Para Brunetière, seja dito de passagem, é claro, toda a critica se reduz à crítica literária, tendo por base necessária e indispensável – a gramática. – abracoop.com.br - Pesquisa - Imagem - Maneiras

Para Brunetière, seja dito de passagem, é claro, toda a critica se reduz à crítica literária, tendo por base necessária e indispensável – a gramática.

Que tem a ver tudo isto com a crítica? É o que se vai mostrar. Quando se começou a falar em crítica, como sinônimo de apreciação de assuntos literários, existiam apenas a cogitar de tais assuntos a velha poética e a velha retórica, de mero valor prático, como se viu, sem base científica séria.

A crítica teve necessariamente, fatalmente, de confundir-se com elas, conforme se tratava de obras em verso ou em prosa.

A genuína ciência das artes, respective da literatura, que não é outra coisa mais do que a arte da palavra escrita ou falada, – a Estética – , não existia.

O termo só ontem, por assim dizer, na segunda metade do século XVIII, foi criado por Baumgarten; a coisa tem estado a constituir-se até agora sob os esforços de numerosos pensadores.

De recentes tempos para cá, rolando em desuso a retórica e a poética, passou a crítica a se confundir com a estética, na parte em que trata das belas-letras, parte esta que se poderia chamar literonomia, literologia ou, melhor, estoliteratura. Quando a confusão não se faz diretamente com a ciência da estética, faz-se com a história da arte e da literatura. Nada de mais fácil demonstração. Não precisa ir longe; pelo que toca à confusão com a Retórica e Poética, basta abrir o livro de F. Brunetiêre – L’Êvolution des Genres dans l’Histoire de la Littérature, cujo primeiro volume trata da Evolução da crítica em França desde o Renascimento até aos nossos dias.

Conquanto se ocupe exclusivamente do desenvolvimento da crítica em França, fácil é ver pela lei do consensus, que mostra o paralelismo de todos os fenômenos sociológicos, o ritmo evolutivo daquela disciplina do espírito foi o mesmo em toda a Europa.

Como de razão, o autor da Evolução dos gêneros faz partir das primeiras manifestações do humanismo na Itália a origem da crítica.

Então ela não era ali mais do que gramática, retórica poética, mesmo nas suas mais ousadas investidas.

Em França o mesmo acontecia. Brunetière não o diz, porque a intuição que ele próprio teve da crítica, até morrer, foi demasiado estreita e eivada de impertinente classicismo; não o diz; mas é a lição que sai dos fatos ainda narrados por ele a seu modo. Em França, naquele período, durante o século XVI, Du Bellay escreve a Defesa e ilustração da língua francesa, apontada como a mais remota origem da crítica naquele país.

Pelo próprio título se conhece, à primeira vista, que se trata de gramática e retórica.

E para que não reste a menor sombra de dúvida sobre o próprio modo de pensar do autor moderno acerca desses seus antigos confrades toma ele a precaução de avisar-nos: “C’est la critique philologique base nécessaire, base indispensable encore aujourd’hui, de la critique littéraire, et dont les procédés ou méthodes ont bien pu se perfectionner depuis lors, mais dont l’objet est demeuré le même.”

Para Brunetière, seja dito de passagem, é claro, toda a critica se reduz à crítica literária, tendo por base necessária e indispensável – a gramática.

Logo depois de Du Bellay e seu livro lembrado, aparece Júlio César Scaligero, com a sua Poética, vasto repertório de regras e exemplos, tomados às letras clássicas, cuja maior novidade é dar preferência aos latinos sobre os gregos. Neste sentido é acompanhado por Vauquelin de la Fresnaye, autor também duma Art Poétique, e do próprio Ronsard, que fez um Abrégé de l’Art Poétique. Sempre, sempre a preocupação das regras, o cortejo dos modelos. Os quinhentistas não tinham, nem o podiam, outra idéia da crítica.

No século seguinte as coisas seguiram o mesmo curso; e a fase mais brilhante do chamado período clássico.

