menos favorecidas é, em matéria de educação, o primeiro dever do Estado”, e mais ainda, a proibição do trabalho aos menores de 14 anos.”

São princípios que, por si só, consagrariam uma Constituição; que, por si só, dariam a um chefe de Estado, se ele já não o houvesse conquistado por todos os títulos, o amor dos pais, que é o amor de toda sociedade que forma una nação.
Mas, não parou ai. Velando pelos menores, deu-lhes depois, em 1941, o decreto regulamentando os dispositivos constitucionais; assegurou-lhes a educação profissional em janeiro deste ano; permitiu-lhes, com a lei de proteção da família, uma série de beneficios jamais imaginados por qualquer outro legislador.

Ao Ministério do Trabalho foi assegurada a nobre missão de ser o guarda dessas leis, o fiscal de sua execução, o realizador dessa harmonia legislativa para enriquecer a Pátria de amanhã com homens válidos, sadios, capazes de uma colaboração produtora e útil.

Para que se realizem, porém, integralmente, os propósitos governamentais, é preciso que todos compreendam, que todos colaborem nessa obra magnífica de proteção e amparo à criança trabalhadora.

Não será possível a uma empresa forjar seu enriquecimento à custa de braços que mal poderão suster um livro, muito menos um instrumento de trabalho.

Os pais fugiriam ao cumprimento de seus deveres permitindo que o pão que os alimentasse fosse ganho por aqueles que,  fruto de sua vida, ainda precisam do amparo dos braços maternais, dos conselhos e incentivos de seus progenitores.
Não calarão no espírito do administrador razões que se não podem sobrepor à razão mais forte que visa o futuro da Pátria.

Não calarão, também, porque elas se opõem a toda a obra estupenda a que o governo Getúlio Vargas se entregou, de amparo à infância, de proteção ao menino que se esforça no trabalho.

Aos pais proletários e aos nossos industriais, eu aponto os próprios lares, aponto as crianças que aí sorrindo crescem e lhes pergunto se as crianças do Brasil não constituem uma riqueza infinita que deve ser cultivada, exaltada e protegida.

Fonte: Alexandre Marcondes Filho, Trabalhadores do Brasil, Origem 1947-2002, Edição Ridendo Castigat Mores.

AUTONOMIA DE JUSTIÇA DO TRABALHO – TRABALHADORES DO BRASIL


O trato continuado que venho tendo com os trabalhadores do Brasil, por entendimentos verbais, em audiências ou através de cartas, requerimentos e telegramas, mostrou-me a necessidade de lhes pedir sua colaboração, não só em beneficio dos serviços do seu Ministério, mas também em beneficio direto dos seus próprios interesses.

Quantas vezes, numa carta que chega de longe, de um ponto distante de nosso imenso território, vem um pedido justo, uma reclamação bem fundada, uma pergunta que envolve interesse imediato. Mas, depois de percorrer longas estradas em busca do Ministério, ao ser aberta, não pode ter uma solução imediata, porque o seu assunto é da competência de outro órgão da administração.

No entretanto, organiza-se um processo, opinam os técnicos, solicitam-se informações, e de torna da viagem, segue a resposta esclarecedora, com a orientação necessária.

Não há tempo perdido em trâmites inúteis, mas, muitas vezes, tem de ser dada a resposta por via telegráfica, porque os assuntos tratados envolvem questões de direito, e há nas leis prazos que são fatais, cujo vencimento tornaria impossível o atendimento de uma pretensão que era justa, impediria o conhecimento de um recurso que restabeleceria uma situação merecedora de amparo.

Compreendo bem que diante dos dispositivos de uma legislação nova, surjam dúvidas sobre aplicação adequada em favor dos direitos e deveres que devem ser resguardados. Como Ministro do Trabalho, sinto-me até satisfeito e orgulhoso por ver que, nessas horas de dúvida, os trabalhadores confiam no seu Ministério e a ele se dirigem para obter a sua boa orientação.

Quero, entretanto, ressaltar que, por causa das distâncias, no andamento de um processo, até ser informado, despachado e respondido, poder-se-ia verificar o vencimento de um prazo, a decadência de um direito, com prejuízo imenso e insanável para um trabalhador enfermo ou inválido e para os seus beneficiários.
Já no dia 1.º de Maio distribuímos aos trabalhadores filiados a varios Institutos instruções impressas sobre os beneficios que as leis lhes asseguram, acompanhadas de formulários para requerimento desses beneficios.

Dada a extensão do país e o número de trabalhadores, muitos, entretanto, não as puderam receber. A esses, especialmente, é que me dirijo, pedindo-lhes uma colaboração que, se será útil para a coletividade, ainda mais o será para eles próprios.

Têm hoje os trabalhadores do Brasil, outorgada pela clarividência do Sr Getúlio Vargas, uma justiça própria e autônoma. A ela cabe examinar, – e só a ela – os dissídios, as divergências entre empregados e empregadores, sobre o contrato de trabalho. Só ela pode decidir sobre questões de salário, de indenização por despedida injusta, de férias, de horas de trabalho extraordinário.

Não cabe às autoridades administrativas, dada, a tal respeito, a independência dos poderes, intervir junto à Justiça do Trabalho, perante a qual os interessados deverão pleitear, diretamente, seus direitos.

Em todas as capitais dos Estados há Juntas de Conciliação e Julgamento, com a competência de decidir as questões trabalhistas, e perante a secretaria dessas Juntas deverão ser apresentadas as reclamações.

Ali receberá o trabalhador instruções para procurar o distribuidor, quando for o caso; aí será informado acerca do andamento das reclamações, sobre os recursos que a lei lhe assegura e dos prazos para a respectiva interposição.

Nas demais cidades, a competência para julgamento das questões trabalhistas é dos Juizes de Direito, e a eles deverão dirigir-se os interessados, para apresentar suas reclamações.

Escrever ao Ministério do Trabalho, por certo, teria como resultado o recebimento de instruções também precisas, mas haverá o perigo de estar vencido o prazo fixado na lei, para reclamar, para requerer ou para recorrer, quando a nossa resposta chegar ao seu destino.

