NO TRANSVAAL. Ràpido esbôço da historia dos Böers–O que sam os Böers–Suas emigrações e trabalhos–Adriano Pretorius–Pretorius – COMO ATRAVESSEI A ÁFRICA
NO TRANSVAAL.
Ràpido esbôço da historia dos Böers–O que sam os Böers–Suas emigrações e trabalhos–Adriano Pretorius–Pretorius–As minas de diamantes–Brand–Burgers–Juizo errado á cerca dos Böers–O que eu vi e que eu penso.
Estou em Pretoria, a Capital do Transvaal, e antes de continuar a narrativa das minhas aventuras, vou dizer algumas palavras da historia d’este paiz e dos seus habitantes. Não se arreceiem os meus leitores do caso. Ainda que um moderno historiador Francez n’um bello livro escreveu a conceituosa phrase, “L’histoire ne commence et ne finit nulle part,” eu prometto-lhes que o ràpido golpe-de-vista que vou lançar sôbre a historia d’este pôvo será tão curto, como curta é ella.
Não sei quando acabará, se é que não findou ja ou está a findar, mas o comêço da vida Böer, desde que essa vida tomou a forma de nacionalidade autonòmica, é dos nossos tempos, é d’este sèculo.
Bartholomeu Dias primeiro, e Vasco da Gama depois, os ousados Portuguezes que afrontáram antes de ninguem as tempestades do Cabo, pensando só na India, como na terra da promissão, pouco ou nenhum caso fizéram da extrema Àfrica do Sul.
Foi só em 1650 que a Hollanda–não o govêrno Hollandez, mas a companhia das Indias–ali fundou uma feitoria, para refrescar os seus galeões em viagem do mar Ìndico, feitoria estabelecida pêlo Doutor Van Riebeck.
Esta feitoria ergueu-se onde hôje assenta a formosa cidade do Cabo.
A companhia das Indias, que pouco se importava com a Àfrica, não pensou em fundar ali uma colonia, e antes pôz tôdos os estôrvos á iniciativa particular, que tendia a cultivar a terra e a commerciar com o indìgena.
Pelejavam-se então na Europa as guerras de religião, e com a revogação do Edicto de Nantes e a perseguição dos Protestantes em França, muitos emigráram, e entre elles alguns fôram para a Hollanda. A companhia das Indias deu-lhes transporte para a Àfrica, e elles aceitando-o pressurosos, fôram deixados no Cabo. Não chegava a duzentos o seu nùmero, e se attentarmos a que, segundo diz a historia, van Riebeck não levou com-sigo mais de cem pessôas; e dando-se mesmo o caso de que essa
população tivesse duplicado no tempo decorrido de 1650 á chegada dos emigrantes Francezes, estes equilibravam em nùmero com a população Hollandeza.
Faço notar esta circunstancia, porque, sendo estes dous elementos que déram principio a essa raça hôje chamada os Böers, quero concluir, que n’esse pôvo, a respeito do qual se tem escrito tão pouco e tão errado, o sangue Francez, se não domina, ao menos equilibra com o Hollandez.
O governo Hollandez, desde o estabelecimento dos emigrados Francezes no Cabo, trabalhou para lhes cortar tôdas as relações com a mãe patria, e o primeiro golpe que n’ellas deu, foi a prohibição do uso da lingua natal, ja na celebração do culto divino, ja nas relações especiaes com o govêrno, e nos actos officiaes.
Custa a comprehender como o obtêve, mas é facto que lhe quebrou aquelle laço que nas futuras gèrações os podia prender á França; e de tal modo, que quando o General Clarke, em 1795, chegou ao Cabo com o Almirante Elphinstone, e se apossou da colonia em nome da Inglaterra, nem um so Böer falava ou comprehendia o Francez.
Muito antes da occupação Ingleza, que se não tornou effectiva senão em 1806, èpocha em que a Inglaterra se apossou definitivamente do Cabo pêla fôrça, desprezando as convenções da paz de Amiens, que restituia aquella colonia aos Hollandezes, ja muito antes os colonos fugiam aos vexames do
govêrno da Hollanda; e internando-se no continente iam longe estabelecer-se onde encontravam bons terrenos para cultura e bons pastos para os gados; preferindo brigar com o gentio e prover á sua propria defêsa, a estar em relações e sôb a protecção de um govêrno que os tornava verdadeiros escravos.
D’ahi data o nome e a vida errante dos Böers, nome bem pouco em harmonia com tal vida, porque Böer quer dizer fazendeiro ou lavrador, o que dá uma idéa de estabilidade, que elles não tinham nem ainda hôje t[~e]m; sendo mais pastôres e nòmadas do que lavradôres sam.
O primeiro que nos fala dos Böers na sua vida quasi primitiva, reduzidos como fôram a prover elles mêsmos ás necessidades da vida absoluta, é Levaillant, que visitou o interior da Àfrica do Sul, antes da Revolução Franceza, isto é, 14 ou 15 annos antes da primeira occupação do Cabo por Clarke e Elphinstone. Levaillant diz muito mal d’elles nas suas relações com as tribus indìgenas.
Trata-os de dèspotas e de abuso constante da fôrça. Devemos dar crèdito ao que diz Levaillant, mas devemos tambem examinar sem paixão as circunstancias em que viviam aquelles homens, duas vêzes emigrantes, e errando sem patria n’um paiz hostil. Accusam-n-os n’esse tempo de abusar da fôrça, quando a fraquêza estava do lado d’elles, como sempre estêve.
Tinham armas é verdade, mas os Cafres tinham o nùmero, e eu sei o quanto vale o nùmero sôbre as armas, e sabe-o hôje a Europa, e sôbre tudo a Inglaterra.
Os Zulos, os Cafres, e os Basutos t[~e]m lh’o ensinado.
