O problema teórico da evolução brasileira, quer sob o ponto de vista literário, quer tomada ela em sua completa generalidade, abrangendo todas as faces da atividade nacional, não se deixa resolver, como desastradamente pensam alguns, só pela apreciação da maior ou menor importância que aos nossos próprios olhos tenhamos dado ao nosso país e a nós mesmos. A causa é muito mais complexa.
Era natural, sem dúvida, antolhar-se aos primeiros colonos, ainda desprovidos de quaisquer comodidades e recursos, a terra como melancólica. O mesmo ainda hoje acontece ao imigrante que, ao chegar, se vê falho de colocação, desequilibrado diante do desconhecido.
Quantas belas cidades européias não parecem insípidas ao viajante estrangeiro que a elas chega, desconhecendo os prazeres e particularidades da vida local! É o caso, notavelmente, de Londres, sempre aborrecida dos forasteiros que ali se demoram cinco ou seis dias, e sempre encantadora aos que se deixam ficar por dilatados meses e anos. E é gente que viaja com conforto e para se divertir… Era também natural que o desenvolvimento progressivo da cultura, da vida civil e do conhecimento das riquezas do país, fixando mais o colono ao solo, o fizesse ver com melhores olhos as belezas da terra. Naturalíssimo era que a população nova, oriunda dos colonizadores, quando viesse a preponderar em número, se considerasse igual e até superior em predicados aos filhos da metrópole.
Estes fenômenos se deram sempre, desde que o homem se lembrou de descobrir e colonizar terras. Não são peculiares ao Brasil e não podem servir de base ou ponto de partida para uma diferenciação de nosso caráter. São em demasia genéricos.
Além disso, não é de todo certo que no primeiro momento, no tempo de Nóbrega, Anchieta, Aspilcueta Navarro, Gandavo, Gabriel Soares, todos, apesar de certo pessimismo reinante desde então e que nunca mais nos abandonou completamente, recrudescendo de tempos a tempos, todos achassem melancólica a terra e tratassem-na com desdém. José de Anchieta cantou mais de um ditirambo às suas maravilhas, e o mesmo fizeram seus companheiros e contemporâneos. Gabriel Soares, por exemplo, quase só tem louvores para os recursos naturais do país por toda a magnífica descrição que faz da costa brasílica, desde o Amazonas até muito além do Rio da Prata. O melhor de seus encômios deixou-o, como era de ver, para a Bahia, a terra de sua residência e empreendimentos. “Atrás fica dito, escreveu ele no começo da segunda parte do seu admirável Tratado, passando pela Bahia de Todos os Santos, que se não sofria naquele lugar tratar-se das grandezas dela, pois não cabiam ali; o que se faria ao diante mui largamente, depois que se acabasse de correr a costa com que temos já concluído. Da qual podemos agora tratar e explicar o que se dela não sabe para que venham à notícia de todos os ocultos desta ilustre terra, por cujos merecimentos deve de ser mais estimada e reverenciada do que agora é… Como El-Rei D. João III de Portugal soube da morte de Francisco Pereira Coutinho, sabendo já das grandes partes da Bahia, da fertilidade da terra, dos bons ares, maravilhosas águas e da bondade dos mantimentos dela, ordenou…”
Assim falava o maior observador português que pisou terras da América, em 1587, e em tais palavras muito aquém ficou do venerável Anchieta, que dois anos antes já tinha dito: “Todo o Brasil é um jardim em frescura e bosques e não se vê em todo o ano árvore e nem erva seca. Os arvoredos se vão às nuvens de admirável altura e grossura e variedades de espécies. Muitos dão bons frutos e o que lhes dá graça é que há neles muitos passarinhos de formosura e variedade e em seu canto não dão vantagem aos rouxinóis, pintassilgos, colorinos e canários de Portugal e fazem uma harmonia quando um homem vai por este caminho, que é para louvar ao Senhor, e os bosques são tão frescos, que os lindos e artificiais de Portugal ficam muito abaixo. Há muitas árvores de cedro, áquila, sândalos e outros paus de olor e várias cores e tantas diferenças de folhas e flores, que para a vista é grande recreação e pela muita variedade não se cansa de ver.”