Também quanto ao seguro social há regras que a lei estabelece e que não podem ser subvertidas.

Um operário enfermo, ou a família de um trabalhador que morre, não pode permanecer longo tempo à espera do beneficio assegurado pelas notáveis leis de seguro social, baixadas pelo Governo do País.
Dirigir-se ao Ministério do Trabalho, diretamente, é perder um tempo precioso e retardar a obtenção desses beneficios.
Seja para pleitear o auxílio doença, concedido, como o próprio nome indica, no caso de enfermidade, seja para receber o auxílio natalidade, quando o lar do trabalhador se enriquece com um filho, seja no caso de aposentadoria por invalidez, quando a desdita física põe o trabalhador sob amparo do Estado, seja ainda no caso de morte, em que à sua família é assegurado o direito à pensão, devem os interessados dirigir-se diretamente às Instituições de Previdência, para as quais contribuem.

Em geral, o retardamento na concessão de benefícios não pode ser atribuído às Instituições; porque, ao tempo oportuno, não fizeram os trabalhadores suas próprias inscrições e as de seus beneficiários, esquecendo de providenciar os documentos necessários para o exame dos direitos e concessão dos benefícios. Quero lembrar, por isso, que, se as contribuições para os Institutos ou Caixas são imprescindíveis para que se obtenha o amparo legal, não menos necessário é o atendimento, em tempo oportuno, desses deveres de inscrição do trabalhador e de seus beneficiários.

Por outro lado, não devem esquecer que das decisões sobre seguro social poderá ser interposto recurso para a Câmara de Previdência Social do Conselho Nacional do Trabalho, do Serviço de Contabilidade do Ministério e dentro dos prazos fixados nos regulamentos respectivos.

É nesse sentido o apelo que faço aos trabalhadores, para que colaborem com o Ministério do Trabalho, e, seguindo as determinações de competência, fixadas nas leis, possam obter com rapidez e sem perigo de perda de prazo, todos esses magníficos benefícios que lhes assegura essa legislação social que possuímos e que é um padrão de honra para nosso País.

Fonte: Alexandre Marcondes Filho, Trabalhadores do Brasil, Origem 1947-2002, Edição Ridendo Castigat Mores.

A EUROPA OUVE O BRASIL – TRABALHADORES DO BRASIL


Era muito do nosso hábito, antigamente, desdenhar homens e coisas do Brasil. A cultura européia, a dependência econômica de outros mercados e a tendência para adotar métodos e sistemas estrangeiros, durante muitos anos nos mantiveram na praia, de costas para o Brasil, perscrutando os horizontes oceânicos, enquanto o Tietê, solitário e abandonado, rolava para dentro a sua marcha intérmina para o oeste.

Hoje, felizmente, a capacidade criadora do Estado Nacional nos engrandeceu a nós mesmos, dando-nos a clara certeza de que o Brasil vale pela sua própria personalidade, e na resolução dos seus problemas aparece como uma força fascinante e irresistível de verdadeiro renascimento.
Agora, já são raros, por exemplo, os que duvidam da magnitude e eficácia da nossa legislação social, que colocou o Brasil à frente do mundo civilizado e o fez dentro da paz e da ordem. E ao mesmo tempo que desaparecem os nossos pessimistas, principiam a surgir, na vida internacional, as manifestações de reconhecimento e louvor à obra magistral do Sr. Getúlio Vargas.

Que a “Hora do Brasil” chega aos confins do território, eu já não tinha dúvida. Quando visitei Foz do Iguaçu, várias pessoas assinalaram a necessidade de uma irradiação aos domingos, afirmando não haver assunto para as palestras de segunda-feira, porque lá só se conversava no dia seguinte sobre a irradiação da véspera. Também não ignorava que no exterior acompanham, sistematicamente, as notícias do Departamento de Imprensa e Propaganda. Ouvi isto dos embaixadores no Chile e na Argentina e no Uruguai. Baptista Luzardo faz a sua correspondência depois da irradiação, para estar em perfeita forma – ele me disse – com os nossos problemas diários. Logo depois da minha posse, recebi correspondência de Lausanne, em que Gilberto Amado comunicava ter sabido da minha nomeação por uma das minhas primeiras palestras.

Até aqui fiz referência somente a patrícios nossos, naturalmente interessados em noticias nacionais, em verdade, porém, o interesse e a atenção que os nossos assuntos despertam, vão além desses limites. Personalidades ilustres, no mundo exterior, também acompanham de perto o que a “Hora do Brasil” narra e comenta, como neste instante, mais uma vez, demonstrarei.

Com o natural atraso decorrente, nestes tempos, da falta de comunicações, acabo de receber expressiva carta do brilhante jornalista português Alfredo de Oliveira Gandara, que é uma das principais figuras da redação de “O Século”. A profundidade e entusiasmo de suas afirmativas dispensam quaisquer comentários ao documento, cuja leitura hoje ofereço aos que me escutam.

Lisboa, 20 de Março de 1942 – Sr. Ministro:
Aqui em Lisboa, num 3° andar da rua Cecílio de Sousa, de onde vejo as árvores da praça do Rio de Janeiro, com toda a força evocativa do nome, ouço, às quintas-feiras, a voz já familiar de um homem do governo, que fala da capital do Brasil. Esse homem é V. Excia. E o prodígio deve-se ao Rádio.
Escrevo sob a impressão da palestra que fez ontem. A história do pobre trabalhador do Espírito Santo, que perdeu as mãos num desastre e que se viu, finalmente, protegido pela “sublime teimosia” e “pelo coração de veludo” de Getúlio Vargas, o criador da mais humana legislação trabalhista que conheço e que não me tenho cansado de apresentar em Portugal, como modelo, essa história, coroada pelo lapidar despacho final de V. Excia., é admirável. Nada lhe falta para bolir no íntimo até do mais empedernido: primeiro, o fundo comovente de um drama social; depois, e acima de tudo, o interesse de um homem colocado no cume do poder e das honrarias por um desgraçado perdido no sertão com sete filhos, célula invisível e para mais inutilizada, do grande corpo do Brasil. Foi épico o combate de Getúlio Vargas com a engrenagem burocrática.