Não devemos lançar á conta de espìrito de crueldade, represalias filhas da necessidade de impor o respeito pêlo terrôr a tribus indomaveis e ferozes. O que lançam em rôsto aos Böers de roubarem e dividirem entre si os gados e as riquêzas dos povos vencidos, é hôje admittido como direito da guerra, e a nação vencedôra impõe á vencida um tributo que não é mais do que o que faziam os emigrantes Franco-Hollandezes, aos Cafres vencidos; que não era differente proceder do que tivéram os Inglezes n’aquellas mêsmas paragens no fim das guerras de 1834 e 1846.
Apesar de se terem internado no continente, os Böers so em 1825 passáram o rio Orange, inclinàndo-se a N.E. para fugirem da esterilidade do deserto que se estende ao Norte e N.O. da confluencia do Vaal.
Fôram obrigados a isso pêla falta de chuvas que então houve no paiz que elles occupavam.
A abolição da escravatura depois da guerra de 1834 trazia os Böers descontentes, porque perdiam com ella os braços que os ajudavam.
Sem patria, sem historia, e por isso sem amor a nenhuma terra, elles começáram uma nova emigração em massa, e o nùmero dos fugitivos que passáram o Orange foi avaliado em oito mil.
Elegêram então um chefe, e recahio a escôlha em Pieter Retief, cujo primeiro passo foi, expedir uma nota ao govêrno do Cabo, na qual lhe dizia, que eram livres e livres iam escolher um paiz para habitar.
Nessa nota havia exarada a intenção em que estavam de viver em paz com o gentio, de não admittirem a escravatura, e de estabelecerem nìtidamente quaes as relações que deviam existir entre amos e criados.
Receando dos Cafres, os Böers, passado o Orange caminháram ao norte, mas fôram, nos Zulos que occupavam a margem direita do Vaal, encontrar inimigos mais terriveis do que aquelles que evitavam.
O cèlebre Muzilicatezi, que depois se tornou conhecido como rei do Matebeli, tentou sustar a marcha dos emigrantes, e por isso elles tivéram de pelejar uma sangrenta batalha, em que leváram de vencida o
valente chefe Zulo.
Então Pieter Retief dirigio a caravana a leste, e tendo noticias de um paiz magnìfico que se estendia para àlém da Cordilheira do Drakensberg até ao mar, guiou para ali a sua horda de aventureiros.
Ao chegar ao paiz desejado, um nôvo obstàculo lhe veio tolher o passo.
Uma tribu poderosa e guerreira procurou destruir aquelle punhado de valentes. Fôram mortìferos os combates travados entre Retief e o chefe Cafre Dingam, e n’um d’elles a victoria dos Böers custou a vida do seu chefe Retief, e a Gert Maritz seu immediato.
Senhores das terras de Natal, os Böers escolhêram uma posição magnìfica para fundar uma cidade, e elegêram um nôvo chefe. A cidade têve o nome de Pietermaritzburg, nome que foi um monumento immorredouro levantado á memoria dos dois primeiros chefes Böers.
O homem escolhido para nôvo chefe foi Adriano Pretorius, que tempo depois devia ser o primeiro presidente da rèpùblica Transvaaliana, e cujo nome devia ser perpetuado como os de Retief e Maritz na futura capital dos Böers.
De 1840 a 1842, os emigrantes vivêram tranquillos, cultivando a terra e apacentando os gados na sua nova patria.
Pensavam mesmo ja em firmarem a sua autonomia, constituindo-se em rèpùblica sôb o protectorado de uma nação Europea; quando Sir George Napier, por ordem do govêrno da Metropoli, mandou occupar a Natalia por fôrças Inglezas, fazendo saber aos Böers que a Inglaterra não consentia que os seus sùbditos formassem estados independentes sôbre as costas marìtimas.
Pretorius recebeu muito mal o enviado de Sir George Napier, e foi junto a Pietermaritzburg que se trocáram as primeiras ballas entre Böers e Inglezes. Prevenido da resistencia dos Böers, o governador do Cabo reforçou as tropas de Natal e esmagou a insurreição. A pouca sympathia que os Böers votavam aos Inglezes, desde esse dia converteu-se em aversão profunda.
Começou para os emigrantes uma nova èpocha de àrdua peregrinação, e abandonando a terra escolhida, fôram novamente procurar um paiz àlém do Drakensberg, um paiz onde podessem ser livres e senhôres.
Ao passar a elevada cordilheira espalháram-se ao norte e ao sul do Vaal; estabelecendo as suas residencias no terreno comprehendido entre o Vaal e o Orange, e mesmo ao norte sôbre a margem direita do Vaal, onde fundáram a cidade de Potchefstroom, em 1843.
Sabendo que o Govêrno Inglez considerava aquelle paiz como seu, e como seus sùbditos os habitantes, Pretorius persuadio a muitos dos Böers o emigrar de nôvo, e com elles caminhou ao norte. Têve de bater-se com os Zulos, que, vencidos n’uma ùltima batalha no Pico Botes, fôram rechaçados para àlém do Limpôpo, onde o seu chefe Muzilicatezi estabeleceu o reino do Matebeli.
Foi então que fôram fundadas mais duas povoações, Lydenburg e Zoutpansberg.
É preciso notar, que a cada nova emigração, muitos dos Böers se recusavam a seguir o enthusiasmo pêla liberdade que inflammava outros, e conservàvam-se nos paizes abandonados, tendo, por isso, de se sujeitar ao govêrno Inglez.
Foi assim que muitos não deixáram as suas residencias entre o Orange e o Vaal, e cortáram, por assim dizer, relações com aquelles que emigravam sempre. Esse nùcleo que ficou, deu origem aos que hôje formam o Estado livre do Orange, e ali fundáram a cidade de Bloemfontein, sua capital.
Lord Grey, sendo Ministro das Colonias em Inglaterra, em 1852, entendeu que eram bastante grandes e ruinosos os dominios Inglezes na Àfrica, e resolveu de limital-os.
