GOVERNOS DO MARQUÊS DE ALEGRETE, DA JUNTA TRINA DE 1813-1814, DO CONDE DA PALMA. JOÃO CARLOS D’OEYNHAUSEN, ÚLTIMO CAPITÃO-GENERAL DE SÃO PAULO
GOVERNOS DO MARQUÊS DE ALEGRETE, DA JUNTA TRINA DE 1813-1814, DO CONDE DA PALMA. JOÃO CARLOS D’OEYNHAUSEN, ÚLTIMO CAPITÃO-GENERAL DE SÃO PAULO
O TIRANETE Franca e Horta veio substituir fidalgo de alta e velha linhagem, o primeiro grande titular realmente digno de tal nome, que exerceu o Governo paulista, o Marquês de Alegrete, Luís Teles da Silva, cuja situação no pariato português era mais elevada do que a dos Condes de Sarzedas e de Alva, e do morgado de Mateus. Homem de maneiras de grand seigneur e marido de senhora não menos digna de merecer o epíteto de grande dame, no dizer do viajante sueco Gustavo Beyer que com o casal conviveu bastante semanas em 1813. Infelizmente, muito doentio era o marquês, “general da escola do Conde de Lippe, mas por consciência, ou pela compleição frouxa e doentia, sem as brutezas dos seus doutrinários nem os desvarios dessa instituição”, observa Machado de Oliveira. Removido para o Rio Grande do Sul passou o Governo a ser exercido por uma Junta Trina interina composta pelo Bispo D. Mateus, o Ouvidor D. Nuno Eugênio de Lossio e Seiblitz e o Intendente de Marinha Chefe de Esquadra Miguel de Oliveira Pinto, empossada a 26 de agosto de 1813. Governaria até 8 de dezembro de 1814. Na cidade de São Paulo ficaria assinalado o Governo do Marquês de Alegrete pela criação do seu primeiro monumento em praça pública a singela pirâmide do Piques, ainda hoje existente, levantada por ordem do Capitão-General sob a direção e plano do Tenente-Coronel de Engenheiros Daniel Pedro Müller, rústico e modestíssimo padrão destinado a embelezar o local onde se construíra um chafariz.

A mais despretensiosa inscrição votiva nele se esculpiu: – Ao zelo do bem público, 1814. É o que nos informa Azevedo Marques. A milesimação indica-nos que não coube ao grande fidalgo a inauguração da obra de sua iniciativa, levado a cabo pela Junta sua sucessora. Sob o ponto de vista municipal apagadíssimo foi o período de seus quinze meses de governo, transmitido, a 8 de dezembro de 1814, a outro grande fidalgo o sexto Conde da Palma, D. Francisco de Assis Mascarenhas, da casa dos Condes de Sabugal e Marqueses de Ponte de Lima, ex-Governador de Goiás, e de Minas Gerais. Menos de três anos serviria pois nomeado Capitão-General da Bahia passou o Governo de São Paulo, a 19 de novembro de 1817, à mesma Junta de 1814, que o exerceria por quase ano e meio até 25 de abril de 1819. Como fatos locais de relevo sob o Governo do Conde da Palma há as medidas tomadas pela ocorrência da revolução republicana de 1817 em Pernambuco, que aliás nenhuma repercussão teve em território paulista. Continuaram os arrolamentos à força para preenchimento dos quadros da Legião Paulista empenhada na campanha do extremo sul.
Em fins de 1817 e princípios de 1818 data-se a curta permanência, em São Paulo, dos famosos naturalistas João Batista von Spix e Carlos Frederico Filipe von Martius os primeiros sábios que a São Paulo visitaram. Em sua companhia trouxeram o pintor Tomás Ender. A este se deve uma dúzia de vistas de ambientes paulistanos, os mais antigos dos até hoje divulgados e os primeiros posteriores ao sumário esboço de D. Luís de Céspedes Xeria, por nós divulgado. Em 1818 à Junta Trina preocupou a possibilidade da perturbação de ordem em virtude da influência da leitura de um jornaleco tido como libertário – O Português, suposição aliás gratuita. A 31 de dezembro de 1818 o censo efetuado deu para São Paulo, São Bernardo e Santo Amaro 23.894 almas a que corresponderia a uma população urbana aglomerada de suas 15.000 almas. A 25 de abril de 1819 passou a Junta o Governo ao último Capitão- General Governador de São Paulo João Carlos Augusto d’Oeynhausen Gravenburg, transferido de Mato Grosso depois de haver exercido igual cargo no Ceará. Trazia bela reputação de cultura e capacidade administrativa. No mesmo ano permaneceu na cidade, assaz largo número de dias, o terceiro cientista notável que a visitava, Augusto de Saint-Hilaire, o ilustre botânico francês tão altamente reputado pela probidade e a inteligência das informações. Corria placidamente o Governo d’Oeynhausen quando estalou no Porto o movimento constitucionalista de 24 de agosto de 1820. As modificações introduzidas por D. João VI no Governo da Monarquia já antes da morte de D. Maria I em 1816, haviam trazido a criação do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarve pela Carta da Lei de 16 de dezembro de 1815. Insignificante repercussão tivera o ato em São Paulo, apenas pontuada pela celebração de festividades oficiais. Menos de trinta meses mais tarde deu-se a aclamação de D. João VI, como soberano da tríplice coroa, a 6 de fevereiro de 1818. O movimento portuense facilmente triunfante no Reino causou, como se sabe, profundíssima impressão no Brasil e verdadeiro assombro ao Rei e sua Corte. Em janeiro de 1821 a ele aderia o Pará, em fevereiro a Bahia, o que arrastou D. João VI a decretar o acatamento à futura Constituição que as Cortes reunidas em Lisboa iam votar. A 24 de fevereiro de 1821 desaparecia a monarquia absoluta portuguesa. Resolveu-se o tímido e hesitante monarca a voltar a Portugal deixando em seu lugar como Regente do Brasil ao Príncipe Real, D. Pedro.
Reinava forte agitação em todo o País, novas adesões de províncias à causa constitucionalista realizaram-se e no Rio de Janeiro a efervescência nacionalista tornou-se extraordinária.
FONTE ; HISTÓRIA DA CIDADE DE SÃO PAULO , AFONSO d” ESCRAGNOLLE TAUNAY , 1954