V. Excia., quando principiou, quase pediu desculpa de interromper a doutrinação e comparou o relato que ia fazer a uma pausa amena de descanso. Afinal, o que V. Excia. deu, em linguagem apropriada, foi a mais sugestiva das ilustrações do espírito que anima a reconstrução do Brasil. Nenhuma lição, nenhuma conferência podia ser mais concludente. Perfeito! Getúlio surgiu não apenas como chefe – e que energia, e que multiforme talento o seu! mas como Pai – e de que extremo carinho ele é capaz! Esta síntese de inteligência, de vontade e de coração, faz do Presidente do Brasil figura única na História contemporânea. Os grandes homens de Estado de hoje não são completos. Falta-lhes uma coisa que sobeja a Getúlio: sensibilidade humana.

Amigo e primo de João de Barros – recebi dele, há mais de vinte anos, as primeiras lições de brasileirismo. Como jornalista que sou (trabalho no “O Século”), tenho provado o meu amor ao Brasil. Redator, em Lisboa, da Agência Americana, fiz uma obra de que me posso orgulhar. A Revolução de Outubro prostrou a empresa dirigida por Carcalho de Azevedo, o que muito atingiu os meus rendimentos, confesso. Talvez por isso, olhei com desconfiança os próceres do movimento, em especial o Presidente, tanto mais que convivi, aqui, com os emigrados. E escrevi nalguns jornais artigos restritivos do alcance e dos intuitos do programa revolucionário.

A breve trecho, porém, sentia-me vencido.

Continuando a seguir, de perto, a vida do Brasil, a obra Getuliana dominou-me e conquistou-me. O que V. Excia. contou ontem, ao microfone da Rádio Nacional, na “Hora do Brasil”, foi a última passada de terra sobre qualquer resquício das antigas reservas que pudessem ainda existir no meu espírito.

Tenho enaltecido a obra do Governo do Brasil, sobretudo por intermédio de uma luz bruxuleante, alimentada com o espírito brasileiro: a velha sucursal da Americana, transformada pelo antigo diretor, Maxime Serrão Correia, em agência portuguesa. Ali trabalho sem remuneração, do mesmo modo que Serrão Correia. E o nosso violino de Ingres. A minha ação passará a ter agora mais entusiasmo.

Quis dizê-lo a V. Excia por supor que não seria desagradável tal informação enviada de um continente distante, antes de terem passado vinte e quatro horas sobre o momento em que V. Excia, acabou de falar.

Quis também expandir o sentimento de admiração que de mim se apossou antes de fazê- l0 de qualquer outra forma – artigo ou palestra no Rádio.”

Fonte: Alexandre Marcondes Filho, Trabalhadores do Brasil, Origem 1947-2002, Edição Ridendo Castigat Mores.

CASAS OPERÁRIAS – TRABALHADORES DO BRASIL


O Decreto n° 4.508, que o Sr. Presidente da República assinou hoje e foi estudado e elaborado em virtude de suas instruções expressas, contém providências do maior alcance para interesses de empregados e empregadores.
Vem demonstrar, ainda uma vez, as amplidão do pensamento e a clarividência com que o eminente Sr. Getúlio Vargas consegue resolver, ao mesmo tempo, antagonismos que pareciam irredutíveis, usando o seu extraordinário poder de simplificação de complexidades e a sua capacidade de fazer caminhar, paralelamente, de modo construtivo, dois interesses que, dantes, bifurcavam e se perdiam entre os impossíveis.

Um dos problemas era este: a crise de transportes, como sabemos, veio prejudicar profundamente a indústria de construções civis. Certos materiais que dependiam da América, como a importação de elevadores, e outros cuja fabricação exigia óleo combustível, como a produção de cimento, ou já não existem ou elevaram tanto o preço, que as grandes construções talvez devam cessar.

O grande interesse, no caso, não está, propriamente, no fato da diminuição de novos arranha-céus e casas 7% ao ano, será amortizado em prestações mensais, no de alto preço, porquanto, se os menos remediados se arrumam em qualquer recanto, não há porque cogitar do que é conforto e luxo. Em verdade, porém, as grandes e ricas construções têm um aspecto profundamente objetivo: o serviço que proporcionam a uma multidão de trabalhadores. São Carlos Borromeu foi canonizado como amigo dos operários e a sua ação em favor deles se manifestou, justamente, pela construção de maravilhosos palácios, porque se Carlos Borromeu era santo e também era príncipe.

No Brasil, a construção civil é de extraordinária importância. Basta dizer que figura em segundo lugar logo depois da indústria têxtil e antes da própria indústria da alimentação. Cálculos aproximados demonstram e que o grupo da construção civil deverá abranger uma folha mensal de salário superior a 35 milhões de cruzeiros, com 160.000 operários, que se dedicam, além da construção, propriamente à fabricação de ladrilhos e azulejos, tijolos e telhas, material sanitário, extração de madeiras, serrarias, carpintarias, fabricação de lâmpadas e material elétrico.

O outro problema que lutava com os impossíveis era o da existência de vilas operárias para as fábricas. O Instituto dos Industriários sempre esteve preparado para fornecer capital, aos industriais que quisessem construir. Mas, a necessidade de garantias, que a lei e os regulamentos exigem, obstruía a melhor boa vontade, obrigando o Instituto a pedir documentos que legitimassem a propriedade, desde 30 anos. Buscas tão difíceis às vezes e sempre tão onerosas e demoradas, que os industriais preferiam desistir da compra de terrenos apropriados.

Para facilitar caminho, o Instituto propunha¬se aceitar a hipoteca das fábricas, cujos títulos o industrial tem sempre em ordem, por se tratar de terreno adquirido para a fundação da própria fábrica. Mas, essa garantia feria de frente o crédito bancário, e mal maior seria aos próprios operários esse abalo, capaz de arruinar a indústria, do que o adiamento do problema de habitação.
Mesmo quando atendidas as exigências, o assunto não ficava resolvido, porque o plano dos conjuntos residenciais dependia, nos mínimos detalhes, de prévia aprovação das Prefeituras, e não raras vezes divergências invencíveis sobre o aproveitamento dos terrenos e plantas de cada casa eternizavam, na repartições os documentos.