Querendo, ainda assim, fazer as cousas em grande e talhar por largo, deu ordem ao Governador do Cabo para declarar o Vaal como fronteira norte dos dominios Britànicos, e para conceder os direitos de autonomia aos sùbditos Inglezes que se estabelecêssem àlém d’aquelle limite.
É d’esta data o tratado feito com os Böers, pêlo qual a Grã-Bretanha os reconheceu livres e lhes concedeu os direitos de autonomia; é d’esta data que têve um nome o paiz comprehendido entre o Vaal e o Limpôpo; é d’esta data que o govêrno do Transvaal se constituio definitivamente; é n’esta data que Adriano Pretorius foi eleito presidente da nova rèpùblica.
Os Böers insurgentes, os teimosos em fugir ao jugo estranho, acabavam de constituir uma nação, de crear um paiz, e de estabelecer a sua liberdade; ao passo que os Böers fiéis aos Inglezes so em 1854, mais de um anno depois, fôram livres e podéram constituir-se em nação, formando o Estado Livre do Orange.
É verdadeiramente admiravel ver estes grupos, onde não abundavam os recursos de instrucção, porque o Böer so lê e so conhece a Biblia; ver estas gentes ignorantes dos regimens governativos, a que fugiam havia um sèculo, de repente constituìrem-se em nações, formarem um systema governativo, elegerem assembleas nacionaes, e legislarem sensatamente!
Adriano Pretorius foi um homem a todos os respeitos notavel, e que teria feito um nome mêsmo entre povos menos rudes do que os Böers.
Inflammado pêlo ardor da liberdade, sabia incutir o seu enthusiasmo no ànimo dos que o rodeavam, e pertinaz n’uma idéa grandiosa, vio coroados de èxito os seus esforços, dando uma pàtria aos seus, e fixando n’um paiz riquissimo, tôdo um pôvo disperso.
Este grande homem apenas entrevio a sua obra, porque morreu ao concluil-a. O suffragio geral levou ao poder seu filho, do mesmo nome, criado nos mesmos enthusiasmos de seu pai.
O nôvo Pretorius procurou dar melhor organização aos serviços da nação, mas o mesmo desejo de liberdade que animava os Böers a fugirem ao dominio Inglez, fazia que muitos procurassem escapar ao dominio do governo central da Rèpùblica. Contudo, encontràvam-se sempre que era preciso ligar-se contra um inimigo estrangeiro, e as muitas guerras que sustentáram para acalmar os indìgenas, sempre hostís, sam d’isso prova.
Em 1859, os Böers do Estado Livre do Orange acclamáram seu presidente a Pretorius, que, director supremo dos negocios das duas rèpùblicas, pensou logo em levar a effeito uma união vantajosa para os interesses communs.
O govêrno Inglez andou de tal modo n’essa questão, que Pretorius nada pôde alcançar, e abandonando Bloemfontein, voltou ao Transvaal, onde tomou de nôvo a direcção dos negocios pùblicos.
D’ahi até 1867, aquelles dois povos, que apenas contavam um 15 outro 13 annos de existencia autonòmica, não fôram perturbados no seu viver rude e pacìfico, a não ser por pequenas questões com o gentio logo acalmadas; mas, em 1867, os Böers dos dous estados, Transvaal e Orange, fôram sorprendidos por uma noticia que veio perturbar por um momento a sua vida tranquilla. Nas fronteiras oeste dos dous estados, tinham sido descobertas as suas ricas e prodigiosas minas de diamantes, e aquelle pedaço de terreno promettia uma riqueza inexgotavel ao seu possuidor.
Naturalmente Böers do Transvaal e Böers do Orange lançáram para elle as vistas cubiçosas.
A terra que de um momento a outro tomou tão grande importancia, e que, como o Brazil, a California e a Australia, chamou logo a si aventureiros de tôdas as nações, pertencia a uma tribu, os Gricuas, mestiços de origem Böer, que a esse tempo eram governados por um tal Waterboer, que não perdeu tempo em fazer valer os seus direitos ao terreno cubiçado.
Entre os aventureiros que o fulgor dos diamantes atrahia áquella nova Golgonda, abundavam Inglezes, que excediam todos os outros em nùmero.
A vontade de se apossar do terreno diamantìfero so foi manifestada claramente pelos Böers do Orange em 1870, anno em que o presidente Brand convidou Waterboer a uma conferencia, e procurou convencel-o de que era senhor, por direitos adquiridos, do cubiçado thesouro.
Waterboer não se deixou convencer, e retirou para o seu paiz, teimoso em querer continuar a ser senhor d’elle.
O presidente Brand, pêla sua parte, não cedeu tambem, e publicou uma proclamação, em que dizia ser dos estados do Orange a terra dos Gricuas, enviando logo ali um delegado da rèpùblica para se estabelecer como governador.
Os Böers do Transvaal a esse tempo procuravam de traçar nìtidamente as fronteiras do seu paiz, e acabavam de referendar com Portugal o tratado da demarcação da sua fronteira de Este, negociado, em Julho de 1869, entre o proprio Pretorius e o Visconde de Duprat, commissionado, para isso, pêlo Govêrno Portuguez. O tratado de 1852 definia sufficientemente as suas fronteiras sul e su-este, mas as outras fronteiras eram demarcadas, a Norte pêla môsca zê-zê junto ao Limpôpo, e a oeste, por cousa nenhuma.
Entendeu pois Pretorius, que tanto direito tinha o presidente Brand como elle á posse da terra Gricua, e mandou para ali um delegado official da Rèpùblica, como o Orange mandara o seu.
