Nas matas virgens do Brasil, – que ocupam espaço igual ao de vastos Estados,
– reside um dos espetáculos mais augustos da criação.
Sobrelevam o oceano em mistério, em diversidade de panoramas, em excesso de vida, em magnificência que, ao mesmo tempo, acabrunham a inteligência humana e a arrebatam, acentuando-lhe a idéia das forças superiores regedoras do planeta.
É a natureza em expansão e liberdade máximas: mares e mares de vegetação prodigiosa, nos quais cada onda representa um mundo de cousas preciosas e lindas; silêncio imponente, ou antes, profundo rumorejo, clamor longínquo, indefinida reunião de harmonias, provocando religiosidade e vago terror; cheiros acres e balsâmicos, em abundantes vagas de aromas que o peito haure com delícia, como se fossem remédio para suas misérias e melancolias.
A princípio, o olhar não distingue formas precisas na selva ingente, porém massas espessas, esboços de torres, muralhas, trincheiras, abóbadas, pirâmides, colunas de verdura, formadas de árvores enormes, troncos aglomerados, lianas entrelaçadas, – plantas em baixo, em cima, dos lados, florestas sobre florestas, sucessão interminável de folhagens.
Depois, pouco a pouco, de surpresa em surpresa, vislumbra a portentosa variedade de contornos, dimensões, cores; – configurações brutais ou mimosas, fantásticas ou grotescas, risonhas ou ameaçadoras. Balouçam-se penachos, abrem-se leques, arredondam-se umbelas, suspendem-se candelabros, agitam-se flâmulas, dependuram-se guirlandas, enristam-se lanças, empinam-se mastros arrogantes, carregados de cordagens e galhardetas.
Eis os jequitibás dominadores, os soberanos da mata. Eis o pau-rosa, o pau-cetim, o pauvioleta. Eis os gigantes seculares, isolados, sobranceiros, estendendo a ramagem larga sobre as ramagens inferiores, capazes de abrigarem à sua sombra milhares de pessoas. Eis o jacarandá cognominado pau-santo, de tão belo e útil. Eis a carnaúba que fornece ao cultivador alimentação, bebida, luz, vestuário e casa. Eis inúmeras outras espécies de palmeiras esbeltas, hirtas, altíssimas, em cuja fronde roçam as nuvens. Eis os cipós e trepadeiras que ora caem verticais dos galhos altivos, ora os unem por meio de pontes pênseis, ora os amarram uns aos outros, de modo a confundi-los, ora se lhes enroscam em espirais, ora se distendem como fitas onduladas, ora pendem em festões, ora serpenteiam entre as árvores para, guindados a alturas incríveis, lá em cima, expandir-se eflorescer.
Reparai agora nas orquídeas, de brilhantes e variegados coloridos, com desenhos simétricos que parecem traçados por artista caprichoso em veludo, seda, metais foscos ou polidos. Contemplai os caules elegantes, as copas versudas, as ramarias extravagantemente retorcidas, as plan tas delgadas, corpulen tas, luzentes, de grossura e desenvolvimento sem iguais, crivadas de flores a ponto de se lhes não descobrir mais um único sitio verde, parecendo imensos ramalhetes de ofuscantes matizes. Observai as folhas, sagitiformes algumas; cor de púrpura, cor de fogo; macias e delicadíssimas estas, a pedirem carícias; ásperas, espinhosas, agressivas aquelas; largas ou grotescas terceiras. Admirai mil outras flores, suntuosas ou humildes, resplandecentes, como estrelas, ou em cachos sanguejantes, – pondo manchas azuis, amarelas, roxas, no fundo escuro das balsas.
Não é só no Brasil que pompeiam florestas virgens. Há-as magníficas na Ásia e na África. Mas a floresta brasileira se assinala por qualidades especiais.
Em primeiro lugar, as suas madeiras excedem em formosura e duração às melhores do mundo. Abundam nela plantas medicinais e industriais. Inexaurível a sua seiva! Não lhe causa diferença inverno ou verão. Jamais se despem as árvores; guardam o mesmo viço, dão flores e frutos em qualquer época do ano. Vergam ainda ao peso da safra anterior e já rebentam em botões. O agricultor mal lhe pode vencer a energia invasora. Derriba-se a mata; breve nasce outra mais vigorosa na sede da antiga. Pedras qua em toda parte apenas se revestem de musgo ostentam aqui vigoroso arvoredo. Não se notam espaços livres; arbustos rasteiros preenchem os claros. Terra abandonada vê-se logo assaltada pelo mato. Guarnece o chão basto tapete esmeraldino, pontilhado de pequeninas flores. A densidade é estupenda. Avultam as enrediças, os cerrados impenetráveis. A natureza aqui nunca se esgota ou descansa. Em criação incessante e infinita, tira da própria morte, dos troncos caídos, das folhas secas, novos elementos de vida. Os lugares mais pobres têm o encanto dos velhos parques olvidados.
Não é monótona a selva brasileira. Cada árvore exibe fisionomia própria, extrema-se da vizinha: circunspectas ou graciosas, leves ou maciças, frágeis ou atléticas. Conforme reflexão de ilustre viajante, as matas brasileiras, únicas tão compactas que se lhes poderia caminhar por cima, representam a democracia livre das plantas, democracia cuja existência consiste na luta incessante pela liberdade, pelo ar e pela luz. Preside a essa democracia perfeita igualdade. Não há família que monopolize uma zona com exclusão de outras famílias ou grupos. Espécies as mais diversas medram conjuntamente, fraternizam, enleiam-se. Daí variedade na unidade, múltiplas e diversas manifestações do belo.
Notabiliza-se ainda a floresta brasileira pela ausência relativa de animais ferozes. É muito menos perigosa que as da Índia. Habitam-na incalculáveis populações de mamíferos, abelhas, formigas, cigarras, colibris, lagartos, papagaios, macacos, vagalumes, miríades de borboletas com asas de inefável colorido. Em lindas aves é a mais opulenta da terra.
Garridos regatos deslizam por ela, derramando frescor. Cortam-na caudalosos rios, tão coalhados de plantas aquáticas que, apesar de profundos, não são navegáveis.
O sol doura simplesmente o cimo das árvores.
Não penetra através as grossas cortinas verdes senão de modo crepuscular, produzindo a grave penumbra das catedrais, ou o lusco-fusco das grutas marinhas. Só em espaçadas clareiras avistam-se nesgas de azul. Em geral, a luz soturna e misteriosa empresta às cousas feições sobrenaturais. O conjunto é sublime.
Todos os sentidos ficam aí extasiados. Gozam todos os nossos instintos artísticos. Com efeito, deparam-se-nos na floresta brasileira primores de arquitetura, de escultura, de música, de pintura, e, sobretudo, de divina poesia.
Fonte: Afonso Celso,Porque Me Ufano do Meu País, Origem 1908, Editores Laemert & C. Livreiros.