O decreto de hoje sobre construções operárias extingue, de um só golpe, os dois terríveis obstáculos, porque de um lado, apesar das dificuldades de transporte, fornece trabalho aos operários da construção civil e indústrias subsidiárias; e de outro lado, com a simplificação das exigências, sem sacrifício das garantias necessárias, facilita o problema do lar proletário.

É suficiente assinalar alguns aspectos do problema resolvido, para que se veja a sua importância e o grande benefício que o Sr. Presidente da República outorga à coletividade.

Serão financiadas as construções com simples garantia do terreno que o industrial destina à vila operária e o financiamento atinge a 80% do valor das garantias oferecidas. O capital, que vencerá, apenas, os juros de longo prazo de 15 anos, e o resgate só principia 30 dias após a entrega da última parcela do financiamento.

Para que o empregador goze de tais favores deverá oferecer, como prova de propriedade, somente certidão do registro de imóvel, relativa aos últimos 5 anos. Estas são todas vantagens para o industrial.

A proteção dos trabalhadores se encontra em outros dispositivos, segundo os quais a construção será de conjuntos residenciais que comportem um mínimo de 50 unidade, as casas somente poderão ser alugadas aos operários da indústria, e o aluguel não poderá exceder dos juros de 7% do valor do capital empregado no imóvel.

Em benefício de ambas as classes, o decreto fixa às Prefeituras o prazo de 15 dias para aprovação das plantas e lhes determina que, por ato especial, aceitem a planta do conjunto, logo que mostre sistema de urbanização e o tipo da unidade residencial, o esboço dos edifícios de utilidade coletiva e o esquema de abastecimento de água.

A troco de todos esses favores e facilidades, fica o Instituto munido do direito de desapropriar o imóvel pelo preço da sua avaliação, se ficar apurado que eram ilegítimos os títulos de propriedade o projeto entra em pormenores sobre esses aspectos, além de outros, a que agora não me refiro. Mas estes traços, são bastantes para ficar demonstrado que o Governo clareou completamente o problema, acudindo à indústria da construção civil e às indústrias subsidiárias, oferecendo esplêndida oportunidade aos industriais e amparando o bem-estar dos nossos trabalhadores. Tais são os constantes benefícios que colhemos da sabedoria de quem nos governa e da ordem pública que desfrutamos.

Fonte: Alexandre Marcondes Filho, Trabalhadores do Brasil, Origem 1947-2002, Edição Ridendo Castigat Mores.

PROBLEMA DE TRÂNSITO – TRABALHADORES DO BRASIL


Peço licença para iniciar a palestra de hoje recordando alguns pensamentos externados no dia da minha posse no Ministério do Trabalho. Afirmei que elevar o nível do empregado é um pensamento pelo capital e que evitar os inúteis sacrifícios deste é um pensamento pelo trabalhador. E, depois de reconhecer que, em virtude desse harmonioso conceito, o Ministério devia ter como um princípio geral do seu programa servir em leis de simetria, eu declarava: “circunstâncias inesperadas podem deslocar o nível dos problemas: a falta de matéria prima, de transportes, de mercados, de combustível – que são indisfarçáveis realidades presentes constituirão forças maiores, fatais, ao mesmo tempo, para o trabalho e o capital, se não houver esforço espontâneo e trabalho comum para vencê-las. Mais, assim como as ondulações do terreno não alteram o paralelismo dos trilhos, o princípio contém, através do Estado, a vitalidade indispensável para manter em estética, na variação dos índices econômicos, a colaboração desses dois elementos fundamentais.”

Bem sei que estas assertivas não encerram novidade para os que se preocupam com o estudo dos problemas coletivos. A verdade, porém, que nunca foram tão oportunas como agora, para esclarecer os que ainda julgam os problemas, conseqüentes da guerra, pelo prisma dos interesses puramente pessoais, e na suposição de que o Brasil está fora da hecatombe.

É bem verdade que não ouvimos o estrondo das canhões, não corre sangue pelas ruas, não há casas em ruínas. Ao contrário. Aqui, no Rio, por exemplo, no ouro do sol da Guanabara esplendem as águas marinhas e o anfiteatro das montanhas. Tudo isto afasta o pensamento da imensa tragédia que o mundo vive. Mas, a realidade é bem outra. Na falta de matéria prima, de transportes, de mercados e de combustível, estão grandes batalhas na guerra moderna. O Brasil se encontra em pleno combate contra a força maior, e não o ganharemos se faltar esforço espontâneo e comum, do capital e do trabalho.

Para acudir o problema de escassez do combustível, que é um fenômeno da guerra que nos envolve, o Conselho Nacional do Petróleo determinou a paralisação dos automóveis particulares. Economiza de um lado, para poder continuar despendendo do outro. O combustível recusado aos particulares se destina a alimentar atividades de que dependem usinas, transportes terrestres, fábricas, aviões; que poderiam cessar, sem essas providências. Trata-se de amparar o interesse coletivo, imediato e fundamental; e como os que foram atingidos pela medida, da coletividade fazem parte, logo se verifica que a resolução do Conselho Nacional do Petróleo representa um beneficio em favor deles. Tudo está em que examinemos o problema com espírito público, deixando de lado interesses individuais, que se alimentam do velho egoísmo humano.

Não param aí as conseqüências resultantes dessa deslocação do nível do problema do combustível. Atingem todos aqueles cuja subsistência dependia da continuidade de circulação de tais veículos, exigindo a intervenção do Estado para manter em estética a colaboração do capital e do trabalho.

Nos assuntos dependentes da jurisdição do Ministério, as primeiras providências estão tomadas, com a organização de uma Comissão constituída de técnicos do Ministério e representantes de empregados e empregadores, mais diretamente ligados ao problema, para resolver, tendo em vista que aquelas conseqüências devem ser examinadas com urgência, mas com a preocupação de encontrar remédio que solucione o problema, qualquer que seja o prazo da sua duração.

Várias são as classes atingidas pelos efeitos daquela providência, entre as quais “chauffeurs” , mecânicos, vendedores, lavadores, e muitos desses interessados exerceram, anteriormente, outras profissões, cujas atividades podem ser utilizadas em beneficio coletivo.