Havia três annos que a primeira pedra d’esse carvão puro e scintillante, a que a vaidade humana deu um tão extraordinario valor, apparecêra nos perdidos sertões da Àfrica do sul, e ja nos terrenos saibrosos onde as mãos àvidas de centenares de aventureiros escavavam os pequenos seixos, se levantava uma cidade opulenta, onde formigava a vida e a civilização da Europa.
Era Kimberley. Era uma maravilha edificada com diamantes, como S. Francisco da California foi edificada com ouro. Era um d’esses prodigios que brotam da terra, junto á mina que se explora, que crescem ràpidos em grandeza e em civilização, que t[~e]m um commercio nôvo e forte, que arroteia terreno virgem, que t[~e]m um cèrebro nôvo e inventivo, e que nascido hôje, àmanhã desenvolvido pêlas fôrças novas que o avigoram, effeitúa agora em mêzes e semanas, o que antes demandava sèculos e annos.
A mina é o mais poderoso principio do desenvolvimento de uma terra virgem.
A mina é o mais poderoso incentivo da colonização de uma terra agreste.
Scintille o diamante, fulgure a pepita do ouro, negreje o bloco de hulha, lance a mina do seu seio cavernoso, o cobre, o ferro e o chumbo, e ali no deserto julgado àrido, em tôrno do chumbo, ferro, cobre, hulha, ouro e diamante, nasce a vida, cria-se a civilização, e o progresso caminha ràpido como os seus modernos elementos, o vapor e a electricidade.
Hontem as enxadas rudimentares dos indìgenas esgravatavam uma polegada de terra, e hôje as locomòbiles poderosas, lançando aos ares o grito da civilização no sibilar do apito, vam movendo arados que revolvem fundo a terra, virgem desde a sua formação geològica, e vem trazer á superficie em glebas recurvadas o pedaço de solo que nunca cuidou ter outro movimento àlém do que as leis do Creador lhe marcáram no espaço infinito.
Ali, onde hontem um rio caudaloso apresentava barreira insuperavel aos passos do raro caminhante, hôje uma ponte construida de bocados de ferro ligados em harmònica architectura pelas leis sublimes da sciencia, dá facil passagem a uma população condensada, que nem sequér pensa nas àguas revôltas que lhe correm aos pes.
O pàntano que hontem exhalava o miasma pestilento, está hôje convertido em parque ameno, cujas àrvores modificam a atmosphera e o clima.
O ferro que, hontem elementarmente tirado da terra, apenas servia para a imperfeita ponta da azagaia bàrbara, corre hôje nas fôrmas gigantescas, e resfriando em forma de rails, vai estender-se n’essas arterias enormes onde pulsa o sangue das nações modernas.
Do trabalho e da creação material nascem novas idéas, o cèrebro reforça-se, as faculdades creadôras do engenho humano desprendem-se mais e mais, e vôam longe, trazendo cada dia novos e poderosos elementos ao progresso e riquêza das nações.
Foi assim que a Amèrica em um sèculo passou àlém da Europa, é assim que a Àfrica um dia irá àlém da Amèrica.
Na terra Gricua, onde, em 1867, apenas cabanas abrigavam uma população bàrbara; em 1870 elèva-se uma cidade Europea, ainda envôlta no cahos das populações nascentes, mas sentindo em si tôdos os elementos de progresso ràpido. N’estas condições, não podia admittir sequér a dominação de
povos tão atrazados como Böers e Gricuas.
Muito occupada de si mesmo para se poder occupar de vizinhos importunos, apellou para a Inglaterra.
O diamante e o ouro tem o poder sobrenatural de fascinar o rei como fascina o proletario, e se Böers e Gricuas estavam offuscados pêlo brilho dos diamantes Africanos, a Inglaterra não deixou de se commover ás scintillações dos seixos preciosos, e decidio logo no seu cèrebro intelligente e cùpido, que a terra Gricua era sua e não podia ser d’outrem.
Á proclamação do presidente Brand seguio-se uma proclamação do Governador do Cabo, em que se dizia, pouco mais ou menos, que a terra pertencia aos Gricuas, e que os Gricuas pertenciam á Inglaterra.
Esta proclamação precedia o proprio Governador, que entendeu dever ir ao logar do litigio.
A recepção que lhe foi feita pêlos mineiros, foi enthusiàstica e esplèndida.
Os Gricuas, que se sentiam fracos em presença dos Böers, uníram-se naturalmente á Inglaterra.
Então o Governador, forte com o apoio de mineiros e Gricuas, entrou abertamente em negociações com os Böers dos dous Estados, e fàcilmente chegou a convencer Pretorius á desistencia dos seus direitos mais do que problemàticos. Não aconteceu porem o mesmo com o presidente Brand, que não so recusou a proposta de ser a questão decidida por uma arbitragem do Governador da Natalia, pedindo que essa arbitragem fôsse de um dos soberanos da Europa, e ainda mais, fazendo reunir uma fôrça consideravel de Böers para empregar as armas como argumento supremo. O Governador procurou e conseguio prudentemente soster esta manifestação guerreira do Estado Livre, que teria sèrias consequencias n’aquelles paizes.
Ao mesmo tempo, o govêrno Inglez annexava ao Cabo o paiz diamantìfero, sem se importar muito com o que ali se passava.
Brand todavia não desistia dos seus direitos, como Pretorius.
Este, Böer, e tendo apenas a educação rudimentar dos Böers, aprendida nas pàginas da Biblia, vivia e sustentava-se mais pêlo nome herdado de seu pai, do que pelas suas qualidades pessoaes. Fôra mais facil á Inglaterra tratar com elle do que com o presidente Brand, filho da Colonia, mas possuindo uma bella intelligencia, uma vasta erudição, e todas as tricas e chicanas de advogado que é.
Brand foi educado na Europa, é doutor pêla Universidade de Leyde, tem carta de jurisconsulto nos tribunaes de Inglaterra, e foi professor na escola do Cabo. Um homem n’estas condições, e dotado de um caracter enèrgico e forte, não se calava em presença das annexações da Inglaterra, e continuou a gritar e a provar que a terra Gricua era sua propriedade.
