Fernando Wolf, em 1863, dividia a história da literatura brasileira nos períodos seguintes: 1º) do descobrimento do Brasil ao fim do século XVII; 2º) primeira metade do século XVIII; 3º) segunda metade do século XVIII; 4º) do princípio do século XIX ao ano de 1840; e 5º) de 1840 ao ano em que publicou seu Brésil Littéraire (1863).
O defeito desta enumeração de fase é ser demasiado fragmentada e não atender ao critério do desenvolvimento das idéias em sua determinação. Por que fazer dos primeiros cinqüenta anos do século XVII um período literário no Brasil? Que houve então de especial na evolução espiritual dos brasileiros? Não se percebe facilmente. Que motivos aconselham a marcar uma fase com os primeiros quarenta anos do século XIX? Menos justificável ainda é este período.
Fernandes Pinheiro, em 1872, em seu Resumo de História Literária, deixou designados este momentos, como os mais característicos de nossa vida nas letras: 1º) período da formação, abrangendo os séculos XVI e XVII; 2º) o dodesenvolvimento, enchendo o século XVIII; 3º) o da reforma, constituído pelo século XIX. Divisão de fases esta mais bem feita do que a de Fernando Wolf, porém ainda assaz defeituosa. O autor deixou-se evidentemente iludir pela separação material dos séculos, sem atender que o andar das idéias e doutrinas não obedece as mais das vezes às marcações exteriores do tempo. Que houve, por exemplo, na primeira metade do século XVIII no domínio do pensamento brasileiro, que a distinguisse em absoluto das últimas décadas do século anterior? Nada, que se saiba. E que de novo, acaso, representam nas doutrinas e teorias literárias os trinta primeiros anos do século XIX, que os afaste do velho classismo do século antecedente? Nada por certo. A enumeração de Fernandes Pinheiro é, pois, também inaceitável.
Por nossa vez, nesta História, desde a 1ª edição, indicamos esta divisão: período de formação (1500-1750); período de desenvolvimento autonômico (1750-1830); período de transformação romântica (1830-1870); período de reação critica e naturalista, ao princípio, e, depois, parnasiana e simbolista (1870 em diante até os dias atuais).
Classificação esta atenta mais ao movimento das idéias e coadunada melhor com os fenômenos intelectuais da nação.
Entretanto, esta mesma divisão de períodos pode ser melhorada, tendo-se o cuidado de marcar por fecho de cada fase e início da seguinte um fato literário característico como propusemos no prólogo à 2ª edição (retro, pág. XXXVII).
Destarte, teremos: – período de formação (de 1592, data suposta da 1ª edição da Prosopopéia, de Bento Teixeira Pinto, a 1768, data da publicação das Obras poéticas, de Cláudio Manuel da Costa); período de desenvolvimento autonômico (de 1768, da mesma data das Obras poéticas, de Cláudio, a 1836, ano da publicação dos Suspiros Poéticos, de Gonçalves de Magalhães);período de reação romântica (de 1836, ano dos Suspiros Poéticos, a 1875, época do aparecimento dos Ensaios e estudos de filosofia e crítica, de Tobias Barreto); período de reação crítica e naturalista, e, depois, parnasiana e simbolista (de 1875, ano dos citados Ensaios, em diante, até os dias atuais).
Não é tudo. É uma divisão em quatro períodos, cujos dois primeiros se escoaram, como se vê, dentro da época do classismo e podem por isso, sem inconveniente, reduzir-se a um só, o que nos levaria a esta divisão tripartida: – período de formação ou período clássico, de 1592 a 1835; período de desenvolvimento ou período romântico, de 1875; período das reações anti-românticas, de 1875 em diante até os dias de hoje.
E, como nesta divisão tripartida os dois últimos momentos têm inúmeros pontos de contato, não passando, no fundo, de uma reação contra os velhos ideais clássicos, sendo a reação das novas escolas contra o romantismo puramente artificial, pois não são elas mais do que romantismo disfarçado, é possível, numa vista sintética, reduzir ainda mais a classificação, e teremos: –período de formação ou período clássico, de 1592 a 1836; período de desenvolvimento ou de reações ulteriores, de 1836 até agora e a continuar pelos anos adiante.
A primeira fase, dentro das forças do regímen do classicismo e do absolutismo régio, começa incipientemente desde quando se fundaram as primeiras escolas de Humanidades no Brasil, e espíritos, como Nóbrega, Anchieta, Cardim, Luís da Grã, Gandavo, Gabriel Soares e outros iguais, ensinaram ou escreveram nesta parte d’América, formando desde logo discípulos da estatura de Vicente do Salvador e Antônio Vieira; inicia-se de fato, no terreno da produção espiritual, com a publicação da Prosopopéia;passa pelo proto-romantismo da escola de Minas; assiste à independência política do país e chega quando a elite intelectual da terra entra a interessar-se diretamente pela renovação das idéias que se operava então na Europa: a segunda segue daí, dessa nítida consciência que já tínhamos de nós mesmos, e desdobra-se por todo o século XIX, ligando o proto-romantismo mineiro ao romantismo propriamente dito e às escolas que subseqüentemente o substituíram.
Título: Historia da Literatura Brasileira : 1500-1830
Autor: Sílvio Vasconcelos da Silveira Ramos Romero
Informações sobre o documento
Descrição: Ano referente à segunda edição.
Tipo: Obra Literária
Gênero: Crítica, teoria e história literárias
Local: Garnier, Rio de Janeiro
Ano de edição: 1902
Idioma: Português
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