Para isto será necessária nao só a organização de estatísticas, consultas, planos e outras verificações destinadas a reajustar a caso às circunstâncias, como também entendimentos entre órgãos das classes diretamente interessadas na solução, ou capazes de contribuir para tal fim.

Embora se trate de providências inadiáveis, nenhuma resolução útil poderá ser adotada sem conhecimento, pelo menos, dos elementos indispensáveis a resolver, com êxito, as dificuldades que se apresentam, envolvendo problemas de salário, de colocação, de relações entre empregadores e empregados e mesmo de readaptação de atividades profissionais, e não apenas na Capital Federal, mas, em todos os Estados.

A Comissão está integrada pelos diretores dos Departamentos de Indústria e Comércio, de Imigração, do Trabalho, do Serviço de Estatística, pelos presidentes do Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Empregados em Transportes e Cargas, da Confederação Nacional das Indústrias, da Federação dos Comerciantes Atacadistas, da Federação Nacional dos Condutores de Veículos Rodoviários, do Sindicato do Comércio Varejista de Automóveis e dos Vendedores e Viajantes do Comércio do Rio de Janeiro. Outros elementos poderiam integrá-la, mas, tornando-se numerosa, a Comissão sacrificaria a rapidez das deliberações. Ela não deixará, entretanto, de ouvir o pensamento dos demais órgãos das classes interessadas, a fim de que sejam aproveitadas quaisquer sugestões favoráveis ao desempenho do seu mandato.

A sua composição por individualidades afeitas ao trato dos grandes e complexos problemas que empolgam os diversos setores de atividade humana nela representados, é uma garantia da precisão e da segurança com que hão de ser examinados os temas e rapidamente procuradas as fórmulas sobre as quais a sabedoria do Sr Presidente da República dirá a palavra definitiva.

Uma grande virtude estabelecerá a comunhão de todos, como que ampliando a comissão pelo Brasil inteiro. É a virtude do pensamento no bem coletivo, a grande virtude do espírito público.

Onde tal pensamento e tal espírito exigirem renúncias, o sacrifício não será regateado.

Fonte: Alexandre Marcondes Filho, Trabalhadores do Brasil, Origem 1947-2002, Edição Ridendo Castigat Mores.

A floresta virgem – Porque me ufano do meu país


Nas matas virgens do Brasil, – que ocupam espaço igual ao de vastos Estados, – reside um dos espetáculos mais augustos da criação.

Sobrelevam o oceano em mistério, em diversidade de panoramas, em excesso de vida, em magnificência que, ao mesmo tempo, acabrunham a inteligência humana e a arrebatam, acentuando-lhe a idéia das forças superiores regedoras do planeta.

É a natureza em expansão e liberdade máximas: mares e mares de vegetação prodigiosa, nos quais cada onda representa um mundo de cousas preciosas e lindas; silêncio imponente, ou antes, profundo rumorejo, clamor longínquo, indefinida reunião de harmonias, provocando religiosidade e vago terror; cheiros acres e balsâmicos, em abundantes vagas de aromas que o peito haure com delícia, como se fossem remédio para suas misérias e melancolias.

A princípio, o olhar não distingue formas precisas na selva ingente, porém massas espessas, esboços de torres, muralhas, trincheiras, abóbadas, pirâmides, colunas de verdura, formadas de árvores enormes, troncos aglomerados, lianas entrelaçadas, – plantas em baixo, em cima, dos lados, florestas sobre florestas, sucessão interminável de folhagens.

Depois, pouco a pouco, de surpresa em surpresa, vislumbra a portentosa variedade de contornos, dimensões, cores; – configurações brutais ou mimosas, fantásticas ou grotescas, risonhas ou ameaçadoras. Balouçam-se penachos, abrem-se leques, arredondam-se umbelas, suspendem-se candelabros, agitam-se flâmulas, dependuram-se guirlandas, enristam-se lanças, empinam-se mastros arrogantes, carregados de cordagens e galhardetas.

Eis os jequitibás dominadores, os soberanos da mata. Eis o pau-rosa, o pau-cetim, o pau­violeta. Eis os gigantes seculares, isolados, sobranceiros, estendendo a ramagem larga sobre as ramagens inferiores, capazes de abrigarem à sua sombra milhares de pessoas. Eis o jacarandá cognominado pau-santo, de tão belo e útil. Eis a carnaúba que fornece ao cultivador alimentação, bebida, luz, vestuário e casa. Eis inúmeras outras espécies de palmeiras esbeltas, hirtas, altíssimas, em cuja fronde roçam as nuvens. Eis os cipós e trepadeiras que ora caem verticais dos galhos altivos, ora os unem por meio de pontes pênseis, ora os amarram uns aos outros, de modo a confundi-los, ora se lhes enroscam em espirais, ora se distendem como fitas onduladas, ora pendem em festões, ora serpenteiam entre as árvores para, guindados a alturas incríveis, lá em cima, expandir-se eflorescer.

Reparai agora nas orquídeas, de brilhantes e variegados coloridos, com desenhos simétricos que parecem traçados por artista caprichoso em veludo, seda, metais foscos ou polidos. Contemplai os caules elegantes, as copas versudas, as ramarias extravagantemente retorcidas, as plan tas delgadas, corpulen tas, luzentes, de grossura e desenvolvimento sem iguais, crivadas de flores a ponto de se lhes não descobrir mais um único sitio verde, parecendo imensos ramalhetes de ofuscantes matizes. Observai as folhas, sagitiformes algumas; cor de púrpura, cor de fogo; macias e delicadíssimas estas, a pedirem carícias; ásperas, espinhosas, agressivas aquelas; largas ou grotescas terceiras. Admirai mil outras flores, suntuosas ou humildes, resplandecentes, como estrelas, ou em cachos sanguejantes, – pondo manchas azuis, amarelas, roxas, no fundo escuro das balsas.

Não é só no Brasil que pompeiam florestas virgens. Há-as magníficas na Ásia e na África. Mas a floresta brasileira se assinala por qualidades especiais.