Em seis annos fez seiscentos protestos, até que um dia Lord Carnarvon, o estadista Inglez, que melhor tem sabido comprehender os interesses coloniaes da Grã-Bretanha, o convidou a ir a Londres tratar directamente com elle a interminavel demanda.
Brand em Londres continuou a pugnar pelos interesses do seu paiz, e cedeu os direitos á terra Gricua mediante uma indemnização pecuniaria de 105 mil libras.
Foi assim que Lord Carnarvon cortou de uma vez para sempre as complicações entre os Böers do Estado Livre e as Colonias Inglezas do Sul d’Àfrica.
Brand aproveitando a somma recebida em favor do seu paiz, tratou de lhe dar tôdo o desenvolvimento que uma pequena nação pode ter, com uma pequena quantia como aquella.
Mas deixemos os Böers do Orange, dos quaes falei apenas por se ligar a sua curta historia com a do Transvaal, e voltemos a este paiz.
Como disse, Pretorius transigio logo com o Governador do Cabo na questão da posse da terra Gricua, e isso foi motivo para se desacreditar entre o seu pôvo.
A assemblea nacional (Volksraad) apresentou um voto de censura ao seu presidente, e preciso foi depol-o, e escolher quem o substituisse.
Foi então eleito um Hollandez, Francisco Burgers, o terceiro presidente da rèpùblica Transvaaliana.
Francisco Burgers, homem intelligente e illustrado, ministro protestante da Igreja reformada, pensou, logo que assumio o poder, levantar o Transvaal ao nivel das nações adiantadas da Europa. Tôdas as idéas do ùltimo presidente eram nobres e elevadas, mas não podemos deixar de admittir que elle commetteu erros manifestos de administração. Burgers não era homem pràtico, e não conhecia sufficientemente o elemento que governava, para saber como lhe dar o feitio que elle lhe queria dar.
É sempre melindroso falar de um alto personagem que vive, quando a crìtica tem de analysar os seus actos, e se eu não me posso eximir a falar do D^{or.} Burgers, porque á sua administração se ligam factos da maior importancia, não quero de modo algum impor a minha opinião a respeito do governo do ùltimo presidente do Transvaal.
Direi abertamente o que penso, e que formem os outros os juizos que quizerem.
Durante a minha estada no Transvaal, não deixei de indagar, por tôdos os modos ao meu alcance, os factos da ùltima administração Böer, e sôbre elles edifiquei a opinião que vou expor.
O presidente Burgers, tomando conta do Govêrno, quiz caminhar mais depressa do que devia n’um terreno tão pouco nivelado. As questões financeiras fôram as que primeiro chamáram a sua attenção, e bem preciso era isso, porque no Transvaal não haviam finanças.
As despezas de administração eram pequenas, é verdade, mas as receitas geraes eram pequenissimas e mui irregularmente cobradas. Havia algum papél moeda e pouco dinheiro Inglez.
Burgers cunhou moeda de ouro extrahido das minas de Lydenburg, e conseguio em pouco tempo restabelecer o crèdito, muito abalado, do seu paiz adoptivo. Para isso têve lutas ingentes e ignoradas, com um pôvo pouco subordinado, e disseminado n’um territorio enorme, onde as communicações eram e sam ainda hôje difficeis, e onde ainda não foi possivel fazer um censo aproximado. Outro assumpto importante que preoccupava o presidente, era a questão da fôrça pùblica. Elle percebia bem que o systema de defêsa empregado até então pelos Böers, a que chamavam o commando, isto é uma convocação geral para a guerra, era muito deficiente, e não podia continuar, n’um estado que elle queria
elevar á altura dos paizes Europêos.
A questão de regularizar um exèrcito entre os Böers apresentava grandes difficuldades, e encontrou uma sèria opposição.
Um terceiro ponto de não menos importancia a tratar, e do qual se occupou logo o presidente, foi o da viação pùblica.
Burgers instituio os primeiros juizes, e abrio as primeiras escolas pùblicas no Transvaal.
Isto era muito para um pôvo na infancia, e foi feito de repente.
N’isso e só n’isso commetteu um êrro o presidente da rèpùblica.
Uma especie de febre de progresso se apossou do D^{or.} Burgers, que fez uma viagem á Europa, em 1875, com o duplo fim de arranjar dinheiro e um pôrto de mar ao seu paiz.
Para o dinheiro foi bater á porta dos Banqueiros de Amsterdam, para obter um pôrto foi pedil-o ao govêrno de Lisboa.
Em Amsterdam como em Lisboa foi escutado, e ao passo que obtinha um crèdito na Hollanda, fazia um tratado em Portugal para uma ferrovia que ligasse Pretoria ao soberbo pôrto de Lourenço Marques.
Burgers voltava triumphante ao Transvaal, onde o esperavam as maiores decepções.
Durante a sua ausencia, havia-se renovado uma antiga pendencia com um règulo indìgena, Secúcúni, ao qual era preciso fazer a guerra.
Burgers não hesitou, e fez convocar um commando ao qual adheríram uns dois mil Böers e outros tantos indìgenas. Elle mêsmo se poz á frente do pequeno exèrcito e foi atacar o règulo sublevado.
Ou fôsse que Burgers não nascêra para general, ou fôsse por uma d’essas outras causas difficeis de apreciar, que tantos desastres t[~e]m causado ás tropas regulares Inglezas em Àfrica, o pequeno exèrcito, depois de uma curta guerra em que poucas vantagens alcançou, têve de retirar.
A êsse tempo chegava ao Natal Sir Theophilus Shepstone, que ia de Londres, onde Lord Carnarvon sempre na idéa de fazer uma confederação dos estados da Àfrica do Sul, tinha feito reunir delegados das diversas provincias para discutir tal projecto.
