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DA CRÍTICA LITERÁRIA E SUA EXATA DEFINIÇÃO

Não é uma discussão de caráter metafísico acerca da índole do fenômeno intelectual, a que se dá o nome de crítica, que me proponho apresentar. É coisa muito mais modesta e de caráter mais prático.

Depois de exercer a crítica por quarenta anos seguidos, não é muito, num tempo em que tudo se põe em questão, procurar saber a natureza da disciplina que, em troca dalguns prazeres espirituais, traz sempre tantos dissabores aos seus adeptos.

E afirmo desde logo: apesar de prender as suas primeiras raízes em Aristóteles e haver passado através de Plotino e Quintiliano, quero dizer, apesar de seus dois mil duzentos e noventa anos de idade, não existem dois críticos que a definam do mesmo modo e formem dela o mesmo conceito. Não será de admirar quando se sabe que ainda hoje se anda a indagar quais as noções exatas dos próprios fatos e princípios fundamentais das ciências.

Que é a matéria? E a força? E o movimento? E o átomo? E o éter? E a substância? E o fenômeno? E o espaço? E o tempo? E a célula? E a vida?

Depois dos escritos de Le Bon, H. Poincaré, Fr. Houssay, Emile Picard, Keyserling, não falando já nos de Lorentz, Stallo, Maxwell, J. J. Thomson, Ol. Lodge, é temeridade ter a pretensão de resposta decisiva.

E, em se tratando de ciências e disciplinas que se ocupam das criações humanas, cresce de ponto a luta e a desordem aparece quase sempre.

Ainda agora, L. Ward, Giddings, Novicow, Gumplowicz, R. Worms, de Greef, Bouglé, Durkheim escreveram volumes inteiros para delimitar e definir o que seja a sociologia.

Sobre a moral nem é preciso insistir. Lévy-Brühl demonstrou num livro excelente que em seu domínio a confusão chega a ser irritante: nem ao menos se tem conseguido geralmente firmar a distinção entre os fatos morais e a ciência da moral, entre esta e a arte prática que possa dela advir. Fabulam ainda de uma ciência normativa da moral, como se não fosse isto uma contradictio in adjecto, como se esse desiderato não fosse coisa posterior, de caráter secundário, mera conseqüência do ensino científico da ética. Nesse domínio realmente a perturbação excede a todos os limites.

Ainda agora, não se faz a distinção precisa entre os fatos morais (agentes e impulsos da conduta humana no meio das múltiplas relações sociais) e o conhecimento empírico desses fenômenos. Nem entre este conhecimento empírico primitivo e popular e as regras ou normas também empíricas de conduta que daí se originaram. Nem tampouco entre os aludidos fatos e a ciência positiva deles. Nem, finalmente, entre esse saber científico e as aplicações práticas que dele se possam tirar para a conduta normal dos homens.

Em religião, seria loucura procurar exemplos do contrário. Benjamin Kidd, em seu livro admirável – A Evolução Social, dá a lista de 15 autores, dos mais eminentes, que formularam definições contraditórias do conceito da religião.

Poderia elevá-los, se o quisesse, ao décuplo

Pois bem: em crítica, o espetáculo é ainda mais esquisito, para não dizer – deprimente.

Que é a crítica? É uma ciência? É uma arte? É um capítulo da estética? É um capítulo da lógica aplicada?

Tem métodos seus especiais? O emprega os processos comuns a todas as ciências? Aplica-se somente à literatura e à arte, ou pode-se aplicar a todas as criações espirituais da humanidade? Neste último caso, em que se distingue das ciências que destas se ocupam? Qual o sentido das expressões – crítica filosófica, crítica científica, crítica política, crítica jurídica, além de crítica artística e crítica literária? Não conheço respostas sérias e completas a estas perguntas. Não se me deparam nem em Lessing, nem em Winckelmann, nem em Sainte-Beuve, nem em Taine, nem em Ed. Scherer, nem em Hennequin, nem em Georges Brandés, nem em Gottschall, nem em de Sanctis, nem em Brunetière.

Nenhum delimitou o terreno, nem definiu a natureza da crítica; nenhum designou o seu lugar na classificação das ciências, se é que ela é uma ciência, ou deu a razão por que a expulsava do cânon daquelas, se é que não mostra as qualidades requeridas para ser contada em seu número.

E nem resolve a questão surdir com a escapatória de não ser a crítica uma ciência e sim pura e simplesmente um estudo, porque estudo, sem valor científico, para nada presta, não tem mérito algum no terreno das idéias, não passando de fantasias ou divagações.

E como é que espíritos tão eminentes, que escreveram páginas críticas de tão subido valor, são falhos num ponto de tanta gravidade, num ponto capital?

Este singular fenômeno provém de quatro motivos principais: a força da tradição, que trouxe como conseqüência imediata a confusão entre a crítica e a ciência da arte e da literatura (Estética) e com a história de ambas; o vago e indeterminado do termo crítica; darem-se como elementos especiais da crítica fatores que o são antes da sociologia em geral e das ciências que a compõem; darem-se, finalmente, como processos privativos da crítica, práticas e normas que lhe não competem e sim a outras disciplinas do pensamento.

 

Título: Historia da Literatura Brasileira : 1500-1830
Autor: Sílvio Vasconcelos da Silveira Ramos Romero
Informações sobre o documento
Descrição: Ano referente à segunda edição.
Tipo: Obra Literária
Gênero: Crítica, teoria e história literárias
Local: Garnier, Rio de Janeiro
Ano de edição: 1902
Idioma: Português

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