Em primeiro lugar, as suas madeiras excedem em formosura e duração às melhores do mundo. Abundam nela plantas medicinais e industriais. Inexaurível a sua seiva! Não lhe causa diferença inverno ou verão. Jamais se despem as árvores; guardam o mesmo viço, dão flores e frutos em qualquer época do ano. Vergam ainda ao peso da safra anterior e já rebentam em botões. O agricultor mal lhe pode vencer a energia invasora. Derriba-se a mata; breve nasce outra mais vigorosa na sede da antiga. Pedras qua em toda parte apenas se revestem de musgo ostentam aqui vigoroso arvoredo. Não se notam espaços livres; arbustos rasteiros preenchem os claros. Terra abandonada vê-se logo assaltada pelo mato. Guarnece o chão basto tapete esmeraldino, pontilhado de pequeninas flores. A densidade é estupenda. Avultam as enrediças, os cerrados impenetráveis. A natureza aqui nunca se esgota ou descansa. Em criação incessante e infinita, tira da própria morte, dos troncos caídos, das folhas secas, novos elementos de vida. Os lugares mais pobres têm o encanto dos velhos parques olvidados.

Não é monótona a selva brasileira. Cada árvore exibe fisionomia própria, extrema-se da vizinha: circunspectas ou graciosas, leves ou maciças, frágeis ou atléticas. Conforme reflexão de ilustre viajante, as matas brasileiras, únicas tão compactas que se lhes poderia caminhar por cima, representam a democracia livre das plantas, democracia cuja existência consiste na luta incessante pela liberdade, pelo ar e pela luz. Preside a essa democracia perfeita igualdade. Não há família que monopolize uma zona com exclusão de outras famílias ou grupos. Espécies as mais diversas medram conjuntamente, fraternizam, enleiam-se. Daí variedade na unidade, múltiplas e diversas manifestações do belo.

Notabiliza-se ainda a floresta brasileira pela ausência relativa de animais ferozes. É muito menos perigosa que as da Índia. Habitam-na incalculáveis populações de mamíferos, abelhas, formigas, cigarras, colibris, lagartos, papagaios, macacos, vagalumes, miríades de borboletas com asas de inefável colorido. Em lindas aves é a mais opulenta da terra.

Garridos regatos deslizam por ela, derramando frescor. Cortam-na caudalosos rios, tão coalhados de plantas aquáticas que, apesar de profundos, não são navegáveis.

O sol doura simplesmente o cimo das árvores.

Não penetra através as grossas cortinas verdes senão de modo crepuscular, produzindo a grave penumbra das catedrais, ou o lusco-fusco das grutas marinhas. Só em espaçadas clareiras avistam-se nesgas de azul. Em geral, a luz soturna e misteriosa empresta às cousas feições sobrenaturais. O conjunto é sublime.

Todos os sentidos ficam aí extasiados. Gozam todos os nossos instintos artísticos. Com efeito, deparam-se-nos na floresta brasileira primores de arquitetura, de escultura, de música, de pintura, e, sobretudo, de divina poesia.

 

Fonte: Afonso Celso,Porque Me Ufano do Meu País, Origem 1908, Editores Laemert & C. Livreiros.

A Cachoeira de Paulo Afonso – Porque me ufano do meu país


Os americanos do norte têm imenso orgulho da sua Catarata do Niagara, que Chateaubriand qualificou – uma coluna d’agua do dilúvio.

O Brasil possui maravilha igual, senao superior, – a cachoeira de Paulo Afonso.

Encontra-se nesta tudo quanto naquela encanta, apavora e maravilha.

É a mesma enorme massa líquida, a rolar de vertiginosa altura, em fervilhante precipício; o mesmo estrondo, repercutindo em prodigiosa distância; a mesma trepidação dos arredores, como que a prenunciar um terremoto; o mesmo abismo continuamente trovejante, regorgitando de espumas e do qual se elevam nuvens de alvos vapores, cortados de arco-íris permanentes; a mesma imagem turbilhonante do caos; produzindo tudo a mesma impressão, a princípio confusa e aterradora, depois extraordinária, miraculosa, sublime, parecendo menos um espetáculo do que portentosa visão.

Porém Paulo Afonso oferece mais selvagem poesia e maior variedade de aspectos do que o Niagara.

O rio S. Francisco, que a forma, desfila, antes de chegar a ela, no meio de um dédalo de ilhas, ilhotas, recifes, pedras isoladas, de surpreendente efeito pitoresco.

De súbito, apertada entre colossais muralhas graníticas, divide-se a torrente, para o salto tremendo, em três gigantescos braços, – quatro no tempo da cheia, – separados por estranhos grupos de rochedos, enquanto múltiplos jatos copiosos e independentes, entrechocam-se no ar, projetando em todas as direções, flechas irisadas, flocos argênteos, nevoeiros diamantinos, poeira úmida.

Transposto o estreito canal, continua o rio seu curso, oitenta metros abaixo, no fundo da voragem, com violência, rapidez e impetuosidade indizíveis, despenhando-se ainda em pequenas cachoeiras, fumegante, retorcendo-se em vascas desesperadas, espadanando, pulando, borbulhando, com rufos, estouros, brados surdos, formidáveis e ininterruptos mugidos.

Não há vivente, que caindo ali não sucumba.

O penhasco em que se acha o observador parece agitar-se, tremer, prestes a fugir com a correnteza. É o verdadeiro inferno das águas de que fala Byron.

O Niagara, cujas quedas são apenas duas, longe está de ostentar as singularidades, os contrastes, e profusão de quadros de Paulo Afonso que se diria modificar-se e mudar de posição todas as horas.

E, além de Paulo Afonso, admiram-se no Brasil muitas outras cachoeiras, rivais do Niagara que, tão bastos como as suas ondas, atrai visitantes do mundo inteiro.

Tais, por exemplo, o salto do Avahandava, o de Santa Maria, no Iguaçu, o de Itapura, o de Sete Quedas, ou Guaíra, o de Pirapora, o do Jequitinhonha, o de Itu, todos assombrosos de majestade, força e beleza.

 

Fonte: Afonso Celso,Porque Me Ufano do Meu País, Origem 1908, Editores Laemert & C. Livreiros.