Parece que Sir Theophilus Shepstone levava instrucções do govêrno Inglez a respeito do Transvaal, porque, logo que chegou a Durban, seguio para Pretoria.
Não quero de modo algum entrar, n’uma obra do caracter d’esta, em apreciações sôbre o facto da annexação; e por isso limitar-me-hei a narrar os factos com a verdade que até hôje não tem sido dita. Para bem se comprehenderem esses factos, é preciso mostrar o que era o Transvaal á epocha da chegada de Sir Theophilus a Pretoria.
A população Böer, difficil de avaliar, mas que os càlculos mais aproximados faziam montar a vinte-e-uma mil almas, estava espalhada n’um territorio immenso, igual em superficie á Inglaterra e Escocia reunidas.
N’esse grande paiz três cidades apenas eram nùcleos de uma população mais condensada, e algumas aldeas separadas por distancias enormes, augmentadas ainda pêla difficuldade das communicações, reuniam pequenos grupos de habitantes.
As três cidades, Potchefstroom, Pretoria e Lydenburg continham populações, que eram tudo menos Böers. As minas do ouro haviam attrahido a Lydenburg aventureiros de todas as nacionalidades, predominando o elemento Inglez importado da Australia.
Pretoria era uma cidade nascente em que predominava o elemento Hollandez, mas não Böer.[13]
Potchefstroom era de todas aquella que era habitada por maior nùmero de Böers, mas ainda assim, elles estavam em minoria em presença dos Hollandezes e Inglezes.
As aldeas, das quaes as mais importantes eram Rustenburg, Marico, e Heidelberg, ja tinham a população Böer misturada com Inglezes e Hollandezes. A grande população Böer estava disseminada em casaes, e fugia naturalmente das cidades onde não podia fazer pastar os seus gados.
Se era difficil fazer um recenseamento da população branca do Transvaal, mais difficil era ainda avaliar a população indìgena. Tenho visto càlculos que a estimam de duzentas a novecentas mil almas.
O paiz estava coberto de missões de três ou quatro differentes sociedades de Inglaterra, de algumas Allemãs, e outras Hollandezas. Estes missionarios exerciam a sua acção sôbre o indìgena, porque Hollandezes tinham os seus pastores nas parochias, e Böers que sabem tanto de Biblia como os pàrochos, até d’elles prescindiam.
A sêde do govêrno estava em Pretoria, a mais pequena das três cidades do Transvaal, mas aquella que melhor se acha collocada.
Os homens que tinham a direcção principal dos negocios pùblicos eram Hollandezes.
Esta era a posição da população heterogènea do Transvaal em principios d’Abril de 1876.
Vejamos agora ràpidamente, qual era a posição moral, verdadeira ou apparente, dos Böers.
Primeiro examinemos qual o juizo que fora d’Àfrica se fazia dos Franco-Hollandezes da rèpùblica Africana. Era elle de certo pèssimo.
O Böer era um selvagem branco, possuindo todos os maos instinctos do selvagem, àvido de rapina, devastando e incendiando as aldeas do indìgena, pobre martyr da brutalidade e rapacidade de tão extraordinario malvado.
Foi assim que elle nos foi apresentado por alguns missionarios, os ùnicos que na Europa nos davam noticias dos antigos emigrantes do Cabo.
Forte contra o fraco, o Böer era cobarde e fraco em presença do forte.
O que havia de verdade n’este juizo eu o direi ao diante.
Então estavam elles moralmente desconceituados para com aquelles que apenas os conheciam por informações; e tinham perdido um pouco o prestigio entre o gentio pêlo revez soffrido com Secúcúni. Falavam mesmo, e entre elles discutia-se a questão, de depor o presidente Burgers, elegendo para seu chefe um Böer, P. Kruger, que estava dispôsto a tirar a desforra do indìgena Secúcúni.
N’estas circunstancias a annexação era facil, e Sir T. Shepstone soube aproveital-a. As cidades que não tinham nada de Böers, eram por elle, e n’ellas se obtivéram facilmente petições, que, digamos a verdade, eram dirigidas por Inglezes.
Tambem se disse, que os prêtos queriam ser Inglezes; e então Sir T. Shepstone, por uma proclamação, de 12 de Abril de 1876, declarou que o Transvaal era uma provincia Ingleza. Sir Theophilus Shepstone quando fez a proclamação estava escoltado por 25 homens apenas, que estavam acampados em barracas no jardim da casa que elle habitava.
Assim, pois, a annexação do Transvaal foi pacìfica, e não interveio n’ella a fôrça armada, que elle mesmo não tinha, porque o regimento 80 de infanteria, que, debaixo do commando do Major Tyler, depois entrou no Transvaal, estava a esse tempo acampado na fronteira do Natal àlém do Drakensberg. A annexação foi pacìfica, mas os Böers so soubéram d’ella depois de annexados.
Sir Theophilus Shepstone, o homem que melhor conhece e melhor sabe viver com o indìgena d’aquellas paragens, soube o que fez.
Os Böers, espantados de se acharem Inglezes de um dia para outro, tivéram o seu movimento instinctivo e hereditario de emigrarem de nôvo.
Uma parte d’elles tomáram a vanguarda n’esse movimento que se devia effeituar em massa, e ja narrei no capìtulo anterior como fôram, pêla maior parte, destruidos pêla secura do Deserto.
Aquella immensa catàstrophe sustêve os que lhe deviam seguir os passos, e perfeitamente apertados n’um cìrculo de môsca zê-zê, que lhes era barreira insuperavel, tivéram que curvar a cabêça de nôvo ao jugo da Inglaterra.
¿Acabará aqui a historia do Transvaal como paiz autonòmico?
¿Quem o sabe?
É preciso ter vivido entre os Böers para se avaliar quão forte é n’elles o desejo da liberdade, quão profundo o odio que votam aos que chamam seus oppressôres.