Desde Malherbe até Fontenelle, passando por Chapelain, Scudéry, Balzac, Boileau e Carlos Perrault, a crítica, se semelhantes cogitações gramaticais e retóricas merecem o nome de crítica, não passou da mesma toada do século anterior, apenas com maior apuro na questão da regra das três unidades e um formalismo cada vez mais exigente. É o tempo da criação da Academia Francesa e Chapelain lhe dava por missão: “… travailler à la pureté de notre langue, et la rendre capable de la plus haute éloquence; que, pour cet effet, ii fallait premiêrement en régler les termes et les phrases, par un ample Dictionnaire et uneGrammaire fort exacte, qui lui donnerait une partie des éléments qui lui manquaient; et qu’en suíte on pourrait acquérír le reste par une Poétique que l’on composerait pour servir de rêgle à ceux qui voudraient écrire en vers et en prese.” Vê-se nitidamente que este terrível Chapelain é o avoengo irrecusável da turba de impertinentes que forcejam hoje por meter no cabresto das regras da colocação dos pronomes, do infinito pessoal, e doutras gafeiras do gênero, as audácias de todos os talentos, os surtos de todas as almas, o gênio de todas as individualidades.

Do século XVII, no ponto precípuo à crítica, a culminância está em Boileau. Que fez ele, entretanto? Sistematizou cada vez mais nas suas Sátiras, Epístolas e na infalível Arte poética o poente classicismo, pretendendo fundar as regras na natureza e na razão.

Dele concluiu o historiador da Evolução dos gêneros: “S’il y a donc un art d’écrire, s’il y a surtout un art de rimer, s’il y a un art de flatter l’oreille, mettons que Boileau ne l’ait pas connu ou pratiqué lui-même, il en a pourtant enseigné les leçons.”

Releva acrescentar que da famosa querela dos antigos e modernos, em que Boileau foi parte conspícua pelos antigos e Carlos Perrault pelos modernos, pode-se colher certa pendência de ultrapassar, em coisas de apreciação literária, os limites estreitos da poesia e das belas-letras e entrar, de leve, nos domínios das artes em geral, substituindo, inconscientemente, é certo, a poética pela estética.

Esse pendor se encontra em Perrault e Fontenelle.

Era prematuro. No século seguinte Dubos e Diderot andariam pelo mesmo caminho; mas o geral dos espíritos, em cujo número pontificavam Fénelon, com seus Diálogos sobre a eloqüência (1718), Voltaire, o grande Voltaire, revolucionário em religião, mas ultraconservador em literatura, com numerosos opúsculos e com o exemplo de suas tragédias, Fréron, Marmontel, o próprio Rousseau e a generalidade dos Enciclopedistas, até La Harpe, no Curso de literatura. A velha Retórica, a velha Poética reinavam desassombradas no meio das inovações nas ciências e na política. Chegou-se ao ponto de uma nova floração do classicismo nos últimos anos do século com André Chénier, Dellile e os artistas Lebrun, Poussin, David.

Nos primeiros dias do século XIX, com Staél e Chateaubriand, e, mais tarde, com Villemain, Guizot e Cousin, os ensinamentos e tradições da retórica, da poética e da gramática alargam-se pelo estudo comparativo das letras estrangeiras e se deixam substituir em parte pela história. Mas as velhas tendências lá estão no fundo: na crítica perdura o vezo de a confundir com a arte de bem dizer, de bem escrever, de bem falar, de bem aplicar as regras, de bem imitar os modelos.

A roupagem histórica não chega para ocultar o íntimo das coisas para quem sabe ver claro.

A crítica, na Europa toda, e nomeadamente em França, até Villemain, não passou essencialmente de uma prolação dos ensinos da velha poética e da velha retórica, modificados, ampliados por considerações histórico-sociais, neste ou naquele ponto, conforme o temperamento dos autores.

 

Título: Historia da Literatura Brasileira : 1500-1830
Autor: Sílvio Vasconcelos da Silveira Ramos Romero
Informações sobre o documento
Descrição: Ano referente à segunda edição.
Tipo: Obra Literária
Gênero: Crítica, teoria e história literárias
Local: Garnier, Rio de Janeiro
Ano de edição: 1902
Idioma: Português

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