O Amazonas – Porque me ufano do meu país


Uma das maravilhas da natureza, o maior rio do mundo! A sua bacia é igual a  5/6 da Europa. Uma de suas ilhas, a de Marajó, excede em tamanho a Suíça.

Nem todo ele pertence ao Brasil, mas a parte brasileira é, senão a mais extensa, a mais importante, curiosa e rica. Quem quiser conhecer o Amazonas tem de vir ao Brasil.

No Brasil, o mar doce, como lhe chamaram os primeiros exploradores, atira-se ao Atlântico, rolando rapidamente para este tal quantidade d’água que quem voga no imenso estuário da embocadura, pergunta (diz um escritor) se o oceano não deve a sua existência a esse rio e se não passa de um receptáculo do líquido trazido por ele sem cessar.

O rio luta com o oceano; vence-o. Durante largo espaço, impõe-lhe a cor e o gosto das suas águas.

Nem sempre o jugo é tolerado sem revolta. Do embate entre a massa fluvial e a marítima provém, às vezes, o fenômeno, das pororocas, em que a segunda faz a primeira retroceder. Na linha de encontro das massas opostas, intumesce, levanta-se a grandes alturas um vagalhão colossal que se arremessa, com estrondo estupendo, sobre o leito do rio, derribando e arrastando diante de si tudo quanto ouse se lhe antepor. A esse vagalhão sucedem outro e outro, igualmente bramantes e destruidores. O estrondo se espalha até considerável distância. Depois, volta o silêncio augusto, o curso normal das cousas. O mar tentou rebelar-se. Ei-lo impotente, subjugado de prompto pelo rio.

Sempre largo e navegável, com enchentes, vazantes, uma espécie de maré, assemelha-se ao mar em muitos lugares.

Nas cheias, desaparecem quase todas as ilhas que o povoam, inundam-se os terrenos marginais. Não se lhe pode então fixar limites. Torna-se verdadeiro mar interior, de profundidade extraordinária.

Fértil em incalculáveis riquezas, oferece o Amazonas indizível variedade de aspectos, revelando constantemente amplitude, força e majestade infinitas.

Apresenta atrativos mumeros ao viajante, ao sábio, ao artista, nos seus arquipélagos de verdura; nas florestas das suas ribas, habitadas algumas por indômitos selvagens; na profusão de seus canais , labirintos, ou galerias de folhagens, com abóbadas de ramas entrelaçadas, sob as quais passam dificilmente, em misteriosa penumbra, as embarcações. E a multidão de canoeiros que o singram, gente bizarra, manobrando com habilidade incomparável o frágil esquife em passos arriscados, ritmando o movimento dos remos pela toada de poéticas.

São-lhe tributários numerosos afluentes, vários inexplorados ainda. Abrem-se-lhe aos dois lados, como gigantescos leques de rios, cada qual com a sua individualidade, as suas ilhas, os seus canais, as suas selvas, as suas peculiaridades, notáveis muitos por si sós.

Tortuosos estes; retilíneos aqueles; serre de lagos, terceiros; correndo uns sem obstáculos; constituindo-se outros de sucessivas escadas de cachoeiras; ora de marcha vertiginosa, ora lentos, ora de correnteza apenas perceptível; revelando­se aqui apáticos e indolentes; além, impetuosos e tumultuários; desenvolvendo-se de meandro em meandro; formando remoinhos espumejantes, remansos, torrentes; ostentando águas de variegados matizes: brancas, amareladas, cerúleas, negras, transparentes.

A uns o Amazonas acolhe-os propicio, absorvendo-os, misturando-se logo com eles.

Recebe relutante outros que só penosamente se diluem em seu seio. Na época da enchente, fica tudo incomensurável planície líquida.

Procissões de árvores arrancadas desfilam boiando sobre a correnteza. As que resistem desaparecem, submersas.

Em vindo a vazante, destacam-se das margens corroídas pedaços de barranco que, ilhas movediças, levando plantas e animais, pássaros trepados nos ramos, reptis agarrados aos troncos, seguem flutuando e se derretem aos poucos.

Outras ocasioes, enormes madeiros se entrecruzam, atam-se, amontoam-se ao longo das ribas, ou engendram gigantescas jangadas que derivam.

Quantas cenas grandiosas e pitorescas! Eis os tapuios amarrando a canoa a um tronco transportado pela água, à guisa de rebocador. Dispensam o remo. Se o vento aumenta e vagas altas ameaçam o lenho ligeiro, os tripulantes o introduzem num cortejo de ervas que o protege, atenua a força da correnteza, regulariza os movimentos. E lá se vão tranqüilos, independentes, felizes.

No seu percurso de milhares de quilômetros, nunca deixa o Amazonas de ser prodigiosamente opulento em peixes, – duas vezes mais que o Mediterrâneo. Contam-se milhares de espécies peculiares a ele, muitas descobertas por Agassiz, as quais mudam de aspecto conforme as paragens. A par do peixe-boi e do peixe elétrico, miríades de camarões microscópicos, tão saborosos como os comuns. Pulula a vida ali. Habitam as florestas das ilhas e margens, florestas formadas de preciosíssimas madeiras, populações inumeráveis de insetos, reptis, mamíferos, maravilhosos pela variedade, originalidade e beleza das formas, brilho e cor. Centenas de famílias de pássaros, alegram a solidão. Enumeram-se duas vezes mais classes de borboletas do que em toda a Europa.

Aí a pátria dos famosos seringais, produtores da borracha, de mil aplicações na indústria, monopólio quase do Brasil.

E, além do Amazonas, fertilizam o Brasil o São Francisco, o Paraná, o Tocantins, pouco menos colossais e notáveis, formando inigualável rede fluvial, com cachoeiras esplêndidas, rápidos que se descem em uma hora e se sobem em quinze dias, inúmeras curiosidades naturais.

O Tocantins abre passagem denodadamente através largas trincheiras de formidáveis rochedos. O Araguaia que se une a ele passa, num lugar chamado Martírios, estrangulado entre paredes de granito cobertas de esculturas, nas quais julgam os canoeiros reconhecer imagens do suplício de Jesus.