Deixemos por aqui este ràpido golpe-de-vista lançado sôbre a curta historia do Transvaal, mas antes de reatar o fio da minha narrativa de viagem, quero ainda dizer duas palavras sôbre os Böers.
Vivi entre elles, perscrutei a sua vida ìntima, desci a exacerbar-lhes as paixões. Vi-os ao trabalho, cavalguei junto d’elles por brenhas e florestas, e apreciei a sua destreza como caçadores, a sua coragem em face do perigo.
Não me preoccupa a paixão; se recebi d’elles as mais affectuosas provas de amizade, ja por mais de uma vez n’este livro tenho patenteado a minha gratidão a favôres maiores recebidos de Inglezes.
Falo, pois, com a consciencia de que as minhas palavras sam a mais rigorosa expressão da verdade, sem que no meu espìrito haja ao dictal-as a menor influencia apaixonada.
Digo isto, porque mais uma vez tenho de falar dos missionarios, falando dos Böers, e não desejo que nem de leve se pense, que actua no meu ànimo um acinte formado contra tão uteis instituições, que eu sou o primeiro a proteger e a approvar; mas cujas chagas ulcerosas precisam do corte fundo do escalpêllo da crìtica, do cauterio ardente da censura verdadeira, para cicatrizarem de uma vez para sempre.
O Transvaal não é uma nação que se possa avaliar pêlas nações da Europa.
Ali ha uma só classe social–o Pôvo. Não ha distincções e tôdos sam iguaes em absoluto. Sem escolas, tôdos sam ignorantes; trabalhadôres, tôdos sam abastados; religiosos, e bebendo na Biblia, ùnico livro que conhecem, as leis da moral, tôdos sam honestos.
O principio que estabeleceu, na idade media, as distincções na Europa, a coragem pessoal, difficil é ter cabida entre os Böers, porque tôdos sam valorosos. Como entre tôdos os povos que vivem uma vida elementar, só toma ascendente sôbre os outros, aquelle que tem o dom da palavra.
A vida do Böer é regulada pêlos preceitos Bìblicos, e é verdadeiramente patriarchal. Entre os Böers não ha a mentira, o adulterio é desconhecido.
O Böer casa cêdo, e ou fica vivendo na casa de seus paes, ou dos paes de sua mulhér, ou unido a outro vai perto arrotear novos terrenos, e começar uma vida nova. A ùnica distincção entre os Böers é a da idade, e o mais nôvo escuta sempre o mais velho. A mulhér trabalha e ajuda o casal n’um labutar incessante. O Böer tem necessidades muito limitadas, e pode satisfazel-as.
Os emigrantes Francezes da revogação do Edito de Nantes eram, muitos d’elles, artìfices, e transmitíram até á gèração actual a arte de trabalhar a madeira e o ferro. Nas casas do Transvaal é facil ver a um canto um tôrno, e um Böer torneando os pés das suas mobilias singelas.
Fora, n’um alpendre, em atanaría rudimentar, curtem-se os coiros de que elles mesmos fazem o seu calçado.
As outras necessidades da vida sam facilmente satisfeitas por gentes que não t[~e]m outra ambição àlém da liberdade, e que ha um sèculo a buscam quasi em vão.
¿Como, pois, sendo os Böers taes como eu os descrevo, se diz d’elles tanto mal?
A explicação do facto está em pouco para quem viveu no Transvaal, entre elles, e isento da paixão de raça que pode perturbar o espìrito mais justo e sisudo. Quem tem desacreditado os Böers sam os missionarios. Digo-o e sustento-o. Depois que os Böers, occupando o Transvaal, e pacificando pêla fôrça as aguerridas tribus que lhes disputáram a posse, déram uma certa segurança ao paiz, dezenas de missionarios corréram a estabelecer-se ali.
D’estes uns eram bons, muitos maos. Preciso dizer aqui o que é o bom e o que o mao missionario.
Bons sam aquelles que, intelligentes e illustrados, possuindo as qualidades que se requerem nos ministros de Deos, caminham para o seu fim desassombradamente; edificando com paciencia, com paciencia soffrendo o revés de hôje na esperança do triumpho de àmanhã; ensinando a moral com o exemplo e com a palavra; indo de vagar sem a agitação da paixão que cega, possuidos da responsabilidade da sua missão augusta.
Bons sam aquelles que á intelligencia e illustração reunem aquellas flôres d’alma de que falei.
Estes existem, mas infelizmente sam em pequeno nùmero.
Maos sam os missionarios que, pouco intelligentes e quasi ignaros, pensando que a sciencia da vida consiste em saber mal e interpretar peior algumas passagens dos Livros Santos, empregam tôdos os meios, mais ou menos dignos, para alcançar um fim ficticio; e corroïdos do veneno da vaidade, ou movidos pêlo interesse pessoal, querem apresentar ás sociedades que os enviam, resultados extraordinarios, alcançados por meios que não se avaliam na Europa, e que sam a causa principal da prolongação da luta travada em Àfrica entre a civilização e a barbària.
Para estes, o fim principal é insinuar-se no ànimo do indìgena, e na falta de qualidades que lhe ensinem o caminho a seguir, usam um meio facil para obter o seu fim, meio que lhes dá sempre bom resultado.
É elle o de prègar a revolta.
Para os ouvidos do indìgena é sempre mùsica harmoniosa a frase que o ensina a revoltar-se contra o branco.
Os missionarios que t[~e]m pouco saber e pouca intelligencia começam por gritar-lhe, a cada hora, a cada momento, no pùlpito sagrado, que so deve ouvir a linguagem da verdade; que elles sam iguaes ao branco, sam iguaes ao homem civilizado; quando so lhes deveriam dizer o contrario, quando so lhes deveriam dizer:–”Entre ti e o Europêo ha uma differença enorme, e eu venho ensinar-te a vencel-a.”