Boa terra, algo melancólica, em o dizer do mesmo padre, essa de que se contam tantas maravilhas e muitas e muitas mais, no próprio escrito citado, que calamos por brevidade, não escondendo que no ano mesmo da chegada dos primeiros jesuítas, 1549, escrevia Nóbrega a seu mestre o Dr. Navarro, falando da cidade de Salvador: “É muito salubre e de bons ares, de sorte que sendo muita a nossa gente e mui grandes as fadigas, e mudando da alimentação com que se nutriam, são poucos os que enfermam e este depressa se curam.
“A região é tão grande que, dizem, de três partes em que se dividisse o mundo, ocuparia duas; é muito fresca e mais ou menos temperada, não se sentindo muito o calor do estio; tem muitos frutos de diversas qualidades e mui saborosos; no mar igualmente muito peixe e bom.
“Similham os montes grandes jardins e pomares, que não me lembra ter visto pano de rãs tão belo. Nos ditos montes há animais de muitas diversas feituras, quais nunca conheceu Plínio, nem deles deu notícia, e ervas de diferentes cheiros, muitas e diversas das de Espanha; o que bem mostra a grandeza e beleza do Criador na tamanha variedade e beleza das criaturas.” Escusado é recorrer a Cardim. E assim, pois, por uma passagem dos velhos cronistas de quinhentos em desfavor da terra, citam-se vinte em prol dela, e, pelo que toca aos habitantes, os jesuítas são naquele período acordes em considerar os colonos portugueses muito mais viciados do que os índios e mestiços do país. Na era de seiscentos, por outro lado, se um autor dos Diálogos das Grandezas do Brasil e um Frei Vicente do Salvador não cansam de bendizer da terra, no que são continuados em princípios de setecentos por Pita e Andreoni, entre esses. quatro escritores, e contemporâneos dos dois últimos, surge a diabólica figura de Gregório de Matos, negação completa do fervoroso otimismo de todos eles. É que os maiores ou menores gabos que nos mereçam a terra e seus habitadores, já o dissemos, as maiores ou menores censuras que lhes façamos, questão afinal do temperamento de quem escreve ou da feição do tempo em que vive, não são um critério rigoroso e completo de caracterização de nossa índole, como povo, em qualquer das esferas em que nos tenhamos exercitado.
Evidentemente o problema se deixará melhor solver, se se apelar para fenômenos mais peculiares e profundos, para fatores mais enérgicos e eficazes.
De que se trata? Nada mais, nada menos do que definir o brasileiro, caracterizá-lo em face do português, cuja língua ele fala na América, cuja civilização ele representa em o Novo Mundo. É um problema de diferenciação étnica em que têm colaborado durante quatro séculos o português, o índio, o africano e o clima; e também a influência estrangeira, máxime francesa, principalmente pela indústria, pela arte, pela literatura de um século a esta parte. Deste imenso mestiçamento físico e moral,desta fusão de sangues e de almas é que tem saído diferenciado o brasileiro de hoje e há de sair cada vez mais bom nítido o do futuro.
Tal critério novo, por nós estabelecido nos Estudos sobre a poesia popular e na História da Literatura Brasileira.
Fernando Wolf (1863) nem por sombra teve o pressentimento deste modo de ver, como já houve quem insinuasse. Primeiramente, porque não estabeleceu as bases da doutrina étnica brasileira; depois porque não assentou nela as leis de nosso desenvolvimento espiritual; e mais, porque não diz uma palavra sequer do elemento africano; e mais ainda, porque não definiu omestiço; porque não determinou o que se lhe deve no Brasil; porque não definiu os outros concorrentes, indicando a contribuição de cada um; e, finalmente, porque, em todo o seu livro, quando, só uma vez, alude, de passagem e rapidamente, ao assunto, é para negar (veja-se bem: para negar) a influência direta dos habitantes primitivos do país (só fala nestes) e de seus descendentes na psique nacional. São estas as suas palavras: “Ce n’est qu’indirectement que ces habitants primitis du pays,par leurs unions avec les colons, et par les races mêlées (mamelucos et mestiços) qui en sont sorties, ont exercé sur le développement du caractère brésilien et par conséquent sur la littérature de ce peuple une influence…
Eis aí a que se reduz a indicação do critério etnográfico em Wolf, um escritor tão pouco conhecedor de nossa vida espiritual, como ela é realmente, que chegou a negar a influência direta do mestiço em nossas letras!… E Gonçalves Dias?!