 

Fonte: Afonso Celso,Porque Me Ufano do Meu País, Origem 1908, Editores Laemert & C. Livreiros.

Segundo motivo da superioridade do Brasil: a sua beleza – Porque me ufano do meu país


Não há no mundo país mais belo do que o Brasil. Quantos o visitam atestam e proclamam essa incomparável beleza.

Dentro do enorme perímetro brasileiro, encontra-se tudo o que de pitoresco e grandioso oferece a terra. Ainda mais: encontra-se, em matéria de panorama, tudo o que ardente imaginação possa fantasiar. E os espetáculos são tão variados quanto magníficos.

Observa João Francisco Lisboa, no Jornal de Timon, que os sentimentos experimentados pelos primeiros exploradores do Brasil, ao darem vista das nossas costas, eram de intensa surpresa e admiração.

A tal ponto os maravilhava o aspecto pomposo da terra inculta e selvagem, – continua o exímio literato maranhense, – que a todos eles acudia espontâneo o pensamento de que, sem dúvida, nesta abençoada região estivera outrora situado o paraíso terreal.

Tal conjectura foi debatida, com incrível gravidade, durante bom número de anos.

Amerigo Vespucci, numa carta públicada em 1504, opina que, a haver aquele paraíso, não devia ser longe das nossas plagas.

Mais tarde, e por longo tempo, acreditou-se que no Brasil permanecia o fabuloso Eldorado.

No documento mais venerando da nossa história colonial, segundo Porto Seguro, a epístola de Pero Vaz de Caminha a EI-Rei D. Manoel, noticiando o descobrimento de Cabral, diz o insigne cronista que a praia é muito formosa, com arvoredo tanto, tamanho e tão basto e de tantas plumagens que não pode homem dar conta.

Entre o escritores dos tempos coloniais, o padre jesuíta Simão de Vasconcelos, nas Notícias Curiosas, declara que capitães e cosmógrafos não viram cousa igual no universo todo, à perspectiva da nova terra “que é um espanto da natureza e faz vantagem aos campos elísios, hortos pênseis e ilha de Atlanta”.

Rocha Pita, na História da América Portuguesa, afirma que do novo mundo é a melhor porção o Brasil – “felicíssimo terreno, em cuja superfície tudo são frutas, em cujo centro tudo são tesouros, em cujas montanhas e costas tudo são aromas”.

“Em nenhuma outra região, – acrescenta, – se mostra o céu mais sereno, nem madruga mais bela a aurora: o sol em nenhum outro hemisfério tem os raios tão dourados, nem os reflexos noturnos tão brilhantes: as estrelas são as mais benignas, e se mostram sempre alegres: os horizontes, ou nasça o solou se sepulte, estão sempre claros; as águas, ou se tomem nas fontes pelos campos, ou dentro das povoações nos aquedutos são as mais puras… A formosa variedade de suas formas, na desconcertada proporção dos montes, na conforme desunião das praias, compõe uma tão igual harmonia de objetos que não sabem os olhos onde melhor possam empregar a vista.”

Pondera Claude d’Abbeville que “nada há de comparável à beleza e delícias desta terra, bem como à sua fecundidade e abundância em tudo quanto o homem possa imaginar e desejar, assim para o contentamento e regalo do corpo, em relação a temperatura do ar e a amenidade do sítio, como para a aquisição de riquezas”.

Em 1624, relata Simão Estácio da Silveira que a excelência do Brasil consiste em muitas cousas notórias. “A primeira no ameníssimo céu e salubérrimo ar, de que goza, aonde sempre é verão e sempre está o campo e arvoredo verde, cargado de infinita diversidade de frutas, cujos nomes, sabores, feições, excedem a toda declaração humana.”

Mostra João Francisco Lisboa, – de quem tomamos estes excertos – que Laert, Lery, Pinçon e outros escritores que visitaram o Brasil ainda em tempos pouco posteriores ao descobrimento, não têm limites nos louvores aos dotes naturais do país.

Idêntica impressão de agradável assombro produziu ele nos sábios e viajantes contemporâneos que o percorreram, – alguns verdadeiras celebridades universais. Alexandre de Humboldt coloca a majestade e a calma das nossas noites tropicais entre os maiores gozos proporcionados pelas cenas da natureza; exalta a indizível lindeza das nossas palmeiras, cujos penachos formam às vezes uma floresta sobre outra floresta; assegura que a zona vizinha ao equador é a parte da superfície do planeta, onde, em menor extensão, se despertam mais numerosas variedades de impressões, ostentando quer a terra quer o céu todos os seus multíplices esplendores.

Inúmeros outros autores celebram enlevados as formosuras do Brasil, rico de paísagens para quaisquer preferências.

Ninguém há que, pisando o nosso território, deixe de se encantar pela natureza. Tornou-se proverbial a admiração que ela provoca.

Vistas dela tiradas se exibem como modelos nos mais exigentes centros artísticos.

Sustenta Maurício Lamberg que o céu do Brasil é mais formoso do que o europeu, brilhando aqui a lua e as estrelas como em nenhuma outra região, pois são superiores as nossas condições atmosféricas.

Comprova assim o viajante alemão a verdade dos poéticos conceitos de Gonçalves Dias:

“Nosso céu tem mais estrelas, Nossas várzeas têm mais flores, Nossos bosques têm mais vida, Nossa vida mais amores.”

Na realidade, o firmamento austral encerra mais estrelas de primeira grandeza que o boreal, entre as quais as componentes do famoso Cruzeiro do Sul.

Impossível seria descrever minuciosamente os primores do Brasil, que tais o poeta não encontrava na Europa, e cuja magnificência impressiona os estrangeiros mais que os nacionais, por estarem estes habituados a gozá­la.

No meio de muitas maravilhas que, em grau menor, existem em outras zonas, possui o Brasil, sem êmulas, quatro grandes curiosidades naturais.

São: o Amazonas, a cachoeira de Paulo Afonso, a floresta virgem e a baía do Rio de Janeiro.

Cada uma bastaria, por si só, a notabilizar um pais.

 

Fonte: Afonso Celso,Porque Me Ufano do Meu País, Origem 1908, Editores Laemert & C. Livreiros.

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