“Regenèra-te, deixa os teus hàbitos de indolencia, e trabalha; deixa o crime, e pratica a virtude que eu te ensinar; aprende e deixa a ignorancia; e então, e so então, poderás alcançar um logar junto ao branco; poderás ser seu igual.”
Esta é a verdade que lhe ensinam os missionarios bons, esta é a verdade que lhe não sabem dizer os maos.
Dizer ao selvagem ignaro, que elle é igual ao homem civilizado, é mentir, é commetter um crime, é faltar a tôdos os devêres que lhe impoz aquelle que o mandou á Àfrica, é atraiçoar a sua missão sagrada.
Dizer ao selvagem ignaro, que elle é igual ao homem civilizado, é abrir a jaula á fera diante do pôvo descuidôso que tranquillo está confiado em que a chave está em mão segura.
Não! o indìgena, tal como o missionario o encontra n’Àfrica, não é igual ao homem civilizado, está muito longe d’isso.
N’elle estam adormecidos os instinctos bons, para so se revelarem os maos.
N’elle ha a indolencia e o horror ao trabalho; n’elle ha a ignorancia absoluta: e bastam estas qualidades más, àlém de outras, para cavarem um abismo entre elle e o branco.
O systema seguido pêlos missionarios maos é o estabelecimento da desordem; é a maior barreira levantada ao progresso da Àfrica Austral.
Os Böers, tendo conquistado um paiz de ha pouco, em breve percebêram que, se alguns missionarios eram auxilio poderoso á sua dominação, outros lhe criavam conflictos e obstàculos.
Começáram, pois, a fazer guerra a estes, que procuráram logo desconceitual-os aos olhos da Europa.
D’ahi nasce o exàgero da ma fama dos Böers. Esta é uma verdade que eu tenho a coragem de dizer n’um livro d’estes, e que ninguem ainda disse antes de mim.
Vivi entre os Böers, ouvi a muitos exaltar as qualidades de tal ou tal missionario, e deprimir os actos de outros e outros. Vivi em Pretoria, e ali, n’um meio muito superior, ouvi a mesma cousa, de Hollandezes e Inglezes. Vivi com missionarios, e encontrei n’elles mesmos as verdades que affirmo.
Não t[~e]m d’isso culpa as bem-intencionadas sociedades que os subsidiam; não t[~e]m d’isso culpa as autoridades que os apoiam, e que sam d’elles muitas vêzes as primeiras vìctimas.
O missionario deve ser um dos primeiros elementos da futura civilização, e d’elles devemos esperar muito; mas, taes como muitos sam, so dam resultados contraproducentes.
O mao missionario prègou a revolta, e o Böer foi atacado. Houve guerra cruenta, e para a Europa fôram relatados os factos horrosos praticados pêlos Böers, contra os bons, innocentes, e pacìficos indìgenas!!
¡Não nos ceguemos, nos nossos bem intencionados sentimentos, a ponto de admitirmos absurdos, de sonharmos chimeras!
¡Eu ja li em alguma parte, que o Böer era muito inferior ao nêgro!!
¡Outra asserção que ja ouvi affirmar tambem, foi, que o Böer era refractario ao progresso!
¡Outro absurdo, outra aleivosia, sahida da mesma fonte!
Não é o missionario o homem que hade levar o adiantamento ao Böer, e a razão d’isso é o meu principal argumento contra a obra de muitas missões, contra o caminho errado que seguem em Àfrica.
Ja tive occasião de falar em missionarios bem intencionados, mas que erravam na sua missão querendo ensinar as abstracções da theologia aos prêtos. Esta verdade revela-se no nada que elles obt[~e]m junto aos Böers.
O Böer sabe tanta theologia como o missionario, se não sabe mais do que muitos, bebida na Biblia, ùnico livro que elle lê e estuda.
O missionario que julga o seu trabalho ser ensinar a Biblia, nada tem que ensinar ao Böer, e deixa-o no estado em que o encontrou.
¡Depois grita, que o Böer é refractario ao progresso!
Sim! elle não adiantou um passo, porque o não soubéram fazer avançar. A culpa não está no discìpulo, está no mestre.
Outra aleivosia levantada contra os fazendeiros do Transvaal, é o ferrête de cobardes que lhes querem imprimir na fronte altiva.
Eu tive occasião de avaliar a coragem dos Böers; mas, se a não tivesse, bastava-me a historia das guerras vencidas por elles contra Zulos, Cafres e Basutos, para os soppôr bravos.
Deos queira que elles não mostrem ainda o seu valor, de modo a fazer calar os aleivosos.
Hôje que escrêvo estas linhas, chegam á Europa rumôres de uma tentativa de sublevação Böer; será ella uma calamidade á Àfrica Austral, que tôda a Europa deve lastimar; será esmagada, como ninguem o pode duvidar; mas virá trazer um desmentido formal áquelles que chamam cobardes aos Böers.
Em SERPA PINTO.COMO EU ATRAVESSEI ÀFRICA DO ATLANTICO AO MAR INDICO, VIAGEM DE BENGUELLA Á CONTRA-COSTA.ATRAVÈS REGIÕES DESCONHECIDAS; DETERMINAÇÕES GEOGRAPHICAS E ESTUDOS ETHNOGRAPHICOS. LONDRES: SAMPSON LOW, MARSTON, SEARLE, e RIVINGTON, EDITORES, CROWN BUILDINGS, 188 FLEET STREET.1881.























É Catima-moriro o ùltimo desnivelamento da região superior das cataractas do alto Zambeze. D’ali até á nova região de ràpidos, que precede a grande cataracta de Mozi-oa-tunia, o rio é perfeitamente navegavel.




