Bastaria esta só pergunta para desconcertar, não tanto ao velho escritor austríaco, senão a quem ainda hoje tem o desplante de considerar o seu atabalhoado livro a última palavra em história da literatura brasileira!…
Já antes, outro fantasista, numa irritação de momento, tinha atribuído ao botânico Martius o nosso peculiar modo de pensar.
O censor queria referir-se à dissertação por aquele cientista publicada em 1845 na Revista do Instituto Histórico, sob o título –Como se deve escrever a História do Brasil, memória para a qual nós mesmo tínhamos sido exatamente o primeiro a chamar a atenção da crítica nacional. É mister desconhecer completamente o trabalho de Martius para levantar fantasias, como essa, sobre ele. O famoso botanista, no escrito citado, dá apenas um conselho e faz uma enumeração meramente exterior dos elementos que entraram em nossa população. Não os estuda; não os aprecia em sua ação mútua; não os mostra fusionando-se e reagindo uns sobre outros; não tenta a determinação, nem ao menos vaga, do que devemos a cada um dos três fatores principais de nossa nacionalidade em particular e a todos eles conjuntamente. Deixa, o que é fundamental na questão, em completo esquecimento o ponto saliente do problema – o mestiço, sobre quem peculiarmente deveria insistir, estudando, repetimos, o especial quinhão de cada fator e definindo o caráter do resultado.
É o que não fez o ilustre bávaro, e não quis ver o apaixonado crítico. Felizmente a doutrina, como a formulamos e expusemos, desde 1870, penetrou fundo no pensamento nacional, que já começa a apreciar devidamente suas conseqüências práticas e já a vai empregando até como base de obras artísticas e literárias: romances, contos, dramas, etc. Não é tudo.
De certo tempo a esta parte, é de notar a insistência com que se tem andado, com evidente preocupação, a proclamar Varnhagen o criador da história da literatura brasileira!… Criador… como e por quê? Se a própria história geral, Varnhagen não a criou, como poderá ter criado a história da literatura? Varnhagen não fez mais do que, sem plano, sem sistema, sem doutrina, sem filosofia, sem análise, sem síntese, escrever meia dúzia de biografias destacadas de poetas e escritores e a introdução da seleta a que pôs o nome de Florilégio da poesia brasileira: pouco mais fez do que repetir Barbosa Machado, Januário Barbosa, Norberto Silva, Pereira da Silva e outros mais. Varnhagen não tinha capacidade teórica e filosófica, e pouco além ia de pesquisas puramente eruditas. Se fazer biografias e apurar datas e fatos anedóticos fosse criar história literária, não haveria livro mais fraco em o gênero do que a História da Literatura Inglesa – de Taine, porque ali o grande mestre nem faz biografias, nem apura questiúnculas bibliográficas.
Não é verdade que Varnhagen tivesse, como alguns têm afirmado, precedido Fernando Denis e Norberto Silva no tratar historicamente as coisas literárias brasileiras. Neste particular são-lhe não só anteriores os escritos de Barbosa Machado, Bouterweck, Sismondi, como os primeiros e decisivos de Fernando Denis, Norberto Silva, não falando já nos de Januário Barbosa, Almeida Garrett, Nunes Ribeiro, Pereira da Silva, Gonçalves de Magalhães e outros.
Não é também verdade que tivesse, como igualmente se tem dito, sido o autor da História Geral do Brasil quem primeiro tivesse contado o gentio entre os fatores de nossa literatura. Esteticamente, tinham-no feito antes dele algumas dúzias de poetas;criticamente, todos os autores acima citados. Cumpre advertir, finalmente, que o termo fator é mal empregado em relação a esses críticos e historiadores: este consideram sempre o índio mais como um assunto a ser tratado pela poesia e pelo romance do que como um fator da literatura.
Título: Historia da Literatura Brasileira : 1500-1830
Autor: Sílvio Vasconcelos da Silveira Ramos Romero
Informações sobre o documento
Descrição: Ano referente à segunda edição.
Tipo: Obra Literária
Gênero: Crítica, teoria e história literárias
Local: Garnier, Rio de Janeiro
Ano de edição: 1902
Idioma: Português
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